sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Punalua

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No seu livro sobre "A origem da Família...", Engels fala sobre um termo que alguns poliamorosos gostam de usar - punalua.

A família punaluana seria uma forma evoluída de modelo familiar - sendo que ele vai buscar o termo e exemplo a um costume havaiano - ainda dentro dos costumes de sociedades consideradas "bárbaras". É interessante ver como este modelo familiar tinha um traço fortemente matriarcal, já que, dentro destas famílias-grupo não era possível estabelecer a paternidade de uma determinada criança, mas era sempre possível estabelecer a sua maternidade. Este era um modelo de coabitação e cooperação em que os membros de um determinado grupo de homens se chamavam punalua entre si, e idem para cada determinado grupo de mulheres.

A análise de Engels leva-nos mais longe, analisando uma evolução nas estruturas familiares a par de progressos civilizacionais, e eis que chegamos ao modelo monogâmico.

Compreender este modelo é importante, creio, para termos uma perspectiva de quais as suas raízes. Porque se é verdade, como já referi várias vezes, que a monogamia pode ser praticada de uma forma igualitária e com respeito pelos direitos e deveres de cada indivíduo, é também verdade que só com a noção das raízes podemos começar a desmontar os processos de dominação que operam nessa esfera.

Diz-nos então Engels que a monogamia

"se baseia na supremacia do homem, com o propósito expresso de produzir crianças cuja paternidade não possa ser disputada; tal paternidade inequívoca é exigida pelo facto de que esses filhos serão, mais tarde, herdeiros daquele pai. [...] O direito da infidelidade conjugal também se mantém adstrito a ele, quanto mais não seja pelo costume [...]"

Vemos actualmente ainda muitas provas de como resquícios destas ideias se mantêm no século XXI. Os homens são, estereotipicamente, os traidores por excelência, os principais preocupados com passar o legado da família (quanto mais não seja, o nome da família, que é o nome do homem).

Ora, se como tenho abordado, é o fechamento da relação monógama que, a contrario, institui a traição, é também ela que retira a possibilidade de cooperação e inter-relação presente entre punaluas. Essa relação não existe dentro de um modelo estritamente monógamo, embora possa, ainda assim, existir dentro de alguns modelos de poliamor em que existe um fechamento das relações a um determinado conjunto de pessoas.

E isso deixa-me, por estranho que possa parecer - porque deveria ser indiferente, não? -, triste. Fico triste porque tenho assistido muito de perto ao quão bela e forte pode ser uma relação entre punaluas, e questiono-me sobre que visão terá a posição mononormativa sobre estas pessoas que resolvem assumir-se como punaluas, que resolvem gostar disso, que daí retiram prazer e compersion.

7 comentários:

ShortOkapi disse...

Bem, em rigor aquilo que «institui a traição» é a relação fechada, não só a monogâmica mas também a poligâmica e, por extensão, algumas formas de poliamor.

Daniel Cardoso disse...

Sim, é verdade, uma correcção que tenho que fazer. Obrigado.

sapiens disse...

Concordo em absoluto. A monogamia é um acordo entre homens com o objectivo de minimizar a guerra (entre eles) e maximizar as hipóteses de posse através da distribuição intencionalmente igualitária entre sí do verdadeiro valor (as mulheres). Com este acordo entre fazedores de cultura (homens)temos as mulheres mais uma vez como objectos de troca ou posse, neste caso (que já passamos a troca de irmãs) resta-nos o conceito de posse através da monogamia. Sou bissexual e poliamorosa por natureza. O matriarcado seria talvez o modelo ideal do qual muitos homens não iriam gostar mas a partir do qual as mulheres poderiam exercer uma escolha mais livre e menos impositiva e castrante ... de qualquer forma estamos a ficar cada vez mais próximos da praxis desse ideal embora em termos sociais e simbólicos não sei se será muito facil lá chegar. Felizmente as mulheres já possuem aquilo que durante anos lhes foi negado a favor da monogamia, o acesso aos meios de produção. Os homens, quando não cooperativos, e especialmente aqueles que defendem com unhas e dentes o modelo patriarcal antigo, estão a começar a ser encarados como um supérfulo, ou um mal que deixou de ser necessário. =) Só lhes desejo capacidade de evolução, e de superação da grande crise de masculinidade na qual estão mergulhados.

António Lopes disse...

A posição mononormativa nem quer pensar nisso :-D

E continuam a publicar-se estudos sobre como o amor conduz obrigatóriamente ao ciúme, que as experiências de "amor-livre" falharam. Que não são naturais essas "misturadas" :-D

--

Não deixando de perceber o ponto de vista, o que "institui a traição" não será a fraqueza dos seus praticantes em manterem os compromissos assumidos, sejam eles quais forem? E isso é válido para mono, poligamia e poliamor.
:-D

Daniel Cardoso disse...

António:

A "fraqueza" de que falas é a traição a acontecer. Mas a traição só pode acontecer face a uma regra, os tais compromissos. São portanto os termos do compromisso que estipulam quais as modalidades de quebra de compromisso também.

Os estudos são uma coisa traquina: todos eles partem de certos pressupostos, mas nem todos os questionam criticamente.

António Lopes disse...

Olá,

Concordo contigo, mas será possível ter uma relação sem regras / compromissos? E se for, que tipo de relação será?

E que sentido faz dizer que uma traição apenas pode acontecer em face de uma regra? Uma afirmação dessas é, ao mesmo tempo, 100% correcta e 100% inútil :-D
Ou seja, um truísmo :-O

p.s.
Se não são os compromissos que causam a traição, penso também que é pouco relevante, para a questão, quais as várias modalidades de quebra dos mesmos.

Mas parece-me que, quando se entra pelo raciocínio do, "eu traí porque haviam estes compromissos", pode-se cair numa desresponsabilização do indivíduo, colocando a sua falha interna em causas externas :-)

Ou será que vamos entrar pelo raciocínio, se as regras causam a traição, acabem-se com as regras?
:-D

--

Pois... os estudos e as suas verdades a priori :-D

Daniel Cardoso disse...

António:

Não é possível, para todos os efeitos práticos, acabar com as regras. Por outro lado, a afirmação não é um truísmo, por esta simples razão: há muito boa gente que considera que a monogamia é natural, e que uma pessoa que se relaciona com mais do que uma outra ao mesmo tempo está naturalmente, obviamente e incontornavelmente a trair.
Apercebermo-nos do carácter construídos das normas serve para derrotar estes essencialismos.

Mais uma vez, gostava de esclarecer: a traição não acontece porque as regras existem (numa relação causa-efeito). A traição torna-se possível porque as regras existem, o que não é bem a mesma coisa. Instituir e realizar a traição são realidades ligadas, mas distintas.

A utilidade disto tudo, creio eu, é pensarmos na arbitrariedade das regras. Se elas são arbitrárias, então está aberta a porta a que nós proponhamos as nossas próprias regras e definições. E para isso podemos (devemos?) realizar um trabalho de análise sustentada perante quais as regras que escolhemos, porque as escolhemos, e de acordo com que princípios e critérios. A traição (a quebra de regras) não desaparece dentro do poliamor. O que desaparece é a hegemonia de regras consideradas naturalizadas e auto-evidentes.