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sexta-feira, 5 de junho de 2015

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Quintino Aires e a má imprensa portuguesa

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A má imprensa volta a atacar em Portugal, e novamente com o Quintino Aires a reboque (está a tornar-se tradição!).

Desta feita, foi um artigo na Saber Viver assinado por Sofia Cardoso, disponível aqui. Lá também se fala de poliamor, mas dá-se a questão a comentar ao já conhecido polifóbico, não-especialista (e agora em sarilhos com a Ordem dos Psicólogos), Quintino Aires.

Tenham cuidado quando abrirem o artigo, porque a presença de lugares comuns sobre falta de capacidade de compromisso, imaturidade psicológica e emocional e outros disparates afins poderão causar dores de cabeça, especialmente quando comparados com a investigação que existe e que deita por terra todas essas supostas asserções.

Lamentamos também que a imprensa nacional (não interessa se “light” ou não, “cor-de-rosa” ou não) tenha perdido em grande medida o amor à existência do contraditório e da pluralidade de visões, preferindo recorrer ao discurso do “especialista” (seja ele qual for) sem se questionar sobre as habilitações do mesmo, a sua credibilidade, formação específica ou mesmo sem fazer notar que nem todos os especialistas (mesmo quando o são) concordarão inevitavelmente em tudo o que dizem.

Lamentamos também que a jornalista Sofia Cardoso, apesar de ter sido contactada por várias pessoas do PolyPortugal dispostas a falar sobre poliamor (e algumas até com investigação sobre o assunto), tenha entrado num processo de aparente autismo e nem sequer se tenha dignado a responder às ditas potenciais fontes.

Parece ser já hábito fazer acompanhar o surgimento de novas ou diferentes identidades sexuais, relacionais ou íntimas, de um discurso “especialista” que as desqualifica de forma aparentemente auto-evidente, em artigos onde se conclui aquilo que já se sabia à partida – e portanto onde nada se aprende, nada se debate; onde a função jornalística está totalmente ausente.



Exigimos mais e melhor trabalho jornalístico. Exigimos seriedade e profissionalismo.

sábado, 29 de setembro de 2012

Poliamor no Expresso

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O Jornal Expresso tem vindo a publicar, ao longo das últimas semanas, os resultados de uma investigação que encomendou, em torno de vários aspectos da sexualidade em Portugal.

Saiu hoje o número que fala sobre "(in)fidelidades", e que aborda, entre outras coisas, relações poliamorosas, ou o horizonte mais alargado da não-monogamia.

Entre os vários resultados, 6% dos inquiridos diz já ter estado em relações com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, com sentimentos de amor envolvidos e 8% diz que gostaria de estar numa relação estável com  mais de uma pessoa ao mesmo tempo.


Claro que existem sempre problemas e questões que se levantam com questionários deste género, desde o viés de desejabilidade social, até não sabermos se estas relações múltiplas passaram de facto por uma postura responsável e de consentimento informado. Um facto, porém, parece relativamente incontornável: pelo menos no nível das intenções e desejos, parece haver uma fatia relativamente grande de pessoas que vê o amor para além do par normativo.

Ao mesmo tempo, as diferenças de género nas respostas são gritantes, algo que terá de ser pensado separadamente.

Podem ler o artigo inteiro aqui, finalmente!


sábado, 21 de abril de 2012

Carta Aberta a Quintino Aires

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Caro Dr. Quintino Aires

Queria agradecer-lhe pelo muito que aprendi recentemente consigo no programa “A Hora do Sexo” da Antena 3. As suas palavras nos dias 7 e 30 de Março tiveram um efeito revelador sobre mim, que transformou radicalmente a minha visão do mundo e de mim mesma.

Finalmente, alguém capaz de me explicar preto-no-branco o que é o amor, e como se distingue de outras relações que não tem nada a ver, como o afecto entre pais e filhos, ou a amizade. Tanta poesia, tantos filmes, tantas canções, tanta gente a gastar dinheiro no psicólogo quando afinal é muito simples: basta verificar se há sexo oral. Afinal, uma mãe não faz sexo oral a um filho (e se faz, temos aqui uma situação crítica que inclusive é crime). Contra factos não há argumentos. Percebo agora a sua convicção de que não é possível amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo – realmente, é tecnicamente complicado fazer sexo oral a duas pessoas em simultâneo, e a três ou mais é talvez impossível. Vou tentar e depois logo lhe digo.

Mas, sabe (e tenho uma certa vergonha em admitir isto), eu continuo a achar que se calhar há outros aspectos do amor para além do sexo oral. Mas as suas palavras fizeram-me perceber que essa minha visão é simplesmente imatura, dado que ainda nao atingi o estado de desenvolvimento intelectual e emocional que me permite reconhecer o amor como uma relação que só pode acontecer entre duas pessoas. Percebi que o amor faz parte da inteligência, mas que com a inteligencia vem necessariamente a monogamia; logo alguém que ama uma pessoa é inteligente mas alguém que ama duas ou três tem o cérebro atrofiado. Da mesma forma que alguém um milhão de euros é rico, mas com dois ou três milhões é pobre.

Mas onde as suas palavras me tocaram realmente foi na forma como me permitiu perceber pela primeira vez a distinção entre a pessoa (o ser humano), e a espécie humana (Homo sapiens sapiens). As diferenças são claras e estão à vista de todos. O ser humano é monogâmico, a espécie é poligâmica. As pessoas fazem sexo, os indivíduos H. s. sapiens abordam-se uns aos outros. Consequentemente, o ser humano só pode ser compreendida recorrendo à Psicologia, enquanto a espécie humana é perfeitamente explicável pela Biologia. Nem queira saber a crise existencial que me causou saber que sou da espécie humana mas não um ser humano, uma pessoa. Mas explica muita coisa e fico-lhe eternamente grata.

Dr. Aires, esta sua visão é revolucionária, um salto quântico na nossa compreensão de nós mesmos. Está a desperdiçar o seu intelecto neste programeca de rádio quando o mundo inteiro precisa de saber estas coisas. Encorajo-o enfaticamente a escreva um artigo para a Nature, a fazer uma TED Talk sobre isto – o Dr. Aires é a nossa grande esperança para o próximo Prémio Nobel Português!

Um grande bem-haja

A.


PS: Transcrevo em baixo os extractos dos programas que mais me inspiraram, porque isto que diz é demasiado importante para não ser difundido.

A Hora do Sexo 07/03/2012

Raquel Bulha: “Vamos falar do poliamor. [...] Poli implica muita gente, gostar de muita gente, amar muita gente?”

Dr. Quintino Aires: “Não, não, não; gostar. Desejar, muita gente, no máximo; agora amar não. Amar é sempre uma relação só entre duas pessoas, dois adultos, o que implica também uma estruturação psicológica que uma criança ou um adolescente não pode, não consegue ainda.”

Raquel Bulha: “Sim, portanto há uma estruturação emocional amadurecida.”

Dr. Quintino Aires: “Exactamente. É só entre duas pessoas, não pode ser com muitas pessoas. Poliamor é uma expressão que dá jeito para quem não atingiu ainda esse estado de desenvolvimento.”

A Hora do Sexo 30/3/2012

Dr. Quintino Aires: “A espécie Homo sapiens sapiens não é monogâmica; a pessoa, o ser humano, é monogâmico. O que é que isto quer dizer: quando nós nascemos com informação genética tal como há 400 mil anos atrás, ou como quando há 100 mil anos antes da linguagem, antes da fala, funcionávamos na selva, na verdade não éramos monogâmicos, e portanto abordávamos-mos uns aos outros, mas também não fazíamos sexo. Quando nós evoluímos e o cérebro humano pode começar a transformar-se, aumentar em 50% pela relação que estabelece com as outras pessoas e pelo uso da linguagem, aumentar em 50% o tecido cerebral que o suporta e que lhe permite responder e tornar-se inteligente, quando se tornou inteligente, [...] aí já é monogâmico.”

[...]

Dr. Quintino Aires: “O amor é uma característica, é uma categoria psicológica, o amor faz parte da inteligência. E portanto [...] sendo uma característica psicológica [...] que portanto tem a ver com a inteligência, não é explicável pela biologia, apenas é explicável pela psicologia. Qual é o erro técnico científico grave que existe neste email, e que se repete muito, pelo menos em Portugal repete-se muito. É dar uma explicação de um fenómeno psicológico com base em leis da biologia. Portanto, se nós olharmos para a espécie Homo sapiens sapiens com os olhos da biologia (uma ciência lindíssima, importantíssima para entendermos a vida) então é verdade que [...] é poligâmico. Agora se olharmos com os olhos da psicologia e se quisermos falar de amor, então só podemos falar de amor ou de sexo dentro da psicologia, aí temos que reconhecer que é monogâmico.

[...]

Carta do ouvinte: “[...] o amor que se tem para dar (ou não), depende de cada individuo, e discordo que uma pessoa não seja capaz de amar 2 ou 3 outras pessoas.”

Dr. Quintino Aires: “Não, amar não. Diga desejar, ter vontade de fazer sexo, isso é outra coisa.”

Carta do ouvinte: “De facto, existem vários tipos de amor, e por certo ninguém vai considerar que uma mãe só consegue amar um filho, certo?”

Dr. Quintino Aires: “Não tem nada a ver, estás a ver o que eu tava-te a dizer Raquel?”

Raquel Bulha: “O amor não é entre mãe e filho.”

Dr. Quintino Aires: “Claro, a mãe não faz sexo oral ao filho.”

Raquel Bulha: “Ó pá, por favor Quintino!”

Dr. Quintino Aires: “Ó Raquel, temos que falar as coisas se não as pessoas não pensam.”

Raquel Bulha: “Sim, claro...”

Dr. Quintino Aires: “Uma mãe faz sexo oral ao filho?”

Raquel Bulha: “Não.”

Dr. Quintino Aires: “E se faz, temos aqui uma situação crítica que inclusive é crime. [...] Temos que ter cuidado com as palavras. A mãe sente afecto pelo filho, dois amigos sentem amizade, duas pessoas que estão apaixonadas e se amam sentem amor, mas então é outra categoria.”

sábado, 7 de abril de 2012

Os perigosos peritos

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Pois é Joaquim… seria descabido tratarmo-nos com cerimónias, chamá-lo Dr. Quintino Aires não valorizaria o conhecimento profundo que tem sobre mim e os meus sentimentos. Assim prefiro trata-lo pelo seu nome, quero sentir-me tão próxima de si como se sente de mim…

Quando ouvi os seus comentários sobre poliamor na Hora do Sexo, a minha reacção instintiva foi procurar o seu carro e furar-lhe os quatro pneus….mas como sou civilizada pensei: “Mas o Quim é só humano, não fez por mal. Infelizmente, acredita mesmo que sabe do que está a falar.” E pronto, o meu coração amoleceu, e os seus pneus Joaquim ficaram em segurança.

Mas…. Porque a falta de consciência é perigosa, sinto-me obrigada a conversar consigo Joaquim, para o seu próprio bem, para o ajudar a pensar, tal como o próprio Joaquim diz "Temos que falar as coisas porque senão as pessoas não pensam", diria até mais, para o ajudar a sentir. Porque ao ouvi-lo falar senti coisas, senti-me por exemplo como aquelas crianças de quem os pais falam na sua presença como se não estivessem lá. Senti-me triste, zangada, desrespeitada nos meus sentimentos.

Se o seu programa não é um receituário de sexo, então qualquer coisa não funcionou desta vez, o Joaquim disse-nos com clareza o que podemos ou não sentir se quisermos fazer parte do clube privado que é a humanidade. E de facto Quim, às vezes um quadrado cabe dentro do círculo outras não, sabe porquê? Porque há círculos de todos os tamanhos e quadrados também. Erro técnico…

E se o Ser Humano é monogâmico, então muito me conta, nesse caso, todos os povos poligâmicos e poliândricos não são humanos…. Não aumentaram o cérebro como os outros. Erro técnico? Espero que sim, porque a outra alternativa é assustadora, sobretudo num especialista, num professor que forma as mentes dos jovens.

E porque é uma área que me apaixona, a ligação corpo-mente, espanta-me que alguém que dá aulas de Neuropsicologia, diga em público que a biologia não tem a ver com a psicologia… lá se iria por terra tanto bom estudo e investigação que mostram o contrário. Teriamos portanto biologia de um lado, e psicologia do outro, nada de misturas para não sujar a segunda com a primeira?

“Temos que reconhecer que o ser humano é monogâmico”. Pois, lamento mas não temos, eu não reconheço, nem eu nem muitas outras pessoas que como eu. Parece-me que o senhor acha que o que distingue os afectos é a presença ou ausência de sexo oral. Embora considere tecnicamente exigente fazer sexo oral a duas pessoas ao mesmo tempo, consigo com certeza amá-las ao mesmo tempo, o que me tornará aos seus olhos um caso óbvio de imaturidade cerebral e subdesenvolvimento emocional.

Mas sabe uma coisa Joaquim, eu não o autorizei a definir-me, nem a si nem a nenhum “especialista”. E até estou a tentar respeitar os seus sentimentos, embora não tenha respeitado os meus, porque está a chamar-me e a todas as pessoas que acreditam ou vivem em poliamor idiotas ou mentirosas. Parece-se muito como um daltónico a rir-se das pessoas que “acham que vêem outras cores”.

Os “especialistas” sempre foram bons a definir o que era normal e anormal e graças a eles que têm a certeza daquilo em que acreditam, houve boa gente que passou muito maus bocados, simplesmente por não fazerem parte da opinião dominante da altura … e se há uma coisa em que os “especialistas” são “especialistas” é em mudar de opinião… mas isso já não apaga o que está feito pois não? E também gostam muito é de dar opiniões acerca de coisas que não experimentaram. O Joaquim já esteve envolvido numa relação poliamorosa assumida? É amigo de alguma família poliamorosa? Conhece sequer alguém que o seja? O tudo o que diz é baseado em teorias?

É demasiado fácil escudar-se atrás de uma de muitas teorias científicas para “provar” que quem é diferente de si tem uma falha no desenvolvimento. Teorias são coisas engraçadas, servem geralmente para provar que aquilo que achamos certo é melhor do que o que o vizinho acha certo. E que há uma verdade única que deve servir para toda a gente. Para mim Joaquim, as verdades são como os remédios, o que funciona para um, pode matar o outro.

E só para não acabar sem corrigir alguns erros técnico, numa relação poliamorosa ninguém está sempre nada, excepto vivo. “No poliamor cada um dos envolvidos está sempre envolvido com muitos outros….”, bem Joaquim só se for no seu caso. Isso implicaria uma de duas coisas: a obrigatoriedade de amar um número certo de pessoas, que é exactamente o contrário do poliamor, ou então a obrigatoriedade de se envolver com pessoas que não se ama para manter os números no sítio, o que é igualmente o contrário do poliamor. Pois, aqui o que conta não são os números nem as médias, ninguém está a tentar provar que é normal. O que importa são as pessoas.

E é verdade que há umas pessoas “patológicas”, porque não correspondem a norma e não têm ciúme, sentem até compersion (vá ao Google, Joaquim), mas eu preocupar-me-ia mais com aquelas pessoas que são ciúmentas e por isso são capazes de atrocidades para com as pessoas que “amam” do que comnosco que dê lá a volta que der não incomodamos ninguém (a não ser alguma mente puritana e um tudo nada retrógrada).

Portanto infelizmente acho que houve mais um pequeno erro técnico, esteve a falar de algo que com certeza não se chama poliamor, talvez Joaquimamor ou eventualmente algo que só existe na sua cabeça. O que existe na realidade são pessoas comuns que vão ao supermercado, cozinham , cuidam dos filhos, acordam rabujentas, passeiam na praia, lidam com os seus sentimentos tal como o Joaquim. Só diferem numa coisa, conseguem amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo. Já sei que não compreende, não faz mal Joaquim, não há problema, ninguém consegue compreender tudo, eu com certeza não o compreendo a si, é suficiente aceitar.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A (má) Hora do Sexo

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Já foi há uns dias valentes, mas reparei que o programa "A Hora do Sexo", da Antena 3, voltou a pegar no tema do poliamor (e digo "voltou", porque já lá tinham passado em 2009). E, como não há fome que não dê em fartura, foram logo duas vezes (a primeira aqui, e a segunda aqui). Se se sentirem tentadxs a ir ouvir os dois pequenos programas, de cinco minutos cada um, recomendo que tenham por perto uma bola anti-stress.

A versão resumida das divagações de Quintino Aires é a seguinte: o homo sapiens sapiens é por natureza genética não-monogâmico, mas o ser humano é, por desenvolvimento cerebral, acesso à linguagem e superior inteligência, monogâmico. O "poliamor", por conseguinte, é: a) impossível, porque não podemos amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, apenas desejar ou 'gostar'; b) uma desculpa para pessoas que desejam entrar em comportamentos promíscuos e usam os sentimentos para produzir um discurso politicamente correcto.

Quintino Aires comete tantos atropelos científicos em dez minutos que até faz doer.

Primeiro, ele pretende separar biologia de psicologia (mas é professor de neuropsicologia), de uma forma que faria o António Damásio ter um esgar de dor. Para Quintino, a psicologia de um indivíduo não é mais do que a acção do social sobre o dito indivíduo, uma espécie de transposição de um conteúdo para outro meio. Assim sendo, tecer considerações sobre a natureza genética ou biológica dos indivíduos é inútil, para ele. Ora, com algumas reticências, até aí eu concordo. Mas o passo seguinte é que me fascina. Porque se o nosso funcionamento psicológico é socialmente determinado, isso quer dizer que os nosso sentimentos, conceitos, etc (entre os quais Quintino acertadamente inclui o amor) são socialmente relativos. Ou seja, não têm mais existência objectiva do que aquela que um determinado contexto social cria.
Assim sendo, como é possível sustentar uma definição única, e objectiva, de amor? Se o amor é algo criado psicologicamente, então as diferentes psicologias humanas irão criar diferentes amores, e diferentes formas de amor, necessariamente!

Em segundo lugar, faz equacionar inteligência (neurológica) a uma suposta evolução cultural unívoca e teleológica. Será que desconhece a vasta quantidade de sociedades não-monogâmicas (patriarcais e matriarcais) existentes desde o surgimento do homo sapiens sapiens?

Por último: esta ideia de que não é possível amar mais do que uma pessoa (e que se prende com o primeiro ponto). Como dizem os ingleses... "says who?". Que provas apresenta Quintino Aires para esta afirmação totalmente anti-científica? Pois... nenhumas. É um problema deste tipo de afirmações, feitas com o peso institucional, mas com total irresponsabilidade científica.

No fim de contas, o mais triste é ver supostos especialistas a deixarem os seus conhecimentos de lado, para manipularem a informação que possuem de forma a fazer passar determinadas crenças e ideologias como sendo científicas, verdadeiras, factos terminados. E é contra esta má ciência, e contra esta má divulgação científica - que é uma falha do serviço público que os media Estatais deveriam prestar - que precisamos de protestar, de lutar, e de chamar a atenção.

PS - Não, Quintino, não... Uma sociedade "poliândrica" é aquela onde uma pessoa tem vários parceiros masculinos! E sim, um quadrado cabe dentro de um círculo - a quadratura do círculo é outra coisa completamente diferente...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Palestra sobre Poliamor e Psicologia em Évora - o registo

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A palestra "Poliamor e Psicologia", organizada pelo NEPUE, foi ontem, dia 28 de Fevereiro, em Évora. A quem não pôde estar lá, fica aqui o registo, em vídeo, de um evento que contou com cerca de 70 participantes, e bastante debate!

A representar o PolyPortugal estiveram o Daniel Cardoso e a Sofia Correia.

Deixem as vossas impressões nos comentários!


Algumas informações extra podem ser encontradas aqui, também.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Psicologia e Poliamor - Palestra em Évora

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O Núcleo de Estudantes de Psicologia da Universidade de Évora vai organizar, dia 28 de Fevereiro, uma Palestra Poliamor e Psicologia, a começar às 18:30, na sala 131 do Auditório CES (VER MAPA), e que conta com 2 representantes do grupo PolyPortugal.


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Apesar de o evento ser principalmente vocacionado para (futuros) profissionais no campo da Psicologia, a sessão está aberta a todxs, mediante pré-inscrição. Para mais informações, consultar o evento do Facebook.

Solicita-se a divulgação pelas vossas redes!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Geografias

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Estive ontem com o Paulo Jorge Vieira num congresso, em Lisboa, sobre Geografias - onde fomos ambos apresentar um trabalho sobre poliamor.

Amanhã (dia 29 de Outubro), estarei com a Inês Rôlo na já muito disseminada tertúlia sobre poliamor, promovida pelo Clube Safo, a que convido toda a gente para ir.

É destas coisas, aos poucos e poucos, que também se vai fazendo activismo. No caso do poliamor, esse activismo pode tão-só passar por espalhar a existência da palavra. E é interessante como quase sempre há alguém que acaba a sentir-se tocado pela experiência de ouvir falar de poliamor, e que começa a repensar as suas próprias experiências.

Seja em contexto académico, seja em contexto informal, a minha preocupação é com fazer passar a visão mais inclusiva possível, menos discriminatória possível, mais alargada possível daquilo que o poliamor é visto como sendo, daquilo que ele poderá vir a ser, e de como a mistura dessas várias coisas acaba, sempre, a tingir as experiências de quem vive poliamorosamente. (Só falta saber o que é isso de "viver poliamorosamente"!)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Diálogo sobre Poder e Ética

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Finalmente, depois de uns quantos atrasos, está cá fora, e disponível para leitura, uma conversa que teve lugar entre o Pepper Mint e eu, sobre poder, ética, poliamor e teoria queer.

O Pepper Mint é um autor e activista poly/BDSM famoso, de São Francisco (EUA), que teve, entre outras coisas, um artigo publicado no Understanding Non-Monogamies.

LINK (em inglês)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pedro não sofre de poliamor, não

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Portugal inteiro, ou perto disso, por esta altura já sabe que o Pedro, da Casa dos Segredos 2 (programa da TVI) “sofre de poliamor”. Longe de mim não gostar da disseminação, mas a frase em si levou-me a pensar no que é “sofrer de…” alguma coisa, e como é que isso precisa de ser lido historicamente e ao nível de uma política das identidades.

Há muito tempo atrás, e para dar um exemplo como poderia dar vários outros, a figura do homossexual foi criada. O homossexual foi criado. E foi criado precisamente dentro do contexto de uma patologia. A homossexualidade era uma doença, uma anormalidade que podia ser (talvez) curada, tratada, cuidada – mas, acima de tudo, estudada. É um ponto que tanto Foucault como Lynne Huffer, a partir do trabalho dele, fazem: o surgimento da figura do homossexual é o surgimento de um objecto de estudo científico redutível à verdade epistemológica da sua homossexualidade. Reparem: objecto de estudo. Uma boa parte do movimento LGBTQI desde então tem-se preocupado, justamente, com quebrar esta objectificação dos afectos, desejos, comportamentos.

A quebra desta objectificação entre outras finalidades, tem o objecto de poder criar sujeitos de desejo, prazer, sexo. E isso está ligado à noção de responsabilidade pessoal. Não no sentido do velho debate de “eu escolhi ser homossexual” versus “eu nasci homossexual”, mas no sentido de se poder identificar, obter e utilizar autonomia na vida sexual e erótica / afectiva.

Então, porque é que Pedro diz que “sofre de poliamor”? Porque, se for uma doença, um padecimento, então ele não pode ser responsabilizado pelos seus próprios actos. Se for algo que lhe aconteceu, e não que ele faz acontecer, a culpa não é dele (soa tão cristão, isto, não soa?).
Ora, como o poliamor é uma daquelas raras identidades cuja génese não passou por uma patologização prévia, então há agora quem tente patologizar esta identidade, de forma a, mais uma vez, poder objectificar-se a si ou a outrxs, removendo qualquer complexidade ética e colocando-se a salvo da responsabilidade que daí adviria.

O problema é que o poliamor é uma forma de não-monogamia responsável. Portanto, não. Pedro não sofre de poliamor. Não é possível sofrer-se de poliamor – os afectos não são patologias, e a responsabilidade não é descartável. Mas mesmo que fosse possível, ele continuaria a estar ‘de fora’ – ao que parece, a parte da honestidade não o afecta.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Já fui a Macau...

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A expressão do poliamor em português já chegou a... Macau! Pelas mãos da jornalista Inês Gonçalves, na publicação Ponto Final, chega-nos um artigo sobre poliamor e não-monogamia, e as diferenças culturais das várias experiências não-monogâmicas!

Boas leituras!


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vira o disco

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...e toca o mesmo.

Foi há uma semana que, na sequência de uma conversa via Facebook, Manuel Damas (presidente da CASA) decidiu utilizar o seu programa no Porto Canal (cujo tema já antes tinha sido definido como sendo "poliamor", para essa semana) para, à falta de melhor termo, avacalhar. Que é como quem diz: falou-se pouco (e mal) de poliamor, mas falou-se bastante de mim, das Panteras Rosa, bem como de outras pessoas que andam metidas no activismo.

Não vou pôr-me aqui a desmontar os argumentos simplistas do M.D. (quando se ataca alguém pela forma como anda vestido, já se está a raspar o fundo do barril) porque isso seria aborrecido (para vós e para mim). Mas vou aproveitar a questão para fazer um pouco de meta-análise a algumas coisas que por lá se ouviram, e que julgo serem dignas disso.

Primeira questão - tamanho.
A ideia está repetida até à exaustão que xs poliamorosxs são meia dúzia de gatxs pingadxs que por aqui andam, numa coisa que não tem visibilidade nem credibilidade. Mas a realidade permite-se discordar. Está neste momento, nos EUA, a ser discutido o fim do Defense of Marriage Act e, como não podia deixar de ser, o poliamor está a ser mencionado (explicitamente) como um dos grandes perigos caso se cometa o inominável crime de deixar as pessoas do mesmo sexo casarem entre si (alerta de ironia para quem está a dormir) - por virtude de um argumento slippery slope, "se fazemos X, vamos acabar com Y; logo, não podemos fazer X". No Canadá, a coisa está e tem estado nos tribunais, e mobilizado bastante atenção, criando uma espécie de movimento de avalanche de workshops e reconhecimento social. Nada disto é típico de um tema que, supostamente, só diz respeito a meia dúzia de pessoas... Indirectamente, a oposição ao poliamor (e, já agora, a quaisquer outras formas de não-monogamia consensual e responsável, ou a outras sexualidades ainda menos mainstream) é também a oposição ao avanço dos direitos civis em contexto geral - porque se estão a fornecer argumentos e força às pessoas que supostamente queremos evitar.

Segunda questão - identidade.
Foi atirada a ideia de que o poliamor não é uma identidade. Que é apenas um comportamento relacional ("como a violência doméstica" - que exemplo tão isento, não é?). Mas, agora perguntam vocês, afinal o que é uma identidade? Vamos simplificar: uma identidade é uma coisa com a qual nos identificamos. Algo que dizemos que somos. É um conjunto de atitudes, crenças, valores, padrões morais, hábitos - que são socialmente construídos em interacção connosco. Assim, ser do Rio Ave é uma identidade, ser mulher é uma identidade, ser homossexual é uma identidade e, espanto dos espantos, ser poliamorosx é uma identidade. A sério, isto não é ciência de foguetões. E não me venham com a coisa das identidades essenciais que nunca se mudam e já nascem connosco, porque senão eu zango-me e vou fazer queixinhas à Lisa Diamond.

Terceira questão - amor ou virar mesmo o disco.
Amor... Ah, o amor... essa coisa inefável, indefinível, incomportável... [som de disco riscado].
Alto lá com isso. O "amor" é, como tudo o resto, socialmente e culturalmente variável. Não se ama aqui da mesma maneira que se ama ali. É possível até historiografar a forma como amamos (ou amámos?). O amor, e as relações afectivas, são historicamente variáveis, culturalmente variáveis, espacialmente variáveis... acham que se ama da mesma maneira em todo o mundo, que se vivem as famílias da maneira como nós as vivemos, em todo o mundo? Então acham muito mal... O amor, como qualquer palavra, é polissémico. Muda. E, para não estar a repetir o último link, vai continuar a mudar. Se há coisa que me incomoda é aquele pessoal que acha que pode chegar e dizer: "O Amor Verdadeiro (TM) é assim, assim e assado" [tradução: heterossexual, monogâmico e monoamoroso]. Ou então, o pessoal que tira um dos assins ou assados, mas quer deixar o resto. Porque convém. Porque a cabecinha não dá para mais. Porque não vêem a parvoíce de fazer de conta que as coisas mudam mas não mudam... enfim.

Questão agregada
Porque é que o discurso do M.D. é tão significativo que lhe dedico mais um post? Precisamente pela sua falta de originalidade. O discurso do M.D. é importante na medida em que representa uma determinada postura mental, e não um trabalho de reflexão pessoal criativo. O M.D., com a sua postura contra o poliamor, representa a luta pela institucionalização normativa de algumas afectividades e algumas sexualidades, dentro de um quadro de trabalho essencialista, que defende um conjunto restrito de valores ao mesmo tempo que pretende deixar outros elementos (inseparáveis) intocados. Só que não dá para escolher. A vida não funciona assim - se nós questionamos umas coisas e não outras, eventualmente alguém vai dar pela contradição, pela incoerência, e começar a fazer força nesse sentido.
O M.D. afirma-se herói dos fracos e oprimidos, canta a Ode da Ascensão contra os poderes instituídos - mas o M.D. não quer eliminar a lógica dos poderes instituídos, quer ocupar a posição dos poderes instituídos (ou, vá lá, fazer parte do panteão). M.D. quer um lugar na História, e repetirá para isso o mesmo discurso de quem o queria deixar fora da História. Ele próprio afirma a importância da seriedade, da sobriedade. M.D. deseja comandar respeito, admiração.
M.D. esquece-se que a seriedade e a sobriedade vêm da estrutura patriarcal, machista, homofóbica, misógina e hierarquizante. (Ou não se esquece, e apenas não se importa.) M.D. quer dar cabo dessa estrutura - mas só de um bocadinho...

Vou-me armar em Nostradamus: não. serve. de. nada. A sério. Não serve de nada. As coisas mudam. E ou o pessoal faz parte da mudança, ou o pessoal acaba como este fulano. O paradigma está a mudar. A Gayle Rubin (porra, que eu farto-me de a citar!) já dizia que precisamos de uma nova ética sexual, baseada na forma como as pessoas se tratam mutuamente, e não baseada nos actos que praticam. E sabem que mais? Há quem ande aí a lutar por isso. Não importa o número de pagens que se tem à volta, a repetir o mesmo discurso em eco... Porque, carxs leitorxs, eu vou fundir a Emma Goldman e a Beatriz Preciado e dizer que o sistema patriarcal se caga todo quando se lhe apresenta uma revolução à queer, com dança, festa e sem sobriedade nenhuma. Ou então sou eu que me cago para ele.

Porque o sistema patriarcal É o sistema homofóbico É o sistema capitalista É o sistema racial É o sistema falogocêntrico É o sistema monogâmico É o sistema nacionalista É o sistema de género/sexo binarista... e É uma grande cagada.


Agora, inspirado por uma amiga, deixo-vos uma reflexão profunda, que requer, no entanto, algumas mudanças de apelido...

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

- "Manifesto Anti-Dantas", José Almada de Negreiros

sexta-feira, 25 de março de 2011

Poliamor, mas só fora de CASA

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Manuel Damas é sexólogo (de uma faculdade de medicina, um caso acabado da scientia sexualis de que fala Michel Foucault) e, como se pode ver na sua página do Facebook, acusa os Portugueses de serem "analfabetos sexuais... e emocionais". É também o director do CASA - Centro Avançado de Sexualidades e Afectos. Este centro surge "com o intuito de denunciar todas as formas de discriminação e, acima de tudo, de lutar pela Universalidade do Direito à Felicidade", constando da sua Carta de Intenções "combater todos os actos discriminatórios".

sexta-feira, 4 de março de 2011

Uma palavra com histórias

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Deixo-vos aqui um pequeno ensaio meu, publicado na revista académica Interact, do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem, sobre as histórias por detrás do surgimento da palavra poliamor.

Que sirva a todxs xs académicxs que por aí andam...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Parrhesia

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A minha defesa da tese correu bem... uns belos 18 valores, e muita baba própria pelo caminho como devem imaginar.

A ideia principal é a de que, mais do que uma forma de fazer as relações amorosas, o poliamor é uma forma de pensar a ética nas relações - amorosas ou não. E aí, a parrhesia é fundamental. A franqueza, a honestidade. Esta honestidade é importante, não para a outra pessoa, mas para nós mesmos, para a nossa construção como pessoas, na nossa vida. Um assunto a discorrer mais tarde.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Efémero

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Estava aqui há uns dias a assistir a uma conversa online sobre a questão da duração das relações poliamorosas. O maior questionário alguma vez feito a essa comunidade, de forma não-representativa e online, foi o da Loving More Magazine. Um dos resultados é que a maior parte das relações reportadas por quem respondeu ficava abaixo dos cinco anos de duração.

Duas leituras que se podem fazer daqui: uma sobre o papel do poliamor, outra sobre os nossos conceitos de base sobre relações.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A defesa - confirmada!

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Será mesmo no dia 12 de Janeiro, às 15h, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Torre B, Anfiteatro 1, 1º andar.

Deixo aqui, para quem estiver indecisx sobre se vai assistir ou não, o abstract / resumo.
Esta tese tem como objectivo principal determinar se os utilizadores da mailing list alt.polyamory, ao verterem as suas experiências pessoais em texto, estão ou não a incidir em práticas queer de questionamento da normativização monogâmica e heterocêntrica,

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Boas notícias

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É provisória ainda a data, mas deverei defender a minha tese, sobre Poliamor, no dia 12 de Janeiro. Marquem nas agendas!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Finalmente mais leve

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Tenho andado um bocado calado, é verdade, mas é porque às vezes é preciso pausa e descanso. Entreguei na semana passada a minha tese de Mestrado - tanto quanto sei, a primeira em Portugal sobre poliamor - intitulada "Amando vári@s - Individualização, redes, ética e poliamor".




Depois disso, precisei de uma pausa para descansar, para fazer nada. (Não que a vida profissional permita isso, mas pronto, passei uns três dias a olhar literalmente para as paredes, a dormir - coisa rara nos últimos tempos - e a divertir-me um pouco.)

Olho para trás e reparo que passei dois anos a trabalhar e a reflectir sobre poliamor e que, ainda assim, mal raspei a superfície (resmungo pessoal: uma tese com 60 páginas não permite explorar nada com a devida profundidade). E apesar de o meu tema de doutoramento me levar para longe do poliamor, a verdade é que quero recuperá-lo noutra altura, noutro ponto da minha vida académica, para sobre ele pensar mais aprofundadamente.

Eu sou um cientista social. Isso não quer dizer, porém, que eu seja daquelas pessoas que se vê a si mesma como estando sentada no topo de um observatório impenetrável, através do qual penetra e perfura a realidade para obter uma episteme, uma Verdade. E portanto, aquilo que eu retiro de mais valioso do trabalho que levei a cabo foi a forma como esta investigação me mudou a mim. A forma como este trabalho me permitiu lidar comigo mesmo de uma maneira diferente, aperceber-me mais claramente dos processos dentro dos quais eu me movo; não necessariamente para fugir deles, mas para estar neles com atenção e cuidado, com discernimento.

A ideia central da tese é o conceito foucauldiano de cuidado de si. Cuidarmos de nós mesmos é, não um acto de egoísmo, mas um acto plenamente ético, plenamente justificado e que contribui para uma vida mais positiva para o sujeito. Digo que não é um acto de egoísmo porque não conseguimos cuidar de nós sem termos, connosco, um Outro. Não conseguimos cuidar de nós se não cuidarmos, também, de manter e alimentar as nossas relações com o Outro que nos define, que nos permite definirmo-nos. Na prática, isso implica coisas como estas. Porém, e tendo em conta que venho da área das Ciências da Comunicação, estou relativamente menos interessado no conjunto das práticas, e mais interessado em entender porquê estas e não outras, e de que foram é que elas agem sobre o indivíduo e o constituem como sujeito, com identidade(s) e ética(s), com valores e princípios a seguir.

Ser poliamoroso não é um estado natural. Ser poliamoroso não é um comportamento tipificado. Ser poliamoroso não é simplesmente ser não-monogâmico de forma responsável. Ser poliamoroso é corresponder a uma identidade, é adaptarmo-nos de forma a obtermos reconhecimento. As razões pelas quais necessitamos desse reconhecimento, pelas quais inventamos palavras para em torno delas nos aglutinarmos e a forma como isso nos afecta, à nossa ideia de nós mesmos e à ideia que os outros têm de nós: isso fascina-me, e é na sociologia e na filosofia que procuro encontrar combustível para alimentar estas reflexões.

Quando a tese estiver para ser defendida, procurarei partilhar esta paixão convosco.