sexta-feira, 1 de março de 2013

Hierarquias de compromisso

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Tenho um bocado a mania, sei-o bem, de escrever coisas sobre a reformulação das hierarquias de sentimentos, de crítica à importância que o romantismo tem como expressão máxima de amor, sobre o privilégio associado a 'estar em casal', blá blá blá.

E, para muita gente, tal coisa é densa, abstracta, pouco útil ou pouco prática. De modo que hoje quis mostrar que tudo isto é extremamente prático e, também, extremamente doloroso de se ver/viver.

Já me aconteceu, mais do que uma vez, envolver-me com alguém que não se identifica necessariamente como poliamorosx, ou sequer como não-monogâmicx. Fazê-lo tem sempre o seu quê de tensão, porque há um conjunto de experiências pelas quais eu passo que não encontram eco ou reflexo na experiência dessa pessoa - e isso pode, por vezes, tornar mais difícil a empatia de parte a parte, ou a gestão de situações com mais tensão.

Uma particularidade deste tipo de relação é a de que, caso essa pessoa se interesse por outro alguém, poderá haver a ruptura da relação existente. Noutros casos, uma pessoa que se identifique como não-monogâmica pode mesmo deixar de se identificar como tal, e querer uma relação monogâmica (eventualmente com um terceiro elemento).

Ora, é para mim mais do que óbvio que todas estas coisas são legítimas. Achar que quem entra numa relação enquanto poly, assim tem que ficar até ao fim dos tempos amén é irrealista. As pessoas, sentimentos, vontades e contextos mudam. Para mim, a questão não é, de todo, essa.

Trata-se, antes, da existência de hierarquias de compromisso. Permitam-me explicar: a situação em que uma pessoa mono (numa relação com uma pessoa poly) se vê na possibilidade de iniciar uma outra relação com uma outra pessoa mono (terminando assim a relação com a pessoa poly) não é igual a quando uma relação mono acaba e dá lugar a outra.
Isto porque terminar a relação com a pessoa poly para estar com a pessoa mono é visto, frequentemente (e socialmente), como um regresso ao normal, ao saudável, ao expectável.

Quando a isto se junta, por exemplo, a situação de o envolvimento entre a pessoa poly e mono não ser do tipo romântico (e o das duas pessoas mono potencialmente o ser), desce-se mais um degrau nesta hierarquia. Não só se está a regressar ao normal, como também se está a regressar a uma vivência que vale a pena, é respeitável e que é melhor porque faz mais sentido (afinal de contas, se alguém é monogâmicx, porque iria desperdiçar a sua única relação com algo não-romântico?! /fim de sarcasmo).

Desconfio que isto torna mais fácil 'saltar fora' de uma relação com alguém poly. Pela minha experiência pessoal, isto também torna mais fácil que surjam comportamentos de desrespeito pela pessoa poly, pela relação com essa pessoa, pelos compromissos assumidos - porque essa relação/pessoa está 'naturalmente' mais abaixo numa hierarquia de compromissos. Ao mesmo tempo, espera-se que essa mesma pessoa poly compreenda a naturalidade de ser colocada na prateleira de baixo dessa hierarquia de compromisso, e os comportamentos possivelmente abusivos ou desrespeitosos.

(Nota: embora eu considere que, por questões de discriminação e invisibilidade social, as configurações acima descritas têm dinâmicas e características próprias, no abstracto, que facilitam tais acontecimentos, existem imensas outras situações que não passam por haver um elemento poly. Um exemplo corriqueiro é o típico "Adorava ir sair contigo, mas x namoradx também quer e portanto tenho ir sair com elx". Todas estas situações têm que ver com os elementos 'teóricos' abordados acima: a suposta primazia naturalizada do casal e do amor romântico.)

5 comentários:

Marvin Oliveira disse...

Creio que na maioria das pessoas que escolhem uma relação mono "em detrimento" de uma poly existe não tanto um preconcrito hierárquico do compromisso mas antes uma falha na valorização da pessoa com quem se envolveu poliamorosamente. Antes de sermos poly ou mono somos pessoas que necessitam de transparência e entendimento para vivermos as nossas vidas.

"Preferias um relacionanento monogâmico? Não me surpreendes. Já tínhamos falado sobre isso."

Daniel Cardoso disse...

Marvin:

Mas será que essa valorização não pode ter que ver com o facto de a pessoa ser poliamorosa? Não existirão situações em que a relação (não a pessoa) é vista como menos valiosa ou digna de investimento de tempo ou de esforço por não ser aquilo que está prescrito pelos guiões sociais?

Marvin Oliveira disse...

Sim, claro. Acho que é muito frequente isso acontecer. E penso que isso se deve à pessoa não se ter comprometido apenas com o seu parceiro como um indivíduo mas também à ideia do que "deveria ser um relacionamento superior". O compromisso a esta ideia terá prevalecido em (agora sim verdadeiro) detrimento à pessoa poliamorosa.

Aqui o relacionamento era mesmo poly, pois envolvia no mínimo duas pessoas e um preconceito. É importante conhecermos bem as pessoas com quem nos envolvemos e descobrir com quantas ideias nos estamos a comprometer...

A SEREIA disse...

Adorei o texto! E sim concordo que existe essa hierarquia do compromisso, infelizmente, porque é bastante desagradável. No fundo talvez pela necessidade de "encaixar" no que é socialmente aceite e espectável. Presumo que também aconteça um pouco com as relações homo vs relação hetero... A dita "normal" será também considerada mais "importante", e a outra mais secundária.

PolyPortugal disse...

As discriminações multiplicam-se e encontram-se em vários formatos, infelizmente.

Obrigadx pelo comentário, A SEREIA.