sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poliamor e amor(es)

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Ultimamente tenho passado algum tempo (não necessariamente agradável) de volta de um dos novos formatos de grupos no Facebook, dedicado precisamente ao poliamor - e que, por estar em inglês, atrai muito mais pessoas, ganha âmbito internacional. E realmente gostei pouco de várias coisas que por lá vi.

Nomeadamente - e, de novo, isto parece assombrar a história do poliamor desde o princípio - a relação entre poliamor e sexo continua tão espinhosa como sempre. Vários são os comentários que pretendem vir trazer às outras pessoas "a verdade sobre o poliamor". Que verdade é essa? A verdade é que o poliamor tem que ver com o amor, com sentimentos, e não tem nada que ver com sexo. Ou seja, a dinâmica do poliamor - para estas pessoas - tem que ver (de forma aplicável a todas as pessoas) com a criação de relações emocionais a longo-prazo, em detrimento de relações emocionais de curto prazo, de relações principalmente sexuais, etc etc. Ou seja, no fundo, uma visão exclusionista do que se pode fazer dentro do conceito. Claro que, a seguir, vem o discurso de "ah, sim, isso é tudo perfeitamente aceitável, mas não é poliamor" - uma forma mais disfarçada de dizer "pois, façam lá o que quiserem, mas não aqui ao pé de nós".

Daí aquele típico discurso que insiste no que separa poliamor de swing, poliamor de X, de Y, de Z...

Uma das fundamentações é a presença do "-amore" latino que, supostamente, vem provar a predominância do amor - aquele amor que afinal de contas acaba a ser o amor romântico, ainda e sempre visto como intemporal, imutável e invariante. Só que a tradição latina vai buscar aos gregos uma curiosidade interessante: existem, na prática, vários tipos de amor, e a palavra "amore" acaba por ser, no fundo, um termo generalista que só com óculos anti-linguísticos é que vai apontar direitinho (que conveniente!) para o significado romântico, típico, normativo, de amor.

Só para terminar, fica um desafio: se fosse a questão do amor (típico, romântico) a definir em absoluto o poliamor, então onde ficava uma pessoa que tem, ao mesmo tempo, relações românticas de longa duração, e de curta duração, e relações sexuais de longa e curta duração, e relações que nem sequer se encaixam nestas descrições? Pois. Não há exclusão que opere sem simplificação...

5 comentários:

Lara disse...

Muito interessante o artigo sobre as 4 palavras gregas para amor. E a tua questão final é muito pertinente.

Daniel Cardoso disse...

Obrigado, Lara. A questão dos vários amores também foi abordada no debate com o padre Borga, mas sem tempo para entrar em detalhes... No caso da argumentação contra ele, o ponto que estava a fazer era algo diferente: em que sentido é que é legítimo falar em diferentes tipos de amor como tendo propriedades tão radicalmente diferentes? Até porque sendo o amor entre esposos semelhante ao amor que deveria ser dedicado a Deus, então o monoamor neste caso torna-se incompatível com a devoção à divindade.

Meisonh disse...

Obrigado Daniel, por seus textos *amorosos*, que em vez de fechar o conceito de poliamor numa caixa, o abre para fora, que respeita a multiplicidade explícita na palavra.

É exatamente pelo que acontece muitas vezes nos debates sobre poliamor que já senti muito preguiça em lê-los, o que não acontece com o polyportugal, um blog que eu sinto cada vez mais vontade a seguir.

Daniel Cardoso disse...

Meishonh,

Obrigado pelo comentário - precisamente é minha intenção tentar abrir o conceito e mantê-lo em movimento, ao invés de o fechar numa ou outra interpretação essencialista que acaba a reproduzir o problema do costume, que são as definições terminadas e acabadas do que é ou não é "amor", "relação", "fidelidade", ou seja lá o que for... :)

Espero que possa ficar longo tempo aqui a ler o nosso blog.

Abraço

Luis disse...

Olá a todos. Curiosamente estive esta semana a ler esta página que desenvolve sobre os tipos de amor que falas no teu post: http://en.wikipedia.org/wiki/Love_styles. Julgo que por causa de um problema linguistico se confunde amor com enamoramento. Confunde-se o que se sente com a relação que desenvolve com base nesse sentimento. Acho até que algumas formas descritas ali como tipos de amor não serão sequer amor.
Eu penso que a simplificação neste caso nos liberta da exclusão. Pelo meu ponto de vista só existe uma definição (um tipo) de amor: amor é (tão simplesmente) querer o bem. Seja querer o bem de outra pessoa, seja querer o bem de nós próprios ou do planeta. As formas como actuamos em relação a esse amor, como desenvolvemos as diversas relações baseadas no amor, essas sim é que são múltiplas. E é aqui que reside um dos encantos do poliamor: não precisamos de lhes dar nome, até porque cada uma é única. Claro que é fácil dar nome a algumas relações de amor, como sejam o amor paternal ou maternal, o amor fraternal, mas quando nos afastamos do amor da esfera familiar existe toda uma panóplia de formatos de relação que seria impossível dar nome a todos. Existem as amizades mais próximas ou afastadas, relações românticas 'típicas', as amizades coloridas, ou mesmo as relações românticas sem sexo ou as amizades com sexo. Podemos tipifica-las em relação à existência ou não de sexo ou em relação à duração da relação mas a verdade é que no poliamor essas definições não servem para nada. No poliamor cada relação com cada pessoa é única, no seu formato muito próprio com aquela pessoa e não nos preocupamos em que se encaixe numa definição qualquer ou que obedeça a standarts definidos por outros.
Pelo menos é assim que vejo as coisas :-)