sábado, 4 de junho de 2011

Arrumar a casa dói

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Para quem tem a ideia de que ser poliamoros@ é para gente descontraída, sem preocupações, que quer andar com tod@s à vontade e sem pensar, fica aqui este post construido à volta das dores de ser poli. Ou se quiserem, de amar e ser pessoa.

No último mês tenho vindo a pensar sobre como os novos envolvimentos d@s noss@s parceir@s se podem assemelhar muito a um processo de arrumação doloroso da casa. Explico: no último mês, o meu companheiro iniciou uma relação com uma nova fuck buddy. No nosso caso, isto implicou um processo que se iniciou com conversa: porque é que ele queria esta relação, o que é que eu sentia, que medos tem ele, que medos tenho eu, o que podemos fazer para lidar com esses medos, que medos sentimos que não vão dar para lidar com, que medos sentimos ser perfeitamente ultrapassáveis, que coisas precisa ele que eu faça para que corra bem, que coisas preciso eu que ele faça para que corra bem. E isto é apenas o início. Depois, primeiro encontro com essa nova fuck buddy. Lidar com as primeiras inseguranças. Repetir conversa. Descobrir novos medos que não estavam lá antes. Chorar. Roer as unhas. Voltar ao princípio. Novo encontro. Descobrir que está tudo bem. Os medos da conversa anterior afinal não tinham qualquer efeito. Amaldiçoar o facto de não ter percebido isso antes de ter chorado a noite toda. Sentir que de alguma forma acabamos a ficar ainda mais perto um do outro depois disto tudo (coisa que não me teria passado pela cabeça antes, mas que é verdade). Ter, finalmente, epifania.

Em que é que isto se assemelha a arrumar a casa? É aqui que entra a epifania. Durante este mês compreendi que tudo isto era como ter uma casa toda bonitinha, com os móveis exactamente no sítio onde os queremos, o conforto que sonhámos e os nossos livros preferidos à mão. E depois decidir que afinal queremos mais uma mesa mas não é simples de colocar no espaço. Então andamos às voltas em arrumações. Desesperamos a tentar que tudo volte a ficar bem. Arrastamos móveis e esperamos que tudo encaixe novamente. E se não encaixar? E se em vez de estarmos a tentar que tudo fique perfeito tentarmos que essa nova mesa/quadro/cadeira traga algo de diferente à sala sem a tentarmos condicionar? Agora que vejo isto escrito nem sei se faz muito sentido, mas foi uma coisa que me acompanhou nestas últimas semanas. Cheguei a dizer a chorar que queria gostar dos móveis e que preferia ver como eles tornavam bonito o espaço de tod@s nós em vez de os tentar encaixar de uma qualquer maneira perfeita que só resulta para mim.

Arrumar a casa dói. Amar dói. Arrastar móveis dói. Deixar as coisas fluir no seu próprio rumo, dói. Mas tudo isso parece pequeno quando sabemos que o queremos fazer e porque o queremos fazer.

Nota: De destacar que nada tenho contra gente feliz, despreocupada e que anda com todxs. Galdéria Ética em aprendizagem here. E sim, eu sei que a aprendizagem vai lenta.
Inês

11 comentários:

Lara disse...

Olha, só me apetece dizer "És linda!". Já fizeste uma evolução vertiginosa no último ano. Aconteça o que acontecer, chegaste por mérito próprio ao sítio onde estás e isso ninguém te pode tirar. Pelo que me é dado a ver, não tens nada a temer. Provavelmente a pessoa recém-chegada tem ainda mais medo que tu. Mas inevitavelmente reconhecerá a honra que é ter-te como punalua. :)

Miguel Viterbo disse...

Eu pensei primeiro, a Lara antecipou-se a escrever. :)
As dores do crescimento (de uma pessoa, de uma relação, de uma constelação) continuam sempre até à velhice.
Vai lenta, a tua aprendizagem?! Se tenho percebido bem, vai a passo bem firme, e na direção certa. E gosto cada vez mais de ti.

Fryne disse...

Obrigada aos dois. Fiquei sem saber o que dizer, truly. O carinho... soube bem :) muito.

beijos

Daniel disse...

Sincero, corajoso, sentido. Gostei muito. Fico feliz por este artigo existir. Obrigado :)

Fryne disse...

Obrigada pelo comentário, Daniel. Fico feliz por isso :)

Monogâmica Baralhada disse...

Palavras lindas!
Revi-me completamente.
O teu post fez-me sentir que estou no bom caminho também.
Em todas as relações, TODAS, há inseguranças, medos, "fritanços", lágrimas. Melhor quando é vivido a dois, quando é construtivo, quando é claro.
Ontem tive uma situação parecida, doí como tudo, mas no fim constatar que o amor entre as duas pessoas é verdadeiro e inabalável é um bálsamo para a alma.
Obrigada pelas tuas palavras.
E obrigada por aqui se lutar contra a hipocrisia dos sentimentos.
(a primeira vez que escrevi este comentário saiu muito melhor:( )

Fryne disse...

Obrigada por comentares. Todos os medos e lágrimas podem ser melhores e passar mais depressa a dois, três, quatro ou seja quantos forem... Boa sorte para o teu caminho.

Anónimo disse...

Porque é que será necessário sofrer para ser e fazer o que o nosso parceiro necessita? Porque encaixarmo-nos na caixa do outro? Será que precisamos ser ou fazer alguma coisa para merecermos ser amadas?

Diana *ou* O Pequeno Tornado disse...

Adorei o teu post.
Senti-me identificada :)
é mesmo bom ver o lado feminino do Poliamor. Com duvidas, medos, dor.
Um lado água, vulnerável, onde as coisas acontecem numa nível e profundidade deliciosos ***
Obrigada!

Márcia Sales disse...

Ai gente! A cada post que leio (devoro) me sinto mais confortada. Me sentia muito inadequada para assumir uma relação poliamorosa pois tenho todas essas inseguranças e medos...sinto um alívio enorme em saber q é perfeitamente normal sentir tudo isso, pois estamos aprendendo uma nova forma de nos relacionarmos, de amar e ser amados. Obrigada, obrigada!

Anónimo disse...

Olá Márcia. Fico contente por isso, sabe bem saber que os meus textos ajudam alguém... Também me ajuda a mim.

Obrigada Diana, pelo comentário.

Phrynne