terça-feira, 12 de abril de 2011

Sexo fácil

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«Muita gente mete-se no poliamor […] porque é uma forma de obter sexo fácil» — alvitrou às tantas uma das mais de 40 pessoas na plateia durante o debate aberto sobre poliamor de que demos conta aqui. E eu não podia deixar de responder. Porque, de facto, a abundância sexual tão exaltada no Ethical Slut quase só existe para quem já teria facilidade em obtê-la, com ou sem poliamor.

No diagrama que então desenhei no quadro, e que aqui reproduzo, cada um dos cinco nós “A” a “E” representa uma pessoa e as ligações representam as relações sexuais que existem.

Numa relação entre duas pessoas, não é frequente que ambas tenham exatamente a mesma libido. Chamo aqui libido (roubando o conceito à psicanálise e simplificando) à frequência com que apetece sexo a uma pessoa. No diagrama, a libido de cada um é expressa pelo diâmetro do respetivo círculo.

Quando existe apenas o par A+B (ou esse par é monogâmico), em que A tem menos libido do que B, a solução passa normalmente por terem sexo com a frequência menor. B tem de se conformar, assim, com menos sexo do que gostaria de ter.

Parece haver muita gente a pensar que as relações abertas (incluindo o poliamor) resolvem esse problema, já que B é livre de ter sexo com mais pessoas, e assim teriam ambos os seus desejos satisfeitos.

Mas existe uma outra dimensão, que é também retratada neste diagrama. A cor de cada círculo representa aqui a capacidade de encontrar parceiros sexuais, desde o amarelo (pouca «saída») até ao vermelho (muita «pedalagem»). Essa capacidade varia muito de pessoa para pessoa, em função da sua própria autoconfiança, do seu poder de sedução e da sua atratividade na cultura onde se encontra.

No exemplo dado, B pode ter uma libido enorme mas tem muita dificuldade em encontrar parceiros ou parceiras sexuais. É a isto que se refere um amigo meu quando diz de si próprio que é «tarado sexual não praticante». B não ganha nada em estar numa relação aberta. Pelo contrário, perde.

Neste universo de cinco pessoas, só A e D têm a ganhar, do ponto de vista meramente contabilístico da eficácia (quantidade de sexo real / quantidade de sexo desejado). E acredito que, nesse aspeto, este pequeno cosmos não ande muito longe da realidade do mundo poliamoroso em geral, pelo menos em Portugal. A maior parte dos poliamorosos, se insiste, é por convicção, não porque é fácil. Ou será porque têm pouca inteligência prática.

Como já foi escrito aqui no blog, e o Daniel teve o cuidado de reiterar no debate, alguém dizer que é poliamoroso é uma péssima tirada de engate.

6 comentários:

Daniel Cardoso disse...

Péssima mesmo.

Vale o que vale, mas já me aconteceu alguém querer envolver-se comigo na expressa condição de que mais ninguém soubesse do envolvimento (ou seja, passando de situação poly a situação de traição) simplesmente porque se recusava a aceitar a ideia de que as outras pessoas pudessem saber o que se passava. Quando fiz notar que isso estaria fora de questão, mas que não levantaria problemas, foi ver a pessoa eclipsar-se como se não houvesse amanhã...

ana galdéria disse...

Outro "problema" com anunciar ser-se poly é que muitas pessoas tendem automaticamente a descartar-nos do mundo dos "relacionamentos sérios". Passamos a fazer partes das listas do "sexo fácil" dos relacionamentos "sem compromisso" e afins. As pessoas tendem a não conseguir associar poliamor e conceitos como compromisso, fidelidade, longevidade, família... Quem pensa que poliamor é uma via de facilitismo está muito enganadx!

homempasmado disse...

Concordando com ambos, tenho a ideia de que a questão do não secretismo confunde muita gente, sobretudo os gajos comprometidos que se envolvem com uma mulher poli que se encontra num relacionamento sério, que ama o seu companheiro, o qual sabe e concorda com a situação.

Faz-lhes muita confusão e, penso eu, medo também, porque muito provavelmente passa-lhes pela cabeça que a "deles", apesar de os amar, talvez queira outros homens (mesmo que não o admita).

:-D

Anónimo disse...

eu namoro com uma mulher , mas tenho desejos por outras , não sou capaz de a trair , mas ela também não alinha no poliamor ,vá-se la saber porque, numa situação destas qual a situação mais normal para fazer?

Anónimo disse...

SWING ;)

A SEREIA disse...

Interessante! Nunca tinha pensado nestas particularidades da questão. E de facto dizer-se que se é poliamoroso não é de todo uma boa dica de engate. O meu problema geralmente é quando e como comunicar esse facto, uma vez que as reacções são maioritariamente adversas...