quinta-feira, 23 de julho de 2009

"O que me importava era que ele me amava"

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Estas coisas às vezes vêm parar-me às mãos. Peguei no El País e, como é meu hábito, comecei a ler pela última página, na qual havia uma entrevista à viúva de Juan Carlos Onetti que é, como Mario Benedetti, um conhecido escritor uruguaio. Dou-me aqui à liberdade de traduzir estas passagens:

(…) a 28 de Abril, quando faleceu Idea
e circulou a notícia do agravamento de Benedetti,(…) a melancolia habitual de Montevideu concentrou-se ainda mais nos cafés e livrarias.
Dessas coincidências falámos com Dolly Onetti, ou Dorotea Muhr, a viúva do autor de A Vida Breve. Foi sua companheira durante mais de quarenta anos e aqui nesta casa onde falamos viveram a última década de existência de Onetti. Aqui vinha Benedetti visitá-lo, (…) e Idea Vilariño veio em 1989.
Ao Juan fez-lhe muito bem essa visita.” (…) “E foi importante para ele. (…) Uma grande poetisa, maravilhosa… Ela era mais intelectual, estava à altura do Juan na literatura, eu estava noutras coisas.”. E como foi o reencontro? “Não sei; eu sabia que era uma relação entre eles, tinha sido uma relação apaixonada, talvez a mais apaixonada do Juan. E quando ela chegou, eu fui embora. Estiveram juntos, sozinhos.”
Dolly e Onetti juntaram-se em 1955 “e o Juan disse que era para sempre. E era verdade, eu sabia. E sabia também que não ia ser a sua única mulher a partir de então, isso era absolutamente absurdo. Ele contava-me, não havia segredos. Havia algo assim como de conspiração. Esta é a tua vida, eu partilho-a de fora. E, por sorte, não sou ciumenta. Nunca fui. Se não, não teria funcionado.” Era generosidade. “Não, não, o que me importava era que ele me amava a mim. Éramos quase como um. Muitas vezes dizia: «Tu és um braço meu». E fui.(Artigo original aqui)

Dolly não fala aqui das suas próprias relações, talvez porque a entrevista não é centrada nela mas sim no marido. Talvez porque não veja necessidade de revelar essa parte da sua intimidade. Ou talvez porque não as tenha tido. À parte disso, do que Dolly nos fala é de poliamor.
Foca a sua relação no amor nela contido, e percebe que isso é que é determinante. Reconhece que se une com uma pessoa com um passado e valoriza-o, valorizando as pessoas com quem se relacionou. Percebe que cada pessoa tem valor por si mesma, umas porque se identificam connosco em termos literários, outras porque gostamos de viajar com elas, ou porque nos rimos das mesmas coisas. Cada uma ocupa um espaço no nosso coração, que não é substituível por outra e no entanto, todas juntas, enchem-no de alegria.

8 comentários:

Anónimo disse...

Tenho vindo a acompanhar o blog e até agora este é o post que mais me agradou. Porquê? Porque não segue a linha dos movimentos, das paradas, dos grupos organizados, das manifestações, não segue a linha da constante tentativa de explicar o que é o poliamor e porque é que ele tem mais vantagens que a monogamia, de justificá-lo, não segue a linha do nós em oposição ao resto do mundo. Juan, Idea e Dolly praticaram o poliamor de forma natural. Coisa que (e desculpem-me a frontalidade) vejo poucos ditos poliamoristas a fazer.

Joana V.

ShortOkapi disse...

Joana V., fico muito contente por haver alguém a ler o blog além de quem o escreve e dos amigos. :)

Também foi dos posts de que mais gostei até agora. Acuso o toque, na parte que me toca: em alguns dos meus posts andei a atirar para o doutrinário, sim senhora, e tenciono sê-lo cada vez menos. É bom ouvir críticas.

Quanto ao que vês os poliamoristas a fazer, bem, eu diria que tens de conhecer outros. :)

Daniel Cardoso disse...

Concordo com o ShortOkapi em tudo.

Mas - e acusando também o toque - não sei como se pode praticar o poliamor (ou a monogamia, ou o swing, ou [inserir variável]) de forma natural.

Até porque com o mantra da comunicação, parece que metade do poly se resume na frase "parar para pensar".

Boas leituras, e espero que continues connsco.

Anónimo disse...

Por coincidência ou talvez... sim, de certeza que por coincidência, o meu primeiro pensamento do dia foi pensar como é que alguém pode olhar alguém e vê-lo apenas como o SEU amante ou o SEU amor ou o SEU companheiro, excluindo a riqueza, a multidimensionalidade dos seus olhares, das suas sensações, as suas memórias afectivas, o passado que perdura no presente e o presente que ilumina o passado, enfim, um continente inteiro de emoções que cada um transporta e que a cada momento se enriquece. E como é possível, meu Deus, que alguém queira reduzir tudo isto a um só diálogo num só momento. Parabéns pelo post. É sempre bom lembrar que houve mais que um Sartre e que uma Beauvoir... :-)

Underscore

Anónimo disse...

PS Daniel, eu acho que nós até praticamos o poliamor de forma natural, na nossa vivência subterrânea, vá lá, no «sono da nossa vida», como dizia a Duras. Não o podemos é verbalizar sem olhar primeiro para todos os lados. E depois, a não ser numa viela escura, observar todos aqueles pequenos constrangimentos que decorrem da aplicação do código civil... esse instrumento medieval sem fim à vista. Bom fim de semana!

U.

antidote disse...

Olé,

Eu acuso o toque do movimento defensivo. Acho que desde comecei esta "vida" que nao faco mais nada alem de me justificar. Quando comecei, ha cerca de 18 anos, eu nao conhecia ninguem que vivesse assim ou soubesse o que era. Mesmo mais tarde, nao conhecia ninguem que o vivesse ou o compreendesse a menos de 10.000km da minha porta. tive relacoes poly com pessoas que se definiam como monogamicas o que implicou mais uma vez as tais explicacoes e desconstrucoes, muitas vezes bastante agradaveis pois parte da construcao da confianca mutua e cumplicidade que fazem uma relaco. Mesmo hoje em dia, em que muita gente sabe o que é poly, preciso de me justificar, porque o "meu poly nao é igual ao dele" e quero que me entendam como individuo e nao como membro dum grupo que "vive mais ou menos assim ou assado".

Partilho o desabafo contra os poliamoristas, porque, embora eu tenha divulgado, até se me acabar a saliva e os teclados, o poliamor, a minha vida era bastante mais simples no tempo em que nao havia tanta gente a tentar de repente ser poly e eles proprios a justificarem se através de actos ou de palavras.. Tenho a sensacao de, hoje em dia, para me explicar, tenho de explicar uma multidao de pessoas que se tornou visivel e cujo modo de vida eu nem sempre aprovo.

Termino dizendo, como te disse pessoalmente, que discordo duma certa corrente que vi em varios grupos em que me movimento, que é a do "o poliamor é lindo". Nao é. Nao tem de ser. é apenas outra solucao. Pode correr muito mal e pode correr muito bem.

beijos!

Lara disse...

Olá Joana :)
Obrigada pela tua presença e participação.
Ao que todos já disseram, há que adicionar o facto de este blog ter começado em plena época "orgulho gay", em que todas as manifestações e trocas acesas de ideias saem à rua. Em Junho e Julho haverá provavelmente muito disso em muitos blogs. Quanto à "pedagogia do poliamor", penso que é sempre de ter em conta que muitas pessoas não conhecem o conceito ou a terminologia usada, e que este blog se destina mais aos "outros" do que a "nós". Embora, acredito, às vezes não pareça. Se tiveres "discos pedidos", temas que gostarias de ver tratados, estás à vontade para disparar. Ou até, quem sabe, escrever como convidada um fim-de-semana destes.

Anónimo disse...

Gostei que este meu comentário tenha sido tão comentado. Como diz a Lara, talvez o timing "orgulho gay" também tenha contribuido para a minha visão geral deste blog e do movimento poli em si. O meu comentário foi mais uma forma de alertar para o facto de muitas vezes querermos racionalizar demasiado ou teorizar aquilo que sentimos ou que vivemos. Eu acho que se pode viver, sim, o amor (poli, mono, etc.....) de forma natural. É dificil, porque nem toda a gente aceita ou compreende, mas é possivel. Não me vejo em manifestações, grupos, a ler este ou aquele teórico para viver em pleno o meu (poli/mono) amor.
Parabéns pelo blog, acho que ainda não o tinha dito. Estou a gostar, uns dias mais, outros menos.

Joana V.