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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Quando um artigo não basta

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Recentemente fui convidada a ajudar na concretização de um artigo, bem como o Daniel. Este consistia em explorar o poliamor – foram-nos enviadas questões que ajudassem a construir o que a jornalista pretendia realizar. Numa sociedade tão mononormativa parece-me óbvio que se valorizem os trabalhos feitos nesse sentido: o da desconstrução.  

Antes de passar à parte em que explico as motivações de estar a escrever este artigo quero explicar que da minha parte, responder a perguntas com uma data limite e alguma pressão, deixa-me ansiosa e acaba por gastar do tempo que posso utilizar para mim. Se o faço é com a consciência da importância de levar a outras pessoas a minha experiência e sobretudo a forma como a minha felicidade está para lá dos socialmente correctos. Aquilo que espero que aconteça com as coisas que digo é que sejam utilizadas de forma honesta. Quando isso não acontece é revoltante. Estamos a contribuir para o que afinal? 

Posto isso, quando li o artigo pensei que estava devidamente apresentado. Li em simultâneo com um dos meus amores que ficou claramente revoltade quando lê que também elx estava numa relação com outra parceira minha. Tentei justificar que eu nunca disse isso, que não entendia porque é que tinha sido colocado dessa forma. Imaginei ser um erro de interpretação da parte da jornalista, a qual contactei a explicar que essa parte estava errada através de e-mail – o qual não opti resposta até hoje.  

Rapidamente percebi que o título não fazia jus a uma das minhas respostas. Porquê que um só amor não basta? "Eu não defendo a ideia de que o poliamor é a resposta a: um amor não basta. O poliamor é a resposta a uma liberdade individual e relacional, consequentemente. É trabalhar os ciúmes, a comunicação e a possessividade." A primeira frase não foi colocada no artigo, tudo o resto que a acompanha sim. No entanto quando li as respostas do Daniel fiquei com a sensação de que ele se mostrava concordar com essa ideia de que apenas um amor não basta. Respeitei que não fosse apenas a minha opinião que contasse, que talvez ele tivesse essa linha de pensamento que acabava por sustentar o título do artigo. Surpresa – ele não tem essa linha de pensamento. Aliás, também a resposta dele não foi colocada por inteiro. Novamente a primeira parte da resposta não foi colocada



No fundo a jornalista não queria motivos para ter que alterar o título sendo que este é geralmente o que faz um artigo - é aquele que incentiva a leitura do público, ou não. Isto é tudo muito bonito se o título fosse de encontro com aquilo que foi respondido pelas pessoas poliamorosas. Desta forma é só uma estratégia que atropela duas vozes. Honestamente? Estou cansada que me atropelem a voz. Vejo também no Daniel uma enorme responsabilidade quando responde a este tipo de questões. Com a consciência de uma percepção masculina, com o activismo e toda a informação que tem, se existir uma má interpretação da leitura isso irá reflectir-se nos olhos sociais que o podem ler de forma errada, afectando o seu Eu bem como o das companheiras devido a esta sociedade heterocismonormativa e machista.

Quando nos dão o "poder" de falar, quem o faz tem que ser consciente relativamente ao trabalho que está a apresentar. Um mau jornalismo significa a entrega de uma má informação. Leitorxs desinformadxs geram ignorância, esta pode influenciar a forma como reagem a realidades que não as que conhecem. Não devia o jornalismo fazer o oposto? Sim. Oferecer informação, consciencialização e sobretudo ferramentas para a exploração de outras formas de viver as relações: românticas ou não.   

Para finalizar: porquê que um amor não basta? Um amor basta se eu disser que basta – no entanto ninguém pergunta porquê que uma só amizade não basta. A sociedade é que exige um único amor romântico. Possessividade. Objectificação. Mas há uma coisa que basta: atropelarem a nossa voz e aproveitarem-se de minorias para fazer um jornalismo arrogante. 

sábado, 11 de outubro de 2014

"Poliamor" reconhecida como palavra oficial

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Pois é, 2014 é o ano em que a palavra "poliamor" deu entrada em vários dicionários online de prestígio.

O Dicionário Priberam define "poliamor" como sendo
Relacionamento de cariz romântico e sexual que se estabelece simultaneamente entre vários parceiros, com conhecimento e consentimento de todos os envolvidos (ex.: o poliamor não deve ser confundido com a poligamia).
Contempla também o adjectivo "poliamoroso".


Descobrimos esta entrada, muito recente, porque a Infopédia fez de "poliamor" a sua palavra do dia!





Como imaginam, é um marco simbólico que ficará para a história do activismo em favor do poliamor e das não-monogamias consensuais em Portugal - quantas vezes já ouvimos que, se não está no dicionário, então é porque não existe! Este é o reconhecimento oficial de que a Língua é algo vivo, que muda e acompanha as vidas das pessoas; que o reconhecimento público e o trazer para o espaço político a visibilidade para as alternativas para além da mono-normatividade tem, de facto, impacto!


Parabéns a todas as pessoas que contribuíram para isto, parabéns a todas as pessoas que, a partir de agora, poderão simplesmente ir ao dicionário ver o que é o poliamor.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

PolyPortugal em "Queridas Manhãs" - SIC

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O PolyPortugal esteve hoje representado pela Fátima Marques no programa "Queridas Manhãs", da SIC. Vídeo já disponível, basta clicar na imagem abaixo!



A quem tiver televisão por cabo, o programa pode ser visto de novo, e a Fátima surge na segunda parte do programa.

sábado, 2 de junho de 2012

Nunca

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Nunca o provérbio “se não os podes vencer, junta-te a eles” fez tanto sentido. Não que eu queira vencer alguém, mas é a frase que me vem à cabeça cada vez que penso no que aconteceu este último mês. Sempre fui ciumenta. Quando estava numa relação, essa pessoa era minha e só minha, eu dela e só dela. Compreendia o poliamor, lutava pelo direito a amar mais do que uma pessoa, mas tinha a certeza que nunca iria embarcar numa relação a três, quatro, muitos. Ah, não. Achava que não era para mim. Que os meus ciúmes não iam nunca permitir uma relação deste tipo.

Quando surgiu a oportunidade de passar umas semanas numa comunidade de amor livre (que por razões de privacidade não vou identificar, tal como não me vou identificar), a minha mente e o meu coração fecharam-se. “Estou numa relação, por isso não vou procurar nada nem deixar que aconteça”, foi a resposta que dei ao meu namorado. Ele pediu-me que deixasse as portas abertas, que se o meu coração se fechasse ao exterior também se fecharia a ele (talvez?). Eu, na minha posição de fazer finca-pé, assegurei-lhe que nada se iria passar, porque eu não queria.

Mas passou-se. Não se trata de uma questão de querer, as coisas simplesmente acontecem. As minhas defesas foram caindo umas a seguir às outras quando via uma certa pessoa da comunidade. Desejava-o, gostava de estar na companhia dele e cada pequena acção me parecia um sinal. O simples facto dele se vir sentar junto a mim na esplanada ao jantar, quando podia ter escolhido dezenas de outros lugares, era para mim uma espécie de vitória. E eu seduzia-o. Fazia-o, mas sempre pensando que não iria passar daí, “porque eu tenho namorado à minha espera lá fora”. Aos poucos, apaixonei-me.

Telefonei ao meu namorado e falei-lhe do que sentia. Ele apenas me perguntou “se gostas dele, porque é que estás com tantos receios? Tens medo da minha reacção? Então porque me ligaste a contar? Vai em frente. Eu apoio-te, o meu amor por ti não muda, tal como espero que o teu por mim não mude”. Mas alguma coisa estava presa na garganta. Queria falar com o outro homem, mas as palavras não saíam. Não foi preciso – naquele lugar basta ler a expressão corporal e a minha brilhava como um anúncio de néon quando ele passava. Deixei-me levar e, no dia seguinte, a primeira pessoa a quem contei foi ao meu namorado. Ficou felicíssimo por mim, porque sentia que, naquele momento, eu estava verdadeiramente feliz. Quando estamos apaixonadas, a paixão não se dirige só à última pessoa de quem começámos a gostar. Estava apaixonada pelo meu namorado novamente, de uma forma tão forte como se tivesse sido a primeira vez que falávamos.

Entretanto voltei. Não sem antes falarmos sobre o que se tinha passado. Ele sabe que eu tenho um relacionamento, eu sei que ele tem outros relacionamentos, mais ou menos fugazes. E sei que ele vai deixar a comunidade antes de eu lá voltar, que vai voltar ao seu país e ao seu trabalho. Que talvez nem nos voltemos a ver. Mas a experiência ensinou-me muito. Não se trata de dançar conforme a música que é tocada, mas sim de não fechar o coração nem a mente. Amo-os aos dois – sim, é possível. E tenho saudades dos dois, tenho mais saudades do meu namorado do que alguma vez imaginei ter, com ou sem uma terceira pessoa. Estamos mais unidos que nunca – a relação passou a prova da verdade, da transparência. Deixou de haver ciúme e desconfiança. E isso vale mais do que tudo.

K.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Psicologia e Poliamor - Palestra em Évora

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O Núcleo de Estudantes de Psicologia da Universidade de Évora vai organizar, dia 28 de Fevereiro, uma Palestra Poliamor e Psicologia, a começar às 18:30, na sala 131 do Auditório CES (VER MAPA), e que conta com 2 representantes do grupo PolyPortugal.


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Apesar de o evento ser principalmente vocacionado para (futuros) profissionais no campo da Psicologia, a sessão está aberta a todxs, mediante pré-inscrição. Para mais informações, consultar o evento do Facebook.

Solicita-se a divulgação pelas vossas redes!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"Em Foco" no YouTube - Poliamor

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Como já sabem, no passado dia 27 de Janeiro estive no Porto com a Juliana Azevedo e o João Paulo, a falar sobre poliamor.

O programa já está no YouTube, e podem vê-lo em duas partes aqui:


Fizeram também uma pequena peça sobre o programa, que pode ser vista aqui:


Que vos pareceu o programa? Dúvidas? Sugestões? Comentários? Todo o feedback é bem vindo!

sábado, 7 de janeiro de 2012

Poly Happy, Happy Poly?

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O poliamor, a bissexualidade e outros temas "estranhos" e muito à frente chegaram há algum tempo às revistas femininas. A última foi a Happy Woman de Dezembro que comprei para poder ler o artigo, não sem no acto da compra a minha cabeça ter ficado a latejar ao aperceber-me do módico preço: 2,50 € por 200 e tal páginas por mês - um preço em conta nos tempos que correm (não admira que se venda).

Como poliamorosa é sempre interessante para mim ver o discurso indirecto que sobre a minha vida se faz e quase nunca há um efeito de identificação com o que leio. As reacções podem ir da gargalhada à fúria gelada, mas nunca olhei para uma reportagem e disse: ora, aqui está como me sinto e vivo. Pois é. Sei bem dos constrangimentos da profissão - ou não fosse essa a minha formação, mas não tenho qualquer empatia por recriações ilusórias de realidades supostamente não ficcionadas. Esta foi mais uma dessas.

Há uma série de coisas que as pessoas que escrevem sobre poliamor deviam entender de uma vez por todas (ordem perfeitamente aleatória):

1) O poliamor não é uma tendência.
2) Eu não estou na moda.
3) Nós não somos adeptos (para o caso de não terem reparado, isto não é futebol).
4) Também não somos uma corrente ou movimento.
5) Nós não somos "eles" - uma senda qualquer obscura de pessoas estranhas com opções esquisitas que fazem coisas numa qualquer realidade paralela que não vai certamente tocar nos leitores das revistas. Porque os leitores das revistas às vezes (!) são bissexuais, lésbicas, transgéneros e até... poly. Que estranho!

Se calhar é por isso mesmo que o director da revista achou por bem escrever um editorial a prevenir as leitoras para a terrível ameaça do fim da monogamia - e cito, «No dia em que acreditar nisso [morte da monogamia] tenho de pensar que a amizade sincera, o altruísmo, o amor sem interesses, a paixão pura e desinteressada... são pura ficção».

Para além de não perceber a correlação entre monogamia e todas estas elevadíssimas categorias e acções morais, deixa-me ainda mais preocupada a assumpção fascinante de que só as pessoas monógamas serão capazes de tais atitudes benéficas...

(neste ponto, pergunto-me: se há uma ligação tão óbvia entre todas estas coisas, porque é que há tantos problemas num mundo supostamente monógamo? Não deveria ser tudo perfeito, senhor editor?)

E continua: «Estou convencido que quase todos procuramos, no fundo, a monogamia». Para além de eu ter medo destes "fundos" essenciais - têm sempre qualquer coisa de abissal e a mim faz-me um bocado confusão a ideia de que a verdade de todos nós se encontre sempre no fundo de qualquer coisa (ajuda a perceber porque é que a honestidade parece ser tarefa titânica) - também tenho medo de andarmos todos à procura do mesmo - e mais ainda de isso ser certeza absoluta de alguém que não me conhece. Mas pronto, há o termo "quase", «quase todos» - afinal não são todos (já agora, todxs), mas para quê pensar nos que NÃO pensam ou agem assim (não importa que "esses" sejam o tema da reportagem em destaque na capa).

E se de falácias não estivermos ainda fartos, ainda temos umas quantas mais: a monogamia leva-nos «a outro patamar» (divino? ancestral? surreal? abissal? hum?); ajuda-nos a encontrar o «verdadeiro eu» (mas que raio é isso?) e por fim, «tudo está construído hoje para acreditarmos que a monogamia é algo passado e fora de moda» - e eu que pensei que era nestas condições que estava o Feminismo, mas afinal não, é a monogamia à qual se dedicam todos os filmes, livros, Disney, reportagens, notícias, consumismo, rotinas, instituições, etc etc etc... imagino se ela estivesse na moda, o que não seria.

Depois de ler um editorial destes, que já tudo interpretou por nós, o que sobra às leitoras da revista fazerem? Guardarem o cérebro a sete chaves e verem se não o usam durante a leitura da reportagem, que é para a sua concepção de mundo não ser alterada (ou a concepção do editorial?)

/sarcasm mode off.

E pronto, não tenho mais nada a dizer. Think for yourselves.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Atenção ao Porto e arredores

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Este domingo, dia 18 de Dezembro, vai haver uma tertúlia sobre Poliamor no Porto!

Vai começar às 15h, no Clube Literário do Porto, e vai contar com a minha presença e com a da Inês.

Descubram mais pormenores aqui!

E, claro, disseminem e apareçam para saber mais sobre poliamor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A Tertúlia é esta semana

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Já estão todxs prontxs para a Tertúlia, promovida pelo Clube Safo, esta semana?

A falar, em representação do PolyPortugal, estarão a Inês Rôlo e o Daniel Cardoso.

A propósito, a tertúlia recebeu tempo de antena no programa "Vidas Alternativas", de António Serzedelo! Ouçam aqui!









sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Diálogo sobre Poder e Ética

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Finalmente, depois de uns quantos atrasos, está cá fora, e disponível para leitura, uma conversa que teve lugar entre o Pepper Mint e eu, sobre poder, ética, poliamor e teoria queer.

O Pepper Mint é um autor e activista poly/BDSM famoso, de São Francisco (EUA), que teve, entre outras coisas, um artigo publicado no Understanding Non-Monogamies.

LINK (em inglês)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Poliamor não é

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... o oposto da monogamia.

É o oposto da traição (seja ela sob que forma for).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poliamor e amor(es)

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Ultimamente tenho passado algum tempo (não necessariamente agradável) de volta de um dos novos formatos de grupos no Facebook, dedicado precisamente ao poliamor - e que, por estar em inglês, atrai muito mais pessoas, ganha âmbito internacional. E realmente gostei pouco de várias coisas que por lá vi.

Nomeadamente - e, de novo, isto parece assombrar a história do poliamor desde o princípio - a relação entre poliamor e sexo continua tão espinhosa como sempre. Vários são os comentários que pretendem vir trazer às outras pessoas "a verdade sobre o poliamor". Que verdade é essa? A verdade é que o poliamor tem que ver com o amor, com sentimentos, e não tem nada que ver com sexo. Ou seja, a dinâmica do poliamor - para estas pessoas - tem que ver (de forma aplicável a todas as pessoas) com a criação de relações emocionais a longo-prazo, em detrimento de relações emocionais de curto prazo, de relações principalmente sexuais, etc etc. Ou seja, no fundo, uma visão exclusionista do que se pode fazer dentro do conceito. Claro que, a seguir, vem o discurso de "ah, sim, isso é tudo perfeitamente aceitável, mas não é poliamor" - uma forma mais disfarçada de dizer "pois, façam lá o que quiserem, mas não aqui ao pé de nós".

Daí aquele típico discurso que insiste no que separa poliamor de swing, poliamor de X, de Y, de Z...

Uma das fundamentações é a presença do "-amore" latino que, supostamente, vem provar a predominância do amor - aquele amor que afinal de contas acaba a ser o amor romântico, ainda e sempre visto como intemporal, imutável e invariante. Só que a tradição latina vai buscar aos gregos uma curiosidade interessante: existem, na prática, vários tipos de amor, e a palavra "amore" acaba por ser, no fundo, um termo generalista que só com óculos anti-linguísticos é que vai apontar direitinho (que conveniente!) para o significado romântico, típico, normativo, de amor.

Só para terminar, fica um desafio: se fosse a questão do amor (típico, romântico) a definir em absoluto o poliamor, então onde ficava uma pessoa que tem, ao mesmo tempo, relações românticas de longa duração, e de curta duração, e relações sexuais de longa e curta duração, e relações que nem sequer se encaixam nestas descrições? Pois. Não há exclusão que opere sem simplificação...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um debate múltiplo

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Nesta passada quarta-feira teve lugar o anunciado debate sobre poliamor, na Faculdade de Letras. Isto depois de algumas pessoas se terem azafamado a arrancar os ditos cujos cartazes do debate das paredes da faculdade - uma demonstração clara do espírito académico de progressão intelectual e inovaçã........ ah, pois, não... nem por isso, não é?

Foram duas horas de intensa conversa sobre esta coisa do poliamor, que foi discutido de um ponto de vista pessoal, académico, religioso, sexual, etc etc etc.

domingo, 27 de março de 2011

Grafitti

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Gostemos ou não deste tipo de arte de rua, achemos ou não que ela tem um espaço e uma função próprias. Mas esta arte, como outras, significam sempre alguma coisa.

Há poucos dias recebemos uma fotografia tirada na Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, que deixamos aqui (ou aqui em tamanho completo):

Fotografia de Ângela C. Almeida


O poliamor está na rua. E olhem para os vários elementos da imagem: a cor escolhida (cor-de-rosa); o coração preenchido ao invés de apenas delineado; por fim, um pormenor especialmente delicioso - o poliamor vivido por uma tríade de mulheres, que parece remeter para algumas das origens avant la lettre do poliamor, que une tão belamente dois tópicos já de si profundamente associados (questões LGBTQI e poliamorosas).

Mais do que programas de televisão, rádio, entrevistas e jornais - este acto irá alargar o número de pessoas que alguma vez leram esta palavra. Irá tirar, todos os dias, para milhares, o substantivo da ignorância e do silêncio. Cabe a quem o vir, depois, usar e usurpar a palavra, descobri-la e inventá-la.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Dentro da onda do cinema poly

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Há uma série de recomendações que se podem fazer, de filmes que são, mais ou menos, poly-friendly. E a Joreth juntou-as e fez uma série de comentários a vários desses filmes. Como ainda está frio e vem aí o fim-de-semana, talvez valha a pena dar uma vista de olhos pela lista.

Digam-nos o que pensam dos que já viram!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A defesa - confirmada!

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Será mesmo no dia 12 de Janeiro, às 15h, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Torre B, Anfiteatro 1, 1º andar.

Deixo aqui, para quem estiver indecisx sobre se vai assistir ou não, o abstract / resumo.
Esta tese tem como objectivo principal determinar se os utilizadores da mailing list alt.polyamory, ao verterem as suas experiências pessoais em texto, estão ou não a incidir em práticas queer de questionamento da normativização monogâmica e heterocêntrica,

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Pensar para a frente

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O poliamor é algo que se pode considerar recente. Apesar de livros como o Polyamory in the 21st century fazerem uma genealogia de variadas práticas de não-monogamia responsável que datam de bastante antes da invenção da palavra 'poliamor', a verdade é que o poliamor não é apenas uma nova palavra engraçadinha para algo que já existia há muito tempo atrás. E apesar de se ver o poliamor como uma série de práticas diferenciadas entre si (sendo que as práticas mais contrastantes poderão ser a de uma relação efectivamente 'aberta' e uma relação em regime de polifidelidade), também é verdade que há exclusões e medos a serem levados a cabo. Isso leva algumas pessoas a pensar no que estará para além do poliamor, a sentirem-se constrangidos pelas limitações de algumas visões sobre o que é o poliamor.

Uma dessas limitações poderá ser, efectivamente, um certo receio em abordar a questão do sexo. Esse receio vem, claramente, de um medo bem-intencionado.
Se aceitarmos que o poliamor tem influências claramente feministas, se aceitarmos que o poliamor é feito, pensado e (às vezes) vivido tendo em conta preocupações com a questão da igualdade de género, então será relativamente fácil de entender como isto se verte numa preocupação com uma visão machista, patriarcal, que procura transmutar o poliamor numa mera busca por sexo (em que manipulação, mentiras e objectificação entram como personagens principais). Desde o princípio do conceito que há uma procura por afastar do poliamor a discussão sobre o sexo e o comportamento sexual. E eu concordo, claramente, que o comportamento sexual está longe de ser a faceta mais importante do poliamor - por outro lado, a preocupação quase obsessiva com o falar sobre sentimentos e em cima disso tentar afastar tudo o resto já me parece extremamente interessante!

Não sei se considerar o poliamor passé é a melhor forma de abordar a questão. Creio que ainda há um potencial muito grande de evolução para ser feito. Isso não nos impede de pensar para a frente. Mas pensar para a frente também não será trazer de volta ou centralizar o discurso sobre sexo. Antes, pensar em frente deve ser pensar de forma inclusiva. Não serve de muito procurarmos ou reivindicarmos uma postura inclusiva do geral da sociedade se depois nos afastamos dessa postura quando tomamos a palavra. Há uma série de discursos que podem formar sinergias fundamentais com o poliamor: o discurso queer, o discurso feminista, o discurso étnico, o discurso económico-político pós-capitalista, o discurso do safer sex. Temos que adicionar a esta lista o discurso da promiscuidade. Temos que entender que linhas de entendimento permitem a liberdade de comportamento sexual responsável a par de uma ou mais relações amorosas. Temos que entender que os lugares dentro dos quais circunscrevemos o sexo são arbitrários, mutáveis, e podem ser encarados de formas diferentes (diferentes da maioria, diferentes da minoria, diferentes de ambas as coisas). E, já agora, que definir sexo pode ser mais complicado do que parece...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poliamor espiritual *

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Lembrei-me deste filme há uns dias, quando andava a tentar decidir se ia a um evento poly em Inglaterra. Decidi que não. A principal razão foi económica, mas houve outras condicionantes. Para além de actividades auto-organizadas, o evento contará com a intervenção de duas personalidades: Deborah Anapol, autora de um dos mais famosos livros sobre poliamor, e um senhor que não conheço, mas cujo currículo repete as palavras sagrado, magia e tantra. Temas sobre os quais a primeira convidada também já escreveu e falou bastante.

sábado, 21 de agosto de 2010

Poly Girls On Queer Unite

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"Agora, ao contrário, estamos em casa. Mas o em-casa não preexiste: foi preciso traçar um círculo em torno do centro frágil e incerto, organizar um espaço limitado. (…) Eis que as forças do caos são mantidas no exterior tanto quanto possível e o espaço interior protege as forças germinativas de uma tarefa a ser cumprida, de uma obra a ser feita. Há toda uma actividade de selecção aí, de eliminação, de extracção, para que as forças íntimas terrestres, as forças interiores da terra, não sejam submersas, para que elas possam resistir ou até tomar algo emprestado do caos através do filtro ou do crivo do espaço traçado. (…) Agora, enfim, entreabrimos o círculo, nós o abrimos, deixamos alguém entrar, chamamos alguém, ou então nós mesmos vamos para fora, nos lançamos. Não abrimos o círculo do lado onde vêm acumular-se as antigas forças do caos, mas numa outra região, criada pelo próprio círculo. Como se o círculo tendesse a abrir-se para um futuro, em função das forças em obra que ele abriga."

Começa quando fechas a porta do quarto para poderes ouvir a tua música. A música é instrumento da tua territorialização. Por exemplo, o ostinato da equipa de futebol proclamando "Ahhh Portugal olé, portugal olé, portugal olé, portugal olé" e demarcando as fronteiras. Ou "First I was afraid I was petrified" ou "A formiga no carreiro vinha em sentido contrário". O som afirma-nos, é o nosso canto específico, anunciando à passarada a música da nossa territorialidade.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Da contratualização - II

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Continuando a partir do post da semana passada... E também para honrar algumas das perguntas da Marquesa do Sado...

Não espantará ninguém se se afirmar que o casamento é um contrato. Um contrato que, no entanto, parece transformar as pessoas em objectos, capazes de ser possuídos por uma outra pessoa-objecto. Já não será novidade para muita gente que não sou propriamente amante da instituição do casamento. Mas o post da semana passada reforçava precisamente a importância do estabelecimento de um contrato - naquele caso, de um contrato contra-sexual (novamente, não confundir com anti-sexual).

É preciso então, para que isto não se transforme numa simples contradição nos termos, definir alguns dos elementos básicos de cada um dos contratos, e porque é que a defesa de um tipo pode coexistir com o pedido de abolição de outro.