terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dez mil horas de poliamor

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Uma teoria que tem vindo a ser recuperada e reformulada há quarenta anos diz que a chave do sucesso de qualquer pessoa em qualquer campo é, principalmente, uma questão de praticar uma determinada tarefa durante cerca de 10 mil horas. ¹

A ser verdade, deverão ser necessárias 10 mil horas de relações amorosas para uma pessoa se tornar especialista no assunto. E 10 mil horas de sexo para ser «bom na cama». E outras 10 mil de poliamor para se perceber realmente como isto funciona. Ai, e agora?

Contas feitas, a três horas de prática por dia, são quase dez anos de «exercício» necessário para cada tarefa.

No caso do sexo, aliás, é melhor contar com uma média mais realista. Nos Estudos de Kinsey, afirma-se que a média de actividades sexuais anda em torno das 3,3 por semana (de 1,0 a 6,5 em 3/4 dos casos). Desta, apenas um terço corresponderá a sexo com outra(s) pessoa(s). Mesmo admitindo que a duração de cada actividade sexual é, em média, de uma hora (o que é, infelizmente, uma enorme sobrestimação), isso implica 174 anos de prática para se chegar ao nível de perito!

Com que idade é que somos bons poliamantes então, caraças?!

Solução: começar mais cedo em tudo, fazer muito mais sexo e durante muito mais tempo (por favor, é bom para todos!) e, mesmo assim, não esperar que o nirvana poliamoroso chegue antes dos 30.

Mas aqui fica a tentativa de fechar com uma nota positiva: Malcolm Gladwell, no seu livro mais recente (que eu não li), acrescenta à teoria das 10 mil horas que a família, a cultura e os amigos têm todos um papel primordial no sucesso de um outlier (conceito pescado da estatística para designar uma pessoa que se destaca por qualquer razão).

De acordo com a teoria de Gladwell, poderá talvez depreender-se que um poly de sucesso só o é graças aos que o rodeiam. E rodeado, sem medos, de mais pessoas que o amam do que um monogâmico, estará assim mais inclinado para o caminho do «sucesso». Um poly terá por isso mais probabilidades de ser um bom poly do que um mono de ser um bom mono. Um poly pode lá chegar, um mono- (ó) pode bem tornar-se um mono (ô)… ²

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(¹) Não li a teoria original das 10 mil horas. Cheguei aí por via do editorial ("Dear Betty, about your e-mail") do último número da revista Creative Screenwriting, que tinha a seguinte passagem: «The day before he passed away Aug. 4, the great screenwriting teacher and mentor Blake Snyder wrote a blog titled "10,000 Hours".» Foi pouco menos do que o suficiente para me suscitar a curiosidade. Andei a navegar pela Web e descobri que o inspirador e malogrado Snyder (de quem assisti a uma conferência em Los Angeles, li o primeiro livro, Save the Cat!, e fiquei a saber que morreu recentemente com uma embolia pulmonar) cita o último livro de Malcolm Gladwell (Outliers : Os melhores, os mais inteligentes, os mais bem sucedidos), que dedica um capítulo inteiro ("The 10,000-Hour Rule") a uma ideia que foi buscar ao interessantíssimo livro de Daniel Levitin Uma paixão humana : O seu cérebro e a música (cuja edição original ando a ler há muito tempo), o qual, por sua vez, reporta esta teoria a K. Anders Ericsson, referindo o livro Toward a General Theory of Expertise, que, por sua vez e aparentemente para terminar, fala de uma teoria de três a 30 mil horas exposta no capítulo "The mind’s eye in chess", dos influentíssimos Bill Chase e Herb Simon, na publicação Visual Information Processing, que são as actas do 8th Symposium on Cognition, Carnegie-Mellon University, de 1972. O mundo é pequeno, e revisitável. E, se se seguir as supostas fontes, a verdade é que a «teoria» das 10 mil horas parece não ter fundamento nenhum. Uff…
(²)
mono: mercadoria que não tem venda ou que ninguém procura.

2 comentários:

ana galdéria disse...

ainda bem que passei por aqui
estava mesmo a precisar de rir um bocado

quero dizer que te amo
estou muito feliz por saber que assim contribuo para o teu sucesso como poliamoroso
:)
ana

ShortOkapi disse...

Aaaaaana! Obrigado! Estou portanto a caminho do sucesso. Por este andar, quando chegar aos 80, se não estiver um velho ainda mais ranzinza do que sou hoje, hei-de ser o guru dos politugas.