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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Quando um artigo não basta

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Recentemente fui convidada a ajudar na concretização de um artigo, bem como o Daniel. Este consistia em explorar o poliamor – foram-nos enviadas questões que ajudassem a construir o que a jornalista pretendia realizar. Numa sociedade tão mononormativa parece-me óbvio que se valorizem os trabalhos feitos nesse sentido: o da desconstrução.  

Antes de passar à parte em que explico as motivações de estar a escrever este artigo quero explicar que da minha parte, responder a perguntas com uma data limite e alguma pressão, deixa-me ansiosa e acaba por gastar do tempo que posso utilizar para mim. Se o faço é com a consciência da importância de levar a outras pessoas a minha experiência e sobretudo a forma como a minha felicidade está para lá dos socialmente correctos. Aquilo que espero que aconteça com as coisas que digo é que sejam utilizadas de forma honesta. Quando isso não acontece é revoltante. Estamos a contribuir para o que afinal? 

Posto isso, quando li o artigo pensei que estava devidamente apresentado. Li em simultâneo com um dos meus amores que ficou claramente revoltade quando lê que também elx estava numa relação com outra parceira minha. Tentei justificar que eu nunca disse isso, que não entendia porque é que tinha sido colocado dessa forma. Imaginei ser um erro de interpretação da parte da jornalista, a qual contactei a explicar que essa parte estava errada através de e-mail – o qual não opti resposta até hoje.  

Rapidamente percebi que o título não fazia jus a uma das minhas respostas. Porquê que um só amor não basta? "Eu não defendo a ideia de que o poliamor é a resposta a: um amor não basta. O poliamor é a resposta a uma liberdade individual e relacional, consequentemente. É trabalhar os ciúmes, a comunicação e a possessividade." A primeira frase não foi colocada no artigo, tudo o resto que a acompanha sim. No entanto quando li as respostas do Daniel fiquei com a sensação de que ele se mostrava concordar com essa ideia de que apenas um amor não basta. Respeitei que não fosse apenas a minha opinião que contasse, que talvez ele tivesse essa linha de pensamento que acabava por sustentar o título do artigo. Surpresa – ele não tem essa linha de pensamento. Aliás, também a resposta dele não foi colocada por inteiro. Novamente a primeira parte da resposta não foi colocada



No fundo a jornalista não queria motivos para ter que alterar o título sendo que este é geralmente o que faz um artigo - é aquele que incentiva a leitura do público, ou não. Isto é tudo muito bonito se o título fosse de encontro com aquilo que foi respondido pelas pessoas poliamorosas. Desta forma é só uma estratégia que atropela duas vozes. Honestamente? Estou cansada que me atropelem a voz. Vejo também no Daniel uma enorme responsabilidade quando responde a este tipo de questões. Com a consciência de uma percepção masculina, com o activismo e toda a informação que tem, se existir uma má interpretação da leitura isso irá reflectir-se nos olhos sociais que o podem ler de forma errada, afectando o seu Eu bem como o das companheiras devido a esta sociedade heterocismonormativa e machista.

Quando nos dão o "poder" de falar, quem o faz tem que ser consciente relativamente ao trabalho que está a apresentar. Um mau jornalismo significa a entrega de uma má informação. Leitorxs desinformadxs geram ignorância, esta pode influenciar a forma como reagem a realidades que não as que conhecem. Não devia o jornalismo fazer o oposto? Sim. Oferecer informação, consciencialização e sobretudo ferramentas para a exploração de outras formas de viver as relações: românticas ou não.   

Para finalizar: porquê que um amor não basta? Um amor basta se eu disser que basta – no entanto ninguém pergunta porquê que uma só amizade não basta. A sociedade é que exige um único amor romântico. Possessividade. Objectificação. Mas há uma coisa que basta: atropelarem a nossa voz e aproveitarem-se de minorias para fazer um jornalismo arrogante. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"Esquadrão do Amor" fala sobre Poliamor, no Canal Q

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Nesta passada segunda-feira, a Fátima Marques, do PolyPortugal, esteve a participar no programa "Esquadrão do Amor", do Canal Q, a explicar e falar sobre poliamor!

Vejam o clip de promoção aqui.


Fica aqui também uma secção do programa sobre o tema, com cerca de seis minutos. Assistam e digam-nos o que pensam!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Espaços públicos e normatividade afectiva

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Ainda no rescaldo (lento) da reportagem que saiu na SIC Notícias sobre poliamor, e no rescaldo das reacções tidas a essa mesma reportagem, sinto que devo assinalar uma crítica feita repetidamente - tanto por pessoas bem-intencionadas como por mal-intencionadas - à reportagem ou, mais precisamente, ao que foi feito na reportagem.

Ao que parece, uma das cenas mais absolutamente horríveis a passar na reportagem foi o facto de eu ter dado um beijo na boca (à "passarinho", como se costuma dizer, lábios nos lábios, curto e rápido) a uma das minhas companheiras e, no momento seguinte, ter feito o mesmo a outra das minhas companheiras.

Deixem isto assentar: numa reportagem sobre poliamor, foi perturbante para muita gente ver um gesto discreto e pacífico de amor.

Isto na mesma sociedade onde ver televisão - seja a que hora for - é quase certamente ver beijos de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade onde sair à rua é ver, quase certamente, expressões de afecto de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade que tem como líderes de audiência reality shows.

Mais, esta crítica vem não apenas da já gasta ala conservadora direitista, mas também (e mais preocupantemente) da ala progressista, de luta dos direitos humanos, de luta por igualdade.

Que igualdade é esta? Que igualdade é esta em que a ocupação do espaço público é particionada de acordo com a orientação sexual e com a orientação relacional? Que igualdade é esta em que um gesto considerado perfeitamente natural numa família monogâmica leva como epítetos "exibicionismo" e "taradice", numa família poliamorosa?

Exibicionismo - exibição - armário. A legitimidade das práticas existe, na cabeça de muita gente, desde que seja dentro do armário. Desde que não se façam cócegas à sensibilidade hetero-mono-normativa vigente. Quando isso sucede, torna-se então válido atacar as pessoas que pretendem mostrar práticas interpessoais diferentes. A moral vigente retorna, mais alargada (vai na volta até se tolera isto nas pessoas não-hetero, desde que com cuidado) mas não menos moralista, não menos policiadora.

Achar que uma demonstração de afecto tão simples quanto um beijo nos lábios entre três pessoas é ofensivo ou desrespeitador para quem está a ver é contribuir activamente para a discriminação contra sexualidades e afectos alternativos, dos vários tipos.

Não, não são as pessoas poliamorosas que são exibicionistas ou taradas. Não existe sexualidade mais exibicionista, sexualidade mais 'perversa', do que a sexualidade hetero-mono-normativa, que se infunde - ou procura infundir-se - em tudo.

[Um agradecimento ao Paulo Jorge Vieira por, há uns tempos, me ter ajudado a pensar estas questões.]

sábado, 5 de abril de 2014

Mural da Liberdade - SIC/Expresso e poliamor

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No contexto da comemoração dos 40 anos do 25 de Abril, a SIC e o Expresso fizeram uma série de reportagens sobre liberdade, onde também se fala de poliamor.
Ficam aqui os materiais publicados.


Mural da Liberdade no Jornal da Noite (teaser) - SIC
Um caso de poliamor no Mural da Liberdade - peça completa - SIC

Oito histórias que vão mexer consigo - Expresso
Vídeo de apresentação de Daniel Cardoso em que se fala de poliamor - Expresso

Artigo no Expresso:




domingo, 15 de julho de 2012

O amor do teu amor... teu amigo é?

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O título apresenta-se em forma de pergunta porque é isso que este texto é. Uma série de perguntas para quem eventualmente me possa ler. Vocês, nas vossas vidas, com as vossas pessoas, os vossos percursos, as vossas personalidades, as vossas experiências. Reflecti sozinha, gostava de agora reflectir em conjunto.

No poliamor há, quase sempre, uma qualquer possibilidade de expansão. Expansão de afectos, expansão de intimidades, expansão de sexualidades, expansão de experiências. Quando somxs mais de dois há - para ser perfeitamente óbvia - mais. Mais gente. Mais subjectividades. Mais vidas. Mais vontades. Mais tudo. O tempo é a grande subtracção no meio de tantas somas. Mas isto não é matemática. É mais complexo que isso.

Passamos a vida toda a aprender a "marcar territórios". A marcar espaços de segurança e a defendê-los com unhas e dentes. Na minha relação poly, eu passo a vida a desaprender, a desmarcar, a des-defender tudo e mais alguma coisa. Podia ser tão simples como a escrita: colocar des- à frente de cada palavra, acto e emoção. Contrariar instintos e impulsos. Contrariar sensações. Parece-me sempre tudo um movimento de ir contra uma qualquer maré fortíssima que me pode afogar. A maré, muitas vezes, sou eu.

Sou eu quando conheço amores de um meu amor. Quando conheço amigxs colorids de um meu amor. Quando conheço fuck buddies de um meu amor. Quando conheço pessoa-especial-não-muito-definida de um meu amor. Quando conheço pessoa-a-quem-dou-beijos-às-vezes-mas-não-é-muito-importante de um meu amor.

Ou quando...
Não conheço.

Conhecer ou não conhecer. Saber ou não saber. Estar ou não estar.

Qual é a vossa postura? Conhecem todxs xs amores dxs vossxs amores? E aqueles que não são amores mas são outra coisa qualquer significativa? Preferem conhecer a pessoa pessoalmente e conversar? Ou preferem nem sequer ver uma fotografia da pessoa? Gostam de saber que gostos tem, onde gosta de ir, o que faz? Procuram essa informação para saberem se o vosso amor está bem ou para vocês ficarem bem? Ou seja, para saberem com quem estão a lidar? Onde traçam os vossos limites?

Ao longo da minha relação já experimentei diversas posturas e a minha procura tem sido por aquela que é melhor para mim e para com quem estou. Raramente a encontro e falho constantemente.

Já estive perfeitamente bem durante tardes inteiras em que sabia que um amor estava a ter longas horas de sexo. Estava calma, segura e bem comigo mesma. Outras vezes, essas mesmas horas eram passadas em constante nervoso miudinho, que ia crescendo até não ser já miudinho. Nesses momentos são os olhares para o relógio, o tempo que se arrasta, cada coisa pequena que parece correr mal e a mente que não pára - de fervilhar, de inventar, de deduzir. Sou secretamente mordaz nesses momentos, dentro da minha cabeça. Não dói realmente, mas é um estar no tempo que mói.

Outras vezes estive lá, no momento. Vi beijos e carícias, vi toques. Nada se quebrou em mim. Nada de errado se passava, eu estava bem e estava em harmonia e estava lá.
Mas também já estive lá com dor. Também já estive lá de coração aberto para me sentir bem e não foi bom. Mesmo que só descobrisse depois o que havia doído assim tanto.

Às vezes nem sequer são estes momentos em si. Às vezes é a estranha ambiguidade de sentimentos quando ouvimos a voz de um nosso amor a falar de como foi o seu dia com aquela pessoa. Não é bonito mas quase que é mais "fácil" estar ali quando um encontro corre mal. Abraçar, segurar e dizer que para a próxima vai ser melhor. Mas e... quando o encontro corre bem? Quando fica perto de ser perfeito? A felicidade dos nossos amores devia apoderar-se de nós. Devia não deixar espaço para sentir mais nada do que absoluta alegria. Mas deixa demasiados espaços que tentamos preencher como podemos... O que fazem nesses momentos? Falam sobre isso? Revelam esse medo? Ou tentam colocar isso de parte e preencher com alegria e felicidade aquele momento? 

Tenho descobrido que as minhas escolhas para todas estas situações podem vir a determinar muito a minha vida e as minhas relações. Muitas vezes tenho escolhido uma postura de espectadora... alguém que assiste e apoia, mas que não faz parte da cena. Escolher entrar na cena e ser participante implica saber em que cenas se pode ou não entrar, como se pode entrar e saber como estar. Implica também uma coragem - um put it out there - no fundo uma exposição de nós mesmos a outrxs olhares, toques e perspectivas. Estar exposto pode ser mais fácil para uns que para outrxs. 

Para mim é
ter um coração fora do corpo, 
exposto ao tempo e
exposto ao amor e dor de muitas pessoas.
esse coração quer-se proteger e quer proteger quem ama, nas tem que lidar com os seus batimentos cardíacos, a sua própria pulsação... e não há caixa torácica por vezes. 


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vira o disco

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...e toca o mesmo.

Foi há uma semana que, na sequência de uma conversa via Facebook, Manuel Damas (presidente da CASA) decidiu utilizar o seu programa no Porto Canal (cujo tema já antes tinha sido definido como sendo "poliamor", para essa semana) para, à falta de melhor termo, avacalhar. Que é como quem diz: falou-se pouco (e mal) de poliamor, mas falou-se bastante de mim, das Panteras Rosa, bem como de outras pessoas que andam metidas no activismo.

Não vou pôr-me aqui a desmontar os argumentos simplistas do M.D. (quando se ataca alguém pela forma como anda vestido, já se está a raspar o fundo do barril) porque isso seria aborrecido (para vós e para mim). Mas vou aproveitar a questão para fazer um pouco de meta-análise a algumas coisas que por lá se ouviram, e que julgo serem dignas disso.

Primeira questão - tamanho.
A ideia está repetida até à exaustão que xs poliamorosxs são meia dúzia de gatxs pingadxs que por aqui andam, numa coisa que não tem visibilidade nem credibilidade. Mas a realidade permite-se discordar. Está neste momento, nos EUA, a ser discutido o fim do Defense of Marriage Act e, como não podia deixar de ser, o poliamor está a ser mencionado (explicitamente) como um dos grandes perigos caso se cometa o inominável crime de deixar as pessoas do mesmo sexo casarem entre si (alerta de ironia para quem está a dormir) - por virtude de um argumento slippery slope, "se fazemos X, vamos acabar com Y; logo, não podemos fazer X". No Canadá, a coisa está e tem estado nos tribunais, e mobilizado bastante atenção, criando uma espécie de movimento de avalanche de workshops e reconhecimento social. Nada disto é típico de um tema que, supostamente, só diz respeito a meia dúzia de pessoas... Indirectamente, a oposição ao poliamor (e, já agora, a quaisquer outras formas de não-monogamia consensual e responsável, ou a outras sexualidades ainda menos mainstream) é também a oposição ao avanço dos direitos civis em contexto geral - porque se estão a fornecer argumentos e força às pessoas que supostamente queremos evitar.

Segunda questão - identidade.
Foi atirada a ideia de que o poliamor não é uma identidade. Que é apenas um comportamento relacional ("como a violência doméstica" - que exemplo tão isento, não é?). Mas, agora perguntam vocês, afinal o que é uma identidade? Vamos simplificar: uma identidade é uma coisa com a qual nos identificamos. Algo que dizemos que somos. É um conjunto de atitudes, crenças, valores, padrões morais, hábitos - que são socialmente construídos em interacção connosco. Assim, ser do Rio Ave é uma identidade, ser mulher é uma identidade, ser homossexual é uma identidade e, espanto dos espantos, ser poliamorosx é uma identidade. A sério, isto não é ciência de foguetões. E não me venham com a coisa das identidades essenciais que nunca se mudam e já nascem connosco, porque senão eu zango-me e vou fazer queixinhas à Lisa Diamond.

Terceira questão - amor ou virar mesmo o disco.
Amor... Ah, o amor... essa coisa inefável, indefinível, incomportável... [som de disco riscado].
Alto lá com isso. O "amor" é, como tudo o resto, socialmente e culturalmente variável. Não se ama aqui da mesma maneira que se ama ali. É possível até historiografar a forma como amamos (ou amámos?). O amor, e as relações afectivas, são historicamente variáveis, culturalmente variáveis, espacialmente variáveis... acham que se ama da mesma maneira em todo o mundo, que se vivem as famílias da maneira como nós as vivemos, em todo o mundo? Então acham muito mal... O amor, como qualquer palavra, é polissémico. Muda. E, para não estar a repetir o último link, vai continuar a mudar. Se há coisa que me incomoda é aquele pessoal que acha que pode chegar e dizer: "O Amor Verdadeiro (TM) é assim, assim e assado" [tradução: heterossexual, monogâmico e monoamoroso]. Ou então, o pessoal que tira um dos assins ou assados, mas quer deixar o resto. Porque convém. Porque a cabecinha não dá para mais. Porque não vêem a parvoíce de fazer de conta que as coisas mudam mas não mudam... enfim.

Questão agregada
Porque é que o discurso do M.D. é tão significativo que lhe dedico mais um post? Precisamente pela sua falta de originalidade. O discurso do M.D. é importante na medida em que representa uma determinada postura mental, e não um trabalho de reflexão pessoal criativo. O M.D., com a sua postura contra o poliamor, representa a luta pela institucionalização normativa de algumas afectividades e algumas sexualidades, dentro de um quadro de trabalho essencialista, que defende um conjunto restrito de valores ao mesmo tempo que pretende deixar outros elementos (inseparáveis) intocados. Só que não dá para escolher. A vida não funciona assim - se nós questionamos umas coisas e não outras, eventualmente alguém vai dar pela contradição, pela incoerência, e começar a fazer força nesse sentido.
O M.D. afirma-se herói dos fracos e oprimidos, canta a Ode da Ascensão contra os poderes instituídos - mas o M.D. não quer eliminar a lógica dos poderes instituídos, quer ocupar a posição dos poderes instituídos (ou, vá lá, fazer parte do panteão). M.D. quer um lugar na História, e repetirá para isso o mesmo discurso de quem o queria deixar fora da História. Ele próprio afirma a importância da seriedade, da sobriedade. M.D. deseja comandar respeito, admiração.
M.D. esquece-se que a seriedade e a sobriedade vêm da estrutura patriarcal, machista, homofóbica, misógina e hierarquizante. (Ou não se esquece, e apenas não se importa.) M.D. quer dar cabo dessa estrutura - mas só de um bocadinho...

Vou-me armar em Nostradamus: não. serve. de. nada. A sério. Não serve de nada. As coisas mudam. E ou o pessoal faz parte da mudança, ou o pessoal acaba como este fulano. O paradigma está a mudar. A Gayle Rubin (porra, que eu farto-me de a citar!) já dizia que precisamos de uma nova ética sexual, baseada na forma como as pessoas se tratam mutuamente, e não baseada nos actos que praticam. E sabem que mais? Há quem ande aí a lutar por isso. Não importa o número de pagens que se tem à volta, a repetir o mesmo discurso em eco... Porque, carxs leitorxs, eu vou fundir a Emma Goldman e a Beatriz Preciado e dizer que o sistema patriarcal se caga todo quando se lhe apresenta uma revolução à queer, com dança, festa e sem sobriedade nenhuma. Ou então sou eu que me cago para ele.

Porque o sistema patriarcal É o sistema homofóbico É o sistema capitalista É o sistema racial É o sistema falogocêntrico É o sistema monogâmico É o sistema nacionalista É o sistema de género/sexo binarista... e É uma grande cagada.


Agora, inspirado por uma amiga, deixo-vos uma reflexão profunda, que requer, no entanto, algumas mudanças de apelido...

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

- "Manifesto Anti-Dantas", José Almada de Negreiros

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Manifesto das duas gajas com um gajo - Parte 1

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É certo e sabido que quando estamos ocupados a fazer o contrário do que a maioria faz, a remar contra a maré, a recusar fazer o que toda a gente faz só porque toda a gente o faz, quando estamos, precisamente, ocupados a viver vidas sem guião preparado, a fazer coisas que não sabemos se mais alguém fez, a sermos visíveis nas nossas identidades e opções in your face e, activamente, a não nos preocuparmos sequer com isso, é certo e sabido, dizia eu, que nos vai cair o carmo e a trindade em cima (perdoem-me a expressão característica) na forma de críticas infundadas, estereótipos formatados, bocas foleiras, comentários paternalistas e tons condescendentes. Quando para além disto tudo ainda somos mulheres, lésbicas, feministas, queer, kinky, poliamorosas e jovens, a coisa tende a complicar-se gravemente.

Ora eu sou tudo isto, e tenho pouca paciência para silêncios, ou o chamado "comer e calar", aquela virtude para a qual as mulheres foram sempre treinadas e na obtenção da qual eu falhei grande e desastrosamente. Com esta minha incapacidade vem uma profunda alergia a que me tentem formatar, encaixar, confinar, limitar, circunscrever, encerrar em bonitas caixinhas que constituem os alicerces fundamentais da sociedade patriarcal, heteromononormativa. Aparentemente a caixinha mulher torna-me um ser humano a ter em menor conta do que aqueles que se encontram na caixinha homem. Como lésbica sou invisível. Como feminista sou ignorada. Como queer sou desconhecida. Como kinky sou excluída. Como jovem sou desconsiderada. E como poli sou estereotipada. E porquê? Porque, por alguma razão obscura, quando ando com o meu companheiro e a companheira do meu companheiro o que as pessoas vêm é - adivinhem só - um gajo com duas gajas. É curioso que nem o número - o facto de sermos duas gajas e portanto maioria, de um certo ponto de vista - nos traz mais visibilidade positiva. Pelo contrário. O gajo é o sujeito, as gajas as coitadas. O gajo é o garanhão que come duas. As gajas deixam-se ir. O gajo é que se diverte, as gajas suportam ou sofrem. O gajo fica a ganhar, as gajas são, no mínimo, desgraçadas. Curiosamente, no meio disto tudo, as gajas desaparecem. E toda a gente se parece esquecer que estão ali, também, duas gajas com um gajo. Mas isto seria totalmente contra-intuitivo - primeiro porque as gajas não são sujeitos, mas objectos decorativos. Depois porque as gajas nunca escolheriam uma coisa destas. E por último, porque provavelmente as gajas não devem ser pessoas com vontade, inteligência, determinação, livre arbítrio e capacidade de decisão. Porque raio quereriam estar elas com o mesmo gajo?

Pois é, sendo eu uma das gajas, devo dizer que me divirto. Estou com quem quero, como quero e bem entendo, disponho da minha vida, das minhas escolhas. Sou livre - a nível relacional, afectivo, sexual, pessoal. Sou livre de me afirmar lésbica e me apaixonar por um homem. Sou livre de me afirmar poli e andar de mão dada a três na rua. Sou livre para ser queer e rebentar com as caixas onde me querem meter.

sábado, 18 de junho de 2011

PolyPortugal na Marcha do Orgulho LGBT Lisboa 2011

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O PolyPortugal fez parte da Marcha do Orgulho LGBT Lisboa em 2011, e por isso mesmo o Daniel Cardoso falou em representação do grupo. Fica aqui, para memória futura, e para quem não pôde ir por alguma razão.







E, já agora, aqui fica a transcrição do manifesto:


Pela 12ª vez estamos aqui, a marchar. Pela 12ª vez procuramos uma coisa tanta vez negada: uma voz, uma imensidão de vozes. Pela 12ª vez estamos aqui, não para sermos toleradas, mas para sermos reconhecidas.

Os últimos tempos têm visto conquistas importantes para a quebra das normalidades. Mas ainda as relações são policiadas, ainda os amores e os desejos são mantidos sob a alçada do Estado, e ainda o Estado adjudica privilégios à heterossexualidade e, ainda mais explicitamente, à monogamia.

O PolyPortugal está aqui não só pela liberdade sexual mas pela liberdade de viver como desejamos sem sofrer com isso. Pela liberdade de amar mais do que uma pessoa. Pelo poliamor.

O PolyPortugal marcha pelo reconhecimento da legitimidade de todos os actos consensuais, de todas as vidas consensuais, de todas as intimidades voluntárias — enfim, de todas as possibilidades. Reclamamos o reconhecimento de que o Amor e o Desejo não têm um padrão-ouro, heterossexual, monogâmico, desigual e patriarcal. De que a normalidade é uma ferramenta de repressão e violência, que seca as diferentes opções e estilos de vida. Reclamamos o direito de multiplicar os nossos afectos sem que isso faça de nós vítimas, sem nos escondermos ou termos medo.

O poliamor é mais uma ponte que nos une — uma reivindicação de possibilidades que atravessam todas as orientações (e todas as desorientações também!), todas as preferências (incluindo a monogamia), todas as configurações corporais, de identidade, ou de desejo (e de ausência de desejo, também!).

O amor não se divide, multiplica-se. O amor não se gasta, refina-se.

Vamos amar, amar para lá das normalidades, e deixar amar com pluralidade! Deixar viver com pluralidade!

sábado, 11 de junho de 2011

Debate sobre Poliamor n(um)a Escola

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Olá. Sou finalista numa escola secundária do distrito de Braga, e os direitos LGBT, o Feminismo e o Poliamor são dos meus principais interesses. Este ano, tanto na disciplina de Sociologia (em que debatemos a questão de género e a questão da discriminação e das diferenças entre seres humanos e as suas relações) como na disciplina de História (onde nos são ensinadas as duas primeiras vagas do Movimento Feminista e a Revolução Sexual) decidi abordar, por diversas vezes, estes temas.

O que vos venho hoje aqui contar é sobre um pequeno debate que teve lugar na disciplina de História, sobre poliamor. Ao falarmos sobre a literatura existencialista, surgiu o debate sobre a relação entre Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Sendo grande fã de Beauvoir, decidi dar a minha opinião e falei da sua relação amorosa – uma coisa levou à outra e começou um debate bastante aceso sobre poliamor.


Apesar de ter 18 anos e já ter ouvido imensas coisas, fiquei extremamente chocada com a opinião de muitos jovens da minha turma quanto ao assunto. Frases como “o poliamor é como a prostituição, não ganham dinheiro mas…” e os típicos argumentos de que só se consegue amar uma pessoa e é impossível amar mais do que uma e que é apenas uma forma para esconder a traição, etc.

Existe uma enorme falta de tolerância mas o pior nem é essa falta de tolerância. É falta de vontade de aprender a tolerar. Porque, para além de não tolerarem e respeitarem os estilos de vida de outras pessoas, não se dão ao trabalho de entender ou de tentar perceber.

Tanto eu como outras colegas nos esforçámos para dar a entender um ponto de vista diferente e defender o poliamor como uma escolha legítima e alternativa à monogamia. Foram, porém, tentativas falhadas; foi “falar para as paredes”, pois as pessoas nem se davam ao trabalho de ouvir, apenas queriam defender as suas opiniões, que consistiam em afirmar que era uma falta de vergonha e uma forma de libertinagem e de fazer “sexo com qualquer um”.

Infelizmente não posso dizer que este (ou outros debates que ocorreram ao longo do ano lectivo sobre Feminismo, Direitos LGBT, Identidade de Género, etc.) tenham tido grande impacto na maioria das pessoas da minha turma. A maioria manteve-se com a sua mente fechada e preconceituosa. Mas houve algumas mudanças. Algumas pessoas, apesar de poucas, mudaram opiniões e tornaram-se mais tolerantes face a estes assuntos.

Ainda há um longo caminho até à tolerância e igualdade, mas acredito que conseguiremos lá chegar. São necessários mais debates e uma maior presença destes temas nas nossas escolas de forma a sensibilizar os jovens e promover uma maior igualdade.

Eu fiz a minha parte, mostrei novos pontos de vista às pessoas com quem convivo e tentei mostrar uma forma diferente de ver o Mundo. Espero que outros o façam também, pois este é um esforço de grupo e um objectivo para o qual temos de lutar todos juntos.

Boa sorte e vamos lutar pela igualdade e pela tolerância para todos!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Felicidade

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Já várias vezes me perguntaram pelo que luto. Ou pelo que lutam os movimentos sociais dedicados à pluralidade de sexualidades e afectividades que por aí andam, bem como os dedicados ao reconhecimento de outras profissões, etnias, religiões, configurações corporais e de género, etc etc etc.

Deixem-me que vos diga: não luto apenas pela minha felicidade. Não luto apenas pelo reconhecimento. Não subscrevo a frase "I just want to be happy".

Eu luto contra a fixação. A fixação de práticas, significados, comportamentos, cristalizações do poder que nos fazem praticar e que praticamos. Resistir é um trabalho infinito. Porque até a resistência pode tornar-se normalizada, regulada, acéfala e acrítica, automatizada, performativizada. E aí, 'ser resistente' seria como é ainda hoje em dia 'ser homem' ou 'ser mulher'.

Eu não caminho para um fim, eu não caminho para um objectivo. Eu caminho pela possibilidade de continuar a caminhar.

We're here, we're queer, get used to it!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Rever o Shortbus

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aqui falei deste filme, que para mim é uma referência. Que me lembre, vi-o umas seis vezes e cito-o por tudo e por nada. Parece-me lindíssimo por dentro e por fora, quer visualmente quer em termos de conteúdo.
Quem nunca viu, tem hoje uma oportunidade imperdível. A projeção é seguida de debate aberto. Um dos moderadores é o Miguel, nosso estimado colega de ofício neste blog.
Já agora, aproveito a referência para acrescentar "sexo" à lista de tags, que muito me surpreende que ainda não existisse.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sentimentos e controlo

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Ainda no rescaldo do debate aberto sobre poliamor de há umas semanas...

Uma das ideias que para lá se atirou, vinda de quem estava a assistir, é que o poliamor tem que ver com, fundamentalmente, libertarmos os nossos sentimentos. Logo na altura em que ouvi isto, levantaram-se-me os bichos carpinteiros para dizer alguma coisa em resposta mas, na falta de oportunidade, digo-o aqui que acaba por dar no mesmo.

Antes de mais: discordo. E discordo porque a frase, tal como está enunciada, é demasiado generalista e aponta para o lado docinho e feliz do poliamor, esquecendo convenientemente que nem só as coisas fofinhas e queridas fazem parte dos nossos sentimentos. Em segundo lugar, discordo porque, mais uma vez, este tipo de argumentação dá a ideia - convenhamos, não sei se era ou não o que a pessoa queria realmente dizer, e daí eu afirmar apenas que dá a ideia e não que implica tal coisa - que existem, lá no fundo sentimentos verdadeiros à espera de ser libertados, sentimentos cuja realidade é epistemologicamente una e inquestionável, essencial.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Tenho andado à rasca...

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Há semanas que não punha as teclas neste blog, mas se começasse a explicar porquê, provavelmente teria matéria para vários posts. E não falta quem me diga que faça isso precisamente, de modo que... cá vai uma tentativa de muro de lamentações.
A nossa família poly perdeu um membro. O que nos levantou, entre outras questões, a de encontrar outra(s) pessoa(s) para poder manter a casa. Fizemos um par de "propostas de casamento", recebidas com muito entusiasmo e honra. Mas depois de alguma ponderação, a resposta de ambos os lados foi a mesma e pode ser resumida nesta frase: "Não dá, estamos à rasca".
Tenho sempre algumas dúvidas sobre fazer deste blog uma coisa demasiado política, por mais que me digam que "o pessoal é político". Mas a verdade é que a situação em que estamos todos me influencia diariamente. Não só a vontade de escrever, mas também o ânimo de ir trabalhar, a libido e a disponibilidade para cozinhar, "a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir."
Não é por acaso que aqui se escreve menos ou há ainda poucas pessoas nos nossos encontros, apesar da divulgação na imprensa ter sido nos últimos tempos maior e mais constante do que nunca. As pessoas andam à rasca. Isso vê-se no trânsito, na fila do banco e nos bancos das escolas. Os níveis de stress e angústia atingem uma escala que não me recordo de ver. E com os problemas diários que se acumulam e agigantam, não será surpreendente que as pessoas não tenham vontade de questionar instituições como a monogamia.
A liberdade existe na teoria, mas faltam os meios. Falta a visão a longo prazo, impossibilitada pela precariedade. Eu, como quase todas as pessoas que conheço da minha geração, sou precária e mal paga. Mas só por mais uns meses, até voltar ao desemprego.
Acredito que isto se passe um pouco por tudo o que é forum e grupo de coisas "idealistas". O tempo não está para os sonhadores, dirão alguns. E por um lado têm razão. Mas queixarmo-nos para nós próprios e para o vizinho do lado não tem nenhum resultado a não ser chatear e desanimar ambos.
A manifestação que está marcada para o próximo dia 12 também não terá grande resutado prático. O governo não vai cair. Para isso seriam precisos milhões nas ruas em vez de escassos milhares. Seria preciso acreditar que há na calha uma alternativa melhor, quando na verdade o que se deve questionar é todo o sistema político e econónimo. Mas isso leva tempo, dá trabalho. E levantar os olhos do próprio umbigo, parecendo que não... ainda faz suar um bocadinho.
Normalmente não acredito em greves que não sejam de zelo e parecem-me as manifestações uma coisa em muitos aspectos ultrapassada. E no entanto lá estarei no Sábado. Não por acreditar que a minha presença vai acabar com a crise e as injustiças. Mas por me recusar a ser espezinhada em silêncio e ainda agradecer. Vou lá estar para olhar nos olhos todas as pessoas que, como eu, estão à rasca, umas ainda mais do que outras. A geração a quem se prometeu tudo e que assiste estupefacta ao(s) rato(s) que da montanha nascem.
Se não servir para mais nada, que sirva de terapia de grupo, para dizermos uns ao outros que não estamos sós, que não desistimos e não somos estúpidos.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Porque falham as explicações

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Dou por mim, como devem imaginar, a explicar imensas vezes o que é o poliamor, e que sentido faz, etc etc etc. E nem sempre consigo estar a ter estas conversas na net, onde simplesmente envio um link para o site do Franklin Veaux e a partir dessa base tento rearticular algumas das perguntas que as pessoas me fazem.

Fora isso, e quando se está offline, há uma série de argumentos e mecanismos retóricos mais ou menos utilizados de forma generalista para tentar explicar ou desconstruir uma série de noções de base. Ainda assim, é um processo complicado. Complicado fundamentalmente porque esses tais pressupostos, esses dogmas de base que definem a própria definição do que é o amor ou do que são relações amorosas (ou do que é a fidelidade, and so on...) são, no poliamor, repensados.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Just Out

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Fotografia: Daniel Cardoso

Para quê dar a cara? Para quê dar a voz? Para quê dizer: sou lésbica? Para quê dizer: este homem, aqui, é o meu companheiro? Para quê falar daquelxs que nos oprimem? Para quê um feminismo, uma luta, um grito? Para quê, pergunto eu, fazer da minha vida uma forma de política? Porquê é que, pergunto eu, andarmos xs três de mão dada na rua me parece a mim mais do que andarmos xs três de mão dada na rua? Porquê dizer: sou poly? Não sei quando decidi fazer da minha vida, das minhas escolhas, das minhas relações, das minhas opções académicas e profissionais, das minhas opções de amizade e amor, não sei quando decidi fazer disto a minha bandeira, a minha cruzada. E todos os dias encontro respostas para estas perguntas. Quando oiço citar uma lésbica de 24 anos que diz ter o cuidado de não demonstrar comportamentos afectuosos para com a sua companheira em locais públicos quando há famílias com crianças, de forma a não chocar as crianças. Quando vejo que um par de namorados se coíbe de dar as mãos na rua. Quando sei que gays, lésbicas e bissexuais se afastam propositadamente dos locais onde moram e onde trabalham para viver a sua relação. Quando conheço relações de vários anos ocultas sob a capa da amizade. Quando sei que pessoas vivem toda a sua vida sem nunca dizer a verdade. Eu sou gay. Eu sou poly. Eu sou trans-queer-lés, whatever. Eu sou. Ser deveria ser quanto baste. E quando não temos mais nada, isso tem que ser a nossa força.

Inês

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mutatis mutandis...

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"Eu reclamo a independência da mulher, o seu direito a sustentar-se a si mesma; a viver sozinha; a amar quem quiser, e quantos quiser. Eu reclamo liberdade para ambos os sexos, liberdade de acção, liberdade no amor e liberdade na maternidade” - Emma Goldman, 1930

E agora, mais de oitenta anos depois, uma mulher ainda é mal vista e insultada - por outras mulheres! - por gostar de fazer sexo, ou por se apaixonar, com/por mais de uma pessoa.

E a monogamia ainda é Lei.

E ainda há pessoas que querem casar.

Porquê?

sábado, 21 de agosto de 2010

Poly Girls On Queer Unite

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"Agora, ao contrário, estamos em casa. Mas o em-casa não preexiste: foi preciso traçar um círculo em torno do centro frágil e incerto, organizar um espaço limitado. (…) Eis que as forças do caos são mantidas no exterior tanto quanto possível e o espaço interior protege as forças germinativas de uma tarefa a ser cumprida, de uma obra a ser feita. Há toda uma actividade de selecção aí, de eliminação, de extracção, para que as forças íntimas terrestres, as forças interiores da terra, não sejam submersas, para que elas possam resistir ou até tomar algo emprestado do caos através do filtro ou do crivo do espaço traçado. (…) Agora, enfim, entreabrimos o círculo, nós o abrimos, deixamos alguém entrar, chamamos alguém, ou então nós mesmos vamos para fora, nos lançamos. Não abrimos o círculo do lado onde vêm acumular-se as antigas forças do caos, mas numa outra região, criada pelo próprio círculo. Como se o círculo tendesse a abrir-se para um futuro, em função das forças em obra que ele abriga."

Começa quando fechas a porta do quarto para poderes ouvir a tua música. A música é instrumento da tua territorialização. Por exemplo, o ostinato da equipa de futebol proclamando "Ahhh Portugal olé, portugal olé, portugal olé, portugal olé" e demarcando as fronteiras. Ou "First I was afraid I was petrified" ou "A formiga no carreiro vinha em sentido contrário". O som afirma-nos, é o nosso canto específico, anunciando à passarada a música da nossa territorialidade.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Castelos de cartão

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Tenho estado à espera que este filme estreie em Portugal. Mas há uns dias desisti e vi-o em casa. É espanhol e conta a história de três estudantes de Belas-Artes, que se envolvem numa relação amorosa, na qual se complementam. Apaixonam-se os três pelos três. Cada um encontra o seu lugar no conjunto, e constrói uma relação diferente com cada um dos outros. Todos têm as suas fragilidades e qualidades. E juntos formam algo equilibrado, puro, que traz força e beleza à vida dos outros.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O meu coração é uma casa de mil quartos

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Chego a casa depois de uma noite altamente estimulante, no plano sexual e intelectual. Poiso as coisas no meu quarto e hesito. São quatro da manhã. Apetece-me partilhar este momento com os meus amores, que a esta hora já dormem.
Entre o quarto da esquerda e o da direita, acabo por escolher o segundo. Mas toda esta liberdade é responsabilidade dos dois. E a felicidade que irradio chegará em ondas crescentes a ambos.
Esta noite, amanhã, e nos dias que se seguirem.

sábado, 22 de maio de 2010

...mas não quero casar

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Na semana passada andei pelo festival HBT de Gotemburgo - a semana LGBT, com parada no último dia. E quero contar coisas que me pareceram muito bem feitas. Houve vários dias em que ocorreu a lgbt-university com debates e discussões, muito bem organizadas, em sessões paralelas. Pude assistir ao debate "När två er for få", " When two are too few", "Quando dois são poucos". Um debate vivo, não de oposição, com perguntas do moderador e respostas imediatas do painel (sem lições), e um bom trabalho entre polys, RA (relationship anarchists) e sex educators. Também fui a um debate sobre "Where is the Q" onde se discutiu a presença do "Queer" no festival... que esteve presente, com bancas DIY.