sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Porque falham as explicações

Publicado por 
Dou por mim, como devem imaginar, a explicar imensas vezes o que é o poliamor, e que sentido faz, etc etc etc. E nem sempre consigo estar a ter estas conversas na net, onde simplesmente envio um link para o site do Franklin Veaux e a partir dessa base tento rearticular algumas das perguntas que as pessoas me fazem.

Fora isso, e quando se está offline, há uma série de argumentos e mecanismos retóricos mais ou menos utilizados de forma generalista para tentar explicar ou desconstruir uma série de noções de base. Ainda assim, é um processo complicado. Complicado fundamentalmente porque esses tais pressupostos, esses dogmas de base que definem a própria definição do que é o amor ou do que são relações amorosas (ou do que é a fidelidade, and so on...) são, no poliamor, repensados.



Deixem-me falar-vos de um exemplo concreto.

Para tentar aumentar a aceitação do poliamor, e fazer de conta que, no fundo no fundo, há poliamor em toda a gente (hah!), dá-se o exemplo dxs filhxs múltiplxs: "Então, mas olha lá, se tiveres duas crianças, não vais amar uma mais que outra, ou não vais deixar de amar a primeira quando a segunda nascer, pois não?". Regra geral, a resposta é do género "Sim, mas...". O que vem a seguir ao "mas..." varia, ficando porém dentro do âmbito da ideia de que há uma diferença fundamental entre estes amores de que se fala aqui (e que os cristãos diferenciariam entre amor eros e philia). Agora pergunto eu: será que a diferença fundamental é o tipo de amor ou, até, o facto de num caso se incluir o sexo e noutro não?


Creio que o problema de base é totalmente diferente. E o problema de base tem a ver com a razão número 1, 2, 3, 4 e 5 pelas quais é complicado para muita gente entender realmente o poliamor, ou mesmo respeitá-lo: é o problema da posse. Ou, se preferirem, é o problema daquilo a que gosto de chamar a coisificação intersubjectiva nas relações íntimas normativas. De outra forma: as pessoas tratam-se umas às outras como objectos. Nomeadamente, neste exemplo: ter duas crianças e espalhar o amor por entre elas não tem problema, porque elas continuam a ser minhas. Se são minhas, estão sob o meu controlo, sob a minha dependência - estão seguras. Na verdade: estou eu seguro no amor que assim invisto porque aqueles seres coisificados estão ali para serem postos ao meu dispor (redundância à parte). Ora, o mesmo já não é possível fazer quando se está a falar de relações amorosas/sexuais entre adultos: nada garante que eu consiga coisificar duas pessoas ou mais ao mesmo tempo, especialmente quando é suposto que essas pessoas tenham as mesmas liberdades que eu...

Portanto, agora já sabem... quando vos disserem que "não é a mesma coisa", aquilo a que no fundo se estão provavelmente a referir é à perda dessa capacidade de coisificar as pessoas de que se fala - filhxs ou amantes.

7 comentários:

Pedro Sousa disse...

Essa parte, até para mim que acredito plenamente no estilo de vida e filosofia do poliamor se torna difícil ás vezes. Mas no fundo sei que são inseguranças minhas conjugadas com a minha incapacidade de aceitação de mim como ser humano falível. Ou uma ego trip. lol.

É normal sentir esse tipo de receios especialmente com a caducidade que se vê em relações hoje em dia.



Bendito dia em que a palavra poli-amor me intrigou. Ainda estaria por esta altura sem perceber como consigo idealizar duas "mulheres da minha vida" e fazer tudo sentido.

Sara Barbosa disse...

Não podia estar de mais de acordo contigo. Aliás, essa conversa d@s filh@s faz-me imensa confusão. Oiço as mães falarem e agirem com os filhos exactamente como se eles fossem objectos ou barro para moldar, ao ponto de eu me questionar e sentir uma má mãe pq sempre acreditei que os meus filh@s são seres com vontades, ideias, opiniões e gostos próprios, independentes e nem sempre coincidentes com os meus.O respeito é, na minha opinião, a única coisa para a qual vale a pena educar. Extrapolando para a questão poly, somos formatad@s para a posse, a fidelidade = monogamia, a dependência ( pelo menos emocional) d@ outr@. É muito complicado ultrapassar isto. Acho que o problema muitas vezes, na cabeça de muita gente passa mais ou menos por esta questão: se há outr@s além de mim é porque eu não sou suficiente, porque @s outr@s são melhores que eu; se eu gosto de mais alguém é porque deixei de gostar del@... somos educad@s para o binarismo e é muito difícil ver para além disto...
( desculpem o tamanho desta reflexão...)
Sara Barbosa

Daniel Cardoso disse...

Obrigado pelas vossas reflexões; como devem imaginar revejo-me naquilo que dizem, e é problemático ver que estas pequenas ingerências e influências na forma de pensar as relações íntimas (seja entre pais e filhxs, seja entre amantes) são bastante mais basilares na forma como pensamos "família", desde muito pequenxs.

Jorge disse...

É engraçado como eu quando confrontado com situação idêntica costumo usar o exemplo dos pais/irmãos em vez do exemplo dos filhos.
Com outros perigos devido ao facto de existirem algumas pessoas que "gostam" mais do pai que da mãe, do um irmão do que doutro, etc, na verdade todos aceitam como senso comum que se gosta tanto de uns como dos outros neste círculo restrito que é a família mais próxima.

Uma vantagem deste exemplo é que apesar de haver sentimento de posse, funciona ao contrário, a mãe e o pai é que "mandam" em mim. Da mesma forma, todos aceitam que os pais pensem por eles próprios, que nós é que dependemos deles, etc.
Outra vantagem é que também se considera senso comum que a mãe e o pai sejam pessoas completamente diferentes, com personalidades diferentes, gostos diferentes, etc. Isto é de facto verdade na esmagadora maioria das famílias.
E no entanto, amamo-los da mesma forma, com a mesma força.
O único ponto em que não dá para pegar é que os pais surgem na nossa vida ao mesmo tempo ao contrário dos filhos, mas aqui basta usarmos irmãos como exemplo.

Apoena disse...

Olha, eh a primeira vez que entro em contato com esse conceito de poliamor. Achei bonita a ideia, claro, afinal, impede a mentira e a traicao ideologica com alguem q vc ama e para de banalizar as relacoes humanas. O sexo pelo sexo comecou muito bonito, perder as amarras, a castracao, mas agora chegou em um ponto em que as pessoas se tocam, tem orgasmos, sem a ideia de q tem em sua cama outro ser humano, outro universo, sem atingir a parte mais bonita do toque com o outro. eh tao lindo quando fazemos amor nao apenas com os corpos, mas com a alma tambem. Agora, me parece dificil que alguem, acostumado a monogamia ou a liberdade extrema, consiga realmente aceitar e viver em harmonia no poliamor.. porem vou ler algumas historias, pesquisar, e depois descobrir se realmente as pessoas conseguem viver felizes assim, ou se eh apenas mais um artificio de fuga, e na verdade, ainda permanecem incompletas (tem pessoas e pessoas neh) att.

Daniel Cardoso disse...

Jorge: É verdade que assim funciona melhor mas, como é bastante óbvio no caso de famílias com várixs irmxs, o sentimento de ciúme entre elxs é naturalizado, ou até visto como engraçado, a não ser quando dá dores de cabeça...

Apoena: Histórias de pessoas que vivem felizes assim não faltam. :) Mas o mais importante é que as pessoas se sintam completas por si mesmo, e não apenas com relações.

O que é? disse...

Para mim parece-me que as relações que criamos como os parceiros se assemelham menos com as relações dos pais com os filhos do que as dos filhos com os pais.... :) é nessas que há o ciúme e o desejo da posse exclusiva: a mãe/pai é só minha! E a fantasia (no caso da criança legítima) de que alguém cuide de nós, tome decisões por nós (com as quais depois até podemos refilar) Será que nos aproximamos das relações adultas como crianças que finalmente podem ter alguém só para si?