terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Perdi a fome

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«A. está com uma imensa vontade de ir comer sushi a um novo restaurante de fusão que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de comer, tem fome. Chega ao restaurante na esperança de que haja lugar mas sabe que o local é muito concorrido e por isso preparou-se para ter de deixar este restaurante para outra noite sem sentir grande frustração. À entrada, fica a saber que há lugar, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a fome mais a vontade de comer, e vai para casa fazer a sua comidinha à mão.»
Idiota?… E com algumas alterações, será que faz mais sentido?
«A. está com uma imensa vontade de ir comer uma pessoa que conheceu na Net e que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de a comer, tem um desejo carnal urgente. Chega ao local combinado na esperança de que essa pessoa também fique encantada quando se virem agora ao vivo, mas sabe que a tal pessoa é muito concorrida e por isso preparou-se para ter de deixar este assunto para outra noite sem sentir grande frustração. Mal começa a conversa, percebe que há um enorme desejo do outro lado, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a pica mais a vontade de a comer, e já nem vai para casa fazer a sua cena à mão.»
Na nossa sociedade, tudo é uma desculpa para não se fazer o sexo que se quer fazer. Tudo faz perder a pica. Especialmente entre as mulheres. «Porque podemos», diz-me uma amiga, referindo-se a contactos com homens, «os gajos estão sempre com tanta vontade que nós não precisamos de nos esforçar». Sim, pode ser verdade. E então? A comida, para os que vivem acima do limiar da pobreza, também é de fácil acesso, e o fácil acesso nunca fez perder a fome. Quando muito, a livre escolha far-me-á optar por outro restaurante, ou outra refeição — mas não por jejuar.

Porquê especialmente entre as mulheres, então? Não me parece rebuscado partir do princípio que isto é o resultado directo de as raparigas serem endoutrinadas desde pequeninas na teoria de que gostar de sexo é mau: os homens até podem ser uns heróis se tiverem muitas mulheres mas elas são sem dúvida umas galdérias se tiverem «muitos» homens. E «galdérias», infelizmente, é pejorativo… Ora esta endoutrinação é feita, mais ou menos explicitamente, por tudo o que nos rodeia, mesmo que os principais educadores — pais, professores, amigos — sejam suficientemente desempoeirados. E fica cravado nos recessos da mente a ponto, digo eu, de policiar cada contacto potencialmente sexual à procura de pretextos para o silenciar.

A «abundância sexual» tão enaltecida no Ethical Slut, e bem, é lamentavelmente a realidade de muito pouca gente. Mesmo das mulheres que «não precisam de se esforçar». E eu solidarizo-me com toda a gente que tem menos sexo do que gostaria de ter, que é com certeza uma população maior do que aqueles que têm menos dinheiro do que gostariam.

2 comentários:

sapiens disse...

Simbolos, símbolos e mais simbolos. A sociedade de facto não fornece conceitos ou alternativas para um comportamento feminino mais livre. Têm de ser os próprios individuos a desconstruir mitos e a perceber a verdadeira legitimidade da sua vida privada acima de todas as ladaínhas já vestigiais de pureza, monogamia impositiva, amor eterno, pecado e posição do missionário.
Todos os mitos que ainda hoje existem sobre a timidez feminina no sexo se cristalizaram na cultura ao longo de milhares de anos, assentes num paradigma de sexo reprodutivo. No século XXI o sexo é recreativo, e a cultura não é de todo genética para que a consideremos tao estática ou NATURAL. Eu também me solidarizo com toda a gente que tem manos sexo do que devia ter... mas tenho efectivamente pena de toda a gente que por não ter agilidade mental não come porco porque deus não deixa, tapa a cara em publico porque mostra-la não é um direito seu ou submete qualquer prática socialmente não prejudicial para o bem comum a uma castração voluntária porque isso lhe traz qualquer virtude simbólica...

Fernando disse...

O principal problema que se põe é que o perconceito da mulher em relaçcão ao sexo é implantado na sua educação.
O sexo dá prazer e o prazer é visto não como uma gratificação do individuo mas sim como uma sensação impuria.
Felizmente o comportamento feminino esta a mudar, mas será que nós homens não temos a nossa quota parte de culpa no comportamento defensivo da mulher em relacção ao sexo.
Muitas vezes para conseguir ir para a cama com uma mulher mente-se, criam-se historias e situações recambolescas. Este tipo de comportamento leva a que o sexo oposto jogue na defensiva em relacção ao sexo.
Á que mudar as mentalidades e os comportamentos para que o sexo seja encarado naturalmente tal e qual como ele é sem demagogia nem mentiras.