quarta-feira, 19 de julho de 2017

Referência a poliamor na TVI

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Referência a poliamor a partir da união de três homens:
http://www.tvi.iol.pt/videosmaisvistos/poliamor-ou-quando-tres-homens-se-casam/5942811c0cf2104a4a325e4f

terça-feira, 11 de julho de 2017

O Poliamor no Tribunal em Portugal

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Quero contar-vos uma história. Quero contar-vos a minha história sobre como, no século XXI, o poliamor e a liberdade de expressão são pensadas pela justiça portuguesa. Quero contar-vos a minha história. Isso quer dizer duas coisas. Primeira, que tenho noção da quantidade imensa de vários tipos de privilégio que me permitiram usufruir de meios de acesso ao funcionamento da Justiça Portuguesa, ainda que o resultado não tenha sido o que me conviria. Segunda, que tenho perfeita noção de que existem pessoas que passam, diariamente, por situações indescritivelmente piores e estruturalmente muito mais problemáticas do que esta que estou aqui a enunciar. Porém, peço que não olhem para a minha história como estando a ocupar o lugar dessas histórias, e sim para uma que parcamente se lhes acrescenta, e que revela mais uma faceta do funcionamento das estruturas normativas em torno das sexualidades e dos afectos em Portugal, e internacionalmente.


Foi a 22 de Julho de 2014, há cerca de três anos, portanto, que foi lançada a público uma Carta Aberta com a denúncia de graves declarações de Manuel Damas, na altura presidente da Associação CASA, sobre poliamor e sobre pessoas poliamorosas.

Avancei, na altura, com vários meios, incluindo um que me pareceu ser de último recurso, mas que acabou por ser o último a sobreviver à enchente de desprezo – uma queixa-crime por difamação agravada.

A queixa seguiu através do Ministério Público, o que implicou uma investigação através da Polícia Judiciária, e portanto bastante tempo investido na recolha de testemunhos, na recolha de informação. Já aqui tenho de particularizar a minha experiência: entre outras coisas desagradáveis que estão ligadas a estar numa esquadra de polícia a responder a perguntas sobre a minha vida íntima, sobre o que sentia quando era insultado na televisão nacional, e afins, ainda tive de lidar com o chico-espertismo típico da masculinidade mais bacoca possível. Neste caso, o inspector achou por bem tentar fazer um pouco de “male bonding” comigo, querendo começar ele a partilhar histórias sobre as suas conquistas sexuais e os episódios de sexo em grupo em que tinha participado (que me interessa?) e como ele encarava a vida em família e os valores que lhe deviam presidir (que tenho eu que ver com isso), ou a sua forma de tentar dar-me um qualquer tipo de validação dizendo que eu, de facto, até era uma pessoa respeitável e que sabia o que fazia, e que ele, no fundo, achava que as pessoas até têm o direito a fazer o que quiserem com as suas vidas íntimas (que avançado este senhor, vejam bem!).

O episódio seguinte prenuncia já o que ia acontecer: o Ministério Público considera que não existe material suficiente para aduzir acusação de difamação agravada; segui portanto, por minha conta e risco, pelo Direito privado e pela busca de que fizesse justiça mesmo sem o uso dos recursos do Estado ou sem a sua protecção. Como devem imaginar pela linha temporal total, tudo isto é o resumo do que demorou, literalmente, anos a acontecer. Passaram-se meses sem eu nada saber, houve sessões de tribunal a serem convocadas e desconvocadas por ‘dá lá aquela palha’, e um constante arrastar de várias testemunhas, do meu lado, para trás e para diante, sem que depois houvesse tempo para que fossem ouvidas.

Durante todo este tempo, note-se, Manuel Damas não compareceu numa única sessão, não apresentou uma única justificação para a sua não comparência, e mantém-se (tanto quanto sei) no Reino Unido, completamente alheado e alienado das consequências das suas acções.

Assisti a todas as sessões de tribunal, claro. A última foi hoje, dia 11 de julho de 2017. Foi o dia em que perdi o caso, e que decidi não continuar o processo.

De acordo com a juíza, não se provou que o programa era sobre mim (o meu nome nunca foi dito explicitamente, mas a descrição e contexto era inconfundível, claro); só que afinal até se provou que algumas partes do programa até eram sobre mim.

Não se provou que as afirmações fossem de carácter difamatório, ou que eu tivesse sido insultado ou injuriado, ou afectado no meu bom-nome ou reputação, ou que tivesse sido alvo de algum tipo de tratamento negativo, que não estivesse salvaguardado ; só que afinal até se demonstrou que algumas das expressões não foram articuladas no melhor tom possível nem da melhor forma possível.
No meio de tudo isto, a juíza também destacou – em três ocasiões separadas – que o facto de eu ser activista, o facto de eu estar a falar publicamente sobre temas considerados pouco consensuais ou ainda “problemáticos”, faz com que seja expectável e normal que eu seja alvo de uma discussão da minha vida privada em termos mais acintosos, de formas menos correctas e agradáveis. Uma espécie de versão ‘soft’ do “Se fazes activismo, estás a pedi-las”. Deveríamos então, no entendimento desta juíza, esvaziar o Espaço Público de debate de temas diferentes? Ou talvez devêssemos validar e normalizar todas as formas de violência simbólica contra pessoas que fazem activismo na área dos Direitos Sexuais?

Qualquer uma das opções é inaceitável. E talvez um dia, talvez daqui a muito tempo, se perceba que liberdade de expressão não é liberdade de agressão.

Daniel Cardoso

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Quando um artigo não basta

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Recentemente fui convidada a ajudar na concretização de um artigo, bem como o Daniel. Este consistia em explorar o poliamor – foram-nos enviadas questões que ajudassem a construir o que a jornalista pretendia realizar. Numa sociedade tão mononormativa parece-me óbvio que se valorizem os trabalhos feitos nesse sentido: o da desconstrução.  

Antes de passar à parte em que explico as motivações de estar a escrever este artigo quero explicar que da minha parte, responder a perguntas com uma data limite e alguma pressão, deixa-me ansiosa e acaba por gastar do tempo que posso utilizar para mim. Se o faço é com a consciência da importância de levar a outras pessoas a minha experiência e sobretudo a forma como a minha felicidade está para lá dos socialmente correctos. Aquilo que espero que aconteça com as coisas que digo é que sejam utilizadas de forma honesta. Quando isso não acontece é revoltante. Estamos a contribuir para o que afinal? 

Posto isso, quando li o artigo pensei que estava devidamente apresentado. Li em simultâneo com um dos meus amores que ficou claramente revoltade quando lê que também elx estava numa relação com outra parceira minha. Tentei justificar que eu nunca disse isso, que não entendia porque é que tinha sido colocado dessa forma. Imaginei ser um erro de interpretação da parte da jornalista, a qual contactei a explicar que essa parte estava errada através de e-mail – o qual não opti resposta até hoje.  

Rapidamente percebi que o título não fazia jus a uma das minhas respostas. Porquê que um só amor não basta? "Eu não defendo a ideia de que o poliamor é a resposta a: um amor não basta. O poliamor é a resposta a uma liberdade individual e relacional, consequentemente. É trabalhar os ciúmes, a comunicação e a possessividade." A primeira frase não foi colocada no artigo, tudo o resto que a acompanha sim. No entanto quando li as respostas do Daniel fiquei com a sensação de que ele se mostrava concordar com essa ideia de que apenas um amor não basta. Respeitei que não fosse apenas a minha opinião que contasse, que talvez ele tivesse essa linha de pensamento que acabava por sustentar o título do artigo. Surpresa – ele não tem essa linha de pensamento. Aliás, também a resposta dele não foi colocada por inteiro. Novamente a primeira parte da resposta não foi colocada



No fundo a jornalista não queria motivos para ter que alterar o título sendo que este é geralmente o que faz um artigo - é aquele que incentiva a leitura do público, ou não. Isto é tudo muito bonito se o título fosse de encontro com aquilo que foi respondido pelas pessoas poliamorosas. Desta forma é só uma estratégia que atropela duas vozes. Honestamente? Estou cansada que me atropelem a voz. Vejo também no Daniel uma enorme responsabilidade quando responde a este tipo de questões. Com a consciência de uma percepção masculina, com o activismo e toda a informação que tem, se existir uma má interpretação da leitura isso irá reflectir-se nos olhos sociais que o podem ler de forma errada, afectando o seu Eu bem como o das companheiras devido a esta sociedade heterocismonormativa e machista.

Quando nos dão o "poder" de falar, quem o faz tem que ser consciente relativamente ao trabalho que está a apresentar. Um mau jornalismo significa a entrega de uma má informação. Leitorxs desinformadxs geram ignorância, esta pode influenciar a forma como reagem a realidades que não as que conhecem. Não devia o jornalismo fazer o oposto? Sim. Oferecer informação, consciencialização e sobretudo ferramentas para a exploração de outras formas de viver as relações: românticas ou não.   

Para finalizar: porquê que um amor não basta? Um amor basta se eu disser que basta – no entanto ninguém pergunta porquê que uma só amizade não basta. A sociedade é que exige um único amor romântico. Possessividade. Objectificação. Mas há uma coisa que basta: atropelarem a nossa voz e aproveitarem-se de minorias para fazer um jornalismo arrogante. 

terça-feira, 28 de junho de 2016

Silêncio é comunicação

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zig andrew toxic love

Desde sempre senti a pressão de falar no momento das discussões, a pressão de que mesmo cheia de ansiedade e super nervosa tinha que estar disponível para falar e resolver tudo naquele momento – por ser o correcto ou porque era o correcto para a outra pessoa. Passei por várias situações quando comecei a pedir uns minutos ou umas horas. Agarrarem-me. Chorarem. Ameaçarem a própria vida. Gritarem. Fecharem-me num espaço ou irem atrás de mim. Muitas vezes essas situações influenciaram a minha decisão - não tinha tempo para pensar no que era melhor para mim. Não tinha tempo para respirar. Aprendi com todas elas a impor-me. A exigir o meu tempo. A dizer que não queria conversar já. A explicar que só ia conversar quando me sentisse capaz – um dia, uma semana ou um mês, não sei.  

Digo imensas vezes que a comunicação é essencial – comunicar não é apenas conversar, temos que saber avaliar todos os tipos de comunicação. Por tantas vezes falar sobre a importância da comunicação e existirem momentos em que a minha saúde mental não permite conversar acabam por me atribuir o adjectivo de hipócrita. Sei lá. É isso que me traz aqui a escrever: comunicação não é nem nunca vai ser exigirem de alguém que fale quando querem ou vos apetece. Se partilham uma relação independentemente do tipo de relação parece-me óbvio que se queira conhecer e compreender a outra pessoa. Parece-me óbvio que se queira respeitar alguém que diz: agora não consigo falar. Isso é comunicação. Eu não estou bem para falar agora. - é comunicação. Comunicação não é sugar a energia de alguém; não é roubar o espaço individual. Comunicação não é quando alguém quer gritar, discutir ou mesmo apenas falar e a outra pessoa não quer ou não pode.  

Existe uma diferença enorme entre fazermos o bem com a consciência do nosso Eu e a consciência de que lidamos com outra pessoa; e fazermos o bem para ficarmos com a nossa consciência tranquila, mas acharmos que é porque estamos a ser bons samaritanos. Esta última é de uma gigante arrogância. As pessoas passam a vida inteira preocupadas sobre as suas acções não por lidarem com outras pessoas mas porque querem viver em paz. Enquanto isso acontecer, enquanto acontecer magoarmos alguém de forma consciente para nosso próprio divertimento ou para a libertação da nossa raiva, não existe amor que vença. Nenhum tipo de amor. O fim de uma relação, o meio de uma relação ou uma nunca relação não são motivos para humilhar alguém, para colocar outra pessoa numa situação de gozo ou raiva. Não. Lamentavelmente existe pouca inteligência emocional que permita entender que ninguém é obrigado a corresponder às exigências e caprichos de outra pessoa. 

Não foi fácil para mim chegar a um ponto da minha vida em que digo: não, não vou falar agora. Não foi fácil para mim chegar a um ponto da minha vida em que prefiro terminar uma relação que me está a retirar energia pessoal do que viver com a minha saúde mental no chão. Não é fácil para ninguém tomar decisões que envolvem outras pessoas e mil e um sentimentos mas foda-se, tem que ser. Não respeitar o espaço, o não, o tempo e sobretudo as fragilidades emocionais e mentais de alguém, é tóxico. Usar argumentos para sair de uma relação de cabeça erguida e ver x outro mal é tóxico. Somos Pessoas e quero imaginar que pessoas adultas – quando as coisas não funcionam, quando se precisa de tempo e de espaço devemos saber ouvir. Respeitar. Devemos aceitar que é alguém a pedir-nos uma coisa importante.  

"E onde fica o bem estar da pessoa que quer falar?" - Estou honestamente cansada de me tentarem culpabilizar de todas as formas possíveis. Quando digo que se não quero falar então não falo, não estou a dizer que nunca quis falar. Que nunca falei. Que nunca comuniquei. Que nunca resolvi problemas com outras Pessoas. Estou a dizer que naquele momento, naquela situação, naquela fase da minha vida e da minha saúde: não é não. Se a pessoa precisar de falar, precisar de discutir, precisar de libertar – desculpem mas não vai ser comigo. Não vai ser comigo porque eu não quero ter uma crise horrível; porque eu não quero ir tomar uma caixa de comprimidos; porque eu não quero não ter forças para decidir o que me faz sentido. Tem que existir egoísmo individual a partir do momento em que vemos que a outra pessoa não está a respeitar as nossas particularidades e sobretudo o tempo que necessitamos para resolver alguma coisa 

Não sou eu que sou complicada e não és tu que estás a ler isto e te identificas com o que digo que és complicada. Isso eu posso prometer. Nós somos o que somos, como somos - temos um background, uma personalidade e vontades diferentes. Eu gosto do meu espaço e da minha privacidade muito mais do que a partilha de afectos. Prefiro um abraço de vez em quando, um beijo antes de dormir do que uma tarde a agarrarem-me ou cheia de beijinhos - e não faz mal. Ufa. Demorei tanto tempo para perceber que não faz mal. A única coisa que faz mal em relações é não existir respeito pelas vontades individuais. Sou apologista do meio termo e da procura por todas as pessoas envolvidas por uma solução para a felicidade de todes. Mas nem sempre vai existir: não faz mal. O mundo é um sítio cheio de possibilidades e só devemos fazer parte daquelas que nos preenchem. Nos aumentam. 

Os relacionamentos deviam viver da consciência de que cada pessoa envolvida é uma pessoa individual. Os relacionamentos deviam viver do respeito pelo silêncio - sendo que este também é comunicar mais não seja comunicar as necessidades pessoais que são sempre legitimas. 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Entrevista sobre poliamor na Rádio Aurora - A outra voz

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Daniel Cardoso participou numa entrevista sobre poliamor na Rádio Aurora, uma rádio dinamizada por residentes do Hospital Júlio de Matos.



Ficam aqui as duas partes!



quarta-feira, 9 de março de 2016

16 Questões sobre o (meu) poliamor

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Pedi num grupo feminista que me fizessem algumas questões sobre poliamor. Recebi mais perguntas do que imaginei, o que me deixou bastante feliz. Respondo aqui a dez dessas perguntas e nos próximos dias irei responder a todas as outras. Se tiverem questões são convidadxs a deixar em comentário. 
Primeira nota: Todas as minhas respostas são com base no meu poliamor e na forma como eu e as pessoas com quem estou gerimos as nossas relações. Existem várias formas de viver o amor e não quero com as minhas respostas invalidar qualquer relação que tenha outras bases. Somos pessoas antes de sermos pessoas poliamorosas e é importante ter isso em conta, sempre. 

Segunda nota: A minha decisão de responder a perguntas sobre a minha experiência no poliamor vem de um activismo pela voz da Mulher. É um acto politico envolver o feminismo na minha liberdade nas relações; na minha liberdade sexual; na liberdade das pessoas com quem estou. Não somos todxs cis. Não somos todxs gays. Não somos todxs sexuais. Somos minorias mas temos voz. Existimos enquanto família mesmo que seja dentro da nossa casa. Comparativamente a um homem – que é lido como "garanhão" por ter várias pessoas – uma Mulher é lida como impura, vadia, submissa – nunca como sendo uma pessoa que tomou uma decisão e que essa decisão a deixa feliz. Não como um ser humano que pode escolher. Que pode amar. Que pode fazer sexo. A minha decisão de responder a perguntas sobre a minha experiência no poliamor vem das minhas lutas: sim sou Mulher e sim amo mais que uma pessoa e tenho relações com quem me apetecer – tenho coisas a dizer e a minha experiência não é a de todxs mas igualmente válida 

1 - Como reagir aos comentários que nos insultam enquanto pessoas poliamorosas? 
Parece-me óbvio que não posso responder por todas as pessoas que passam por esta situação. Eu própria já tive reações completamente distintas.  

Quando comecei a falar sobre poliamor e iniciei a minha primeira relação poliamorosa, nem eu sabia responder a muitas das perguntas que me faziam. A culpa e o peso que me colocavam nos ombros - em forma de insulto ou de falsa felicidade - parecia-me justa. Também era novo para mim por mais que me fizesse sentido. Não me sabia defender; não conhecer muitas pessoas poliamorosas na altura também não ajudava. Sentia-me uma criança imatura que tenta fugir às normas e fazerem-me sentir assim não foi correcto. Ninguém tem o direito de nos magoar. Tentava desculpar-me. Passava mais tempo a falar de como não é a sex thing do que a falar da minha felicidade. Ouvi coisas horríveis e pior do que as ouvir sobre mim foi saber que as duas pessoas com quem namorava na altura ouviam ainda pior. Doeu muito. No entanto cheguei a uma altura em que os insultos eram sempre os mesmos - já não magoavam. Conseguia imaginar tudo o que ia sair da boca das pessoas e se não fosse verbalizado, era projectado através do olhar. Não eram só os insultos verbais, era olharem para mim como se eu estivesse suja. Como se fosse impura. Absorvi todas essas coisas e criei um escudo. O escudo do super-amor. Um super-poly-escudo. A forma que eu arranjei para me defender foi a de me mostrar completamente preparada para qualquer tentativa de ataque. Antecipo-me a dizer as coisas e faço-o de forma sarcástica. Antes de me chamarem de qualquer coisa, introduzo-me eu dessa forma. "Olá sou poliamorosa e antes que digas eu sei que isso me dá a possibilidade de fazer sexo todos os dias com imensas pessoas. E sim, temos um quarto só para orgias." Okay, não digo por estas palavras mas digo como se fossem estas as palavras. Deixei de ter forças para lutar contra pessoas que me desrespeitam desde inicio. Se me insultam e se me atacam eu tento transformar isso em duas gargalhadas, uma resposta ainda mais ignorante e se tiver que chorar, choro em casa, abraçada a quem amo. Juntxs somos um super-poly-escudo porque sabemos que não fazemos nada de errado se não vivermos as nossas vidas com muito amor. No fim do dia é isso que me dá força, saber que quem me magoa lá fora não consegue alterar a forma bonita como aprendi a construir o amor dentro de mim. 

2 - Como falar de poliamor sem as pessoas perderem a cabeça?  
Aprendi um truque ao assumir-me como lésbica. Basicamente não faço introduções a temáticas. Não existe uma preparação: tenho uma coisa para te dizer - não. Falo sempre das coisas de forma natural como se não entendesse que o assunto é tabu. Enquanto me falam da namorada ou do namorado eu conto histórias também: a minha namorada é fã de unicórnios mas a minha outra namorada diz que está farta deles. Aqui acho que as pessoas ficam mais chocadas por existir alguém no mundo farto de unicórnios em vez de eu ter duas ou três ou quatro namoradas. - A tua outra namorada? - Sim, não é incrível existir alguém que não goste de unicórnios? - Então mas namoras com mais que uma pessoa? - A questão não é essa, o que me devias perguntar é o que é que vi nela, já que os unicórnios não são opção. Eventualmente tenho que explicar. - Ah sim, não sabias? Tenho duas relações, temos que ir sair juntxs, vais gostar muito delas. Geralmente resulta demonstrar naturalidade, as pessoas não costumam ter grandes reações além daquela cara de que estão a ver o Cavaco a ser eleito mais uma vez. Essa cara assusta e é simultaneamente cómica, a cara, não o Cavaco. Ainda assim demorou a que eu conseguisse falar do meu poliamor de forma tão descontraída, tinha muitos medos que ultrapassei com o tempo.


3 - Como é que pessoas não-poli devem conversar com pessoas poli sem dizer asneiras e sem cair na mononormatividade? 
Como em todas as conversas o mais importante é respeitar. É ser humilde. Um dos momentos mais horríveis que passei foi num grupo feminista - "feminista" - em que atacaram as pessoas poliamorosas. As discussões online têm consequências e ter mulheres brancas, cishéteros e mono a tentarem dar uma lição sobre relações da forma mais bruta que existe - ao atacar pessoas lésbicas e poliamorosas - deu-me entrada imediata para uma crise de ansiedade enorme. Nós estamos sempre à espera de ouvir essas coisas lá fora num mundo que não é activista. Quando acontece dentro de um suposto safe space, ainda dói mais. Isso é a prova de quem o ser humano é imperfeito independentemente do que defende. Portanto o que eu digo é: respeitar e ser humilde. Não ter medo de colocar questões desde que essas não magoem ninguém. Cair em mononormatividade faz parte, estamos formatadxs. O importante é tomarmos essa consciência e pedirmos desculpa se tivermos que pedir. A pior forma da monormatividade chegar a mim é através do apagamento de relações. Perguntarem-me pela pessoa A exclusivamente; ajudarem-me a resolver problemas com a pessoa A exclusivamente; anularem outras pessoas com quem tenho uma relação mesmo tendo conhecimento que elas existem. As palavras magoam - em qualquer conversa devemos pensar na forma como vamos dizer as coisas para tentarmos ao máximo respeitar as experiências que não são nossas sem cairmos no desrespeito e muitas vezes na intolerância e ignorância. 

4 - Como ser assumidamente poli com novxs parceirxs sem parecer que estamos logo a preencher formulários? 
Existem coisas que são nossas, que fazem parte da nossa vida de forma constante. O poliamor é certamente uma dessas coisas. Se eu iniciar uma relação, me levarem a jantar e pedirem leitão, eu vou ter que recusar e vou ter que dizer: sou vegetariana. Em qualquer tipo de relação nós temos que dar a conhecer a outra pessoa o que somos e o que queremos, para que não seja injusto para nós e para que não seja injusto para ela. Se eu não disser inicialmente que sou poliamorosa e der inicio a algo que posso querer desenvolver, quando é que vou dize, sendo que condiciona o futuro de ambxs? Existe obviamente o medo de afastar as pessoas; de as assustar - existe o medo de parecer que estamos a querer assinar contractos de não-exclusividade mas o que estamos a fazer é a ser honestxs connosco e com x outrx. É uma decisão da outra pessoa aceitar e ficar como é também uma decisão da pessoa não aceitar e não ficar mas não é isso que o poliamor tenta fazer? Sermos honestxs com todas as pessoas com quem nos envolvemos? Darmos a possibilidade de escolha? Então a honestidade deve começar de ínicio, até porque nos poupa um pontapé mais tarde quando percebemos que afinal a pessoa queria uma relação super monogâmica e exclusiva. O ideal é explicar que faz parte da nossa vida, que é uma decisão que já existia antes de existirem novas pessoas e que nos faz feliz. Não adianta adiar um assunto que terá certamente que existir.  



5 - Como lidar com paixões por pessoas mono? 
Bem - isso vai sempre depender de se mesmo a pessoa sendo mono, se mostra disponível para aprender e tentar desconstruir a monogamia. Na minha experiência, todas as pessoas com quem iniciei relações eram mono até existir a possibilidade de trabalhar a relação poli. Uma pessoa pode continuar a ser mono e estar numa relação poliamorosa - nem todas as pessoas em relações poliamorosas são de facto poliamorosas. Vai ser uma desconstrução constante. A verdade é que a monogamia é nos incutida como a única opção. Existe uma grande possibilidade de depois de conhecermos outras formas de viver o amor, as querermos introduzir na nossa vida. Se nos apaixonarmos por uma pessoa mono e decidirmos que faz sentido viver essa relação de forma monogâmica também é válido. Tudo o que fazemos desde que seja consensual para todxs xs envolvidxs é válido. O importante é não omitir o que somos e o que vivemos. Se a pessoa não quiser uma relação poliamorosa e nós não quisermos abdicar do poliamor então um abraço apertado para todxs - porque certamente será uma experiência menos feliz que nos afecta. 


6 - Onde arranjar paciência para explicar "aquelas pessoas" que poliamor não é promiscuidade, não é apanhar sida, não é poligamia nem é traição:  
Se souberem onde se arranja deixem-me nos comentários. Agora a sério, não temos que arranjar paciência. Não é nossa obrigação educar ninguém se não quisermos. Existem alturas em que a paciência surge e muito provavelmente ela vem da forma como nos colocam as perguntas. Alguém que parte do principio que poliamor é andar a apanhar sida geralmente não merece o meu tempo. Quando sinto que merece ser respondido e que devo tentar elucidar alguém, respiro fundo e penso que não o estou a fazer só por mim e só pelo meu poliamor mas também pela minha homossexualidade, pela minha liberdade, por ser Mulher e por todas as outras frentes que precisam de ser enfrentadas. A minha paciência vem da minha vontade de me afirmar. De ter voz. Geralmente preciso de tempo para responder a essas provocações de forma calma, preciso de respirar fundo e pensar que tenho a sorte de ter acesso a informação. Então utilizo o meu activismo, o meu amor que se multiplica e os meus conhecimentos para mandar abaixo todo o slutshaming e toda a polifobia.  

    
7 - Como é que se dá inicio a uma nova relação? Cada pessoa é livre de iniciar as relações que entender ou é algo que tem que ser discutido porque se está a trazer uma pessoa nova para a família? 
Tudo tem que ser informado e comunicado nas minhas relações. A minha politica é tentar que as pessoas com quem estou conheçam a pessoa por quem me interesso. É importante que se crie alguma ligação - traz a todxs a sensação de proximidade e confiança. Se alguém com quem estou quiser dar inicio a uma nova relação, é de extrema importância para mim sentir que faço parte dessa decisão. No fundo todxs nós temos uma rotina e temos uma base já construída. Assusta a possibilidade de alguém aparecer e mudar tudo isso. Quando não se conhece a outra pessoa criam-se mil e uma coisas na nossa cabeça que acabam por ser derrubadas com o convívio. Partilhar interesses. Falar sobre a série favorita que têm em comum ou jogarem playstation uma noite inteira. Se não existir qualquer química entre todas as pessoas envolvidas então é necessário falar. Eu partilhando casa com quem namoro e essa pessoa trazendo alguém com quem me sinto extremamente desconfortável é uma situação que não quero viver. Cabe a todas as partes serem honestas e discutirem a solução, porque ninguém tem que estar a viver uma situação que não traz felicidade.  
Acrescento que nem sempre as pessoas estão capazes de gerir o começo de outra relação dx parceirx. É importante dizermos o que sentimentos genuinamente. Um: não sinto que a nossa relação de momento esteja bem, não me sinto confortável em começares uma outra relação sem que consigamos estabilizar e dedicar tempo às coisas entre nós. Isto é válido - tudo o que todxs sentem é válido, deve ser ouvido e deve ser procurada a melhor solução para todas as partes. No fundo o poliamor não é um concurso ao maior número de parceirxs mas sim amar várias pessoas - e amar implica ouvir e respeitar os sentimentos dx outrx 


8 - Como sair do armário para a família?  
São poucas as pessoas na minha família que sabem que sou poliamorosa - no entanto também não escondo. Eu sei como é que funciona na minha família: há coisas que não se querem ouvir, então eu guardo para mim sem permitir que isso me prive muito. Não posso responder a essa pergunta pegando no meu exemplo enquanto pessoa poli mas presumo que pegando no meu exemplo como pessoa lésbica e activista consigo dizer algumas coisas. Sair do armário é uma decisão muito pessoal e ninguém deve ser forçado a tal. Dentro das relações poliamorosas existem pessoas que pedem que para a família se comportem enquanto casal monogâmico. Devemos sempre respeitar esses pedidos e tentarmos apoiar ao máximo a outra pessoa quando esta decidir fazer um comming out. Não existe melhor ou pior forma de dizermos: sou poliamorosa. Depende da nossa situação financeira, da nossa independência, da nossa família - depende da nossa força emocional também. O processo de afirmação é importante - mesmo quando ouvimos coisas horríveis, sai um peso de cima dos nossos ombros. Quando a minha mãe me perguntou: mas tu namoras com X ou com X e com Y? Eu ri-me e disse: ah, era engraçado. Não houve coragem e arrependo-me hoje em dia pois tinha sido a oportunidade perfeita. Agora acho isso porque tenho mais força; mais independência. Não posso dar nenhuma sugestão sobre o assunto se não: os armários são todos difíceis. Gays, lésbicos, bissexuais, transpoliamorosos etc.. mas existem pessoas que estão aqui incondicionalmente. A nossa família é nos tida como o nosso maior amor incondicional mas a nossa mãe e o nosso pai são pessoas - perfeitas ou imperfeitas, são pessoas que não têm que representar esse amor. No meu caso representam e ainda assim não respeitam as minhas decisões na totalidade. É uma decisão minha pegar na minha vida e vivê-la como eu quero. Se tu, que me estás a ler, não tens coragem para sair do teu armário - não és fracx. És uma Pessoa. Tens o mesmo mérito e o mesmo valor. Quando sentires que o deves fazer, se não tiveres apoio, lembra-te que existem milhares de pessoas no Mundo que te vão ouvir e dizer: não és uma merda.  


9 - Em relações poliamorosas há aqueles momentos de "eu pensava que já te tinha dito e não disse"?  
Há, claro que sim. O que não quer dizer que não tenha consequências. Se for uma coisa simples como o facto de não contar aos meus dois amores que lhes manchei a roupa toda porque a pus no programa errado, é okay (bem, depende da roupa). Se for uma coisa como eu não ir dormir a casa porque vou dormir a casa de alguém de quem elxs nunca ouviram falar e nem sequer os aviso enquanto estão à minha espera e depois digo: ah, pensei que sim! Não é okay. O poliamor não é uma carta branca para tudo, as pessoas têm sentimentos e merecem ser informadas. Avisadas. É muito importante termos atenção às coisas que dizemos e às que faltam dizer. Omissão seja ela propositada ou não, pode desencadear bolas de neve de inseguranças que não têm fim, às vezes andar com uma lista de coisas que se tem que avisar no telemóvel resolve muitos mal entendidos. 


10 - Considerando que numa relação há amor, sendo poli é possível amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo? 
Quatro e cinco e seis. É um trabalho incrível de multiplicar o amor. Sim, é possível amar mais do que uma pessoa. No fundo a ideia de amarmos apenas uma pessoa é nos ensinada socialmente. A verdade é que amarmos hoje alguém, numa perspectiva monogâmica, acabarmos a relação, darmos inicio a uma outra relação monogâmica e amarmos essa pessoa - significa que o amor não foi exclusivo a uma, simplesmente se assumiu um compromisso durante o tempo de relacionamento. O poliamor permite que ames alguém mas que não te prives de amares outra pessoa. Existem pessoas que aparecem na nossa vida um ano, dois anos ou vinte anos depois de já estares com alguém - essa pessoa não tem culpa de ter aparecido na tua vida nessa altura nem tu tens culpa de não teres conhecido a pessoa antes - no entanto, amas a pessoa com quem estás também, incondicionalmente. Tudo isto são casos reais. O amor não se divide - é infinito. Amamos pessoas na família, amamos amigxs, amamos parceirxs mas amamos. Não se vende o amor ao peso, por isso devemos aproveitar o que ainda temos de gratuito: como amar. 





11 - É possível que muitas vezes ocorra o sentimento de que a pessoa nunca é suficiente para o outro e que isso cause dano ou fragilize?   

Acontece sim. Vivemos numa sociedade que romantiza a posse nas relações. Ou seja, o amor está associado a uma exclusividade. És meu e eu sou tua – para sempre. Esta forma de amar é nos ensinada mesmo que não nos seja dita de uma forma tão óbvia. Está presente nas músicas, nos filmes, nos livros, na nossa cabeça, romantizando - e no nosso coração. É muito difícil a liberdade dessa construção, não é impossível mas é difícil. No fundo estamos a desconstruir de um lado e a levar com isso de todos os outros. A mononormatividade que chega por todos os cantos. poliamor não é o milagre para mudar num dia o que nos foi ensinado desde sempre. Existe muitas vezes a sensação de que se calhar nos falta algo – o que é que x tem que eu não tenho? - isto acontece. O que muda é que pegamos nesse pensamento e percebemos que o podemos trabalhar. Existem outras alturas que não conseguimos pegar nele porque somos humanos – geralmente é aqui que aconselho uma conversa com o/os amores. Muitas vezes essa conversa vai ajudar a perceber que somos importantes e amadxs – que ter outras pessoas não é colocar o que somos em causa mas sim existir a liberdade para viver outras experiências que são certamente diferentes. Desconstruir o sentimento de posse é talvez das coisas mais difíceis de sempre – mas não é impossível.  


12 - Como explicar ao meu namorado que gostaria de ter uma relação poliamorosa com ele e uma rapariga? E sou egoísta por não desejar que eles tenham algo, sendo eu o "centro" da relação? 

Serias egoísta se quisesses que duas pessoas que não se sentem atraídas tivessem algo, contrariadas, por ser uma decisão tua. Da forma como a pergunta é colocada, não existe egoísmo. Da mesma forma que não existe um como lhe explicar, se não seres honestx. Explicar o que sentes por pessoa X, que queres colocar a possibilidade de continuares o namoro que têm mas iniciares uma relação com outra pessoa. Apresentares possibilidades e formas de construírem essa relação. Ouvires a opinião dele e perceberes onde estão os medos, o que pode ser conversado, o que podem fazer individualmente, xs dxxs e xs três (isto presumindo que a terceira pessoa está a par da situação e está disponível a uma relação poliamorosa). Se ele não concordar tens duas hipóteses: continuares o vosso namoro como base a monogamia ou não continuares esse namoro. Infelizmente neste caso as coisas são um bocadinho frias e têm que postas nestes termos. Tu quereres que algo aconteça não significa outrxs quererem e quando somos confrontados com um não só temos a opção de aceitar o não e continuar nessa relação ou aceitar o não mas decidir não continuar nessa relação. De qualquer forma introduzires leituras sobre poliamor e conversares sobre as várias formas como se pode construir a vossa relação a partir daquela que já têm é talvez uma boa ajuda. Conversarem as três pessoas envolvidas se existir então alguma possibilidade de todas as partes é muito importante. Vão ter medos semelhantes, vão ter coisas que não querem que mudem ou que querem que mudem, tudo isso só vai ser falado se forem transparentes no começo da relação poliamorosa. Mesmo sendo duas relações distintas – tu e o teu namorado actual; tu e a rapariga de quem falas - és uma pessoa comum em ambas as relações e de certo que falarem abertamente sobre o que é okay e o que não e okay dali para a frente vai ser uma excelente ferramenta de trabalho nas relações e a nível individual. 





13 - Como lidar quando uma relação acaba? Isso afecta todos? Afecta só a pessoa que acabou a relação? De que maneira isso se revê nas outras relações?   

Uma relação acabar é geralmente um momento triste para as pessoas que a vivem – nem sempre, dependendo dos motivos para que a mesma termine. Imaginando ser um momento de dor, vai afectar a forma como estamos e isso influência quase tudo o que fazemos, como quase todas as nossas dores. Não tem que afectar as outras relações directamente - é preciso existir alguma compreensão pela mudança que vai existir na pessoa que terminou a relação. 

Falando das minhas experiências, as pessoas que foram as minhas melhores amigas no fim de relações, foram os meus amores. Pessoas com quem também tinha um relacionamento. Sinto-me muito sortuda porque tive imenso apoio e senti que existiram momentos em que fui ouvida como uma melhor amiga unicamente e não como uma namorada. Mesmo quando me ouviam enquanto namorada, o apoio era infinito. Foi no colo de amores meus que chorei por causa do fim de outras relações. Não deixei de viver aquela situação porque existiam outras pessoas na minha vida. Cada pessoa é uma pessoa. Cada experiência é uma experiência. Cada dor é única.  

Já ouvi muitas vezes dizerem que quando uma pessoa poliamorosa com mais do que uma relação termina um namoro, não dói. Ouvi dizer também que não dói porque temos outras pessoas.


Eu tenho várixs amigxs e quando uma amizade acaba eu não deixo de viver a tristeza que isso me traz. Não é por ter outras relações que deixo de viver o fim daquela, especificamente.  


 14 - Como se organizam as pessoas poli em termos de gerir o tempo que passam com xs parceirxs? Assumindo que não vivem todxs na mesma casa - o que a partir de um certo numero se torna complicado. Como é que organizam a "logística" da coisa? 

Maior parte das minhas relações foram à distância. Namoro há quase três anos com a pessoa com quem vivo há dois, a logística aqui é fácil (e mesmo assim existem queixas de falta de tempo – quem nunca? O trabalho consome as pessoas. O capitalismo consome as pessoas). A minha outra namorada mora em Portugal, toda a tecnologia ajuda mas as saudades são absurdas. Quando existiu disponibilidade fui ter com ela e ela fez o mesmo. Em breve vem morar comigo, o que facilita a proximidade física.  

Das experiências que tenho de morar com mais do que um amor, as coisas acontecem de uma forma muito familiar também. É mais gente para ver filmes fofos, para jogar às cartas e ao Cluedo. Nas minhas relações à distância, quando o meu amor me visitava na casa que partilho com o outro amor, eu dormia sempre com ela. Passava mais tempo com ela. Era uma gestão fácil porque a pessoa com quem vivo compreende que não tenho muitas possibilidades de passar tempo com alguém que está longe. Exceto em aniversários de namoro/aniversário delx – nesse caso, pede-me para dormir com elx, o que nos faz sentido. Agora com a mudança do meu amor que está longe para cá a gestão do tempo será mais equilibrada. Não somos só poliamorosxs. Existem empregos e responsabilidades. Existem coisas que queremos e gostamos de fazer sozinhxs. A ideia é organizar calendários - disponibilidades – para se conseguir aproveitar o tempo da melhor forma. Curiosamente uma das últimas coisas que disse sobre esta nova mudança na nossa vida foi: vens morar comigo mas queria dizer que gosto muito de estar sozinha e não quero abdicar disso. A verdade é que, como já disse, as pessoas são diferentes. As necessidades das pessoas são de igual forma diferentes. Corresponder às necessidades de cada umx vai depender do que é que a pessoa quer e não do que nós achamos que a pessoa quer.  

Não falando da minha experiência mas para completar a questão da logística de tempo, maior parte das famílias poli que conheço usam agendas/calendários partilhados. Google calendar (corações). Quando a constelação é maior acredito que seja a forma mais fácil de fazer possível o tempo "esticar". 


15 - Aqui a pensar um bocadinho nas pessoas assexuais: se alguém for ace como é que é gerida a coisa? É mais fácil porque sendo poli, podem ir buscar sexo a outrx parceirx (coisa que numa relação mono fechada está fora de questão)?  

Deparei-me recentemente com o facto de ser assexual – depois de muita leitura percebi que existia um nome que me fazia sentido. Já tive imensas inseguranças durante as minhas relações por causa disso. Existe uma pressão para que o sexo seja presente numa relação mas isso não me chega como justificação (nem me parece nada consensual). Disse várias vezes à pessoa com quem estava na altura que compreendia se elx quisesse ter relações com outras pessoas visto que eu não queria ter relações regularmente. Sempre ouvi que isso não lhe fazia sentido porque queria ter relações comigo e que se eu não queria ia respeitar sempre. Foi uma decisão delx. Não acredito que sendo poliamorosx torne mais ou menos difícil. Depende do que é okay nas relações - dentro do poliamor pode ser okay ter relações sexuais com pessoas pelas quais não se sente atração romântica, existem outras relações que estabelecem só ser okay existirem relações sexuais se existir uma atração romântica. Portanto não posso generalizar e falar por todas as pessoas assexuais (e pessoas arromanticas) - porque sei que as relações vão depender do que é decidido entre xs envolvidxs 
Posso também acrescentar que o desejo sexual que se sente por X não tem que ser o mesmo que se sente por Y. Portanto eu querer ter alguma coisa com pessoa X não é anulado por eu ter com pessoa Y. Eu posso querer ser kinky com alguém e muito vanilla com outra pessoa. O que tem que existir sempre – repito, sempre - é respeito. Independentemente de querer o quer que seja com determinada pessoa – independentemente de o querer com outras mil - não me dá o direito de ter o que quero. O consentimento não chega através do desejo que sinto mas sim do que duas pessoas adultas decidem fazer sem a influência da pressão e da manipulação.  



 16 - Quando uma pessoa numa relação se apaixona por outra e forma nova relação, como é que é gerida a situação com a(s) pessoa(s) com quem já se tinha relacionamento? Da parte de quem inicia nova relação, nada muda no sentimento pela(s) pessoa(s) com quem já existia relacionamento? Da parte da(s) pessoa(s) com quem já se tinha relacionamento, há ciúme?  

Quando alguém se apaixona por outra pessoa, nas minhas relações, falamos com as pessoas com quem já temos uma relação para contar que está a existir uma proximidade, que estão a surgir sentimentos. Também falo com a pessoa por quem estou a sentir esses sentimentos sobre as pessoas com quem estou. Tento (como já disse numa outra pergunta) que se conheçam e partilhem algum tempo juntxs. Quando dou início a uma relação as pessoas com quem já estava são sempre as primeiras a saber do momento em que se pediu em namoro. Partilhamos esses momentos por sentir que são importantes num todo. O meu sentimento não muda em nada pelas pessoas com quem estava. São relações distintas. O amor que sinto por pessoa X não influência o amor que sinto por pessoa Y. Nunca senti que um amor retirasse outro ou o fizesse enfraquecer.  

Relativamente aos ciúmes, os ciúmes existem. É um mito que não se sente ciúmes (não anulando as pessoas que não o sentem de facto, porque acontece). Os ciúmes existem e é importante para quem inicia uma relação arranjar algum tempo para demonstrar a todas as partes que se está disponível. É uma ginástica de tempo - não podemos iniciar uma relação nova e simplesmente ignorar a/as pessoas com quem já existia esse compromisso. Às vezes esses erros acontecem sem nos apercebermos e com algum tempo começamos a aprender a gerir as coisas de forma que todas as pessoas se sintam bem. Existem pessoas que precisam de mais ou menos atenção - existem outras pessoas que precisam de mais ou menos presença física. Existem pessoas que gostam muito de ir ao cinema – existem pessoas que gostam mais de ir passear para a praia. Não podemos pegar no que fazemos com pessoa X e fazer disso regra para todas as relações. Com cada pessoa existe uma conversa sobre o que faz mais ou menos falta. Ninguém é perfeito, vão existir momentos se calhar vamos fazer asneiras porque presumimos que é o mais correcto. A ideia é: não se deve presumir – perguntamos. Ouvimos. Pegamos nisso e tentamos arranjar a melhor forma para gerir as inseguranças que chegam, o tempo que parece escasso, a falta do cinema e a falta da praia.  


Acontece também acharmos que não vamos ter ciúmes, damos inicio a uma relação poliamorosa e andamos a rastejar. A culpa é minha; Porque é que me meti nisto? Agora como é que vou fingir que estou bem? - A culpa não é tua. Não tens que fingir que estás bem. A internet tem vários artigos maravilhosos que explicam que o ciúme existe. Pega num papel e escreve - ciúme - à volta dele escreves tudo o que ele te traz. Porque é que ele existe. Quando é que existe em mais força. Lê tudo. Lida com ele. Deixa o ciúme existir. Olha tanto para ele que ele comece a perder a força. Olha para o que o traz; o que o alimenta. A culpa não é tua. Não tens que fingir que não o sentes. Grita com ele. Discute com o papel; com o ciúme. Bate no papel com uma almofada. Canta-lhe a música que cantas pior. Mas deixa que ele exista. Depois respira fundo – fala com ele, fala contigo, fala com os teus amores. Sê honestx. Vão surgir várias formas de o trabalhar se o tornares real e não o tentares esconder. 


Post original: Multipliquei o Amor