sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Poliamor e Relações à distância

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O meu telemóvel é o meu mundo. É nele que estão os meus amigos, as coisas que quero ler, os vídeos que quero ver, e as pessoas com quem me relaciono a nível romântico e/ou sexual. Estão, também, pessoas que não moram em Portugal e com quem falo regularmente. Por vezes, a comunicação através de mensagens, de fotografias, de memes é suficiente para compensar a distância… e alguém que está a centenas ou milhares de quilómetros passa a fazer parte da minha rotina. Pode desenvolve-se uma relação à distância, com todos os ups and downs que daí vêm. O que é para mim uma relação à distância? Já vi esta questão ser muito debatida – é aquela que se tem com alguém que mora a 2 horas de distância? Que só podemos ver 1 vez por semana? Por mês? Eu gosto de pensar nas relações à distância como aquelas em que as pessoas não conseguem simplesmente decidir “vou ter contigo agora!” e verem-se no próprio dia, ou seja, as relações onde o toque presencial implica muito planeamento. Pessoalmente, sinto que o desafio de uma relação à distância beneficia de alguns conhecimentos e práticas que aprendi por conta do Poliamor, e é a partir da minha experiência (e da de pessoas que me são chegadas) que vos escrevo.

Algumas características do poliamor que trazem benefícios para relações à distância:
  • Comunicação - um dos princípios do poliamor é a comunicação aberta e honesta das expectativas, medos e necessidades em cada relação. Por exemplo, quando parceirx A se sente insegurx, comunica a parceirx B e, juntxs, conseguem chegar a uma solução para ajudar a ultrapassar essa insegurança.
  • Valorização do tempo pessoal – ao contrário do normalmente ditado pela sociedade, onde se espera que xs parceirxs estejam todo o tempo juntos, nas relações de pessoas poliamorosas há uma maior abertura a não estar constantemente com cada lover, o que facilita quando não se podem ver regularmente.
  • Possibilidade de estar com outras pessoas – um dos grandes problemas que se costuma apontar às relações à distância é a falta que faz o romance, carinho, toque e sexo. Para pessoas poliamorosas em relações abertas, é possível colmatar essas necessidades com outrxs sem magoar ninguém. Obviamente, há momentos em que nos apetece carinho da pessoa X, e esse não é possível substituir. No entanto, quando simplesmente estamos carentes de atenção (no geral), não dependemos de uma só pessoa para nos ajudar a sentir melhor.
  • Sair do paradigma das relações evolutivas – na sociedade, o objectivo final das relações é chegar a uma relação monogâmica (romântica e sexualmente) entre duas pessoas que se casam e coabitam. Um relacionamento poliamoroso não tem, necessariamente, este objectivo, pelo que é mais fácil assumir uma relação de não coabitação, como é a relação à distância.
  • Compersão – este é o sentimento de alegria ou de felicidade que uma pessoa poliamorosa sente ao ver x loved one feliz com outra pessoa. Como nota pessoal, posso dizer que uma das coisas que mais me preocupa é que a pessoa com quem me relaciono à distância se sinta triste, por isso, se vier outra pessoa que possa ajudar à sua felicidade, eu própria fico contente.

Não posso deixar de mencionar que há casos em que a relação à distância se torna mais complicada quando um (ou mais) dos elementos é poliamorosx, já que facilmente se pode sentir:
  • Falta da componente de toque na relação – para as pessoas cuja Love Language é o toque físico, estar longe dx parceirx torna-se muito complicado, o que pode dar azo a rupturas na relação.
  • Insegurança – a insegurança fica exacerbada quando x loved one está longe, já que é mais difícil ter um abraço/toque que assegure que tudo está bem. Também é mais fácil ter o pensamento “Elx vai-se apaixonar por outra pessoa e esquecer-se de mim”.
  • Sentimento de injustiça – A pessoa que mora mais longe pode-se ressentir, já que geralmente o tempo e atenção que x partner despende em si é inferior ao que despende com parceirxs locais. Isto pode originar uma necessidade de compensação extra por parte de quem tem amores locais e à distância – acabando por haver uma guerra de atenções e necessidades.
  • Dificuldades com a logística ou custos – pensando de forma mais racional, uma relação à distância implica muitas vezes custos em viagens, estadia em hotéis, dias de férias do trabalho e outras questões logísticas que dificultam a vida dos parceirxs, e mexem também com as finanças e agenda dxs parceirxs locais.


 Alguns conselhos para quem está a pensar entrar numa relação de longa distância (ou transitar de uma relação local para à distância):
  • Usem as novas tecnologias - Whatsapp, Facebook, Instagram, Skype, chamadas de vídeo ajudam a encurtar a distância e a manter a comunicação fluída
  • Desenvolvam rituais de casal – Mensagens de bom dia, fotografias dos vossos locais favoritos, chamadas de vídeo à quinta-feira à noite… pequenas coisas ajudam a lembrar que a relação ainda continua forte mesmo que não se possam ver cara-a-cara
  • Façam check-in periódico à relação – Elaborem uma lista de perguntas sobre a relação para discutir de X em X tempo. Exemplos de perguntas que podem ajudar: “O que posso fazer para te deixar mais segurx nesta relação?”, “O que fizemos esta semana que te fez feliz?”, “Quanto tempo por semana precisas para não te sentires negligenciadx?”, “Continuas confortável com a não monogamia? O que posso fazer para te deixar mais confortável?”
  • Façam check-ins convosco mesmxs – “estou feliz nesta relação?”, “sinto-me segurx de que elx tem interesse na relação? Se não, tenho que lhe dizer”, “os meus ciúmes são inseguranças pessoas?”, “será que consigo despender mais tempo da minha semana para comunicar com x parceirx?”
  • Conheçam xs metamores – Conhecerem xs outrxs parceirxs dx loved one ajuda a sentir menos insegurança e medo de “serem trocadxs”

A minha opinião pessoal (foco na palavra *pessoal*) é que uma relação à distância é mais simples se as pessoas forem poliamorosas, tiverem boa comunicação e discutirem expectativas regularmente. E, posto isto, vou-me agarrar ao telemóvel outra vez.



Mariana

1 comentário:

Unknown disse...

Olá, acabo de chegar em Portugal e estou a procura de outros casais poli. Há muita informação na Internet, mas poucos casais reais. Sabes aonde posso me socializar mais?
Neto