quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sobre o ciúme (2) – O frigorífico avariado

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Continuação do post: Sobre o ciúme (1) - O medo é o seu alimento
No texto de que vos falei na semana passada, há uma metáfora poderosa que me ficou a dar voltas na cabeça até agora. O autor compara uma relação dominada pelo ciúme com um frigorífico avariado. A explicação para ter escolhido um frigorífico e não outra coisa qualquer, está no início do texto e tem a sua graça, como quase tudo o que este senhor escreve.
Imaginemos que um dia chegamos a casa e o frigorífico está avariado. Há uma poça de água no chão e comida a derreter por todo o lado. Depois de recorrermos à esfregona, há duas coisas que podemos fazer: ou arranjar o frigorífico, ou substituí-lo por outro. Qualquer das coisas requer uma certa dose de energia e organização para lidar com o problema. Por isso, o que a maior parte das pessoas (poly e não poly) faz, é optar por uma terceira solução: deixar o frigorífico ficar exactamente como está e alterar a sua vida (e a dos seus) em torno dessa condicionante. Decretar que lá em casa não entra mais comida que precise de refrigeração. Isto equivale a dizer "não quero ouvir falar de ex-namoradas", ou "tens namorado, não abraces os teus amigos". Criam-se regras mas não se resolve o problema.
Substituir o frigorífico implica admitir que já não tem arranjo possível, retirá-lo da nossa cozinha e criar a disponibilidade para encontrar outra solução. Requer uma grande dose de coragem, mas às vezes é a melhor opção.
Arranjar o frigorífico requer provavelmente uma dose de coragem ainda maior, porque implica canalizar o tempo e a energia necessários para descobrir qual é a causa da avaria, e depois ainda ter o trabalho de o tentar arranjar, sem garantias de sucesso. Passa por identificar o evento catalisador do ciúme, perceber qual a emoção que esse evento provoca, e num nível mais profundo, compreender de onde vem essa emoção. Possivelmente de experiências passadas, próximas ou longínquas.
Enquanto se tenta arranjar o frigorífico, é boa ideia parar de lá pôr comida. Ou seja, enquanto se tenta compreender o mecanismo que conduz ao ciúme, será aconselhável construir um acordo em que se evitem as situações catalisadoras. Este acordo é renegociável e será bom sinal se as regras forem mudando. Quer dizer que se compreenderam e possivelmente ultrapassaram alguns medos. A comunicação é essencial ao longo de todo esse processo, que pode durar anos, envolver várias relações e diferentes perspectivas.

Na próxima semana: como arranjar (finalmente) o frigorífico, e como este texto me ajudou a arranjar mais um par de electrodomésticos.

Continuação:Sobre o ciúme (3) - A minha torradeira

4 comentários:

Pedro Luis disse...

Para além do medo da perda ou de se ser substituído, existe uma componente* territorial mais presente no ciúme masculino, trata-se de uma componente mais primitiva que tem a ver com instintos de competição e liderança.

Ou seja, em que vê a sua companhia como parte conquistada e anexada do seu território. Em que se outro homem atravessa essas fronteiras, fica o medo na cabeça do 'detentor' do 'território' que esse outro homem ache que lhe conquistou/roubou terreno, e portanto perdeu liderança perante os seus pares.

Acredito que muitos achem tudo isto absurdo, mas olhem que isto anda lá pelo cerebelo.

* - Descobri hoje, ou só racionalizei que a palavra 'componente' não tem género.

Pedro Luis

Lara disse...

Sim, essa componente é referida no texto original, embora não associada ao género masculino. Eu diria que essa territorialidade também se verifica no sexo feminino, por outras razões: competição com outras fêmeas pelo melhor "provider". O "Mito da Monogamia" (http://www.sinaisdefogo.pt/?q=C/BOOKSSHOW/100) fala de todas essas razões possíveis para alguém querer controlar o parceiro.

António Lopes disse...

Gostei muito do texto e já fui visitar a página do tipo :-)

p.s. - eu costumo comparar o ciúme a uma dor de dentes, quando alguém me diz que existe ciúme "bom" :-D

Anónimo disse...

Eu discordo em parte, com o que o Pedro disse.
Acho, tal como a Lara, que as mulheres tb têm muita dessa componente territorial.
Talvez mais, às vezes, que os homens. Digo isto pelas experiência que tenho observado e pessoais tb.


Cláudia