terça-feira, 28 de julho de 2009

Um gene da fidelidade?

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O gene da fildelidade
O penúltimo número da revista Sábado (nº 272 — 15 a 22 de Julho de 2009) trazia a seguinte frase solta de cabeça de página:
"Maridos e ratos fiéis partilham o mesmo gene, diz um estudo sueco" FOLHA ONLINE

Não encontrei na Folha Online nenhum artigo sobre o assunto mas de qualquer forma acabei por perceber que nem sequer é notícia recente. No Globo, por exemplo, a notícia saiu de facto apenas uma semana após a publicação do artigo original, e já lá vai quase um ano. Quem quiser pode ler o artigo original na revista científica americana PNAS.

Estive a ler sem estudar detalhadamente — até porque não tenho traquejo para isso — e o paper referido parece-me sério. O único problema está na interpretação que dele fez o Globo e depois quem veio atrás, incluindo a Sábado: é que isto não tem nada a ver com fidelidade mas sim com estabilidade.

Resumindo, o que lá se conclui é que, quando existe um determinado gene nos humanos (ou pelo menos nos suecos de classe média que têm um gémeo e estão casados ou em união de facto — ufff) aumenta a probabilidade de envolvimento numa relação com maior índice de pair-bonding, de acordo com uma escala. E o que é que mede essa escala, exactamente? A qualidade e estabilidade da relação, e o nível de envolvimento com o outro.

Nada, mas nada, se pode concluir quanto à fidelidade, no sentido tradicional do termo: exclusividade emocional e ou sexual. Nem no sentido etimológico: confiabilidade, honestidade. E nada se pode concluir quanto à monogamia. Ora vejam as perguntas que são feitas à população estudada e verão se não tenho razão.

Em conclusão:
Existe um gene que favorece as relações íntimas. Espero ter esse gene. Eu e todos os meus putativos parceiros.

Nota: desculpem mas não resisti; tinha o sonho antigo e infantil de escrever a palavra "putativo".

5 comentários:

Daniel Cardoso disse...

Além disso, gostaria de ver que metodologia de controlo seria usada para verificar a fidelidade dos homens envolvidos... hehehe.

Anónimo disse...

Não sei porque é que se tem sempre de falar em fidelidade ou falta dela quando se fala de poliamor e/ou monogamia... É como aquele argumento que já cheira a velho de "vejam só como a poligamia é o sistema mais natural: quando se metem na monogamia, a maior parte dos seres humanos são infiéis!" Não faz sentido nenhum!

Lara disse...

Porque é que cada vez que se fala de caldeirada se fala de peixe? Não é um argumento, é uma constatação. Não há sistemas mais ou menos naturais. Há uma procura daquilo que melhor se adapta a cada um de nós. E para isso será necessário conhecermo-nos enquanto espécie e enquanto espécimen. Se há um sistema maioritário que provoca conflitos por não se adaptar à maior parte dos espécimenes, será no mínimo legítimo perguntarmo-nos porquê e procurar outro sistema, que tanto pode ser o poliamor como a abstinência numa gruta do Tibete.

Daniel Cardoso disse...

"Não sei porque é que se tem sempre de falar em fidelidade ou falta dela quando se fala de [...] monogamia."

Falar de fidelidade é falar de cumprimento de expectativas, é falar da possibilidade de confiar. E confiar é uma coisa difícil, parece-me que cada vez mais. Portanto as pessoas perguntam por aquilo que as aflige. "Será que vais ser confiável?" "Será que és capaz de não trair aquilo que dizes?"

E posta assim, de forma abstracta, a questão, acaba-se por se perceber porquê a pergunta pela fidelidade.

A fidelidade não desaparece na não-monogamia responsável. Transforma-se. E é, acima de tudo, fidelidade para com o próprio.

Vagabundo disse...

Agora decidi ler um pouco do teu blog :P. Poligamia é o que há na minha terra. E a sul de angola é possível casar mesmo oficialmente com mais do que uma mulher