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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Se és (hetero-)mono, tens coisas mais importantes com que te preocupar

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ou, De como as pessoas poliamorosas estão fartas de perspectivas pseudo-“críticas” do mono-mundo


Já chega. Estamos fartxs.

Sabem o que acontece cada vez que uma pessoa poliamorosa, com uma perspectiva queer-feminista, reflecte sobre a mono-normatividade? Pois é: há (quase) sempre alguém que surge, muito rapidamente [haverá plantão?; haverá vigília?], a fazer uma de duas coisas (ou, mais comum, ambas ao mesmo tempo):
  1. A defesa da legitimidade da monogamia;
  2. A crítica ao poliamor e a outras formas de não-monogamias consensuais.

Isto cansa, porra.

Senão vejamos.

«Deixem a monogamia em paz, que chatxs!»
Está uma pessoa muito entretida com os seus botões, a reflectir sobre um sistema multi-milenar de opressão sistemática de sexo/género e de reprodução de papéis de género binários e normativos, e assim que abre a boca para falar logo alguém (que é legível ou se apresenta mesmo como mono) tem que vir dizer qualquer coisa do estilo “Ai que me estão a oprimir!”.

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E a base desta brilhante argumentação é a de que todas as pessoas devem ser livres de escolher a estrutura relacional que mais se adapta ao seu projecto de vida e à forma como sentem e se sentem realizadas.
… Porque, como toda a gente sabe, “normatividade” quer dizer que todas as pessoas têm todas as escolhas possíveis colocadas à sua frente, sem constrangimentos legais, institucionais, sociais. Certo? … Certo? ... Ceeeeeertooooo?
E também quer dizer que lá no fundo, no fundo, todxs queremos ser felizes e basta escolhermos o que nos faz feliz e está tudo bem, não é? Porque a noção do que faz feliz e do que é a felicidade é perfeitamente pessoal e subjectiva e igual para todxs, certo?

Ou então não.

E vai daí, temos que perder novamente tempo - perder, porque este tipo de diálogos geralmente viram monólogos - a explicar, por exemplo, que a monogamia é menos uma “estrutura relacional” e mais um sistema político. Que a monogamia está associada ao surgimento, estabelecimento e fortalecimento do Estado-Nação capitalista. Que a hetero-monogamia se encaixa numa rede que pretende preventivamente erradicar a dissidência sexual lésbica. Que a monogamia colabora activamente para a manutenção do statu quo patriarcal.

E que não, não é simplesmente uma escolha subjectiva - «porque é assim que sou feliz e cada um tem direito a ser feliz como quer!» - ideia bonita mas que falha por não ter qualquer conexão com a realidade em que são socialmente vistos como felizes apenas os casais hetero, mono, casadxs ou juntos de forma semelhante, de classe média, brancxs, com casa, carro, 1,2 filhxs. E são miseravelmente infelizes ou falhadxs as pessoas sozinhas, as pessoas que não querem ter filhxs, as pessoas que têm sexo com toda a gente, as pessoas que não querem ter sexo com ninguém, as pessoas não-monogâmicas (tudo isto piora se forem mulheres e/ou minorias étnicas e sociais).
Que, como diz Brigitte Vasallo no primeiro link do anterior parágrafo, a postura “«cada um que faça o que quiser» é, na prática, «que cada um faça o que conseguir»”. E, numa sociedade hetero-mono-normativa, consegue-se realmente muito pouco e a muito custo.

Vêm geralmente depois os argumentos do excepcionalismo - “Mas eu sou diferente!”, que é como quem diz, «a minha monogamia não é igual à monogamia da vizinha».

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Nós sabemos, nós sabemos: não estais habituadxs a que falar da vossa monogamia cause desconforto. Azar. Notícia de Última Hora: nós estávamos a falar de mono-normatividade e, espanto dos espantos!, não estamos interessadxs em saber como a tua monogamia é extra-diferente, extra-especial, baixa em heteropatriarcado e rica em realização pessoal. Tens uma monogamia dessas? Eh pá, que fixe!... Para ti. We really don’t care. Até porque a realização pessoal que retiras dela não apaga a tua performance pública (política!) de monogamia, nem o efeito de reforço de privilégio que isso tem (e que escapa largamente ao teu controlo).

«Isso do poliamor também tem muitos problemas!»
Então há bocadinho a tua monogamia era versão Extra-XPTO-Plus-Gold-Limited-Edition. Mas agora “o poliamor” - Sagrada Cona das Generalizações Abusivas! - já tem muitos problemas. [Notem, por favor, que novamente a conversa foi desviada para longe de qualquer crítica possível à mono-normatividade.] Claro que a implicação, subentendida, é que o nosso poliamor tem problemas. Mas não a tua monogamia. Não, isso nunca, céus!...

E então, a partir deste momento, vem o desfiar do argumentário… Que “o poliamor” serve é para beneficiar homens cisgénero, que o “poliamor” é usado como forma de manter as mulheres submissas e validar a falta de compromisso de homens cisgénero, que “o poliamor” não implica qualquer discriminação, que “o poliamor” é tão passível de ser ‘escolhido’ como a monogamia, que “o poliamor” não tem nada a ver com feminismo, e por aí em diante… Já para não falar naquela tendência irritante até mais não de achar que “poliamor” é sinónimo de todas as formas de não-monogamia consensual, e portanto tratá-las todas como um conjunto amorfo de categorias intermutáveis.

No fundo, descobrimos assim, para nossa infinita surpresa, que não existe maior especialista em poliamor do que… pessoas monogâmicas (e, em menor grau, pessoas que, sendo não-monogâmicas, ainda assim não são poliamorosas).

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Vá, vamos ser honestxs: não, o poliamor não é uma espécie de paraíso perfeito de liberdade pura e absoluta onde todos os males da sociedade se evaporam em fumo e se atinge o nirvana.

Mas… calma, que isto pode ser chocante para algumas pessoas… o raio das generalizações abusivas com “boas intenções de Cavaleirxs Brancxs” acaba a ser mais tóxico que muitas das supostas coisas que tão magnanimamente querem evitar!

Porque, Notícia de Última Hora - parte 2: existem mais que dois géneros; existem relações poliamorosas só com mulheres, e só com homens, e com pessoas não-binárias, e com pessoas trans*... que não apreciam nada mais uma camada de apagamento feita, alegadamente, por uma preocupação com a igualdade de género! Infantilizar ou apagar mulheres, pessoas não-binárias e trans* através de críticas generalistas, abstractas e desinformadas à sua vida não é aceitável.

Aliás, não vos devia fazer um bocado de comichão o facto de que, recentemente - e de uma forma que talvez não tinham ainda imaginado! - quem mais se queixa do poliamor são os homens? Porque, lembremo-nos disso, aquilo que o poliamor procura fazer é precisamente retirar o privilégio que os bio-gajos têm de poder ter várias relações sem ter que responder por isso!

E não, não nos esquecemos de termos dito que o poliamor não é perfeito. Aliás, até há várias pessoas a fazer uma leitura crítica de vários elementos do poliamor, com base em considerações sobre feminismo, pós-colonialismo, classe, e por aí em diante… Sabem quem?

Uma pequena pista: não são vocês. Não. São, na sua maioria, pessoas que têm experiência e reflexão feitas sobre a questão, que não se encontram a falar a partir de uma posição de privilégio e que, em todos esses casos, não se limitam a fazer generalizações sobre “o poliamor”. Identificam problemas concretos com dinâmicas específicas, com balizas bem demarcadas.

Ou então, quando se trata de comentar a história do poliamor, não disparatar, confundindo “poliamor” com “relações abertas” ou com outras formas de não-monogamia consensual (sim, existem mais!, não, não são todas iguais!, sim, tens mesmo de te calar e ir ler se não sabes a diferença!), esquecendo que, sim, o poliamor tem um forte cunho feminista e de crítica à desigualdade de género na sua base [O que não quer dizer que uma pessoa, por chamar “poliamorosa” à sua relação, vá logo ser o paradigma da igualdade de género, né?; porque não há fiscais do uso do termo]...

E mesmo quem tem alguma experiência em relacionamentos não-monogâmicos em sentido lato (desde relações abertas a swing), ainda assim faria melhor, achamos, em ver que a sua experiência particular pode não ser - e geralmente não é - a melhor para comentar outro paradigma relacional diferente. Embora alguém nessa situação não esteja simplesmente a reproduzir o privilégio monogâmico, ainda assim e por uma questão de solidariedade, convém que possamos reconhecer a diversidade de posturas e também as limitações que vêm com estarmos num estilo relacional e não noutro.

Vá, para resumir: estamos fartxs do [atenção à palavra desconhecida] monosplaining. Que é como quem diz: estamos fartxs de ter pessoas monogâmicas a julgarem-se especialistas em poliamor e outras não-monogamias. Estamos fartxs de pessoas monogâmicas a quererem ‘expor’ publicamente os ‘males’ “do poliamor” mas que não são capazes de escrever dez linhas, publicamente, sobre o papel normativo da monogamia como sistema político opressor.

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Querem ser umas pessoas muito socialmente conscientes? Que bom!

Primeiro passo: desconstruam a vossa própria monogamia.
Segundo passo: ver o primeiro passo.

Quê?! Achavam que esta coisa do “desconstruir” era como nos menus de instalação de programas? Chega aos 100% e ‘tá feito?

Ouvimos dizer… que não é assim que funciona!

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Depois disso, e depois de investigarem a fundo ou de passarem de facto pelas experiências de uma não-monogamia feminista e crítica, cá estaremos para ouvir e trabalhar com as vossas/nossas críticas. Até lá, preferimos ouvir as vozes (críticas!) de quem reflecte sobre as suas experiências de não-monogamia, e não os gritos que nos querem afogar a expressão crítica das estruturas macro-sociais que pendem sobre as cabeças de todxs.

Nota: Vamos aguardar para ver se os comentários a este nosso rant confirmam a existência do mesmo; uma espécie de versão poly da Lei de Lewis.

Inês Rôlo
Isabel Martinez
Rumpelstilzchenriel
Daniel Cardoso

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Cuidado com o engate disfarçado de "poliamor"

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Acredito que muita gente pense que sou uma espécie de "evangelista" do poliamor, e que passo o meu tempo a tentar converter gente a "transformar-se" em poly. Acho que mais depressa investia o meu tempo a tentar falar com pedras, tinha mais piada.

Algo que passo bastante mais tempo a fazer é a tentar afastar pessoas que conheço e que vêm ter comigo pedir-me conselho, do poliamor. Ou, vá lá, de pessoas que usam o poliamor como desculpa para fazer valer o seu privilégio e os seus interesses pessoais.

Aconteceu algo do estilo há alguns dias. Uma rapariga que conheço veio-me pedir ajuda porque um rapaz, interessado nela, queria estar numa relação "poliamorosa" com ela, sendo que ela se identifica como pessoa monogâmica.

Primeira coisa que eu lhe disse: não entres numa relação poly por ele, entra por ti, porque tu queres. Poliamor não é um sacrifício que se peça a alguém, tal como a monogamia não o deve ser. Mas foi na segunda coisa que eu lhe disse que acertei de facto na mouche. Disse-lhe que ela tinha que perceber muito bem, na prática, o que é que ele entendia como uma "relação poliamorosa".

Vou parafrasear algumas das coisas que - segundo ela - ele usou como argumentos para expor o seu ponto de vista:
Trata-se de perceber que nós, como seres sexuais mas também como parceirxs, queremos muitas coisas. A versão que eu gosto é aquela em que se tem um/a namorado/a com quem se está plenamente, e socialmente também. Mas se houver atracção por mais alguém, pode-se chamar essa pessoa para se 'divertir' com o casal... ou então haver um interesse que seja diferente do que é pelo parceiro primário, e aí fala-se sobre isso e está tudo bem, e acontece algo entre duas das pessoas, mas nunca há ciúmes porque sabe-se sempre que és tu que és amada... e depois pode-se partilhar os detalhes todos do que aconteceu, ou nenhuns se se preferir.
 Eu quando li isto tive quase um ataquezinho de coração. E disse-lhe qualquer coisa do género: "POR AMOR DA SANTINHA, CORRE NA DIRECÇÃO CONTRÁRIA MUITO BUÉ HIPER-MEGA DEPRESSA". Com caps lock e tudo. (Pronto, está bem, disse só "hmm...". Mas juro que pensei isto tudo.)

Isto é o que acontece quando malta hetero sem sensibilidade nenhuma para privilégio de género começa a usar o poliamor como desculpa para querer fazer das suas.

Ora senão vejamos:
  1. "Nós [...] queremos muitas coisas" - O rapaz abre logo a salva com uma generalização total para tentar justificar que, pronto, ele é simplesmente igual a toda a gente, e que portanto os seus desejos são naturais, e acabou a conversa;
  2. "A versão que eu gosto" - Há muitas versões, mas ao invés de falarmos sobre o que é que poderia ser o nosso ponto de encontro, entra-se logo com uma visão redutora com uma série de pacotes incorporados, nomeadamente...
    1. Parceirxs primárixs: mantém-se o "privilégio de casal" e abre-se uma avenida para o tratamento de outras pessoas, fora do casal, como dispensáveis, secundárias; nos casos em que surge algum problema, a opção por definição é proteger "o casal" e o resto das pessoas que se... lixem;
    2. Aproveitamento sexual: a primeira preocupação do rapaz foi poder usar qualquer interesse que exista para ter o seu fornecimento de ménàges a trois... esqueçam lá o quão estranho ou assustador é alguém começar a fazer planos sexuais com terceiras pessoas que nem sequer são tidas nem achadas para o caso, mas já têm o seu lugarzinho reservado... e nenhum voto sobre se aquilo que farão sexualmente vai ou não ser relatado a terceiras pessoas...
    3. Opções extra: a haver um encontro que não seja a três, supõe-se/define-se logo que vai ser à partida diferente do que se sente pelx "primárix"... porque obviamente toda a gente pode logo adivinhar o que vai sentir por pessoas hipotéticas que ainda nem sequer conheceu!
  3. "E está tudo bem e não há ciúmes" - Esta é parecida à anterior: "poliamor" é estar sempre tudo bem... claro... porque, mais uma vez, toda a gente sabe à partida o que vai sentir e como vai reagir e toda a gente sabe que basta carregar num botão e, puff!, lá se vai toda a programação mononormativa com que levámos a vida toda, e os ciúmes e as inseguranças...
Estão a ver o potencial épico para manipulação psicológica? "Ah, estás a aparecer em público muito ligada a esta pessoa, mas o teu primário sou eu, não pode ser!" "Ah, aquilo que estás a sentir está demasiado próximo daquilo que sentes por mim, não pode ser!" "Ah,estás a sentir ciúmes? Mas uma boa pessoa poliamorosa não sente ciúmes! Não pode ser!"

Dis-pa-ra-te.

Não. Com pessoas "poliamorosas" destas, venham as relações monogâmicas saudáveis, críticas e auto-reflexivas.

PS - Não sou das pessoas que defende que "todas as formas de não-monogamia são fixes". Tal como nem todas as formas de monogamia são fixes. Qualquer estrutura relacional que sirva para roubar autonomia e entrar em jogos de manipulação (geralmente através de linhas hierárquicas, de privilégio, de "casal") não é fixe.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Poliamor na Revista Activa de Junho de 2013

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Várias pessoas do grupo PolyPortugal falaram com a jornalista Bárbara Bettencourt, para um artigo sobre não-monogamia responsável que saiu no exemplar de Junho da Revista Activa.

Leiam aqui!




sexta-feira, 1 de março de 2013

Hierarquias de compromisso

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Tenho um bocado a mania, sei-o bem, de escrever coisas sobre a reformulação das hierarquias de sentimentos, de crítica à importância que o romantismo tem como expressão máxima de amor, sobre o privilégio associado a 'estar em casal', blá blá blá.

E, para muita gente, tal coisa é densa, abstracta, pouco útil ou pouco prática. De modo que hoje quis mostrar que tudo isto é extremamente prático e, também, extremamente doloroso de se ver/viver.

Já me aconteceu, mais do que uma vez, envolver-me com alguém que não se identifica necessariamente como poliamorosx, ou sequer como não-monogâmicx. Fazê-lo tem sempre o seu quê de tensão, porque há um conjunto de experiências pelas quais eu passo que não encontram eco ou reflexo na experiência dessa pessoa - e isso pode, por vezes, tornar mais difícil a empatia de parte a parte, ou a gestão de situações com mais tensão.

Uma particularidade deste tipo de relação é a de que, caso essa pessoa se interesse por outro alguém, poderá haver a ruptura da relação existente. Noutros casos, uma pessoa que se identifique como não-monogâmica pode mesmo deixar de se identificar como tal, e querer uma relação monogâmica (eventualmente com um terceiro elemento).

Ora, é para mim mais do que óbvio que todas estas coisas são legítimas. Achar que quem entra numa relação enquanto poly, assim tem que ficar até ao fim dos tempos amén é irrealista. As pessoas, sentimentos, vontades e contextos mudam. Para mim, a questão não é, de todo, essa.

Trata-se, antes, da existência de hierarquias de compromisso. Permitam-me explicar: a situação em que uma pessoa mono (numa relação com uma pessoa poly) se vê na possibilidade de iniciar uma outra relação com uma outra pessoa mono (terminando assim a relação com a pessoa poly) não é igual a quando uma relação mono acaba e dá lugar a outra.
Isto porque terminar a relação com a pessoa poly para estar com a pessoa mono é visto, frequentemente (e socialmente), como um regresso ao normal, ao saudável, ao expectável.

Quando a isto se junta, por exemplo, a situação de o envolvimento entre a pessoa poly e mono não ser do tipo romântico (e o das duas pessoas mono potencialmente o ser), desce-se mais um degrau nesta hierarquia. Não só se está a regressar ao normal, como também se está a regressar a uma vivência que vale a pena, é respeitável e que é melhor porque faz mais sentido (afinal de contas, se alguém é monogâmicx, porque iria desperdiçar a sua única relação com algo não-romântico?! /fim de sarcasmo).

Desconfio que isto torna mais fácil 'saltar fora' de uma relação com alguém poly. Pela minha experiência pessoal, isto também torna mais fácil que surjam comportamentos de desrespeito pela pessoa poly, pela relação com essa pessoa, pelos compromissos assumidos - porque essa relação/pessoa está 'naturalmente' mais abaixo numa hierarquia de compromissos. Ao mesmo tempo, espera-se que essa mesma pessoa poly compreenda a naturalidade de ser colocada na prateleira de baixo dessa hierarquia de compromisso, e os comportamentos possivelmente abusivos ou desrespeitosos.

(Nota: embora eu considere que, por questões de discriminação e invisibilidade social, as configurações acima descritas têm dinâmicas e características próprias, no abstracto, que facilitam tais acontecimentos, existem imensas outras situações que não passam por haver um elemento poly. Um exemplo corriqueiro é o típico "Adorava ir sair contigo, mas x namoradx também quer e portanto tenho ir sair com elx". Todas estas situações têm que ver com os elementos 'teóricos' abordados acima: a suposta primazia naturalizada do casal e do amor romântico.)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Palestra sobre Poliamor e Psicologia em Évora - o registo

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A palestra "Poliamor e Psicologia", organizada pelo NEPUE, foi ontem, dia 28 de Fevereiro, em Évora. A quem não pôde estar lá, fica aqui o registo, em vídeo, de um evento que contou com cerca de 70 participantes, e bastante debate!

A representar o PolyPortugal estiveram o Daniel Cardoso e a Sofia Correia.

Deixem as vossas impressões nos comentários!


Algumas informações extra podem ser encontradas aqui, também.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Poliamor na Happy Woman de Dezembro

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Pois é, desta vez através de uma entrevista à psicanalista Regina Lins, do Brasil, o poliamor volta a aparecer na imprensa portuguesa. Leia o artigo abaixo.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Poliamor não é

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... o oposto da monogamia.

É o oposto da traição (seja ela sob que forma for).

sábado, 20 de agosto de 2011

roads to love... or whatever we seek to be happy

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A viver numa relação poliamorosa há mais de um ano e meio tenho aprendido imenso comigo e com as pessoas que me são próximas, bem como com pessoas que não me eram próximas e passaram a ser. Não sei se por estar numa relação deste tipo passei a prestar mais atenção a determinados sinais que amigxs me transmitem, ou se é mesmo o mundo, as pessoas, as relações, que estão a mudar, ou se tudo sempre foi assim e as pessoas estão agora a falar mais disto.

Por debaixo da capa assumida da monogamia fundamental, eu tenho visto as pessoas a fazerem as suas monogamias de forma não-monogâmica... e responsável. Sucessivamente tenho-me deparado com casais que conheço há anos, bem como com amigxs solteiros que estão a fazer as suas "monogamias" de forma cada vez mais aberta, pensada e questionada... As relações passam por diversos períodos, uns melhores, outros terríveis. Estas pessoas discutem, falam, choram, separam-se, voltam a juntar-se, fazem tudo de outra maneira, criam novas regras, recomeçam, aprendem, reconstróem-se, pensam tudo de novo... alguns, até, livram-se de etiquetas relacionais no meio deste processo. Há aqui uma coragem de romper com um modelo, lentamente, aos poucos, começando a alargar limites, estabelecendo novos percursos, novas formas de viver, que não são poliamor, e não são monogamia, são um qualquer híbrido feito de aprendizagens, sofrimentos, forças. São opções, são novas esperanças para vidas em comum, são novos formatos, são outros guiões, são tropeções e novas tentativas. Não há desistências enquanto há razões para se querer estar com alguém, alguéns, amores, amantes, companheirxs, fuck buddies, amigxs coloridxs...

O que eu tenho visto é as pessoas a fazerem as suas relações com novos pressupostos, com novos objectivos. Infelizmente não falo de uma maioria, mas sim de amigos e amigas que tenho visto escolherem os caminhos menos fáceis, a honestidade em vez do empurrar do lixo para debaixo da carpete. Este texto, curto e pouco inspirado, é uma homenagem a todxs elxs, às suas forças renovadas, aos seus caminhos diversos. Para que todxs recordemos: there's always a way.

«We can be strong follow that unicorn
on the road to love
I'm on the road to love»

terça-feira, 12 de abril de 2011

Sexo fácil

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«Muita gente mete-se no poliamor […] porque é uma forma de obter sexo fácil» — alvitrou às tantas uma das mais de 40 pessoas na plateia durante o debate aberto sobre poliamor de que demos conta aqui. E eu não podia deixar de responder. Porque, de facto, a abundância sexual tão exaltada no Ethical Slut quase só existe para quem já teria facilidade em obtê-la, com ou sem poliamor.

No diagrama que então desenhei no quadro, e que aqui reproduzo, cada um dos cinco nós “A” a “E” representa uma pessoa e as ligações representam as relações sexuais que existem.

Numa relação entre duas pessoas, não é frequente que ambas tenham exatamente a mesma libido. Chamo aqui libido (roubando o conceito à psicanálise e simplificando) à frequência com que apetece sexo a uma pessoa. No diagrama, a libido de cada um é expressa pelo diâmetro do respetivo círculo.

Quando existe apenas o par A+B (ou esse par é monogâmico), em que A tem menos libido do que B, a solução passa normalmente por terem sexo com a frequência menor. B tem de se conformar, assim, com menos sexo do que gostaria de ter.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Do outro lado

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Sempre tive uma pergunta, e gostava de saber se alguém que lê este blog me sabe responder...

Como é que uma pessoa que se identifica como monogâmica passa a encarar a monogamia, depois de tomar contacto com o poliamor? Há alguma diferença? Há algum questionamento, ou alteração de comportamentos, atitudes, etc., mesmo que a pessoa não passe a identificar-se como poliamorosa?

Respostas agradecem-se. :)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

nao, nao cantarás....

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Não digo que é uma frase politicamente correcta, educativa, ou encorajadora. Simplesmente uma frase que me saiu, a propósito de alguém que defende a monogamia com pequenas falhas higiénicas:

"Gaja, tu não és monogâmica. Quando muito tu és mas é ciumenta".

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mutatis mutandis...

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"Eu reclamo a independência da mulher, o seu direito a sustentar-se a si mesma; a viver sozinha; a amar quem quiser, e quantos quiser. Eu reclamo liberdade para ambos os sexos, liberdade de acção, liberdade no amor e liberdade na maternidade” - Emma Goldman, 1930

E agora, mais de oitenta anos depois, uma mulher ainda é mal vista e insultada - por outras mulheres! - por gostar de fazer sexo, ou por se apaixonar, com/por mais de uma pessoa.

E a monogamia ainda é Lei.

E ainda há pessoas que querem casar.

Porquê?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Da contratualização - II

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Continuando a partir do post da semana passada... E também para honrar algumas das perguntas da Marquesa do Sado...

Não espantará ninguém se se afirmar que o casamento é um contrato. Um contrato que, no entanto, parece transformar as pessoas em objectos, capazes de ser possuídos por uma outra pessoa-objecto. Já não será novidade para muita gente que não sou propriamente amante da instituição do casamento. Mas o post da semana passada reforçava precisamente a importância do estabelecimento de um contrato - naquele caso, de um contrato contra-sexual (novamente, não confundir com anti-sexual).

É preciso então, para que isto não se transforme numa simples contradição nos termos, definir alguns dos elementos básicos de cada um dos contratos, e porque é que a defesa de um tipo pode coexistir com o pedido de abolição de outro.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Da contratualização - I

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"[...] Uma análise crítica da diferença de género e de sexo, produto do contrato social heterocêntrico, cujas performatividades normativas têm sido inscritas nos corpos como verdades biológicas (Judith Butler, 2001). [...] A contra-sexualidade deseja substituir este contrato social que chamamos de Natureza por um contrato contra-sexual. Sob a égide do contrato contra-sexual, os corpos reconhecem-se a si mesmos não como homens ou mulheres, mas como corpos falantes, e reconhecem os outros também como corpos falantes.
[...]
As práticas de Sadismo e Masoquismo, bem como a criação de pactos contratuais que regulam os papéis de submissão e dominação, tornaram manifestas as estruturas eróticas de poder subjacentes ao contrato que a heterossexualidade impôs como natural.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Animalesco

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Foi, aqui há uns dias, caracterizado de "animalesco" o meu comportamento.

Animalesco porque tenho uma relação com duas mulheres simultaneamente, com o consentimento delas, com a anuência de todas as partes envolvidas e que, até agora, tem estado a correr maravilhosamente bem. Tenho problemas em admitir, apesar de O Aberto, que se possa simplesmente elidir desta forma diferentes tipos de comportamento. Até porque o dicionário mostra que o uso informal da palavra aponta para significados ainda menos simpáticos do que o académico presente em O Aberto - e eram esses certamente que estariam na mente da pessoa que fez o comentário - neste caso, o meu progenitor masculino.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

No correio

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Chegou-me agora mesmo o "Understanding Non-Monogamies". Ainda só tive tempo de olhar para ele de fugida, mas nem preciso de sair da introdução para apontar algumas coisas interessantes:
  • há um potencial queer e feminista nas relações não-monogâmicas, como o poliamor, mas isto não quer dizer que esse potencial se concretize necessariamente, ou que o potencial para o oposto não esteja lá também;
  • quando refazemos e reconstruímos os nossos contextos relacionais, não podemos deixar de o fazer à luz da forma como fomos educados e da sociedade vigente, queiramos ou não;
  • da mesma forma que existem vários tipos de relações não-monogâmicas, também existem vários tipos de relações monogâmicas, e ensacar tudo no mesmo conjunto cria problemas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Citação

Publicado por 
"A única relação realmente monógama que temos é connosco próprios."

- Monogamy, Adam Phillips

domingo, 31 de janeiro de 2010

Citações (3)…

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«No meu entender, depois da abstinência,
a monogamia é a perversão sexual
mais abjecta que eu conheço.»

Ricardo de Araújo Pereira,
no programa da TSF Governo Sombra
da última sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010, ao minuto 35'00

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Monogamicxs

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Fotografado no último sábado no Fluviário de Mora:

Monogâmico: relativo à condição na qual um macho e uma fêmea estabelecem uma relação de acasalamento mais ou menos exclusiva.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Punalua

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No seu livro sobre "A origem da Família...", Engels fala sobre um termo que alguns poliamorosos gostam de usar - punalua.

A família punaluana seria uma forma evoluída de modelo familiar - sendo que ele vai buscar o termo e exemplo a um costume havaiano - ainda dentro dos costumes de sociedades consideradas "bárbaras". É interessante ver como este modelo familiar tinha um traço fortemente matriarcal, já que, dentro destas famílias-grupo não era possível estabelecer a paternidade de uma determinada criança, mas era sempre possível estabelecer a sua maternidade. Este era um modelo de coabitação e cooperação em que os membros de um determinado grupo de homens se chamavam punalua entre si, e idem para cada determinado grupo de mulheres.

A análise de Engels leva-nos mais longe, analisando uma evolução nas estruturas familiares a par de progressos civilizacionais, e eis que chegamos ao modelo monogâmico.

Compreender este modelo é importante, creio, para termos uma perspectiva de quais as suas raízes. Porque se é verdade, como já referi várias vezes, que a monogamia pode ser praticada de uma forma igualitária e com respeito pelos direitos e deveres de cada indivíduo, é também verdade que só com a noção das raízes podemos começar a desmontar os processos de dominação que operam nessa esfera.

Diz-nos então Engels que a monogamia

"se baseia na supremacia do homem, com o propósito expresso de produzir crianças cuja paternidade não possa ser disputada; tal paternidade inequívoca é exigida pelo facto de que esses filhos serão, mais tarde, herdeiros daquele pai. [...] O direito da infidelidade conjugal também se mantém adstrito a ele, quanto mais não seja pelo costume [...]"

Vemos actualmente ainda muitas provas de como resquícios destas ideias se mantêm no século XXI. Os homens são, estereotipicamente, os traidores por excelência, os principais preocupados com passar o legado da família (quanto mais não seja, o nome da família, que é o nome do homem).

Ora, se como tenho abordado, é o fechamento da relação monógama que, a contrario, institui a traição, é também ela que retira a possibilidade de cooperação e inter-relação presente entre punaluas. Essa relação não existe dentro de um modelo estritamente monógamo, embora possa, ainda assim, existir dentro de alguns modelos de poliamor em que existe um fechamento das relações a um determinado conjunto de pessoas.

E isso deixa-me, por estranho que possa parecer - porque deveria ser indiferente, não? -, triste. Fico triste porque tenho assistido muito de perto ao quão bela e forte pode ser uma relação entre punaluas, e questiono-me sobre que visão terá a posição mononormativa sobre estas pessoas que resolvem assumir-se como punaluas, que resolvem gostar disso, que daí retiram prazer e compersion.