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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Diálogo sobre Poder e Ética

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Finalmente, depois de uns quantos atrasos, está cá fora, e disponível para leitura, uma conversa que teve lugar entre o Pepper Mint e eu, sobre poder, ética, poliamor e teoria queer.

O Pepper Mint é um autor e activista poly/BDSM famoso, de São Francisco (EUA), que teve, entre outras coisas, um artigo publicado no Understanding Non-Monogamies.

LINK (em inglês)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Já fui a Macau...

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A expressão do poliamor em português já chegou a... Macau! Pelas mãos da jornalista Inês Gonçalves, na publicação Ponto Final, chega-nos um artigo sobre poliamor e não-monogamia, e as diferenças culturais das várias experiências não-monogâmicas!

Boas leituras!


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Para cuidar de si

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Between the pole of the meditatio [...] and the pole of the exercitatio, [...] there is a whole series of other possible practices designed for proving oneself.
[...]
Epictetus insists that one must be in an attitude of constent supervision over the representations that may enter the mind.
[...]
One can see that this control of representations is not aimed at uncovering, beneath appearances, a hidden truth that would be that of the subject itself; rather, it finds in these representations, as they present themselves, the occasion for recalling to mind a certain number of true principles [...] and by means of this reminder one can see if he is able to respond in accordance with such principles.

- Foucault, The Hermeneutic of the Subject

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Casar ou não casar

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Tendo em conta que hoje ninguém se cala com o raio do casamento "real", vamos então falar de casamento...

«As mulheres e os homens não se deviam casar, porque o amor é como as estações - vai e vem.»
- Yang Erche Namu
Agora vocês estão a perguntar-se quem diabos é Yang Erche Namu ou, até, se Yang Erche Namu é do sexo masculino, feminino, ou outra coisa qualquer... Será um/@ filósofx?

Pois, lamento desapontar, mas não. Yang Erche Namu é uma mulher da tribo Mosuo. Quem seguir o link verá que os seus conceitos de relações são bastante diferentes. Nesta tribo, os homens são convidados pelas mulheres a passar uns momentos (ou umas noites, mas normalmente sem ficarem lá a dormir) com elas. Eles não têm uma palavra para casamento, usam a expressão sese, que pode ser traduzida por "andar" ou "em andamento"; também não têm palavra para "marido" ou "esposa" - usam azhu, que significa "amigx".

Isto não quer dizer que eles têm um arranjo social melhor ou pior do que o nosso. Quer apenas dizer que, sim, existem diferentes formas de viver. Existem sociedades matriarcais, existem sociedades onde o amor não se vive da mesma forma, existem sociedades onde as relações não têm os elementos de pompa e circunstância a que aqui nos habituamos e que transformamos em verdadeiro fetish. Uma coisa é certa: no meio de toda esta exuberância ridícula e desprezível, sem dúvida que a ligeireza e simplicidade dos Mosuo se torna ainda mais interessante para mim.



De onde tirei eu isto tudo? Do fantástico Sex at Dawn, que aconselho toda a gente a ler. Se acharam que o Mito da Monogamia era bom, este consegue ser bem melhor ainda.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Lux Woman e Poliamor

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O grupo PolyPortugal de novo ao ataque na imprensa portuguesa!

Saiu na Lux Woman de Março de 2011 (hoje já nas bancas) um artigo sobre poliamor, onde falam novamente Inês Rôlo e Daniel Cardoso. Chama-se "Amor multiplicado", e pode ser lido a partir da página 138 da revista. Tem inclusivamente chamada de capa - Sou poliamorosa? Descubra já.

Assim que possível, iremos actualizar este post com mais informações. Mas se alguém já leu o artigo, pode dizer o que achou, e disseminar :)


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Efémero

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Estava aqui há uns dias a assistir a uma conversa online sobre a questão da duração das relações poliamorosas. O maior questionário alguma vez feito a essa comunidade, de forma não-representativa e online, foi o da Loving More Magazine. Um dos resultados é que a maior parte das relações reportadas por quem respondeu ficava abaixo dos cinco anos de duração.

Duas leituras que se podem fazer daqui: uma sobre o papel do poliamor, outra sobre os nossos conceitos de base sobre relações.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A defesa - confirmada!

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Será mesmo no dia 12 de Janeiro, às 15h, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Torre B, Anfiteatro 1, 1º andar.

Deixo aqui, para quem estiver indecisx sobre se vai assistir ou não, o abstract / resumo.
Esta tese tem como objectivo principal determinar se os utilizadores da mailing list alt.polyamory, ao verterem as suas experiências pessoais em texto, estão ou não a incidir em práticas queer de questionamento da normativização monogâmica e heterocêntrica,

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ciúme

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Vou apenas resumir, brevemente, a análise que o Pepper Mint faz do ciúme como mecanismo de poder. Aqui, o ciúme será entendido como estando dentro de uma relação romântica. Abstractamente, o ciúme envolve três aspectos diferentes: os sentimentos de uma pessoa face às acções dx sua/seu parceirx, essas mesmas acções, e uma terceira pessoa, vista como rival.

O ciúme pode ser reclamado pela pessoa que o sente como forma de tentar controlar as acções dx parceirx.
O ciúme pode servir como arma de acusação pela outra pessoa envolvida na relação romântica.
O ciúme pode ser suscitado especificamente (ou tentar-se fazer isso) para tentar obter uma determinada reacção da pessoa a quem se está a tentar provocar ciúme.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Finalmente mais leve

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Tenho andado um bocado calado, é verdade, mas é porque às vezes é preciso pausa e descanso. Entreguei na semana passada a minha tese de Mestrado - tanto quanto sei, a primeira em Portugal sobre poliamor - intitulada "Amando vári@s - Individualização, redes, ética e poliamor".




Depois disso, precisei de uma pausa para descansar, para fazer nada. (Não que a vida profissional permita isso, mas pronto, passei uns três dias a olhar literalmente para as paredes, a dormir - coisa rara nos últimos tempos - e a divertir-me um pouco.)

Olho para trás e reparo que passei dois anos a trabalhar e a reflectir sobre poliamor e que, ainda assim, mal raspei a superfície (resmungo pessoal: uma tese com 60 páginas não permite explorar nada com a devida profundidade). E apesar de o meu tema de doutoramento me levar para longe do poliamor, a verdade é que quero recuperá-lo noutra altura, noutro ponto da minha vida académica, para sobre ele pensar mais aprofundadamente.

Eu sou um cientista social. Isso não quer dizer, porém, que eu seja daquelas pessoas que se vê a si mesma como estando sentada no topo de um observatório impenetrável, através do qual penetra e perfura a realidade para obter uma episteme, uma Verdade. E portanto, aquilo que eu retiro de mais valioso do trabalho que levei a cabo foi a forma como esta investigação me mudou a mim. A forma como este trabalho me permitiu lidar comigo mesmo de uma maneira diferente, aperceber-me mais claramente dos processos dentro dos quais eu me movo; não necessariamente para fugir deles, mas para estar neles com atenção e cuidado, com discernimento.

A ideia central da tese é o conceito foucauldiano de cuidado de si. Cuidarmos de nós mesmos é, não um acto de egoísmo, mas um acto plenamente ético, plenamente justificado e que contribui para uma vida mais positiva para o sujeito. Digo que não é um acto de egoísmo porque não conseguimos cuidar de nós sem termos, connosco, um Outro. Não conseguimos cuidar de nós se não cuidarmos, também, de manter e alimentar as nossas relações com o Outro que nos define, que nos permite definirmo-nos. Na prática, isso implica coisas como estas. Porém, e tendo em conta que venho da área das Ciências da Comunicação, estou relativamente menos interessado no conjunto das práticas, e mais interessado em entender porquê estas e não outras, e de que foram é que elas agem sobre o indivíduo e o constituem como sujeito, com identidade(s) e ética(s), com valores e princípios a seguir.

Ser poliamoroso não é um estado natural. Ser poliamoroso não é um comportamento tipificado. Ser poliamoroso não é simplesmente ser não-monogâmico de forma responsável. Ser poliamoroso é corresponder a uma identidade, é adaptarmo-nos de forma a obtermos reconhecimento. As razões pelas quais necessitamos desse reconhecimento, pelas quais inventamos palavras para em torno delas nos aglutinarmos e a forma como isso nos afecta, à nossa ideia de nós mesmos e à ideia que os outros têm de nós: isso fascina-me, e é na sociologia e na filosofia que procuro encontrar combustível para alimentar estas reflexões.

Quando a tese estiver para ser defendida, procurarei partilhar esta paixão convosco.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mutatis mutandis...

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"Eu reclamo a independência da mulher, o seu direito a sustentar-se a si mesma; a viver sozinha; a amar quem quiser, e quantos quiser. Eu reclamo liberdade para ambos os sexos, liberdade de acção, liberdade no amor e liberdade na maternidade” - Emma Goldman, 1930

E agora, mais de oitenta anos depois, uma mulher ainda é mal vista e insultada - por outras mulheres! - por gostar de fazer sexo, ou por se apaixonar, com/por mais de uma pessoa.

E a monogamia ainda é Lei.

E ainda há pessoas que querem casar.

Porquê?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Biologia e confusões

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Ontem, uma pessoa chamou-me a atenção para um artigo na Scientific American, que vale a pena ler. Este aqui.

Quero fazer alguns comentários. Como não podia deixar de ser!



Primeiro, o artigo bem que podia começar pelo quarto parágrafo. Sim, aquele que é suposto ser "uma tangente" ao tema em questão. Há uma boa quantidade de discurso poliamoroso que procura entender o "porquê" de se ser poly olhando para a não-monogamia dos animais, como forma de justificar a não-monogamia humana. Não vejo o interesse. O mesmo é feito com a homossexualidade, de resto. Não vejo o interesse.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Da contratualização - II

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Continuando a partir do post da semana passada... E também para honrar algumas das perguntas da Marquesa do Sado...

Não espantará ninguém se se afirmar que o casamento é um contrato. Um contrato que, no entanto, parece transformar as pessoas em objectos, capazes de ser possuídos por uma outra pessoa-objecto. Já não será novidade para muita gente que não sou propriamente amante da instituição do casamento. Mas o post da semana passada reforçava precisamente a importância do estabelecimento de um contrato - naquele caso, de um contrato contra-sexual (novamente, não confundir com anti-sexual).

É preciso então, para que isto não se transforme numa simples contradição nos termos, definir alguns dos elementos básicos de cada um dos contratos, e porque é que a defesa de um tipo pode coexistir com o pedido de abolição de outro.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Da contratualização - I

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"[...] Uma análise crítica da diferença de género e de sexo, produto do contrato social heterocêntrico, cujas performatividades normativas têm sido inscritas nos corpos como verdades biológicas (Judith Butler, 2001). [...] A contra-sexualidade deseja substituir este contrato social que chamamos de Natureza por um contrato contra-sexual. Sob a égide do contrato contra-sexual, os corpos reconhecem-se a si mesmos não como homens ou mulheres, mas como corpos falantes, e reconhecem os outros também como corpos falantes.
[...]
As práticas de Sadismo e Masoquismo, bem como a criação de pactos contratuais que regulam os papéis de submissão e dominação, tornaram manifestas as estruturas eróticas de poder subjacentes ao contrato que a heterossexualidade impôs como natural.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

As 13 e o Poliamor

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Há uns dias teve lugar um evento que pretendeu discutir as linhas de cruzamento entre poliamor e feminismos, um tema sobre o qual eu e outras pessoas já escrevemos, noutro contexto.

Algumas das questões mais importantes lá mencionadas, para além do que está acima, têm que ver com:
  • posse (do corpo);
  • capitalismo;
  • ligações ao amor livre dos anos 60/70.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Ah, então está bem...

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Andei a ler este livro, só mesmo porque tinha a palavra "poliamor" lá no título, o que ainda é raro o suficiente para me chamar a atenção. E, claro, porque tem como autor um psicólogo, aparentemente, e a maior parte da literatura sobre o poly vem precisamente de psicólogxs.

Devo dizer que este livro me traz memórias. Memórias de mim mesmo, há uns anos. O que, para um livro, é capaz de não ser boa coisa. O livro é optimista em relação ao poliamor, mas optimista por excesso. E, infelizmente, discriminatório, apesar de o tentar esconder.

Cito:
"Etiquetar é, frequentemente, o mesmo que discriminar. [...] Assim sendo, deveria identificar-se a palavra amor com poliamor, e amoroso/amante com poliamoroso, deixando para o amante monógamo o qualificativo pouco usual de monoamoroso."

E termina com um pequeno questionário, que permite descobrir, em 20 perguntas, se a pessoa que está a responder pode ou não ser poliamorosa, lá no fundo.

Então está bem...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Porquê Fourier?

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Charles Fourier é muitas vezes citado como o primeiro autor a falar de poliamor de modo estruturado. é classificado como um socialista utópico, escreve do ponto de vista de um sociólogo radical, e os seus escritos, da primeira metade do século 19, filtrados de muita coisa que já não é actual, são pioneiros em temas como o papel da mulher, do amor, da sexualidade e do trabalho.

A obra "Le Nouveau Monde" trata, e passo a citar, da "mais bela das paixões", do sentimento mais poderoso entre todos, e que não se justifica senão por si mesmo. "Todos têem razão no amor, pois é a paixão da insensatez".


Ao discutir o papel da mulher, como individuo e não como a outra metade dum casal, Fourier ventilou ideias como a de que o casamento tradicional viola automaticamente os direitos das mulheres enquanto direitos humanos. como outros socialistas utópicos, dissertou sobre o aparecimento de uma nova melhorada moral que pudesse substituir as relações - minadas e repressoras - de uma sociedade que se tornou caduca e não adequada para indivíduos livres e emancipados.

Toda a sua obra fala da felicidade, de uma maneira ou outra, e neste livro vários capítulos são dedicados ao amor e ás relações amorosas, à fidelidade, ao livre arbítrio amoroso nos seus vários aspectos, e a desconstrução das relações como elas se encontram estruturadas na sociedade "actual".

Interessante é mencionar também como a homossexualidade, o sexo ocasional ou a escolha sexual consciente do SM são por ele vistas como apenas mais uma das escolhas emocionais possíveis.

"Physical love, which is called brutish, animal, etc. is degraded by civilized legislation and morality as an obstacle to the conjugal system". Fourrier, por seu turno, escreveu capítulos inteiros acerca dele. "the physical impulses, far from being fettered, will be fully satisfied . . . "

Para terminar, uma nota nada lateral: este livro foi publicado em 1967, muito mais de um século depois de ter sido escrito.

Para quem quiser ler,
http://classiques.uqac.ca/classiques/fourier_charles/nouveau_monde_amoureux/nouveau_monde_amoureux.html
http://classiques.uqac.ca/classiques/fourier_charles/nouveau_monde_amoureux/fourier_nouveau_monde_amoureux.pdf

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

No correio

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Chegou-me agora mesmo o "Understanding Non-Monogamies". Ainda só tive tempo de olhar para ele de fugida, mas nem preciso de sair da introdução para apontar algumas coisas interessantes:
  • há um potencial queer e feminista nas relações não-monogâmicas, como o poliamor, mas isto não quer dizer que esse potencial se concretize necessariamente, ou que o potencial para o oposto não esteja lá também;
  • quando refazemos e reconstruímos os nossos contextos relacionais, não podemos deixar de o fazer à luz da forma como fomos educados e da sociedade vigente, queiramos ou não;
  • da mesma forma que existem vários tipos de relações não-monogâmicas, também existem vários tipos de relações monogâmicas, e ensacar tudo no mesmo conjunto cria problemas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Citação

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"A única relação realmente monógama que temos é connosco próprios."

- Monogamy, Adam Phillips

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Trios, mais um livro e mais confidências na primeira pessoa

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Ameacei comecar e continuar a falar de trios há cerca de duas semanas....


Continuo por aqui muito contente com o meu trio, uma das componentes da minha vida emocional raramente aborrecida. Estava relutante em falar disto porque ainda não definimos a coisa, e até porque precisamente o não ter definido a coisa com elas me estava a fazer comichão, a mim, académica empedernida. Até que tive uma epifânia, por voz de uma delas, a mais prática e mais "novata" nestas andanças não monogamicas, a propósito do sentimento que tem acerca de ter uma neta que é a neta da ex-namorada: "Eu não quero saber o que é que vocês lhe chamam ou mesmo eu cá por dentro lhe chamo, mas o que me interessa é o que eu faço ou que esperam que eu faço. Estou me a borrifar como se chama a relação que tenho com ela. Eu só sei que a minha neta precisa de mim, apita, assobia, ri ou chora, e eu estou lá no mesmo instante".

E sim, se calhar não é preciso ir buscar o arsenal de nomes e definições.. Somos amigas? Somos amantes? Queremos ser amantes? Queremos ser amigas? o que é que isso interessa se se calhar até temos nomes iguais para práticas diferentes ou nomes diferentes práticas? se calhar a coisa é toda simplificada por concordarmos no que queremos fazer juntas e no que queremos dar umas às outras. E o resto fica para discutir ociosamente num dia de chuva preguiçosamente passado em casa.

E para quem tudo isto é muito pessoal, fica mais um livrinho mais ou menos indiscreto acerca de trios. Para quem leu o seu Jack Kerouac "On the Road" e tem olho para especular para além das aparências, o livro Off the Road: Twenty Years with Cassady, Kerouac and Ginsberg by Carolyn Cassady nao trará surpresas. Trocando por miúdos, a mulher de Neal, e amante de Jack, conta a sua versão dos acontecimentos que deram origem a "on the Road" e da sua vida com o seu marido - o modelo para a personagem Dean Moriartry. Por um lado ela revela claramente o que se passa entre Jack e Neal, mas apenas sugere ambiguamente uma relação física entre os dois homens.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Punalua

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No seu livro sobre "A origem da Família...", Engels fala sobre um termo que alguns poliamorosos gostam de usar - punalua.

A família punaluana seria uma forma evoluída de modelo familiar - sendo que ele vai buscar o termo e exemplo a um costume havaiano - ainda dentro dos costumes de sociedades consideradas "bárbaras". É interessante ver como este modelo familiar tinha um traço fortemente matriarcal, já que, dentro destas famílias-grupo não era possível estabelecer a paternidade de uma determinada criança, mas era sempre possível estabelecer a sua maternidade. Este era um modelo de coabitação e cooperação em que os membros de um determinado grupo de homens se chamavam punalua entre si, e idem para cada determinado grupo de mulheres.

A análise de Engels leva-nos mais longe, analisando uma evolução nas estruturas familiares a par de progressos civilizacionais, e eis que chegamos ao modelo monogâmico.

Compreender este modelo é importante, creio, para termos uma perspectiva de quais as suas raízes. Porque se é verdade, como já referi várias vezes, que a monogamia pode ser praticada de uma forma igualitária e com respeito pelos direitos e deveres de cada indivíduo, é também verdade que só com a noção das raízes podemos começar a desmontar os processos de dominação que operam nessa esfera.

Diz-nos então Engels que a monogamia

"se baseia na supremacia do homem, com o propósito expresso de produzir crianças cuja paternidade não possa ser disputada; tal paternidade inequívoca é exigida pelo facto de que esses filhos serão, mais tarde, herdeiros daquele pai. [...] O direito da infidelidade conjugal também se mantém adstrito a ele, quanto mais não seja pelo costume [...]"

Vemos actualmente ainda muitas provas de como resquícios destas ideias se mantêm no século XXI. Os homens são, estereotipicamente, os traidores por excelência, os principais preocupados com passar o legado da família (quanto mais não seja, o nome da família, que é o nome do homem).

Ora, se como tenho abordado, é o fechamento da relação monógama que, a contrario, institui a traição, é também ela que retira a possibilidade de cooperação e inter-relação presente entre punaluas. Essa relação não existe dentro de um modelo estritamente monógamo, embora possa, ainda assim, existir dentro de alguns modelos de poliamor em que existe um fechamento das relações a um determinado conjunto de pessoas.

E isso deixa-me, por estranho que possa parecer - porque deveria ser indiferente, não? -, triste. Fico triste porque tenho assistido muito de perto ao quão bela e forte pode ser uma relação entre punaluas, e questiono-me sobre que visão terá a posição mononormativa sobre estas pessoas que resolvem assumir-se como punaluas, que resolvem gostar disso, que daí retiram prazer e compersion.