sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O tiro no pé

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Sem grandes deambulações, porque esta é simples.

De tanto ler imensos posts e e-mails de gente poly a contar as suas histórias, há um padrão que parece repetir-se bastantes vezes:

  1. Alguém fica em estado de ansiedade porque a outra pessoa tem uma 3ª pessoa
  2. A razão para esse estado de ansiedade está ligada a querer preservar essa relação, ter medo de a perder
  3. A ansiedade provoca comportamentos (desde insegurança in extremis, a atitudes controladoras, etc.) que afastam a pessoa que se quer manter por perto
  4. Esses comportamentos geram o tal afastamento, que faz aumentar a ansiedade
  5. A relação deteriora-se ou mesmo desfaz-se, e as culpas vão para cima do mais recente elemento, ou do "poliamor", ou daquelas conversas do "eu afinal não sou assim"
De onde se conclui, com os devidos abusos de extrapolação, que os ciúmes e demais comportamentos obsessivos são contraproducentes, na medida em que tornam a situação numa self-fulfilling prophecy...

Ora, qual é a questão mais importante destas profecias auto-realizáveis? O ciúme? A insegurança? "A culpa é da mãe"? Nah, não convence.

A questão mais importante é a relação que a pessoa tem com... a verdade. O problema do sujeito ansioso é o olhar para os seus medos e ver no seu estatuto de medos uma marca de verdade. Este sujeito vê-se a si mesmo como estando acima e para além da situação, dotado de poderes quase divinatórios, que lhe permitem aceder a uma suposta interioridade psicológica das outras pessoas envolvidas, que lhe possibilita, mais facilmente, ler a verdade acerca das intenções, sentimentos e motivações dessas outras pessoas.

De forma que o primeiro passo para lidar com este tipo de situações, parece-me, não é ir buscar a secção inteira de auto-ajuda da biblioteca, mas encarar o papel que o próprio sujeito tem em produzir uma determinada verdade que, a partir daí, toma valor de episteme, e vai condicionar todas as subsequentes considerações sobre o assunto, ao delimitar e estruturar a própria compreensão do que acontece. Questionar a nossa própria possibilidade de falar "a Verdade" é algo que me parece fundamental. Aquilo que os livros de auto-ajuda fazem é, na maior parte dos casos, o oposto. Insistem no sujeito que produz uma Verdade maior, mas limitam-se a trocar uma mensagem por outra, tentando obter o efeito inverso ao actual. Que é, no fim de contas, o mesmo que tapar o sol com a peneira, tratar os sintomas sem curar a doença, etc etc etc...

5 comentários:

thedeadserv disse...

Poly é muito difícil, para não dizer impossível, sem se ter uma vida, uma mente e acima de tudo uma existência (personalidade, características pessoais, o eu) fortíssimos. Envolve sobriedade absoluta sobre a confiança que se tem nos outros e estar disposto a estar errado e saber lidar com isso depois.

O partir de pressupostos, essa característica divinatória que habita nas pessoas sem confiança e que questionam sempre tudo, é veneno para qualquer relação. Ser poly ou single nem entra na equação. Todos nós sabemos que não é preciso haver uma terceira incógnita para a grande maioria das relações se auto-deteriorarem.

O que é preciso é ter consciência que é possível lidar com duas ou mais incógnitas com um sistema de equações.

http://www.youtube.com/watch?v=wXJz76_Aahw

Pedro Sousa

Daniel Cardoso disse...

A confiança e a fortitude de carácter ajudam em qualquer relação.

E creio haver aqui uma diferença teórica: é talvez mais complicado em contexto poliamoroso estabelecer relações de co-dependência do que em contexto monogâmico, onde o aparelho retórico está mais bem preparado e já vem de longe. Ainda assim, há sempre o risco de se cair nisso - poly ou não, ninguém é perfeito.

Por outro lado, claro que o que disse acima se aplica também, muito fortemente, a qualquer relação não-poly. Apenas achei interessante ver como este mesmo discurso está tantas vezes tão repetido nos comentários e desabafos em fóruns poly e afins...

Márcia Sales disse...

Sim, acredito q nas relações poli seja realmente mais complicado para alguém com problemas de insegurança pois há muito menos mecanismos de controle da relação em si. É necessário conhecer-se, cuidar-se. Acho que a terapia nesse caso é fundamental. Carpe Diem!

Márcia Sales disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Márcia Sales disse...
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