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terça-feira, 29 de setembro de 2015

Quem define família?

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Durante o meu pequeno percurso poly existiram várias coisas que compreendi e muitas delas me magoaram. Para viver o amor sem mentir e esconder - vivo uma vida de amores a mentir e esconder. Esconder relações. Não estarmos - perante famílias ou em questões profissionais - todxs no mesmo patamar. Ter que optar pela verdade e as consequências implícitas; pela omissão de alguém e me apresentar como pessoa monogâmica - ou omitir todas as relações por me ser difícil decidir quem apresentar. Como apresentar. 

Em tom de piada é recorrente utilizarmos estas situações cá em casa como peripécias poly. Vamos rindo. Ignorando que escolhemos ser esta a nossa vida: um conjunto de peripécias que nos tornam invisíveis e nos magoam.   

Passei a tarde a procurar uma casa mas setenta por cento eram para famílias. Foda-se - quem define família? Esta é a minha família. A família que estou a construir a seu tempo. Que é muitas vezes desvalorizada. Invisível. Que tenho que omitir à minha outra família - a biológica. Que tenho que esconder se tiver medo na rua. Mas é a minha família. Quem define família por mim? Se amo estas pessoas. São um colo e um porto-de-abrigo. São a minha luta constante. Uma luta bonita. Uma casa para uma família é qualquer uma casa para nós. Pessoas que partilham o mesmo espaço. Que se amam. Que se respeitam. É esta a minha família - mas não podemos gritar. Ou podemos - posso. Sempre que posso, grito. Mas não posso gritar que quero uma casa para esta minha família. Vamos sendo magoados. Invisíveis. Somos uma piada - um conjunto de peripécias que escolhemos viver por escolhermos desconstruir o amor e esse é infinito, ainda que lamentavelmente ninguém o reconheça. O acolha. O respeite. No fim de contas esta é uma sociedade formatada, formatada para a falta de amor. Nos vamos sendo pessoas que se riem das peripécias. Que ultrapassam. Que se abraçam. Que vencem. Que são de certo uma família.  

domingo, 31 de março de 2013

Debate - Poliparentalidades

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O grupo PolyPortugal vai estar, dia 6 de Abril, no debate promovido pelo Clube Safo, sobre Poliparentalidades!

Numa altura em que a família nuclear com pai, mãe e filhos é um ideal que se distancia cada vez mais da realidade e num momento em que tantxs vivem já os seus afectos e laços de formas tão diversas, o Clube Safo propõe uma tarde de conversa sobre poliparentalidades. Queremos falar sobre parentalidades diversas, famílias monoparentais, famílias arco-íris, famílias poly. Este debate vai reflectir sobre as vivências diversas do que é família, sobre as mudanças que se têm vindo a verificar e sobre como pais e filhos vivem novas configurações relacionais. Famílias com duas mães, com dois pais, com vários adultos responsáveis e cuidadores são experiências reais que mostram como as pessoas estão a escolher os seus caminhos muito além da normatividade.
Pretendemos com este debate esclarecer o conceito de poliparentalidades, estendendo-o às famílias LGBTQ e poliamorosas, apontando as alterações legais mais recentes e os acontecimentos que cada vez mais colocam estas questões no espaço público. Mas este não é um debate apenas teórico: pais, mães e filhxs estarão presentes para falar do seu dia-a-dia e das suas vivências familiares.


Com a participação de Fátima Marques, Fabíola Cardoso, Daniel Cardoso e Alistair Grant.

Contamos com a presença de todxs para abrir novos caminhos à diversidade e às famílias que estamos a fazer todos os dias! Link para o evento no Facebook.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Activismo brasileiro

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A notícia já tem uns dias, mas está a chegar à imprensa portuguesa agora: uma família poliamorosa foi fazer-se reconhecer em notário, no Brasil!

No entanto, não deixa de ser interessante que a imprensa portuguesa não vá falar directamente com as pessoas envolvidas, que troque relação poliamorosa por "relação polígama", entre outras imprecisões... como falar de "casamento".


TVI 24

Público

domingo, 15 de julho de 2012

O amor do teu amor... teu amigo é?

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O título apresenta-se em forma de pergunta porque é isso que este texto é. Uma série de perguntas para quem eventualmente me possa ler. Vocês, nas vossas vidas, com as vossas pessoas, os vossos percursos, as vossas personalidades, as vossas experiências. Reflecti sozinha, gostava de agora reflectir em conjunto.

No poliamor há, quase sempre, uma qualquer possibilidade de expansão. Expansão de afectos, expansão de intimidades, expansão de sexualidades, expansão de experiências. Quando somxs mais de dois há - para ser perfeitamente óbvia - mais. Mais gente. Mais subjectividades. Mais vidas. Mais vontades. Mais tudo. O tempo é a grande subtracção no meio de tantas somas. Mas isto não é matemática. É mais complexo que isso.

Passamos a vida toda a aprender a "marcar territórios". A marcar espaços de segurança e a defendê-los com unhas e dentes. Na minha relação poly, eu passo a vida a desaprender, a desmarcar, a des-defender tudo e mais alguma coisa. Podia ser tão simples como a escrita: colocar des- à frente de cada palavra, acto e emoção. Contrariar instintos e impulsos. Contrariar sensações. Parece-me sempre tudo um movimento de ir contra uma qualquer maré fortíssima que me pode afogar. A maré, muitas vezes, sou eu.

Sou eu quando conheço amores de um meu amor. Quando conheço amigxs colorids de um meu amor. Quando conheço fuck buddies de um meu amor. Quando conheço pessoa-especial-não-muito-definida de um meu amor. Quando conheço pessoa-a-quem-dou-beijos-às-vezes-mas-não-é-muito-importante de um meu amor.

Ou quando...
Não conheço.

Conhecer ou não conhecer. Saber ou não saber. Estar ou não estar.

Qual é a vossa postura? Conhecem todxs xs amores dxs vossxs amores? E aqueles que não são amores mas são outra coisa qualquer significativa? Preferem conhecer a pessoa pessoalmente e conversar? Ou preferem nem sequer ver uma fotografia da pessoa? Gostam de saber que gostos tem, onde gosta de ir, o que faz? Procuram essa informação para saberem se o vosso amor está bem ou para vocês ficarem bem? Ou seja, para saberem com quem estão a lidar? Onde traçam os vossos limites?

Ao longo da minha relação já experimentei diversas posturas e a minha procura tem sido por aquela que é melhor para mim e para com quem estou. Raramente a encontro e falho constantemente.

Já estive perfeitamente bem durante tardes inteiras em que sabia que um amor estava a ter longas horas de sexo. Estava calma, segura e bem comigo mesma. Outras vezes, essas mesmas horas eram passadas em constante nervoso miudinho, que ia crescendo até não ser já miudinho. Nesses momentos são os olhares para o relógio, o tempo que se arrasta, cada coisa pequena que parece correr mal e a mente que não pára - de fervilhar, de inventar, de deduzir. Sou secretamente mordaz nesses momentos, dentro da minha cabeça. Não dói realmente, mas é um estar no tempo que mói.

Outras vezes estive lá, no momento. Vi beijos e carícias, vi toques. Nada se quebrou em mim. Nada de errado se passava, eu estava bem e estava em harmonia e estava lá.
Mas também já estive lá com dor. Também já estive lá de coração aberto para me sentir bem e não foi bom. Mesmo que só descobrisse depois o que havia doído assim tanto.

Às vezes nem sequer são estes momentos em si. Às vezes é a estranha ambiguidade de sentimentos quando ouvimos a voz de um nosso amor a falar de como foi o seu dia com aquela pessoa. Não é bonito mas quase que é mais "fácil" estar ali quando um encontro corre mal. Abraçar, segurar e dizer que para a próxima vai ser melhor. Mas e... quando o encontro corre bem? Quando fica perto de ser perfeito? A felicidade dos nossos amores devia apoderar-se de nós. Devia não deixar espaço para sentir mais nada do que absoluta alegria. Mas deixa demasiados espaços que tentamos preencher como podemos... O que fazem nesses momentos? Falam sobre isso? Revelam esse medo? Ou tentam colocar isso de parte e preencher com alegria e felicidade aquele momento? 

Tenho descobrido que as minhas escolhas para todas estas situações podem vir a determinar muito a minha vida e as minhas relações. Muitas vezes tenho escolhido uma postura de espectadora... alguém que assiste e apoia, mas que não faz parte da cena. Escolher entrar na cena e ser participante implica saber em que cenas se pode ou não entrar, como se pode entrar e saber como estar. Implica também uma coragem - um put it out there - no fundo uma exposição de nós mesmos a outrxs olhares, toques e perspectivas. Estar exposto pode ser mais fácil para uns que para outrxs. 

Para mim é
ter um coração fora do corpo, 
exposto ao tempo e
exposto ao amor e dor de muitas pessoas.
esse coração quer-se proteger e quer proteger quem ama, nas tem que lidar com os seus batimentos cardíacos, a sua própria pulsação... e não há caixa torácica por vezes. 


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tiquetaque

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E já lá vão 7 anos, hoje, de não-monogamia responsável e consensual.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Marcha do Orgulho

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Em Junho, o PolyPortugal vai estar de novo presente na Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa de 2011.

Temos discutido a eficácia de uma marcha deste tipo ou do PolyPortugal na marcha, e até o nome da marcha, mas estamos certos de que o valor simbólico da nossa presença permanecerá sempre válido.

A organização da marcha deste ano criou dois pequenos vídeos de divulgação, com diversas pessoas respondendo, num deles, à pergunta «Porque é que eu sou ativista?»; e, no outro, às perguntas «O que é que o orgulho LGBT significa para mim? Porquê falar em orgulho?».

No vídeo sobre o orgulho, o João Louçã, ativista das Panteras Rosa, fala também de nós (depoimento aos 2:36), nestes termos: «Orgulho porque os modelos de família que existem hoje estão muito para além do amor exclusivo e monogâmico. Orgulho porque sair para a rua é importante, é percebermos que há outras pessoas como nós.»

Aqui está o vídeo, na íntegra. Obrigado, João.

sábado, 2 de abril de 2011

Reequilíbrio

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Em termos de poliamor, de amor e intimidade, ou relações no geral, não sei o que é melhor ou pior, normal ou anormal, e isso cada vez me interessa menos. Por outro lado, saber o que é autêntico e me faz sentir viva, interessa-me cada vez mais.
É difícil escrever sobre a minha identidade afectiva. Quero, mas bloqueio. Há demasiada emoção e as palavras não conseguem corresponder. Tenho medo de ser mal compreendida, mal interpretada. Aprendi pela experiência que isso é possível, até provável, e sobretudo doloroso.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Tenho andado à rasca...

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Há semanas que não punha as teclas neste blog, mas se começasse a explicar porquê, provavelmente teria matéria para vários posts. E não falta quem me diga que faça isso precisamente, de modo que... cá vai uma tentativa de muro de lamentações.
A nossa família poly perdeu um membro. O que nos levantou, entre outras questões, a de encontrar outra(s) pessoa(s) para poder manter a casa. Fizemos um par de "propostas de casamento", recebidas com muito entusiasmo e honra. Mas depois de alguma ponderação, a resposta de ambos os lados foi a mesma e pode ser resumida nesta frase: "Não dá, estamos à rasca".
Tenho sempre algumas dúvidas sobre fazer deste blog uma coisa demasiado política, por mais que me digam que "o pessoal é político". Mas a verdade é que a situação em que estamos todos me influencia diariamente. Não só a vontade de escrever, mas também o ânimo de ir trabalhar, a libido e a disponibilidade para cozinhar, "a paz, o pão, habitação, saúde, educação. Só há liberdade a sério quando houver liberdade de mudar e decidir."
Não é por acaso que aqui se escreve menos ou há ainda poucas pessoas nos nossos encontros, apesar da divulgação na imprensa ter sido nos últimos tempos maior e mais constante do que nunca. As pessoas andam à rasca. Isso vê-se no trânsito, na fila do banco e nos bancos das escolas. Os níveis de stress e angústia atingem uma escala que não me recordo de ver. E com os problemas diários que se acumulam e agigantam, não será surpreendente que as pessoas não tenham vontade de questionar instituições como a monogamia.
A liberdade existe na teoria, mas faltam os meios. Falta a visão a longo prazo, impossibilitada pela precariedade. Eu, como quase todas as pessoas que conheço da minha geração, sou precária e mal paga. Mas só por mais uns meses, até voltar ao desemprego.
Acredito que isto se passe um pouco por tudo o que é forum e grupo de coisas "idealistas". O tempo não está para os sonhadores, dirão alguns. E por um lado têm razão. Mas queixarmo-nos para nós próprios e para o vizinho do lado não tem nenhum resultado a não ser chatear e desanimar ambos.
A manifestação que está marcada para o próximo dia 12 também não terá grande resutado prático. O governo não vai cair. Para isso seriam precisos milhões nas ruas em vez de escassos milhares. Seria preciso acreditar que há na calha uma alternativa melhor, quando na verdade o que se deve questionar é todo o sistema político e econónimo. Mas isso leva tempo, dá trabalho. E levantar os olhos do próprio umbigo, parecendo que não... ainda faz suar um bocadinho.
Normalmente não acredito em greves que não sejam de zelo e parecem-me as manifestações uma coisa em muitos aspectos ultrapassada. E no entanto lá estarei no Sábado. Não por acreditar que a minha presença vai acabar com a crise e as injustiças. Mas por me recusar a ser espezinhada em silêncio e ainda agradecer. Vou lá estar para olhar nos olhos todas as pessoas que, como eu, estão à rasca, umas ainda mais do que outras. A geração a quem se prometeu tudo e que assiste estupefacta ao(s) rato(s) que da montanha nascem.
Se não servir para mais nada, que sirva de terapia de grupo, para dizermos uns ao outros que não estamos sós, que não desistimos e não somos estúpidos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Valentim a 3

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Pelo terceiro ano consecutivo, o meu Dia dos Namorados foi... diferente daquilo que é suposto ser "a norma". Sabem, aquela coisa romântica do casal, as flores, o jantar à luz das velas.
Bem... Houve flores. E houve jantar. E havia velas, sim.
Só não éramos simplesmente um casal.
Éramos três.

Foi, portanto, a três, o meu Dia dos Namorados. Três, a nossa pequena constelação familiar; três: eu, namoradx, e punalua. Três. Três que lanchámos juntos, apanhámos chuva juntos, jantámos juntos, dormimos juntos. E, pelo meio, sabem o que houve, para estes três? Risos, divertimento, felicidade. Conversas sobre amigos. Planos para o futuro. Umas quantas fotografias tiradas. Uma tarte de limão merengada absolutamente deliciosa, para mim. Waffles, para elxs.
E, por algum motivo estranho (quem me dera poder achar isso normal!), não houve nem um olhar suspeito na nossa direcção. A noite inteira. Enquanto ríamos, nos beijávamos e chamávamos nomes carinhosos uns aos outrxs. Ninguém nos seguiu com os olhos, ninguém agiu como se fossemos algo de estranho. E não éramos, de facto. Éramos apenas pessoas a celebrar o Dia dos Namorados.

Foi... quase perfeito, o meu Dia dos Namorados. E o que faltou à sua perfeição não esteve, em nada, relacionado com sermos 3 e não 2. Sermos 3 é, para nós, motivo de felicidade.

Sabem uma coisa? Não somos "a norma". Não pertencemos a ela. Pode ser que sejamos sempre vistos como diferentes, como "o outro" perigoso que deve ser temido. Pode ser que haja sempre discriminação à nossa volta. Ainda assim, não quero voltar ao Dia dos Namorados normal, mono-heterocêntrico. Gosto que sejamos 3. Gosto de partilhar este dia com o meu amor e o amor do meu amor. E o meu desejo é que venham a haver mais amores com quem o partilhar. Amores com quem possa estar assim, amores que achem que a norma é, afinal, isto. Um Dia dos Namorados a 3, 4, 5. Um Dia dos Namorados a quantos o coração quiser.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Poliamor para leigos na TV

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Um poliamoroso num programa de mockumentary (falso documentário em comédia, tipo The Office) não é coisa que aconteça muito. Ainda menos em Portugal. Trabalhar num canal de televisão deu-me, no entanto, essa possibilidade.
Honra seja feita aos meus colegas guionistas, que resolveram fazer de mim protagonista deste episódio do programa Isto é o Q? (canal Q, posição 15 na Meo, domingos às 22h40). Aqui fica, na íntegra:


Gostei bastante do resultado final, mas o melhor não ficou registado. Já depois de tudo gravado e montado, um dos câmaras entrou numa conversa onde estava eu a falar com outros colegas de trabalho, e pergunta ele, incrédulo: «Mas espera lá, então isso do poliamor não foi inventado por vocês? Isso existe mesmo?»
Acreditem, este meu colega não foi inventado, existe mesmo…

domingo, 31 de outubro de 2010

«The price of freedom is death...»

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Foi precisamente há uma semana atrás que apareci numa peça da TVI, dois minutos e quarenta e cinco sobre poliamor. Dei a cara e o nome, a minha voz por uma identidade. Uma minha identidade. As duas frases que disse nos segundos que me foram reservados nestes dois minutos e quarenta e cinco tiveram muito pouco a ver directa e especificamente com poliamor. Tiveram mais a ver com a minha posição política como feminista, com uma luta que tem vindo a ser a minha por muitos anos, a luta pela visibilidade, pela quebra do silêncio. Foi como feminista que falei da minha vida, das minhas opções pessoais, da relação que escolhi. Falei em meu nome, falei pela minha relação. No fundo de mim, eu queria falar por todxs xs que estão em silêncio. Falar é sempre político e eu sabia que o impacto para mim seria grande. E foi.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Oh, whistle and I will come to you, my lad!

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Ameacei começar e continuar a falar de trios há quase um ano...e na verdade este texto tem também quase um ano (sou vaga de propósito acerca das datas para proteger a identidade das pessoas a que diz respeito.)

"Continuo por aqui muito contente com o meu trio, uma das componentes da minha vida emocional raramente aborrecida. Estava relutante em falar disto porque ainda não definimos a coisa, e até porque precisamente o não ter definido a coisa com elas me estava a fazer comichão, a mim, académica empedernida. Até que tive uma epifania, por voz de uma delas, a mais prática e mais "novata" nestas andanças não monogâmicas, a propósito do sentimento que tem acerca de ter uma neta que é, para os mais técnicos de vós, a neta da ex-namorada: «Eu não quero saber o que é que vocês lhe chamam ou mesmo eu cá por dentro lhe chamo, mas o que me interessa é o que eu faço ou que esperam que eu faça. Estou-me a borrifar como se chama a relação que tenho com ela. Eu só sei que a minha neta precisa de mim, apita, assobia, ri ou chora, e eu estou lá no mesmo instante».

sábado, 4 de setembro de 2010

Ser Punalua

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Aqui há uns meses, largos meses já, uma das contribuidoras deste blog, a antidote, sugeriu que falássemos sobre os nossos amores-cunhados, ou, usando o termo que prefiro, punaluas. Não o fiz na altura, mas estou sempre a tempo, não é?
Eu vivo alegremente uma relação punalual, como costumo dizer, faz exactamente hoje 10 meses (e aproveito para dar os parabéns ao feliz casal!). E digo que vivo alegremente esta relação, porque é uma relação que me traz de facto muita alegria, compersion, e uma profunda sensação de cumplicidade. Tenho a indiscutível sorte de ser muito parecid@ com el@: partilhamos gostos, interesses e referências, identificamo-nos em tantos pontos que isso já se tornou piada entre nós os três. E isso ajuda, ajuda muito a lidar com uma situação em que podem sempre surgir inseguranças. Sim, porque isto não é perfeito, claro que não: qualquer um de nós pode ter, e já teve, momentos complicados. Como é que se lida com isso? Comunicação faz magia. E, no meu caso pessoal, lembrar-me do quanto gosto destas duas pessoas tão parecidas comigo. Lembrar-me que el@ é, de facto, a pessoa a quem escolhi chamar punalua.

sábado, 28 de agosto de 2010

Desse lugar de medo…

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«We are crazy but who cares
To our heaven there are stairs»
Xandria, Only For the Stars in your Eyes


Há uns dias alguém me recordou o que eu mesma havia dito há algum tempo. Que foi com medo que comecei a melhor coisa da minha vida.

Há um ano atrás a minha vida estava uma confusão e eu descobria que gostava também de mulheres, para além de homens. Aliás, descobria que gostava bastante mais de mulheres. Tão mais que a carapuça da bissexualidade me serviu pouco tempo. Sou lésbica, sou queer, sou apaixonada pelo meu companheiro, sim, um homem. Foi com ele que comecei a minha primeira relação (que poderíamos dizer “séria”, não gosto do termo, prefiro queer, de novo) a nível afectivo, amoroso, sexual.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Tendências

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Porque é que uma das coisas que mais fascina xs leitorxs deste blog é a tag "histórias pessoais"? Será pela mesma razão que o Big Brother foi um sucesso? Ambos são, de uma maneira ou outra, casos de exposição mediática voluntária. E apesar de este nosso cantinho não ter a mesma projecção que o dito programa teve, isso não quer dizer que seja fundamentalmente diferente.

Os humanos são seres sociais, são seres que aprendem por imitação. E isso é uma das razões pelas quais olhamos para quem está à nossa volta. Através das experiências que partilhamos e vemos serem partilhadas, procuramos aprender algo que nos possa ensinar, a nós, o que fazer em situações análogas.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Uma curta história

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Na quarta-feira, fui esperar I. ao trabalho, almoçámos juntxs. Um bife aux champignons (deva-se dizer que 3 bocadinhos de cogumelo talvez não sejam suficientes para fazer merecer o nome, mas pronto).

Passámos a tarde juntxs. Umas horas depois, já em casa, chegou S., que foi tomar banho depois de um aturado dia de trabalho. Entretanto, I. pôs-se a fazer um jantar delicioso, e eu ajudei (adoro cozinhar, mas desta vez I. queria mostrar um ar de sua graça culinária)*.

Entre sobremesa, café, filmes e animação japonesa, fomo-nos deitar tarde. E se o sono era muito, a vontade de galhofa era ainda maior, e só umas três horas depois é que conseguimos adormecer. Já me doía a garganta de tanto rir, mas são acidentes da vida, vá...

Dia seguinte (tecnicamente, o mesmo dia, não é?), e às dez da manhã já me estou a levantar para fazer o pequeno-almoço para toda a gente. Vestimo-nos e saímos para ir ao cinema, com mais gente.

E por aí em diante, poderia continuar... Claro que nem sempre corre tudo bem. Claro que nem sempre é fácil lidar com tudo o que acontece. Mas são estes pequenos momentos da minha vida que me fazem perceber que a pergunta "Mas será que o poliamor é possível?" não faz sentido nenhum.




[*NOTA: Estou mesmo a ver que esta vai ser uma das grandes confusões poly da minha vida: mas afinal quem é que cozinha? Ou, antes, afinal quem é que é deixado de fora da tarefa de cozinhar, porque é quase à moda de "sete-cães-a-um-osso".]

segunda-feira, 7 de junho de 2010

"e as crianças, senhor?": Campo "quem vive com quem"

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Mais um evento que não é directamente poly mas bastante poly relevante.
Trata-se do acampamento "Quem vive com quem" (Who lives with who, why and how), que trata simplesmente de abordar os temas e definições acerca de família e vida privada, nunca esquecendo que por muito privada que seja, não deixa de ser prementemente político. Nomeadamente, quando se toca no tema "crianças", mesmo em sectores revolucionários, geralmente vem associado todos os termos habituais como "família nuclear", "pais", "família de referencia" e outras soluções ou constelações são geralmente consciente ou inconscientemente ignoradas.

Para quem pensa noutras constelações, ou já passou do pensamento à prática, este é um sitio para partilha de experiências e conspiração de utopias. Possíveis, claro.

25.07-01.08.2010, perto de Berlim.

http://werlebtmitwem.blogsport.de/camp-2010/english/

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Foder e ir às compras

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É raro surpreender-me com teatro em português. Ou melhor dizendo, com os actores. Ver uma peça com quatro pessoas, em que todos são bons e alguns têm momentos brilhantes, não me acontece todos os dias. Esta está descrita como “uma metáfora da sociedade de consumo”. Mas ali, do alto daquela cadeira instalada no palco, vi metáforas para tudo e mais alguma coisa, ao melhor nível da minha professora de Português do nono ano. Para mim, tudo aquilo fala essencialmente da dependência que temos do amor, e do amor que temos às nossas dependências.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

3

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Estou constantemente a lembrar-me deste post da antidote, que me marcou. Quanto mais não seja, porque entendo o que ela quer dizer com "a beleza frágil e improvável destas constelações".

Estou num "V", já estive num trio ou triângulo. E ambas as experiências me deram/têm dado elementos de maturação pessoal e sentimental muito grandes. As dinâmicas são diferentes, e há problemas que fazem sentido num caso e noutro nem por isso - e vice-versa. A questão da intimidade - sexual, emocional, ou de outros tipos que não me ocorrem agora - é um desses factores que tem como hábito ser diferente entre V's e triângulos.

Claro que as pontas de um "V" podem ser, entre si, bastante íntimas - e aqui entra a ideia de punalua, de que já vári@s participantes falaram aqui - e isso permite, a quem está "no meio", apreciar uma sinergia potencialmente intensa. Sinergia essa que até tem, ocasionalmente e quanto mais não seja, por piada, o pormenor interessante de esse vértice ser um ponto de contacto muito forte entre as tais pontas - já me senti "assunto de interesse comum" mais do que uma vez, como quem fala de um livro, uma personagem ou uma música. E tem piada, para mim.

Não faço ideia se há alguma tendência de V's se transformarem em triângulo, triângulos em V's (também já estive numa situação assim, mas não como vértice). Mas sei que estar num V que, às vezes, mais parece um triângulo, é divertidíssimo. Tem piada. Sabe bem. O futuro entusiasma-me e só não me posso esquecer de ter a calma de esperar que ele chegue enquanto vou ter com ele, de sorriso nos lábios e com vontade de construir vidas plurais, reticulares. Em triângulo, V, W, X, Y, Z, ou quantas mais letras se lembrarem de usar, ou figuras geométricas. Talvez até mesmo em 4D?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Esta tarde...

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Estou em casa, a trabalhar no portátil. Ao meu lado, no sofá, está uma das pessoas com quem tenho uma relação. Mais ao lado, no chão - porque gosta de se sentar no chão - está a outra pessoa com quem tenho uma relação.

Ambas as pessoas a conversar sobre literatura, enquanto ouvimos música.

E nada disto é especial, nada disto é diferente. Apenas é. É uma família, é uma rede de amizades e amores.