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sábado, 11 de outubro de 2014

"Poliamor" reconhecida como palavra oficial

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Pois é, 2014 é o ano em que a palavra "poliamor" deu entrada em vários dicionários online de prestígio.

O Dicionário Priberam define "poliamor" como sendo
Relacionamento de cariz romântico e sexual que se estabelece simultaneamente entre vários parceiros, com conhecimento e consentimento de todos os envolvidos (ex.: o poliamor não deve ser confundido com a poligamia).
Contempla também o adjectivo "poliamoroso".


Descobrimos esta entrada, muito recente, porque a Infopédia fez de "poliamor" a sua palavra do dia!





Como imaginam, é um marco simbólico que ficará para a história do activismo em favor do poliamor e das não-monogamias consensuais em Portugal - quantas vezes já ouvimos que, se não está no dicionário, então é porque não existe! Este é o reconhecimento oficial de que a Língua é algo vivo, que muda e acompanha as vidas das pessoas; que o reconhecimento público e o trazer para o espaço político a visibilidade para as alternativas para além da mono-normatividade tem, de facto, impacto!


Parabéns a todas as pessoas que contribuíram para isto, parabéns a todas as pessoas que, a partir de agora, poderão simplesmente ir ao dicionário ver o que é o poliamor.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Activismo brasileiro

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A notícia já tem uns dias, mas está a chegar à imprensa portuguesa agora: uma família poliamorosa foi fazer-se reconhecer em notário, no Brasil!

No entanto, não deixa de ser interessante que a imprensa portuguesa não vá falar directamente com as pessoas envolvidas, que troque relação poliamorosa por "relação polígama", entre outras imprecisões... como falar de "casamento".


TVI 24

Público

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma marca poliamorosa no activismo português

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A organização Caleidoscópio LGBT lançou hoje uma publicação comemorativa do seu quinto aniversário, chamada "5 Anos 50 Nomes" onde se destacam 50 momentos notáveis do movimento social e activista LGBTQ em Portugal.

Foi com um enorme prazer que encontrámos, por entre esses 50 momentos, a tertúlia que o Caleidoscópio LGBT organizou sobre poliamor, para a qual foram convidadas duas pessoas do grupo PolyPortugal.

Leiam toda a publicação mais abaixo, e juntem-se aqui ao evento de lançamento no Facebook!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vira o disco

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...e toca o mesmo.

Foi há uma semana que, na sequência de uma conversa via Facebook, Manuel Damas (presidente da CASA) decidiu utilizar o seu programa no Porto Canal (cujo tema já antes tinha sido definido como sendo "poliamor", para essa semana) para, à falta de melhor termo, avacalhar. Que é como quem diz: falou-se pouco (e mal) de poliamor, mas falou-se bastante de mim, das Panteras Rosa, bem como de outras pessoas que andam metidas no activismo.

Não vou pôr-me aqui a desmontar os argumentos simplistas do M.D. (quando se ataca alguém pela forma como anda vestido, já se está a raspar o fundo do barril) porque isso seria aborrecido (para vós e para mim). Mas vou aproveitar a questão para fazer um pouco de meta-análise a algumas coisas que por lá se ouviram, e que julgo serem dignas disso.

Primeira questão - tamanho.
A ideia está repetida até à exaustão que xs poliamorosxs são meia dúzia de gatxs pingadxs que por aqui andam, numa coisa que não tem visibilidade nem credibilidade. Mas a realidade permite-se discordar. Está neste momento, nos EUA, a ser discutido o fim do Defense of Marriage Act e, como não podia deixar de ser, o poliamor está a ser mencionado (explicitamente) como um dos grandes perigos caso se cometa o inominável crime de deixar as pessoas do mesmo sexo casarem entre si (alerta de ironia para quem está a dormir) - por virtude de um argumento slippery slope, "se fazemos X, vamos acabar com Y; logo, não podemos fazer X". No Canadá, a coisa está e tem estado nos tribunais, e mobilizado bastante atenção, criando uma espécie de movimento de avalanche de workshops e reconhecimento social. Nada disto é típico de um tema que, supostamente, só diz respeito a meia dúzia de pessoas... Indirectamente, a oposição ao poliamor (e, já agora, a quaisquer outras formas de não-monogamia consensual e responsável, ou a outras sexualidades ainda menos mainstream) é também a oposição ao avanço dos direitos civis em contexto geral - porque se estão a fornecer argumentos e força às pessoas que supostamente queremos evitar.

Segunda questão - identidade.
Foi atirada a ideia de que o poliamor não é uma identidade. Que é apenas um comportamento relacional ("como a violência doméstica" - que exemplo tão isento, não é?). Mas, agora perguntam vocês, afinal o que é uma identidade? Vamos simplificar: uma identidade é uma coisa com a qual nos identificamos. Algo que dizemos que somos. É um conjunto de atitudes, crenças, valores, padrões morais, hábitos - que são socialmente construídos em interacção connosco. Assim, ser do Rio Ave é uma identidade, ser mulher é uma identidade, ser homossexual é uma identidade e, espanto dos espantos, ser poliamorosx é uma identidade. A sério, isto não é ciência de foguetões. E não me venham com a coisa das identidades essenciais que nunca se mudam e já nascem connosco, porque senão eu zango-me e vou fazer queixinhas à Lisa Diamond.

Terceira questão - amor ou virar mesmo o disco.
Amor... Ah, o amor... essa coisa inefável, indefinível, incomportável... [som de disco riscado].
Alto lá com isso. O "amor" é, como tudo o resto, socialmente e culturalmente variável. Não se ama aqui da mesma maneira que se ama ali. É possível até historiografar a forma como amamos (ou amámos?). O amor, e as relações afectivas, são historicamente variáveis, culturalmente variáveis, espacialmente variáveis... acham que se ama da mesma maneira em todo o mundo, que se vivem as famílias da maneira como nós as vivemos, em todo o mundo? Então acham muito mal... O amor, como qualquer palavra, é polissémico. Muda. E, para não estar a repetir o último link, vai continuar a mudar. Se há coisa que me incomoda é aquele pessoal que acha que pode chegar e dizer: "O Amor Verdadeiro (TM) é assim, assim e assado" [tradução: heterossexual, monogâmico e monoamoroso]. Ou então, o pessoal que tira um dos assins ou assados, mas quer deixar o resto. Porque convém. Porque a cabecinha não dá para mais. Porque não vêem a parvoíce de fazer de conta que as coisas mudam mas não mudam... enfim.

Questão agregada
Porque é que o discurso do M.D. é tão significativo que lhe dedico mais um post? Precisamente pela sua falta de originalidade. O discurso do M.D. é importante na medida em que representa uma determinada postura mental, e não um trabalho de reflexão pessoal criativo. O M.D., com a sua postura contra o poliamor, representa a luta pela institucionalização normativa de algumas afectividades e algumas sexualidades, dentro de um quadro de trabalho essencialista, que defende um conjunto restrito de valores ao mesmo tempo que pretende deixar outros elementos (inseparáveis) intocados. Só que não dá para escolher. A vida não funciona assim - se nós questionamos umas coisas e não outras, eventualmente alguém vai dar pela contradição, pela incoerência, e começar a fazer força nesse sentido.
O M.D. afirma-se herói dos fracos e oprimidos, canta a Ode da Ascensão contra os poderes instituídos - mas o M.D. não quer eliminar a lógica dos poderes instituídos, quer ocupar a posição dos poderes instituídos (ou, vá lá, fazer parte do panteão). M.D. quer um lugar na História, e repetirá para isso o mesmo discurso de quem o queria deixar fora da História. Ele próprio afirma a importância da seriedade, da sobriedade. M.D. deseja comandar respeito, admiração.
M.D. esquece-se que a seriedade e a sobriedade vêm da estrutura patriarcal, machista, homofóbica, misógina e hierarquizante. (Ou não se esquece, e apenas não se importa.) M.D. quer dar cabo dessa estrutura - mas só de um bocadinho...

Vou-me armar em Nostradamus: não. serve. de. nada. A sério. Não serve de nada. As coisas mudam. E ou o pessoal faz parte da mudança, ou o pessoal acaba como este fulano. O paradigma está a mudar. A Gayle Rubin (porra, que eu farto-me de a citar!) já dizia que precisamos de uma nova ética sexual, baseada na forma como as pessoas se tratam mutuamente, e não baseada nos actos que praticam. E sabem que mais? Há quem ande aí a lutar por isso. Não importa o número de pagens que se tem à volta, a repetir o mesmo discurso em eco... Porque, carxs leitorxs, eu vou fundir a Emma Goldman e a Beatriz Preciado e dizer que o sistema patriarcal se caga todo quando se lhe apresenta uma revolução à queer, com dança, festa e sem sobriedade nenhuma. Ou então sou eu que me cago para ele.

Porque o sistema patriarcal É o sistema homofóbico É o sistema capitalista É o sistema racial É o sistema falogocêntrico É o sistema monogâmico É o sistema nacionalista É o sistema de género/sexo binarista... e É uma grande cagada.


Agora, inspirado por uma amiga, deixo-vos uma reflexão profunda, que requer, no entanto, algumas mudanças de apelido...

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

- "Manifesto Anti-Dantas", José Almada de Negreiros

sexta-feira, 4 de março de 2011

Uma palavra com histórias

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Deixo-vos aqui um pequeno ensaio meu, publicado na revista académica Interact, do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem, sobre as histórias por detrás do surgimento da palavra poliamor.

Que sirva a todxs xs académicxs que por aí andam...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Duas mulheres-maravilha

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Para quem acha que o poliamor é uma modernice inventada na ressaca dos anos sessenta, ou um delírio de juventude que passa quando as pessoas ficam crescidas, aqui vai um pedaço de trivia.
Em Dezembro de 1941 surgiu pela primeira vez uma personagem que ainda hoje habita a mente de muitos amantes da banda desenhada: a Wonder Woman. Foi uma das primeiras heroínas de comics, e a que mais sucesso teve num mundo de super-homens. Um ano depois, já tinha direito a uma edição só para ela.
O autor desta proeza foi William Moulton Marston, psicólogo e inventor do polígrafo, que uniu as características das suas duas mulheres para criar uma mulher-maravilha. A Elizabeth Holloway Marston, com quem tinha casado, foi buscar a coragem, emancipação e sentido de justiça. A Olive Byrne, com quem passaram a viver, foi buscar os traços físicos: cabelo negro ondulado e olhos azuis. Também as pulseiras metálicas que afastam as balas foram inspiradas pelas que Olive usava, uma em cada pulso. A Wonder Woman lutava não só contra o crime, mas também contra o preconceito, o racismo e o sexismo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mutatis mutandis...

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"Eu reclamo a independência da mulher, o seu direito a sustentar-se a si mesma; a viver sozinha; a amar quem quiser, e quantos quiser. Eu reclamo liberdade para ambos os sexos, liberdade de acção, liberdade no amor e liberdade na maternidade” - Emma Goldman, 1930

E agora, mais de oitenta anos depois, uma mulher ainda é mal vista e insultada - por outras mulheres! - por gostar de fazer sexo, ou por se apaixonar, com/por mais de uma pessoa.

E a monogamia ainda é Lei.

E ainda há pessoas que querem casar.

Porquê?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A estranheza

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O post da antidote de há uns dias motivou-me a também falar um pouco sobre queer.

Não indo mais longe que a Wikipédia, descobre-se que a palavra já vem da Idade Média, com o seu significado de "estranho, esquisito". Foi preciso esperar até à viragem entre os séculos XIX e XX para que alguém começasse a conotar a palavra com orientações sexuais específicas.



Eventualmente, a palavra queer foi novamente reclamada e reconceptualizada (tal como galdérix, no nosso caso), tanto para denotar essas orientações, como também para denotar uma outra coisa, que está muito mais intimamente ligada com queer: a de estranheza.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Da contratualização - III

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A semana passada deixei, a modo de cliff-hanger, a referência a um elemento que faltava criticar no que toca à normatividade das relações consideradas "normais" (passe-se a redundância, vá lá). É uma das coisas que o texto da outra semana menciona: a ingerência de Estado nas relações.

Já vem de muito longe a preocupação estatal com a procriação. Para um país que precisa de se industrializar, que precisa de mão-de-obra à moda proletária, os filhos são uma preocupação fundamental. Porque é que vemos tanta preocupação com as medidas natalistas actualmente, e que já tem tradição? Porque o Estado precisa - ou assim se crê - de regular a sua própria solvência futura, assegurando a disponibilidade de uma matéria-prima fundamental: pessoas. Este movimento político funciona como retórica de legitimação para que uma instituição penetre o corpo dos seus cidadãos - transforma-se numa biopolítica. Claro que parte deste

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Da contratualização - II

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Continuando a partir do post da semana passada... E também para honrar algumas das perguntas da Marquesa do Sado...

Não espantará ninguém se se afirmar que o casamento é um contrato. Um contrato que, no entanto, parece transformar as pessoas em objectos, capazes de ser possuídos por uma outra pessoa-objecto. Já não será novidade para muita gente que não sou propriamente amante da instituição do casamento. Mas o post da semana passada reforçava precisamente a importância do estabelecimento de um contrato - naquele caso, de um contrato contra-sexual (novamente, não confundir com anti-sexual).

É preciso então, para que isto não se transforme numa simples contradição nos termos, definir alguns dos elementos básicos de cada um dos contratos, e porque é que a defesa de um tipo pode coexistir com o pedido de abolição de outro.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

gatxs na caixa

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Mesmo quem não gosta ou não tem de trabalhar com Física ou Física Quântica, conhece o nome de Schödinger. Toda a gente conhece a história do gato de Schrödinger, como veículo para explicar o princípio de Indeterminação de Heisenberg (não é possível saber simultânea e absolutamente a localização e velocidade de uma partícula), em que o abrir de uma caixa para ver se o gato está morto, mata o gato caso ele não esteja já morto. Adiante, talvez não a melhor maneira de começar um artigo sobre poly, mas vão ver que isto é pertinente...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Adele Schopenhauer

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Mais um livro saiu acerca de uma personagem histórica se aproximar do poliamor e não precisar do nome para nada.

Desta vez trata-se de Adele Schopenhauer, irmã do famoso filósofo, e do seu encontro com a Sybille Mertens. Estamos a falar de pleno século XVIII. Ambas independentes, envolvidas nos primeiros movimentos pelos direitos das mulheres e promotoras de encontros e tertúlias. Como habitual no tempo e na classe, casadas com homens que não escolheram. O facto de uma mulher ter uma amante não podia ser considerado motivo de divórcio, e por isso, a situação acabou por ser não só aceite como a própria relação ser cautelosamente cuidada por ambos..

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Porquê Fourier?

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Charles Fourier é muitas vezes citado como o primeiro autor a falar de poliamor de modo estruturado. é classificado como um socialista utópico, escreve do ponto de vista de um sociólogo radical, e os seus escritos, da primeira metade do século 19, filtrados de muita coisa que já não é actual, são pioneiros em temas como o papel da mulher, do amor, da sexualidade e do trabalho.

A obra "Le Nouveau Monde" trata, e passo a citar, da "mais bela das paixões", do sentimento mais poderoso entre todos, e que não se justifica senão por si mesmo. "Todos têem razão no amor, pois é a paixão da insensatez".


Ao discutir o papel da mulher, como individuo e não como a outra metade dum casal, Fourier ventilou ideias como a de que o casamento tradicional viola automaticamente os direitos das mulheres enquanto direitos humanos. como outros socialistas utópicos, dissertou sobre o aparecimento de uma nova melhorada moral que pudesse substituir as relações - minadas e repressoras - de uma sociedade que se tornou caduca e não adequada para indivíduos livres e emancipados.

Toda a sua obra fala da felicidade, de uma maneira ou outra, e neste livro vários capítulos são dedicados ao amor e ás relações amorosas, à fidelidade, ao livre arbítrio amoroso nos seus vários aspectos, e a desconstrução das relações como elas se encontram estruturadas na sociedade "actual".

Interessante é mencionar também como a homossexualidade, o sexo ocasional ou a escolha sexual consciente do SM são por ele vistas como apenas mais uma das escolhas emocionais possíveis.

"Physical love, which is called brutish, animal, etc. is degraded by civilized legislation and morality as an obstacle to the conjugal system". Fourrier, por seu turno, escreveu capítulos inteiros acerca dele. "the physical impulses, far from being fettered, will be fully satisfied . . . "

Para terminar, uma nota nada lateral: este livro foi publicado em 1967, muito mais de um século depois de ter sido escrito.

Para quem quiser ler,
http://classiques.uqac.ca/classiques/fourier_charles/nouveau_monde_amoureux/nouveau_monde_amoureux.html
http://classiques.uqac.ca/classiques/fourier_charles/nouveau_monde_amoureux/fourier_nouveau_monde_amoureux.pdf

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Como será o futuro?

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Estou agora em Londres, num hotel, à espera que venham as horas do jantar. Vai ser num restaurante indiano, boa comida e - felizmente! - não vou ser eu a pagar. O que é que isto tem que ver com Poliamor? Nada.

Mas estar aqui, no Reino Unido, local onde falar de polyamory não faz erguer tantas sobrancelhas em demonstração de desconhecimento, faz-me pensar sobre como poderá ser o futuro. Aqui, já há um dia escolhido para celebrar o poliamor. Aqui surge muito do debate e da actividade em torno do poliamor. Há uma plataforma minimamente montada e organizada, que está a anos-luz do que se faz, neste momento, em Portugal. Quer isso dizer que nós somos os atrasadinhos do costume, ou assim? Não. Mudanças sociais demoram o seu tempo, têm o seu ritmo, e não é por haver algumas pessoas empenhadas no assunto que, da noite para o dia, se constrói algo. Também o Reino Unido passou por esta fase. Também nos EUA se passou por esta fase.

O poliamor tem que ver com uma mudança. Uma mudança pessoal, subjectiva, relacional. E como a mudança não pára de mudar, tenho curiosidade em saber como irá ser o poliamor daqui a dez ou vinte anos. Esperemos que esteja cá para o saber. Mas também sei que, aconteça o que acontecer, há uma série de pessoas a quem é preciso agradecer por estarem a contribuir para que, daqui a esses tantos anos, possamos talvez estar como os poly do R. U. A Lara e a antidote, que escrevem aqui, são duas dessas pessoas.

Conhecê-las, e conhecer o trabalho delas, foi um momento importante da minha vida, como é importante para qualquer pessoa descobrir que existe uma base de apoio, um princípio de trabalho, um esforço inicial feito. Há, certamente, muita gente por aí que não pretende viver relações monógamas. Desse conjunto de pessoas, algumas pessoas quererão inclusive não as viver de uma forma aberta e respeitosa. Descobrir como fazer isso pode ser complicado, pode ser um caminho incerto. Ter referências e guias elimina, por um lado, o medo da anormalidade e, por outro, permite encontrar quem tenha empatia. Isto porque houve quem, a certo ponto, fez um esforço para fazer ver, para tornar visível, essa sua faceta. Porque houve quem tenha empenhado tempo e recursos para fazer com que essa palavra - poliamor - tivesse expressão.

Não basta que as coisas existam. Não basta a ideia abstracta da liberdade de escolha. Para podermos escolher, temos que saber quais as possibilidades. Para isso, é necessária publicidade - o acto de tornar algo público. E eu quero estar aqui quando o Poliamor atingir esse estatuto público. Não estou à espera de nenhuma revolução. Gosto, porém, de ver mudanças. E gosto ainda mais de mudar com elas.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ménage à Trois: o livro

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Não vou escapar à onda de compersion e de revelações ou epifanias que por aqui vai, vou-me deixar contagiar por ela. Assinalo e agradeço a grande generosidade de quem partilhou as suas histórias e maravilhamento com tanta generosidade.

Seguindo então a onda dos meus companheiros de blog, não chegarei ao exagero de proclamar como Rilke que o "amor ideal é a três". Não o fiz para me sincronizar com os meus companheiros, mas embarquei recente e alegremente em mais uma historia a três. Sim, não é a primeira e espero que não vá ser a última. Nao vou começar a contar-vos como eu com cinismo empedernido já acho isto normal, mas sim precisamente o contrário, dizer-vos como me continuo a maravilhar com a beleza frágil e improvável destas constelações. Trios não são particularmente robustos ou estáveis (falo-vos de trios, não de "V"s, e falo-vos de trios para além da duração duma noite curta de verão, ou do que é apenas habitualmente tratado entre lençóis), e exigem, mesmo quando correm bem, muita atenção, continência e cuidado. Estou grata a seja o que for que faz com que estes episódios que tanto aprecio continuem a acontecer, e sempre com grande intensidade, sinceridade e beleza. E adoro o Design for Living, que nos mostra que isto não é modernice.

Tenho mandado uns bitaites acerca de trios ao longo dos anos, porque sempre me marcaram pela sua intensidade e beleza e por os não tomar como coisa óbvia ou fácil. Quem quiser, estão no Our Laundry List (que, a propósito, completa 5 anos de existência) sob a tag "trios" (http://laundrylst.blogspot.com/search/label/trios)

Tenho engatilhada uma série de artigos sobre trios, que espero finalmente me tirem do meu bloqueio literário, e que já agora me tornem rica e famosa, mas para começar deixo-vos com um livro que não é propriamente profundo ou um poço de beleza e poesia, mas que é uma boa plataforma de embarque para os curiosos. Trata-se do livro "Three in Love: Ménages à Trois from Ancient to Modern Times" (Barbara Foster, Michael Foster and Letha Hadady). Os três autores, de backgrounds bastante diferentes e supostamente com conhecimento de causa acerca de trios, tentam construir uma história da Ménage à Trois desde a idade média até aos dias de hoje. Para os cuscos ou simplesmente curiosos, a lista de personagens históricas comprometidas em trios é espantosa.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Punalua

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No seu livro sobre "A origem da Família...", Engels fala sobre um termo que alguns poliamorosos gostam de usar - punalua.

A família punaluana seria uma forma evoluída de modelo familiar - sendo que ele vai buscar o termo e exemplo a um costume havaiano - ainda dentro dos costumes de sociedades consideradas "bárbaras". É interessante ver como este modelo familiar tinha um traço fortemente matriarcal, já que, dentro destas famílias-grupo não era possível estabelecer a paternidade de uma determinada criança, mas era sempre possível estabelecer a sua maternidade. Este era um modelo de coabitação e cooperação em que os membros de um determinado grupo de homens se chamavam punalua entre si, e idem para cada determinado grupo de mulheres.

A análise de Engels leva-nos mais longe, analisando uma evolução nas estruturas familiares a par de progressos civilizacionais, e eis que chegamos ao modelo monogâmico.

Compreender este modelo é importante, creio, para termos uma perspectiva de quais as suas raízes. Porque se é verdade, como já referi várias vezes, que a monogamia pode ser praticada de uma forma igualitária e com respeito pelos direitos e deveres de cada indivíduo, é também verdade que só com a noção das raízes podemos começar a desmontar os processos de dominação que operam nessa esfera.

Diz-nos então Engels que a monogamia

"se baseia na supremacia do homem, com o propósito expresso de produzir crianças cuja paternidade não possa ser disputada; tal paternidade inequívoca é exigida pelo facto de que esses filhos serão, mais tarde, herdeiros daquele pai. [...] O direito da infidelidade conjugal também se mantém adstrito a ele, quanto mais não seja pelo costume [...]"

Vemos actualmente ainda muitas provas de como resquícios destas ideias se mantêm no século XXI. Os homens são, estereotipicamente, os traidores por excelência, os principais preocupados com passar o legado da família (quanto mais não seja, o nome da família, que é o nome do homem).

Ora, se como tenho abordado, é o fechamento da relação monógama que, a contrario, institui a traição, é também ela que retira a possibilidade de cooperação e inter-relação presente entre punaluas. Essa relação não existe dentro de um modelo estritamente monógamo, embora possa, ainda assim, existir dentro de alguns modelos de poliamor em que existe um fechamento das relações a um determinado conjunto de pessoas.

E isso deixa-me, por estranho que possa parecer - porque deveria ser indiferente, não? -, triste. Fico triste porque tenho assistido muito de perto ao quão bela e forte pode ser uma relação entre punaluas, e questiono-me sobre que visão terá a posição mononormativa sobre estas pessoas que resolvem assumir-se como punaluas, que resolvem gostar disso, que daí retiram prazer e compersion.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Onde está a família?

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Esta semana muito se falou de família, pelo que achei por bem terminar da mesma forma.

É frequente ouvir as alminhas mais conservadoras afirmar que a família é a base da sociedade, de qualquer sociedade até. Que representa a unidade mínima, que é uma estrutura em miniatura que plasma depois a ideia de Estado, de Nação. Note-se que, aqui, esta família é uma família nuclear, heterossexual e reprodutiva.

Mas quais são as bases para tal afirmação? E o que dizer das sociedades baseadas em clãs? Porque, na verdade, o que é uma família grande senão um clã? E o que é um clã senão uma possibilidade de configuração cuja complexidade faz lembrar as descrições do ShortOkapi?

Portanto, as famílias complexas, quasi-constelações, são apenas uma expressão precisamente desta mentalidade de clã, destes grupos de pessoas que se juntam por bens e interesses comuns. Falar da família nuclear como base da sociedade é transformar uma unidade social relativamente simplista (a família nuclear) em algo muito mais complexo (base da sociedade), quando existem modelos que muito mais claramente se apontam a si mesmos como bem mais próximos, historicamente, daquilo que são as organizações políticas actuais.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uma família é uma família

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No divisão da casa que destinámos para ser escritório, uma de nós trabalha neste momento ao computador, um outro relaxa ao computador, os restantes conversam sobre não sei o quê, e eu blogo. Há bocado jantámos, três de nós. Os outros ainda não tinham chegado, jantaram uma hora depois. À hora de almoço, eu e outro estivemos a tratar de assuntos com bancos por causa de um crédito. Durante o dia, eu tratei de assuntos diversos, em casa, e os outros nos empregos deles.

Se não fosse o número de pessoas, o que poderia distinguir este relato de um dia normal de um casal? Se não fosse o facto de não haver aqui pais, mães e filhos, qual a diferença entre isto e a vida de uma família convencional? Quem detectaria, pela descrição, que isto só poderia ser uma família intencional?

Daqui a pouco a noite chega ao fim e vai cada um para o seu quarto. Ou talvez haja quartos com mais do que um. Conforme estivermos ou não para aí virados.

Seis semanas ainda é uma experiência muito curta, claro, mas estou mesmo em crer que isto é para durar.

Uma amiga nossa escreveu há pouco no Facebook: "eh pá, grande grande pinta, tiro-vos o chapéu, vocês são fonte de inspiração…" Sabe bem ouvir isto. Qual activismo em marchas e encontros! Se a minha família for realmente fonte de inspiração, que o seja, e para quanto mais gente melhor.

Obrigado à Kerista e aos restantes pioneiros por terem contribuído para espalhar o conceito de não-monogamia responsável.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Schiller, 250º Aniversário

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A 10 de Novembro de 2009 celebrou-se o aniversário de Schiller.
Neste artigo do SPIEGEL, em alemão, há umas frases que chamam a atenção de olhos mais galdéricos.

http://su.pr/4RfKpA

A fonte é uma abundante colecção de apontamentos do seu amigo de juventude Johann Wilhelm Petersen.

Parece que "alguns dos seus conhecidos foram testemunhas de que, durante suas quecas, rugindo e esperneando, não tomaria menos de 25 doses de rapé"

Mas isto é apenas um fait divers, uma cusquice, talvez grosseira, dos seus tempos de juventude e de médico-soldado, e das suas quecas mágicas, muitas vezes em grupo.

Prefiro chamar a atenção para o seguinte:

"(Schiller) via-se como cidadão do mundo, servo de nenhum senhor. Durante muito tempo quis não se ligar a nenhuma mulher em especial, mas por fim apaixonou-se por duas irmãs. Ter-se-ia casado com as duas, mas teve de se decidir por uma delas."

Nomeadamente: "Dia 15 de Novembro de 1789, pela tarde, Schiller sentou-se à secretária e fez o impossível: declarou às duas jovens, na mesma carta, o seu amor por ambas. Era do seu conhecimento, há bastante tempo, que ambas estavam apaixonadas e queriam viver com ele - Como tudo seria posto em prática, não é claro até à data."

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Mundos de ideias

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Vou pegar no post de há uns dias, da antidote, porque me fez lembrar uma coisa muito boa sobre formas não-normativas de pensar relacionamentos.

É verdade que pensar se há mais polys no meio hetero ou no meio LGBT... é um exercício estatístico engraçado. Mas o fundamental, creio, não passa por aí. Passa antes por uma espécie de história das ideias sobre igualdade e luta contra a discriminação.

E identifico no poliamor a inclusão de dois pólos fundamentais: as lutas feministas e as lutas queer. Convenhamos — formas não-normativas de relacionamentos podem ser usadas como ponto de partida (ou podem constituir, inversamente, um ponto de chegada) para o questionamento de outras coisas. Claro que esta não é uma relação de causa-efeito, não é uma relação unívoca. Mas é, creio, um ponto de partida. Porque custa começar a fazer perguntas, mas também custa parar de as fazer.

E o que formas de não-monogamia consentida vieram fazer foi destruir o binarismo/polarismo relacional. O padrão normativo monógamo e o padrão normativo heterossexual têm ambos um grande problema — o binarismo. Ambos supõem dois pólos opostos mas complementares, cuja intersecção não é senão tangencial. Isto facilita papéis de género, isto facilita papéis sexuais, isto facilita papéis de poder. O dominador e a dominada, o ganha-pão e a cuidadora, o poderoso e a submissa.

Como se operacionaliza isso no poliamor? Muitas pessoas, muitas facetas, muita mobilidade. A mobilidade, seja espacial, económica, profissional ou emocional é um espinho muito grande no statu quo. Porque a manutenção do statu quo é a manutenção da imobilidade. Porque é que a mulher não podia viajar livremente sem o marido? Porque é que a sua fuga estava nas cartas, que por ela viajavam? Porém, com tanta mobilidade, torna-se muito difícil amarrar pessoas a sítios, amarrar pessoas a papéis. E se isso serve para mudar a mulher, muda também o homem, sem dúvida. E abre a porta à (con)fusão para os géneros.

Da mesma forma, orientações, comportamentos, desejos e sentimentos (e aqueles a quem estes se dirigem) precisam de ser alvo de questionamento — perigoso será assumir que a pessoa com quem estamos naquele momento deseja apenas alguém do mesmo sexo que eu. Ou presumir que o comportamento sexual e o comportamento emocional têm a mesma orientação. E esse acto, o acto de questionar, o acto de recusar presumir, é o acto que é conquistado, não duvidemos, pelos movimentos feministas e queer. Porque só com o perguntar como hábito é que quebramos a normatividade — que é, por outras palavras, a presunção da irrelevância do acto de questionar.