Tenho um bocado a mania, sei-o bem, de escrever coisas sobre a reformulação das hierarquias de sentimentos, de crítica à importância que o romantismo tem como expressão máxima de amor, sobre o privilégio associado a 'estar em casal', blá blá blá.
E, para muita gente, tal coisa é densa, abstracta, pouco útil ou pouco prática. De modo que hoje quis mostrar que tudo isto é extremamente prático e, também, extremamente doloroso de se ver/viver.
Já me aconteceu, mais do que uma vez, envolver-me com alguém que não se identifica necessariamente como poliamorosx, ou sequer como não-monogâmicx. Fazê-lo tem sempre o seu quê de tensão, porque há um conjunto de experiências pelas quais eu passo que não encontram eco ou reflexo na experiência dessa pessoa - e isso pode, por vezes, tornar mais difícil a empatia de parte a parte, ou a gestão de situações com mais tensão.
Uma particularidade deste tipo de relação é a de que, caso essa pessoa se interesse por outro alguém, poderá haver a ruptura da relação existente. Noutros casos, uma pessoa que se identifique como não-monogâmica pode mesmo deixar de se identificar como tal, e querer uma relação monogâmica (eventualmente com um terceiro elemento).
Ora, é para mim mais do que óbvio que todas estas coisas são legítimas. Achar que quem entra numa relação enquanto poly, assim tem que ficar até ao fim dos tempos amén é irrealista. As pessoas, sentimentos, vontades e contextos mudam. Para mim, a questão não é, de todo, essa.
Trata-se, antes, da existência de hierarquias de compromisso. Permitam-me explicar: a situação em que uma pessoa mono (numa relação com uma pessoa poly) se vê na possibilidade de iniciar uma outra relação com uma outra pessoa mono (terminando assim a relação com a pessoa poly) não é igual a quando uma relação mono acaba e dá lugar a outra.
Isto porque terminar a relação com a pessoa poly para estar com a pessoa mono é visto, frequentemente (e socialmente), como um regresso ao normal, ao saudável, ao expectável.
Quando a isto se junta, por exemplo, a situação de o envolvimento entre a pessoa poly e mono não ser do tipo romântico (e o das duas pessoas mono potencialmente o ser), desce-se mais um degrau nesta hierarquia. Não só se está a regressar ao normal, como também se está a regressar a uma vivência que vale a pena, é respeitável e que é melhor porque faz mais sentido (afinal de contas, se alguém é monogâmicx, porque iria desperdiçar a sua única relação com algo não-romântico?! /fim de sarcasmo).
Desconfio que isto torna mais fácil 'saltar fora' de uma relação com alguém poly. Pela minha experiência pessoal, isto também torna mais fácil que surjam comportamentos de desrespeito pela pessoa poly, pela relação com essa pessoa, pelos compromissos assumidos - porque essa relação/pessoa está 'naturalmente' mais abaixo numa hierarquia de compromissos. Ao mesmo tempo, espera-se que essa mesma pessoa poly compreenda a naturalidade de ser colocada na prateleira de baixo dessa hierarquia de compromisso, e os comportamentos possivelmente abusivos ou desrespeitosos.
(Nota: embora eu considere que, por questões de discriminação e invisibilidade social, as configurações acima descritas têm dinâmicas e características próprias, no abstracto, que facilitam tais acontecimentos, existem imensas outras situações que não passam por haver um elemento poly. Um exemplo corriqueiro é o típico "Adorava ir sair contigo, mas x namoradx também quer e portanto tenho ir sair com elx". Todas estas situações têm que ver com os elementos 'teóricos' abordados acima: a suposta primazia naturalizada do casal e do amor romântico.)
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sexta-feira, 1 de março de 2013
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
"Em Foco" no YouTube - Poliamor
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Como já sabem, no passado dia 27 de Janeiro estive no Porto com a Juliana Azevedo e o João Paulo, a falar sobre poliamor.
O programa já está no YouTube, e podem vê-lo em duas partes aqui:
Fizeram também uma pequena peça sobre o programa, que pode ser vista aqui:
Que vos pareceu o programa? Dúvidas? Sugestões? Comentários? Todo o feedback é bem vindo!
O programa já está no YouTube, e podem vê-lo em duas partes aqui:
Fizeram também uma pequena peça sobre o programa, que pode ser vista aqui:
Que vos pareceu o programa? Dúvidas? Sugestões? Comentários? Todo o feedback é bem vindo!
sábado, 7 de janeiro de 2012
Poly Happy, Happy Poly?
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O poliamor, a bissexualidade e outros temas "estranhos" e muito à frente chegaram há algum tempo às revistas femininas. A última foi a Happy Woman de Dezembro que comprei para poder ler o artigo, não sem no acto da compra a minha cabeça ter ficado a latejar ao aperceber-me do módico preço: 2,50 € por 200 e tal páginas por mês - um preço em conta nos tempos que correm (não admira que se venda).
Como poliamorosa é sempre interessante para mim ver o discurso indirecto que sobre a minha vida se faz e quase nunca há um efeito de identificação com o que leio. As reacções podem ir da gargalhada à fúria gelada, mas nunca olhei para uma reportagem e disse: ora, aqui está como me sinto e vivo. Pois é. Sei bem dos constrangimentos da profissão - ou não fosse essa a minha formação, mas não tenho qualquer empatia por recriações ilusórias de realidades supostamente não ficcionadas. Esta foi mais uma dessas.
Há uma série de coisas que as pessoas que escrevem sobre poliamor deviam entender de uma vez por todas (ordem perfeitamente aleatória):
1) O poliamor não é uma tendência.
2) Eu não estou na moda.
3) Nós não somos adeptos (para o caso de não terem reparado, isto não é futebol).
4) Também não somos uma corrente ou movimento.
5) Nós não somos "eles" - uma senda qualquer obscura de pessoas estranhas com opções esquisitas que fazem coisas numa qualquer realidade paralela que não vai certamente tocar nos leitores das revistas. Porque os leitores das revistas às vezes (!) são bissexuais, lésbicas, transgéneros e até... poly. Que estranho!
Se calhar é por isso mesmo que o director da revista achou por bem escrever um editorial a prevenir as leitoras para a terrível ameaça do fim da monogamia - e cito, «No dia em que acreditar nisso [morte da monogamia] tenho de pensar que a amizade sincera, o altruísmo, o amor sem interesses, a paixão pura e desinteressada... são pura ficção».
Para além de não perceber a correlação entre monogamia e todas estas elevadíssimas categorias e acções morais, deixa-me ainda mais preocupada a assumpção fascinante de que só as pessoas monógamas serão capazes de tais atitudes benéficas...
(neste ponto, pergunto-me: se há uma ligação tão óbvia entre todas estas coisas, porque é que há tantos problemas num mundo supostamente monógamo? Não deveria ser tudo perfeito, senhor editor?)
E continua: «Estou convencido que quase todos procuramos, no fundo, a monogamia». Para além de eu ter medo destes "fundos" essenciais - têm sempre qualquer coisa de abissal e a mim faz-me um bocado confusão a ideia de que a verdade de todos nós se encontre sempre no fundo de qualquer coisa (ajuda a perceber porque é que a honestidade parece ser tarefa titânica) - também tenho medo de andarmos todos à procura do mesmo - e mais ainda de isso ser certeza absoluta de alguém que não me conhece. Mas pronto, há o termo "quase", «quase todos» - afinal não são todos (já agora, todxs), mas para quê pensar nos que NÃO pensam ou agem assim (não importa que "esses" sejam o tema da reportagem em destaque na capa).
E se de falácias não estivermos ainda fartos, ainda temos umas quantas mais: a monogamia leva-nos «a outro patamar» (divino? ancestral? surreal? abissal? hum?); ajuda-nos a encontrar o «verdadeiro eu» (mas que raio é isso?) e por fim, «tudo está construído hoje para acreditarmos que a monogamia é algo passado e fora de moda» - e eu que pensei que era nestas condições que estava o Feminismo, mas afinal não, é a monogamia à qual se dedicam todos os filmes, livros, Disney, reportagens, notícias, consumismo, rotinas, instituições, etc etc etc... imagino se ela estivesse na moda, o que não seria.
Depois de ler um editorial destes, que já tudo interpretou por nós, o que sobra às leitoras da revista fazerem? Guardarem o cérebro a sete chaves e verem se não o usam durante a leitura da reportagem, que é para a sua concepção de mundo não ser alterada (ou a concepção do editorial?)
/sarcasm mode off.
E pronto, não tenho mais nada a dizer. Think for yourselves.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Poliamor não é
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... o oposto da monogamia.
É o oposto da traição (seja ela sob que forma for).
É o oposto da traição (seja ela sob que forma for).
terça-feira, 16 de março de 2010
Contradições ou talvez não
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Tenho estado sem tempo para ler ou sequer reflectir sobre o poliamor e assuntos paralelos. O que não significa que esteja sem tempo para o viver. Contradição aparente, apenas. Muito trabalho não significa necessariamente pouca vida social / afectiva / familiar / sexual.
Algumas outras contradições aparentes de que me tenho apercebido ao longo da vida. Umas minhas, outras de pessoas amigas:
Aqui fica um momento do filme A Serious Man (Um homem sério), onde se pode ver o protagonista bastante confuso com as contradições da vida:
Algumas outras contradições aparentes de que me tenho apercebido ao longo da vida. Umas minhas, outras de pessoas amigas:
Padrões elevados não implicam baixa tolerância.Ontem fui ver o último filme dos irmãos Coen, um monumento de humor negro, cómico e perturbante ao mesmo tempo, com uma precisão e uma emoção como poucos outros argumentistas e realizadores alguma vez conseguiram.
Desejos sôfregos não implicam ansiedades incontroláveis.
Expectativas elevadas não implicam grandes frustrações.
Lucidez extrema não implica autocontrolo frio.
Sensibilidade à flor da pele não implica falta de clarividência.
Aqui fica um momento do filme A Serious Man (Um homem sério), onde se pode ver o protagonista bastante confuso com as contradições da vida:
Talvez facilite uma transcrição:
LARRY
- […] I haven't been home a lot recently, I, uh, my wife and I are, uh, well, she's got me staying at the Jolly Roger, the little motel there on-
MRS. SAMSKY
- You're in the doghouse, huh?
LARRY
- Yeah, that's an understatement I guess, I -thank you-I, uh-
MRS. SAMSKY
- Do you take advantage of the new freedoms?
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Adeste fideles (¹)
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Quando «fidelidade» é sinónimo de «exclusividade», não há fiador que possa fiar-se inteiramente na «fidelidade» do afiançado. Sim, para um monogâmico, ser «fiel» é sempre um desafio, um resistir às tentações.
Por isso, o grande Vinicius de Moraes começa assim o «Soneto da Fidelidade»:
De tudo, ao meu amor serei atento | Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto | Que mesmo em face do maior encanto | Dele se encante mais meu pensamento
E pronto, o homem encanta-se com um novo amor mas, coitado, está sempre a compará-lo com o primeiro. E, mesmo que admita o poliamor (nada aqui o impede), o primeiro será sempre o primário — e, consequentemente, o segundo o secundário.
E continua:
Quero vivê-lo em cada vão momento | E em seu louvor hei de espalhar meu canto | E rir meu riso e derramar meu pranto | Ao seu pesar ou seu contentamento
Vamos lá a ver. Rir com o seu contentamento e chorar com o seu pesar, tudo bem. Cantar em seu louvor, nada contra. Mas pensar nisso a cada momento já me parece uma obsessão muito pouco saudável, um vício, uma dependência.
O que vale é que o poeta era realmente genial e termina em beleza:
E assim quando mais tarde me procure | Quem sabe a morte, angústia de quem vive | Quem sabe a solidão, fim de quem ama || Eu possa me dizer do amor (que tive): | Que não seja imortal, posto que é chama | Mas que seja infinito enquanto dure
E é genial porque não podia ser mais certeiro. De facto, é só isso que eu quero do amor que tenho para dar: que seja infinito enquanto dure.
(Sim, eu sei, a minha leitura é propositadamente enviesada. Se o «amor» da primeira estrofe é uma pessoa, o da última não deveria ser um sentimento, e vice-versa. Mas arrepia-me substancialmente que alguém ame o amor mais do que as próprias pessoas.)
Por isso, o grande Vinicius de Moraes começa assim o «Soneto da Fidelidade»:
De tudo, ao meu amor serei atento | Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto | Que mesmo em face do maior encanto | Dele se encante mais meu pensamento
E pronto, o homem encanta-se com um novo amor mas, coitado, está sempre a compará-lo com o primeiro. E, mesmo que admita o poliamor (nada aqui o impede), o primeiro será sempre o primário — e, consequentemente, o segundo o secundário.
E continua:
Quero vivê-lo em cada vão momento | E em seu louvor hei de espalhar meu canto | E rir meu riso e derramar meu pranto | Ao seu pesar ou seu contentamento
Vamos lá a ver. Rir com o seu contentamento e chorar com o seu pesar, tudo bem. Cantar em seu louvor, nada contra. Mas pensar nisso a cada momento já me parece uma obsessão muito pouco saudável, um vício, uma dependência.
O que vale é que o poeta era realmente genial e termina em beleza:
E assim quando mais tarde me procure | Quem sabe a morte, angústia de quem vive | Quem sabe a solidão, fim de quem ama || Eu possa me dizer do amor (que tive): | Que não seja imortal, posto que é chama | Mas que seja infinito enquanto dure
(Sim, eu sei, a minha leitura é propositadamente enviesada. Se o «amor» da primeira estrofe é uma pessoa, o da última não deveria ser um sentimento, e vice-versa. Mas arrepia-me substancialmente que alguém ame o amor mais do que as próprias pessoas.)
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¹ Aproximai-vos, fiéis
¹ Aproximai-vos, fiéis
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
ele não era um homem infiel
Publicado por
adoro os anúncios pessoais publicados pela revista maria e outras do tipo.
folheando a dita desta semana, encontrei vários, deliciosos, em que bons rapazes procuram raparigas honestas e trabalhadoras para constituir lar feliz, ou viúvas que querem voltar a encontrar a felicidade e para tal precisam de encontrar um cavalheiro sério.
e viver feliz para sempre também...
mas, continuando revista fora, nas páginas perto do fim, encontrei uma entrevista a leonor xavier. na entrevista, a propósito dos 80 anos de raúl solnado e da enésima edição da biografia que ela escreveu sobre seu namorado, um bocadinho da entrevista despertou-me a atenção.
a dada passagem, xavier é questionada sobre o tipo de relação que mantinha com solnado.
"não era um homem infiel!"... interessante, pensei.
"então como define a relação?", continua a entrevista. leonor xavier começa por dizer que o tinha conhecido em 1987, por ser vizinha da mãe de um dos filhos de solnado e que mal imaginava a ligação tão íntima e forte que viria a ter com ele.
pergunta seguinte: "mas ele era um conquistador?", ao que responde que ele era muito sedutor e que tinha namorado muito na vida... que tinha tido várias paixões, mulheres e aventuras.
prossegue a entrevista, questionando o efeito na sua vida amorosa. "a minha relação com ele nunca foi afectada por isso, porque não era um homem infiel. havia um acordo tácito e implícito entre nós", remata xavier.
ela conclui dizendo que tem muita saudade das conversas que mantinha com o seu companheiro, da sua espontaneidade e capacidade de improvisar.
eu fico contente pela capacidade de amar que estas duas pessoas conseguiram durante vinte anos.
folheando a dita desta semana, encontrei vários, deliciosos, em que bons rapazes procuram raparigas honestas e trabalhadoras para constituir lar feliz, ou viúvas que querem voltar a encontrar a felicidade e para tal precisam de encontrar um cavalheiro sério.
e viver feliz para sempre também...
a dada passagem, xavier é questionada sobre o tipo de relação que mantinha com solnado."não era um homem infiel!"... interessante, pensei.
"então como define a relação?", continua a entrevista. leonor xavier começa por dizer que o tinha conhecido em 1987, por ser vizinha da mãe de um dos filhos de solnado e que mal imaginava a ligação tão íntima e forte que viria a ter com ele.
pergunta seguinte: "mas ele era um conquistador?", ao que responde que ele era muito sedutor e que tinha namorado muito na vida... que tinha tido várias paixões, mulheres e aventuras.
prossegue a entrevista, questionando o efeito na sua vida amorosa. "a minha relação com ele nunca foi afectada por isso, porque não era um homem infiel. havia um acordo tácito e implícito entre nós", remata xavier.
ela conclui dizendo que tem muita saudade das conversas que mantinha com o seu companheiro, da sua espontaneidade e capacidade de improvisar.
eu fico contente pela capacidade de amar que estas duas pessoas conseguiram durante vinte anos.
domingo, 18 de outubro de 2009
Introdução ao Poliamor (II)
Publicado por
Loving More é o nome de uma organização americana que promove conferências e várias actividades relacionadas com não-monogamia responsável. É uma das mais importantes fontes de apoio, informação e difusão do poliamor nos EUA (senão mesmo a nº 1, como afirmam). Os principais meios de divulgação da Loving More são uma revista com o mesmo nome e o site lovemore.com.
Já aqui publicámos uma tradução do início das FAQ de Franklin Veaux. Está na altura de fazer o mesmo com as FAQ do Loving More (saltando desta vez a primeira pergunta, «O que é o poliamor?»):
Qual é a ideia do poliamor? Sexo com uma data de gente?
Não exactamente. A ideia é haver amor, romance, intimidade e afecto com mais do que uma pessoa, abertamente e eticamente, com o acordo de todos os envolvidos. O poliamor tem a ver com sexo na mesma proporção em que uma relação amorosa qualquer tem a ver com sexo. Para alguns, o sexo é um ponto importante das relações. Para outros, o mais importante é uma ligação romântica e emocional ou espiritual. O termo «poliamoroso» quer dizer, de facto, que tudo gira em torno de relações amorosas.
Poliamor é uma palavra cara para traição?
Não. Traição implica deslealdade e violação de um acordo. O poliamor não se baseia no segredo mas sim na abertura, na comunicação, em agir com respeito e integridade, e na partilha do amor.
A maior parte das pessoas poly concorda em definir fronteiras com os seus parceiros — coisas que podem e não podem fazer — e em comunicar honestamente sobre aqueles e aquelas com quem estão envolvidas. Trata-se de honestidade, confiança e respeito.
Quando alguém trai um parceiro numa relação poliamorosa — o que às vezes acontece —, isso implica o mesmo tipo de violações de confiança e de contrato que podem surgir numa relação monogâmica, e as mesmas horríveis consequências.
Qual é a diferença entre poliamor e swinging?
O poliamor gira em torno de relações amorosas, com ênfase na ligação e na construção da relação. O swinging tem mais a ver com sexo como forma de diversão; envolve frequentemente um casal ir a um clube de swing ou a uma festa de swing com o objectivo de se envolverem com terceiros especificamente para relações sexuais.
Alguns swingers, no entanto, acabam por formar relações duradouras com outro casal com quem «swingam», da mesma forma que algumas pessoas poliamorosas gostam de ter sexo ocasional em festas de swing. As culturas poly e swing tendem a ser muito diferentes (e cada uma delas tem os seus próprios estereótipos em relação à outra) mas de facto há uma continuidade no espectro entre uma e outra, e muita gente situa-se alegremente algures pelo meio.
Já aqui publicámos uma tradução do início das FAQ de Franklin Veaux. Está na altura de fazer o mesmo com as FAQ do Loving More (saltando desta vez a primeira pergunta, «O que é o poliamor?»):
Qual é a ideia do poliamor? Sexo com uma data de gente?
Não exactamente. A ideia é haver amor, romance, intimidade e afecto com mais do que uma pessoa, abertamente e eticamente, com o acordo de todos os envolvidos. O poliamor tem a ver com sexo na mesma proporção em que uma relação amorosa qualquer tem a ver com sexo. Para alguns, o sexo é um ponto importante das relações. Para outros, o mais importante é uma ligação romântica e emocional ou espiritual. O termo «poliamoroso» quer dizer, de facto, que tudo gira em torno de relações amorosas.
Poliamor é uma palavra cara para traição?
Não. Traição implica deslealdade e violação de um acordo. O poliamor não se baseia no segredo mas sim na abertura, na comunicação, em agir com respeito e integridade, e na partilha do amor.
A maior parte das pessoas poly concorda em definir fronteiras com os seus parceiros — coisas que podem e não podem fazer — e em comunicar honestamente sobre aqueles e aquelas com quem estão envolvidas. Trata-se de honestidade, confiança e respeito.
Quando alguém trai um parceiro numa relação poliamorosa — o que às vezes acontece —, isso implica o mesmo tipo de violações de confiança e de contrato que podem surgir numa relação monogâmica, e as mesmas horríveis consequências.
Qual é a diferença entre poliamor e swinging?
O poliamor gira em torno de relações amorosas, com ênfase na ligação e na construção da relação. O swinging tem mais a ver com sexo como forma de diversão; envolve frequentemente um casal ir a um clube de swing ou a uma festa de swing com o objectivo de se envolverem com terceiros especificamente para relações sexuais.
Alguns swingers, no entanto, acabam por formar relações duradouras com outro casal com quem «swingam», da mesma forma que algumas pessoas poliamorosas gostam de ter sexo ocasional em festas de swing. As culturas poly e swing tendem a ser muito diferentes (e cada uma delas tem os seus próprios estereótipos em relação à outra) mas de facto há uma continuidade no espectro entre uma e outra, e muita gente situa-se alegremente algures pelo meio.
domingo, 27 de setembro de 2009
Fiéis, nós?
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Na semana passada, o Jornal i publicou a vigésima de uma série de 50 revistas sobre Portugal e os portugueses (as revistas levam o título genérico "nós"). O tema de Sábado, dia 19, era a fidelidade.
De entre diversos artigos sobre os vários tipos de fidelidade (ao clube de futebol, ao barbeiro, etc.), interessam-nos os que falam sobre a fidelidade ao(s) parceiro(s). Mais concretamente, um ensaio de Mónica Marques, "O Pecado Mora ao Lado", que refere concretamente o poliamor como uma possível solução para uma aparente grande confusão.
Aqui ficam também uma crónica de Miguel Esteves Cardoso, "Fiéis como cães, talvez", e ainda uma lista de animais supostamente monogâmicos, "No reino da monogamia", acerca da qual estes senhores muito teriam a dizer...
De entre diversos artigos sobre os vários tipos de fidelidade (ao clube de futebol, ao barbeiro, etc.), interessam-nos os que falam sobre a fidelidade ao(s) parceiro(s). Mais concretamente, um ensaio de Mónica Marques, "O Pecado Mora ao Lado", que refere concretamente o poliamor como uma possível solução para uma aparente grande confusão.
Aqui ficam também uma crónica de Miguel Esteves Cardoso, "Fiéis como cães, talvez", e ainda uma lista de animais supostamente monogâmicos, "No reino da monogamia", acerca da qual estes senhores muito teriam a dizer...
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Da dificuldade do mono-amor
Publicado por
Obviamente, escolher a monogamia não é o mesmo que escolher não desejar mais ninguém para além d@ parceir@ [...]. Se não tivéssemos as nossas próprias regras, como poderíamos saber se estamos a ser infiéis? Para amar os nossos parceiros, temos que ser viciados em regras. - Adam Phillips, 1996
Mas não será, na verdade, que Adam Phillips se enganou? Não temos que ser viciados em regras para amar @s noss@s parceir@s. Apenas para amar "a nossa própria ideia de monogamia". Porque, efectivamente, "as regras são formas de imaginarmos o que fazer" - e sem elas, corremos o risco de ter que usar a imaginação...!
E se amamos, acima de todas as coisas, a nossa ideia de monogamia, que espaço sobra para @ parceir@? Se sobra algum, estaremos então já, por definição, a não ser mono-amorosos.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
e ainda por cima no meu bmw!
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"então não é que o estafermo me anda a comer a vizinha?! ela vai com ele para o estacionamento na baixa e é mesmo ali no carro que aquela puta lhe faz o servicinho… ah! e o carro ainda por cima até está em meu nome… é um bmw, sabe?"

foi assim que fui abordado, há uns dias, por uma conhecida minha. a rapariga fumegava, danada com raiva do marido de há mais de trinta anos.
e continuou… "a puta é nossa vizinha no prédio, sabe? eu até já falei com o marido dela! disse-lhe que procurasse saber o que anda a fazer a mulher, mas parece que ele está a leste do paraíso e não vê nada. são uns tansos, estes homens! as mulheres põem-lhes os cornos e eles até acham que são umas santas! só me apetece dar-lhe uma sova, cabra manhosa!"
mal a conheço, mas tentei acalmá-la… perguntei-lhe se amava o marido… "aquele estúpido?! não, queria era vê-lo a milhas, mas o gajo não sai! bem em verdade não sei, são muitos anos.. se calhar até amo… estou confusa!"
aproveitando a confusão, disse-lhe que provavelmente eu não seria a pessoa mais apropriada a quem pedir conselhos nesta matéria. "mas porquê?" ripostou ela. "você parece uma pessoa sensata e de certeza que era incapaz de fazer algo deste género!"
ri-me e respondi-lhe que agora não seria capaz… bem pelo menos a parte da traição, o resto no carro, bem, ai já seria rapaz para… e tal…
ficou perplexa.
aproveitei e sugeri-lhe uma solução.
em vez de dar cabo de dois lares, porque não juntá-los num só e experimentar qualquer coisa de diferente. afinal ela até se dá bem com o marido da outra e está provado que a outra se dá bem com o marido dela…
nesse momento lembrou-se que ainda tinha muito para fazer e despediu-se de mim à pressa… nem olhou para trás!
domingo, 6 de setembro de 2009
Introdução ao Poliamor (I)
Publicado por
| foto: Stella/Getty Images/fStop |
Qual será o melhor texto para se ler se não se souber absolutamente nada sobre poliamor?
É provável que muitos poliamoristas respondam a esta pergunta com um texto de Franklin Veaux intitulado Polyamory? : What, like, two girlfriends? («Poliamor? O quê, tipo duas namoradas?»)
Veaux conseguiu fazer umas FAQ (Perguntas Mais Frequentes) que são sem dúvida um dos textos mais simples, mais completos e mais fáceis de ler que existem sobre poliamor. O texto tem sido actualizado e aperfeiçoado pelo menos desde 2003 e continua sem publicação em livro.
Aqui segue, para abrir o apetite, uma tradução do início, tentando manter o espírito do original:
OK, então o que é isso do "poliamor"?
A palavra "poliamor" é baseada num termo grego e noutro do latim, com o conceito de "muitos amores" (literalmente, poly = muitos, amore = amor). Uma relação poliamorosa é uma relação romântica que envolve duas ou mais pessoas.
Quer dizer, tipo swing?
Não exactamente. O swinging tem um espírito diferente. Os swingers giram em torno do sexo como forma de diversão, apesar de poderem desenvolver amizades e ligações mais profundas. No poliamor, as ligações profundas são o espírito essencial, apesar de o sexo ser muitas vezes divertido.
Ah, estou a ver. Tipo ter um caso a sério com outra.
Não. Isso também é um espírito diferente. O termo técnico para isso é "trair".
Com certeza. Realmente há cá uma diferença!…
E há mesmo! Aquilo que define uma relação poliamorosa é que todas as pessoas envolvidas sabem do envolvimento, e concordam com o envolvimento, de todos os outros.
Se fores casado, e tiveres uma namorada de que a tua mulher não saiba, ou que a tua mulher suspeite existir mas sem ter a certeza, ou de que a tua mulher sabe mas não se sente bem com isso, não és poly, és infiel. Da mesma forma, se andas a comer o carteiro quando o teu marido vai para fora, não és poly, és infiel.
O poliamor é definido por um consentimento informado de todos os participantes. Sem isso, não é poly. Se não podes convidar uma pessoa que ames para o jantar de Natal com o resto da tua família porque não queres que se saiba o que andas a fazer, provavelmente isso não é poly.
Poly o tanas. Isso é só uma maneira de dizeres que o teu parceiro te deixa traí-lo.
Não. Trair é infringir as regras. Se não infringires as regras da tua relação, não estás a trair, por definição.
As regras não precisam de ser explícitas; até mesmo infringir as regras tácitas de uma relação é trair. Se fizeres alguma coisa que não te sentes confortável a contar à tua parceira, ou se fizeres alguma coisa que sabes que faria o teu parceiro infeliz se ele soubesse, é provável que estejas simplesmente a traí-lo.
O poliamor é uma forma completamente diferente de definir uma relação. É o reconhecimento do facto de que as relações não aparecem nas prateleiras em «tamanho único».
[…]
É provável que muitos poliamoristas respondam a esta pergunta com um texto de Franklin Veaux intitulado Polyamory? : What, like, two girlfriends? («Poliamor? O quê, tipo duas namoradas?»)
Veaux conseguiu fazer umas FAQ (Perguntas Mais Frequentes) que são sem dúvida um dos textos mais simples, mais completos e mais fáceis de ler que existem sobre poliamor. O texto tem sido actualizado e aperfeiçoado pelo menos desde 2003 e continua sem publicação em livro.
Aqui segue, para abrir o apetite, uma tradução do início, tentando manter o espírito do original:
OK, então o que é isso do "poliamor"?
A palavra "poliamor" é baseada num termo grego e noutro do latim, com o conceito de "muitos amores" (literalmente, poly = muitos, amore = amor). Uma relação poliamorosa é uma relação romântica que envolve duas ou mais pessoas.
Quer dizer, tipo swing?
Não exactamente. O swinging tem um espírito diferente. Os swingers giram em torno do sexo como forma de diversão, apesar de poderem desenvolver amizades e ligações mais profundas. No poliamor, as ligações profundas são o espírito essencial, apesar de o sexo ser muitas vezes divertido.
Ah, estou a ver. Tipo ter um caso a sério com outra.
Não. Isso também é um espírito diferente. O termo técnico para isso é "trair".
Com certeza. Realmente há cá uma diferença!…
E há mesmo! Aquilo que define uma relação poliamorosa é que todas as pessoas envolvidas sabem do envolvimento, e concordam com o envolvimento, de todos os outros.
Se fores casado, e tiveres uma namorada de que a tua mulher não saiba, ou que a tua mulher suspeite existir mas sem ter a certeza, ou de que a tua mulher sabe mas não se sente bem com isso, não és poly, és infiel. Da mesma forma, se andas a comer o carteiro quando o teu marido vai para fora, não és poly, és infiel.
O poliamor é definido por um consentimento informado de todos os participantes. Sem isso, não é poly. Se não podes convidar uma pessoa que ames para o jantar de Natal com o resto da tua família porque não queres que se saiba o que andas a fazer, provavelmente isso não é poly.
Poly o tanas. Isso é só uma maneira de dizeres que o teu parceiro te deixa traí-lo.
Não. Trair é infringir as regras. Se não infringires as regras da tua relação, não estás a trair, por definição.
As regras não precisam de ser explícitas; até mesmo infringir as regras tácitas de uma relação é trair. Se fizeres alguma coisa que não te sentes confortável a contar à tua parceira, ou se fizeres alguma coisa que sabes que faria o teu parceiro infeliz se ele soubesse, é provável que estejas simplesmente a traí-lo.
O poliamor é uma forma completamente diferente de definir uma relação. É o reconhecimento do facto de que as relações não aparecem nas prateleiras em «tamanho único».
[…]
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
A magia de falar
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Infidelity is as much about the drama of truth-telling as it is about the drama of sexuality. [...] The successful lie creates an unnerving freedom. [...] Lying, in other words, is not so much a way of keeping our options open, but of finding out what they are. Fear of infidelity is fear of language. - Phillips, 1996
A experiência da mentira é uma experiência traumática. A criança, ao se aperceber pela primeira vez que o acto falado não encerra em si uma predição, mas apenas uma subjectividade, é confrontada com a possibilidade de que tudo seja - ou que tudo possa ser - mentira. E, portanto, qualquer fé que pudesse ter na linguagem, qualquer esperança que a linguagem fosse transparente, óbvia, totalmente eficiente, etc..., desaparece. Não obstante, é a linguagem que usamos para pormos coisas em comum. Apesar da dificuldade que temos, fundamentalmente, em acreditar no acto de comunicar e no que daí advém, comunicamos.
Comunicamos porque não podemos deixar de o fazer, comunicamos porque é na comunicação que encontramos esse mesmo medo primordial mas também as ferramentas para o sanar, para o atenuar.
No poliamor, como na monogamia, a infidelidade existe. Mas é uma infidelidade que se centra principalmente na honestidade, e que implica a existência de comunicação frequente. Ainda assim, ambas as coisas se relacionam com a linguagem. E a liberdade perturbante que a infidelidade monógama permite, e de que fala o texto, pode perfeitamente ser substituída por uma liberdade fiel, por uma liberdade em que a honestidade pode permitir o mesmo que a infidelidade promete.
Ainda assim, resta um problema. Em relações poly, como em relações mono, a infidelidade também tem os seus atractivos linguísticos. Como a traça para a chama, o poder "mágico" da linguagem d@ infiel - o poder de fazer acreditar no que não existe - pode mesmerizá-l@. Porém, de forma diferente, a relação poliamorosa não requer (ou não é coadjuvada com) a mentira como forma de descobrir "que opções existem" - porque as opções que existem podem ser descobertas introspectivamente, relacionalmente, comunicacionalmente. Com honestidade.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Ainda bem que há ciúme!
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Se o ciúme não existisse, as pessoas amar-se-iam menos? Claro que não!
Mas a verdade é que sem ciúme nunca teriam sido escritas algumas das mais belas canções que conheço.
O filme brasileiro Perdoa-me por me traíres estreou-se há 25 anos. Chico Buarque, quanto a mim o melhor letrista de língua portuguesa de todos os tempos, escreveu para a banda sonora deste filme a música e letra da extraordinária canção "Mil perdões", que termina com os inesquecíveis versos
Mas a verdade é que sem ciúme nunca teriam sido escritas algumas das mais belas canções que conheço.
O filme brasileiro Perdoa-me por me traíres estreou-se há 25 anos. Chico Buarque, quanto a mim o melhor letrista de língua portuguesa de todos os tempos, escreveu para a banda sonora deste filme a música e letra da extraordinária canção "Mil perdões", que termina com os inesquecíveis versos
Te perdooNa voz de Gal Costa (a voz do filme):
Por te trair
Sentimentos tão negativos e improdutivos como o ciúme ou o desejo de vingança têm dado, de facto, canções poderosamente bonitas. Só para continuar com o Chico, vale a pena (re)ouvir / (re)ler as impressionantes canções "Atrás da porta" (Dei pra maldizer o nosso lar | Pra sujar teu nome, te humilhar | E me vingar a qualquer preço | Te adorando pelo avesso | Pra mostrar que inda sou tua | Só pra provar que inda sou tua…) ou "Olhos nos olhos" (Quando você me deixou, meu bem | Me disse pra ser feliz e passar bem | Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci | Mas depois, como era de costume, obedeci | […] | Quando talvez precisar de mim | 'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim | Olhos nos olhos, quero ver o que você diz | Quero ver como suporta me ver tão feliz).
Com músicas assim, o que é que querem que eu diga? Ainda bem que o ciúme existe. Perdoem-me por me trair.
Com músicas assim, o que é que querem que eu diga? Ainda bem que o ciúme existe. Perdoem-me por me trair.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Um gene da fidelidade?
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O penúltimo número da revista Sábado (nº 272 — 15 a 22 de Julho de 2009) trazia a seguinte frase solta de cabeça de página:
Resumindo, o que lá se conclui é que, quando existe um determinado gene nos humanos (ou pelo menos nos suecos de classe média que têm um gémeo e estão casados ou em união de facto — ufff) aumenta a probabilidade de envolvimento numa relação com maior índice de pair-bonding, de acordo com uma escala. E o que é que mede essa escala, exactamente? A qualidade e estabilidade da relação, e o nível de envolvimento com o outro.
Nada, mas nada, se pode concluir quanto à fidelidade, no sentido tradicional do termo: exclusividade emocional e ou sexual. Nem no sentido etimológico: confiabilidade, honestidade. E nada se pode concluir quanto à monogamia. Ora vejam as perguntas que são feitas à população estudada e verão se não tenho razão.
Em conclusão:
Existe um gene que favorece as relações íntimas. Espero ter esse gene. Eu e todos os meus putativos parceiros.
Nota: desculpem mas não resisti; tinha o sonho antigo e infantil de escrever a palavra "putativo".
"Maridos e ratos fiéis partilham o mesmo gene, diz um estudo sueco" FOLHA ONLINE
Não encontrei na Folha Online nenhum artigo sobre o assunto mas de qualquer forma acabei por perceber que nem sequer é notícia recente. No Globo, por exemplo, a notícia saiu de facto apenas uma semana após a publicação do artigo original, e já lá vai quase um ano. Quem quiser pode ler o artigo original na revista científica americana PNAS.
Estive a ler sem estudar detalhadamente — até porque não tenho traquejo para isso — e o paper referido parece-me sério. O único problema está na interpretação que dele fez o Globo e depois quem veio atrás, incluindo a Sábado: é que isto não tem nada a ver com fidelidade mas sim com estabilidade.Resumindo, o que lá se conclui é que, quando existe um determinado gene nos humanos (ou pelo menos nos suecos de classe média que têm um gémeo e estão casados ou em união de facto — ufff) aumenta a probabilidade de envolvimento numa relação com maior índice de pair-bonding, de acordo com uma escala. E o que é que mede essa escala, exactamente? A qualidade e estabilidade da relação, e o nível de envolvimento com o outro.
Nada, mas nada, se pode concluir quanto à fidelidade, no sentido tradicional do termo: exclusividade emocional e ou sexual. Nem no sentido etimológico: confiabilidade, honestidade. E nada se pode concluir quanto à monogamia. Ora vejam as perguntas que são feitas à população estudada e verão se não tenho razão.
Em conclusão:
Existe um gene que favorece as relações íntimas. Espero ter esse gene. Eu e todos os meus putativos parceiros.
Nota: desculpem mas não resisti; tinha o sonho antigo e infantil de escrever a palavra "putativo".
domingo, 26 de julho de 2009
O Mito da Monogamia
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Até agora, parece ser o único livro traduzido para português que se enquadra nas nossas temáticas. O Mito da Monogamia é uma reflexão sobre o comportamento animal e humano, partindo de vários estudos feitos ao longo de anos. Os mais recentes, baseados em testes de ADN, vieram revolucionar a ideia que se tinha em relação à monogamia, assente na mera observação.Se é verdade que algumas espécies (principalmente aves) formam pares para toda a vida, colaborando no desenvolvimento da sua descendência, não se pode daí inferir que haja uma exclusividade sexual, nem de machos nem de fémeas. Num mesmo ninho descobriram-se filhos de vários pais, que enquanto mantêm o apoio a uma só fémea, vão espalhando o seu ADN por outras. Por sua vez, as fémeas procuram a diversidade genética, sem abdicar dos cuidados dedicados do mesmo macho.
Sem pretender fazer apologia de nada, nem sequer decalcar o comportamento animal no humano, os autores limitam-se a enunciar resultados de vários estudos, agrupando-os e lançando questões que conduzam a alguma lógica ou conclusão, que é deixada ao leitor. Não é por isso o livro ideal para quem procura respostas a inquietudes, já que o objectivo é o oposto.
A edição original é de 2001, e em Portugal foi editado pela Sinais de Fogo em 2002. Encontra-se na Bertrand ou na Wook.
Sem pretender fazer apologia de nada, nem sequer decalcar o comportamento animal no humano, os autores limitam-se a enunciar resultados de vários estudos, agrupando-os e lançando questões que conduzam a alguma lógica ou conclusão, que é deixada ao leitor. Não é por isso o livro ideal para quem procura respostas a inquietudes, já que o objectivo é o oposto.
A edição original é de 2001, e em Portugal foi editado pela Sinais de Fogo em 2002. Encontra-se na Bertrand ou na Wook.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
preconceito
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este é um dos grupos mais heterogéneos que conheço... muitos dos casais são casados (um com o outro), mas há também namorad@s e alguns "arranjinhos". têm profissões tão diferentes como as de juiz@s, professor@s, empresári@s ou taxistas. fisicamente são orgulhosamente divers@s. conhecem-se na net ou em clubes e quando partilham sexo normalmente vale tudo menos tirar olhos.
é the lifestyle.
recentemente conversava com un@s amig@s swingers sobre a forma de se relacionarem entre si e fora do âmbito do sexo, quando lancei a hipótese das trocas se fazerem em outra dimensão. como seria, perguntei, se a maria convidasse o joão para ir ao teatro sem a lina e o antónio?
o quê?!? mas isso é uma traição, foi a resposta imediata!
mas, dizia eu, vocês acabaram de estar tod@s envolvidos a fazer coisas que, por modéstia, não posso aqui referir e agora dizem-me que uma ida ao cinema, seguida de um jantarinho com o marido da outra é traição!
falei-lhes de poliamor... perguntei se era mesmo só sexo, ou se entre el@s não havia uma espécie de namoro. na conversa sentia-se uma grande cumplicidade entre tod@s. afinal havia ou não sentimentos envolvidos?
o consenso foi que sim, havia e muitos e talvez, pasme-se, até amor..
estes meus amig@s ficaram a digerir a conversa sobre (poli)amor e (poli)sentimentos... são tod@s pessoas inteligentes e interessantes... e quem sabe se no nosso próximo encontro não haja novidades sobre o teatro ou cinema...
terça-feira, 7 de julho de 2009
Uma é loira, outra é morena
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No sábado passado, o Jorge estreou-se aqui com um texto onde mencionava a famosa canção Eu tenho dois amores, popularizada em Portugal pelo Marco Paulo.
Um assunto de tamanha importância merece investigação séria.
Por isso aqui vai informação fidedigna: a melodia do Eu tenho dois amores é duns senhores napolitanos dos anos 50 (o autor de livros infantis Giuseppe Fanciulli e o multifacetado Nicola Salerno, também conhecido por Nisa, autor de sucessos como Non ho l'età).
O tema chama-se Guaglione:
Este Guaglione deu origem às mais variadas versões:
(um filme do Dean Martin)
(o francesíssimo Bambino da Dalida)
(uma coisa maravilhosa de Bollywood, em hindi)
e finalmente
(um xarope dum brasileiro chamado Fernando Mendes, já com a letra que viria a ser usada pelo Marco Paulo)
Diverti-me a descobrir estas pérolas, é verdade. Mas o que me levou a escrever aqui em vez de o fazer num simples comentário ao post do Jorge foi precisamente a letra, que, lá para o meio, diz assim:
Que este encanto não se acabe
E eu já pensei tanta vez
Pois enquanto ninguém sabe
Somos felizes os três
Seguramente muito pouco poliamoroso.
Citando o que o próprio Marco Paulo uma vez disse acerca desta música, "a letra espreme-se e não deita sumo". E eu acrescentaria: a loira e a morena poderão até ser felizes mas, se um dia alguma delas descobre, deita sangue. Para quê correr riscos?
A abordagem tradicional é de facto, muito masculinamente (seja lá isso o que for), continuar a enganar a loira e a morena, na esperança de que não descubram e continuem assim felizes os três… Ou, muito femininamente (raios partam estes estereótipos), desistir de um dos dois amores e escolher apenas um, vá-se lá saber com base em que critérios. Não seria mais simples, já para não dizer mais respeitador, ser honesto? Não será precisamente a isso que devia chamar-se ser fiel? Ser fiel a um amigo é não lhe mentir. Mas ser fiel a um amante, nesta nossa estranha sociedade, é afinal mentirmo-nos a nós próprios, negarmo-nos o direito a viver em pleno os nossos sentimentos.
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