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terça-feira, 12 de abril de 2011

Sexo fácil

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«Muita gente mete-se no poliamor […] porque é uma forma de obter sexo fácil» — alvitrou às tantas uma das mais de 40 pessoas na plateia durante o debate aberto sobre poliamor de que demos conta aqui. E eu não podia deixar de responder. Porque, de facto, a abundância sexual tão exaltada no Ethical Slut quase só existe para quem já teria facilidade em obtê-la, com ou sem poliamor.

No diagrama que então desenhei no quadro, e que aqui reproduzo, cada um dos cinco nós “A” a “E” representa uma pessoa e as ligações representam as relações sexuais que existem.

Numa relação entre duas pessoas, não é frequente que ambas tenham exatamente a mesma libido. Chamo aqui libido (roubando o conceito à psicanálise e simplificando) à frequência com que apetece sexo a uma pessoa. No diagrama, a libido de cada um é expressa pelo diâmetro do respetivo círculo.

Quando existe apenas o par A+B (ou esse par é monogâmico), em que A tem menos libido do que B, a solução passa normalmente por terem sexo com a frequência menor. B tem de se conformar, assim, com menos sexo do que gostaria de ter.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pelo direito a crescer sem «bulência»

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Na semana passada, voltou a falar-se de um tema que recorrentemente tem feito notícia: a violência escolar, ou bullying, como quase sempre é denominada na imprensa portuguesa, que não tem a flexibilidade linguística dos franceses e nao é capaz de inventar uma palavra nova quando faz falta.

A «bulência», chamemos-lhe assim, foi tema do Projecto de Lei 495/XI, que acabou por ser rejeitado em plenário no passado dia 21 de Janeiro. Não cheguei a ler o projecto de lei mas ficou-me na memória a frase de bullying parlamentar que o deputado Sérgio Sousa Pinto proferiu a esse respeito: «faz tanta falta às escolas e ao ordenamento jurídico como uma gaita num funeral» (não estou a inventar: vídeo aqui).

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Poliamor para leigos na TV

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Um poliamoroso num programa de mockumentary (falso documentário em comédia, tipo The Office) não é coisa que aconteça muito. Ainda menos em Portugal. Trabalhar num canal de televisão deu-me, no entanto, essa possibilidade.
Honra seja feita aos meus colegas guionistas, que resolveram fazer de mim protagonista deste episódio do programa Isto é o Q? (canal Q, posição 15 na Meo, domingos às 22h40). Aqui fica, na íntegra:


Gostei bastante do resultado final, mas o melhor não ficou registado. Já depois de tudo gravado e montado, um dos câmaras entrou numa conversa onde estava eu a falar com outros colegas de trabalho, e pergunta ele, incrédulo: «Mas espera lá, então isso do poliamor não foi inventado por vocês? Isso existe mesmo?»
Acreditem, este meu colega não foi inventado, existe mesmo…

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Não preciso que precises de mim

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Até à semana passada, se me pedissem para dar uma opinião sobre qual seria a melhor canção sobre o desejo, o querer, eu não hesitaria em referir «O Quereres» do Caetano Veloso. A letra é tão rica e tão poderosa que parece Chico Buarque. Deixo apenas duas linhas como exemplo:
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és ¹
Pois bem, conheci agora um músico que já edita há quase 30 anos mas de quem, na minha reconhecida incultura pop, nunca tinha ouvido falar: Momus. Não me tenho cansado de ouvir as mais diversas faixas dos mais de 20 álbuns deste fantástico contador de histórias. Normalmente não dou atenção suficiente à letra das músicas, porque me foco demasiado na música. Com o Momus, isso é quase impossível. Deixo aqui «I Want You But I Don't Need You», do álbum Ping Pong (de 1997), uma lição exemplar a propósito da confusão, facílima de se fazer, entre amar alguém e precisar dessa pessoa. (A letra está aqui.)

___________________
^ (¹) Letra completa, e também um vídeo (maravilhoso, Chico e Caetano ao vivo) aqui.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Stereo a três

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Nas últimas semanas, uma música tem-me vindo à cabeça recorrentemente.

Os Stereo Total são uma banda de Berlim multinacional e poliglota. O meu divertido brainworm tem um original em alemão, com o título Liebe zu Dritt, e outras versões (da mesma banda) em francês (L'amour à trois) e inglês (Love with the 3 of Us). Deixo aqui as três e espero que fiquem tão contagiados como eu. As letras estão no site da banda.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A invenção da mentira

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Sempre que sou radicalmente honesto, os outros tornam-se eles próprios radicalmente honestos. […] De facto, todas as minhas relações conseguem aguentar uma dose de verdade muito maior do que aquilo que eu esperava.


E se, num mundo paralelo semelhante ao nosso, toda a gente soubesse apenas dizer a verdade?
É esta a premissa do filme The Invention of Lying, de e com o fabuloso Ricky Gervais, que não tem data de estreia prevista para Portugal, e que vi em versão pirata numa destas noites.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Falhar é bom

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A maior parte de nós procura ter relações duradouras. Não que sejam o único tipo de relação interessante mas provavelmente porque só é possível construí-las com pessoas especiais para nós, e um nível de compatibilidade muito alto não é frequente encontrar a uma distância decente.

Quando alguém se envolve num novo relacionamento, e durante os dias, semanas ou mesmo meses que se seguem, é bastante comum não se acreditar inteiramente nessa relação, pelo simples facto de estar no início. Parece fazer sentido, esta precaução. Mas não será prejudicial para o próprio desenvolvimento da coisa?

Por outro lado, será produtivo acreditar logo de início que uma nova relação vai ser para a vida? Eu diria que há uma razoável probabilidade de uma atitude assim conduzir a maus resultados. E as pessoas têm, geralmente, medo de falhar.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Amores antigos

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Numa rede de encontros onde me inscrevi há ano e meio, que adoro e recomendo (OkCupid), uma das frases que está no meu Self-Summary é a seguinte:
I'm always starting off new things but hardly ever finish any, which means I'd hardly finish with you. ;)
No final de Março, cansado do silêncio bloguístico que nessa altura se estava a alastrar contagiantemente entre a generalidade dos colaboradores, escrevi um post desanimado — embora simultaneamente feliz com a actividade crescente, em contramaré, dos nossos congéneres brasileiros¹. E o que aconteceu depois desse post? Emudeci eu próprio. Quatro meses e meio de silêncio.

terça-feira, 23 de março de 2010

Pouco Portugal, muito português

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Por variadíssimas razões, algumas delas totalmente desconhecidas para mim, este blog tem sofrido uma desertificação sem que, ao menos desta vez, o clima ou o aquecimento global o justifiquem.

Entretanto, no Brasil, não bastava a activista Charô ter construído e manter o site Poliamor Brasil, ainda se pôs (foi ela?) a fazer um outro site intitulado simplesmente Poliamor e agora, desde esta semana, um agregador de todos os blogues em português sobre poliamor. Chama-se Parada Poli e os nossos últimos posts já lá estão.

Um oásis prometedor ou uma miragem para bloguistas moribundos?

terça-feira, 16 de março de 2010

Contradições ou talvez não

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Tenho estado sem tempo para ler ou sequer reflectir sobre o poliamor e assuntos paralelos. O que não significa que esteja sem tempo para o viver. Contradição aparente, apenas. Muito trabalho não significa necessariamente pouca vida social / afectiva / familiar / sexual.

Algumas outras contradições aparentes de que me tenho apercebido ao longo da vida. Umas minhas, outras de pessoas amigas:
Padrões elevados não implicam baixa tolerância.
Desejos sôfregos não implicam ansiedades incontroláveis.
Expectativas elevadas não implicam grandes frustrações.
Lucidez extrema não implica autocontrolo frio.
Sensibilidade à flor da pele não implica falta de clarividência.
Ontem fui ver o último filme dos irmãos Coen, um monumento de humor negro, cómico e perturbante ao mesmo tempo, com uma precisão e uma emoção como poucos outros argumentistas e realizadores alguma vez conseguiram.

Aqui fica um momento do filme A Serious Man (Um homem sério), onde se pode ver o protagonista bastante confuso com as contradições da vida:


Talvez facilite uma transcrição:
LARRY
[…] I haven't been home a lot recently, I, uh, my wife and I are, uh, well, she's got me staying at the Jolly Roger, the little motel there on-
MRS. SAMSKY
You're in the doghouse, huh?
LARRY
Yeah, that's an understatement I guess, I -thank you-I, uh-
MRS. SAMSKY
Do you take advantage of the new freedoms?

terça-feira, 9 de março de 2010

A Igreja, o sexo e o riso

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Um dos tiros mais certeiros do discurso de Stephen Fry contra a Igreja Católica e em especial contra o actual Papa é o seguinte excerto:
[A Igreja Católica] vive obcecada com sexo, absolutamente obcecada. Dizem que quem está obcecado somos nós, com a nossa sociedade permissiva e as nossas piadas porcas. Mas não! Nós temos uma atitude saudável em relação ao sexo, gostamos, é divertido, é alegre. Sim, por ser um impulso primário, pode ser perigoso, negro, difícil. Nesse aspecto, é um pouco como a comida, só que ainda mais excitante. As únicas pessoas que vivem obcecadas com comida são as que sofrem de anorexia ou de obesidade mórbida. Em termos eróticos, isto é, em poucas palavras, a Igreja Católica. ¹
A fantástica personagem Jorge de Burgos, um monge católico n’O nome da rosa, esconde e faz desaparecer o livro de Aristóteles sobre comédia, por considerar que o riso é diabólico e, mais do que isso, é a maior das heresias. ²

Apesar dos esforços da Igreja, o medo do riso não se manteve tanto como o horror ao sexo. Por isso, é de certo modo saudável que, no quase inesgotável universo das piadas e anedotas sobre sexo, uma substancial percentagem recaia sobre quem o não tem. ³

”The
Do divertidíssimo livro The Naked Jape, do comediante britânico Jimmy Carr (o único livro que conheço sobre comédia que realmente tem graça e se lê com agrado), aqui vão algumas pérolas:

I’m dating a homeless woman. It was easier talking her into staying over.

I don’t have a girlfriend. But I do know a woman who’d be mad at me for saying that.

I’m single by choice. Not my choice.

My sister was with two men in one night. She could hardly walk after that. Can you imagine? Two dinners!

So I kissed Lucy, and I was very surprised to feel her tongue pop out. It was my first real snog, and I loved it. You can imagine that I fell in love instantly. Sadly the next year Lucy developed distemper and had to be put down.

I’m a great lover, I’ll bet.

I’ve had more women than most people have noses.

Anedota australiana:
‘Wanna fuck?’
‘Looks like you talked me into it, you sweet-talking bastard’

Anedota espanhola:
‘Hola, buenos días.’
‘Pasa, pasa, que tienes una labia!...’

O que me importa reforçar aqui é que faz falta regressar a um modo de sentir com menos traças na cabeça e menos peso do Vaticano aos ombros, para que possa haver mais «abundância sexual» e mais naturalidade em relação ao sexo. Como diz o Steve Martin,

Sex is one the most wholesome, beautiful and natural things that money can buy.


___________________
^ (¹) O vídeo do discurso (em duas partes) está no meu último post. O excerto que aqui traduzo está na segunda parte, ao minuto 5’48”.
^ (²) No Segundo Dia, Hora Terça, diz «O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco.» — ao que Guilherme de Baskerville responde: “Os macacos não riem”... (No filme, a frase é ainda melhor: «O riso é um vento demoníaco que deforma os traços da face e faz o homem parecer um macaco.»
^ (³) Poderão ser piadas e anedotas politicamente incorrectas, se atacarem as respeitabilíssimas pessoas assexuais, mas, quanto a mim, uma piada não perde humor só pelo facto de ser incorrecta; muitas vezes, pelo contrário.

terça-feira, 2 de março de 2010

Se eu fosse um grão de milho

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Chego a casa estourado de um trabalho que consiste em ter ideias e escrever, e tenho à minha frente o computador a dizer-me que preciso de ter ideias e escrever aqui no PolyPortugal. Sugerem-me que faça uma composição que comece por "Se eu fosse um grão de milho". E porque não? Não tenho dúvida de que não é pior do que nenhuma das ideias que tive no caminho para casa. Por isso, aqui vai:

Se eu fosse um grão de milho, seria um fruto, fiquei a saber após leitura desta doutíssima fonte e das referências que lá vêm:
The sex life of corn
Conclusão: a expressão «ser bom (ou boa) como o milho» até é capaz de fazer sentido. Se mesmo nisto se pode encontrar uma lógica, o mundo certamente está perdido — é o mínimo que se pode concluir.

A verdade é que sou insaciável na minha sede de conhecimento de curiosidades sem utilidade aparente, e por isso li de facto o artigo. E fiquei a saber que uma planta de milho tem gâmetas (células sexuais) masculinos e femininos, que realmente é uma coisa invejável. Mas depois não me parece que haja grande diversão por ali. A bandeira ou pendão do milho (são umas inflorescências macho na ponta da espiga), uma vez por ano, liberta pólen, que são os elementos reprodutores masculinos, ou seja, o equivalente ao esperma nos mamíferos, acho eu. O pólen é levado pelo vento para as barbas (que, apesar do nome, são os elementos reprodutores femininos) e pronto: nasce um lindo grão de milho.

«Bom como o milho»? Mas que raio de vida sexual é esta? Se eu fosse um grão de milho, seria muito infeliz com certeza. Antes padre católico: ao menos poderia ter uma vida sexual activa e até com bastante diversidade (e teria sempre a instituição a proteger-me…)¹

_______________
(¹) Talvez não seja demais deixar claro que esta última frase é escrita com uma especial ironia. Embora a parte que começa na palavra «poderia» seja totalmente verdade, o desejo implícito de querer essa verdade para mim é, esse sim, uma ironia. A este propósito, não podia concordar mais com o brilhante Stephen Fry e o seu discurso no Intelligence Squared contra a moção "The Catholic Church is a force for good in the world" (vale mesmo a pena ver as duas partes na totalidade):

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O medo do singular

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Esta semana estreou-se em Portugal o filme Um homem singular ¹. Um dos momentos mais conseguidos do filme é a aula sobre o medo, que não tem correspondente no livro que deu origem ao filme, de resto.

Transcrevo aqui uma parte desse excelente discurso do protagonista:

GEORGE
There are all sorts of minorities, blondes for example… But a minority is only thought of as one when it constitutes some kind of threat to the majority. A real threat or an imagined one. And therein lies the FEAR. And, if the minority is somehow invisible... the fear is even greater. And this FEAR is the reason the minority is persecuted.
E continua assim (o actor é o britânico Colin Firth e foi nomeado para um Oscar por este filme):


Ontem almocei com uma pessoa que já não via há muito. Trocámos histórias, entre elas a de que estou numa relação poly e também a viver numa família intencional. Lá tive de lhe explicar o que é o poliamor e responder às perguntas habituais. E, como de costume, aliás, a reacção não foi negativa: não senti que o poliamor inspirasse nenhum medo. Além disso, a resposta desta minha amiga à minha conversa sobre poly incluiu qualquer coisa como «andei eu a vida toda confusa com os meus relacionamentos e os meus desejos quando afinal, se eu soubesse que havia pessoas a pensar assim, talvez me sentisse identificada e conseguisse ter paz comigo própria.»

Não foi a primeira vez que ouvi este tipo de resposta. Conheço razoavelmente esta pessoa, o suficiente para me parecer também que realmente ouvir falar de poliamor lhe teria feito bem.

O medo que ela tinha, afinal, era medo dela própria. E estou convencido que haverá muito boa gente por esse país fora que só não é poliamorosa na prática porque nem sequer sabe que há mais pessoas assim.

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(¹) A Single Man, do estilista e agora realizador Tom Ford, com argumento do também estreante David Scearce sobre o livro homónimo de Christopher Isherwood (traduzido por Maria Filomena Duarte para a Labirinto com o título Um homem no singular). O filme está em exibição em cinco salas da Grande Lisboa e duas do Porto.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ardores latinos

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Para eu mudar de estado de espírito, não preciso de um evento desencadeador após um acumular de tensões, ou de me cercar de atenções. Quero eu dizer: os preliminares podem nem sequer existir, que um simples agravo ou um único abraço podem activar instantaneamente o interruptor que me deixa de mau humor quando antes estava bem, ou feliz se estava mal.

Se me sinto ferido por alguém de quem gosto, e isso pode suceder com uma simples frase, posso de repente pôr tudo em causa, feito personagem de telenovela mexicana.

Parece que isto, assim mo dizem, será uma característica «feminina», normalmente relacionada com as variações hormonais do ciclo menstrual. Tenho sérias dúvidas. Por maior que seja a influência do período e de outras eventuais diferenças entre os géneros, acredito que as pessoas são todas diferentes, e esta minha idiossincrasia é tão de gaja como de menino mimado

Nem sequer vou continuar a falar das minhas peculiaridades, que teria aqui toda uma enciclopédia para escrever. De resto, tenho conhecido as atitudes e comportamentos mais estranhos não só em mim mas também nas pessoas que melhor conheço.

Um dos mais inquietantes traços de personalidade, que soube há pouco não fazer parte apenas do mundo das pessoas que vêem demasiados telefilmes nas tardes de domingo, é a de precisar de odiar alguém para depois voltar a gostar dessa pessoa.

Já não preocupante, mas certamente singular, é a necessidade que algumas pessoas têm de esconder dos outros que estão mal com alguém (ou que estão bem, também acontece).

Estas e outras singularidades conheço eu em pessoas que admiro (ou em mim próprio, que também tenho em boa conta), e serão possivelmente vestígios deixados pela maldita era do amor romântico. O que já acho definitivamente um exagero ultra-romântico, nada saudável por sinal, é a ideia de que «sem ti não sou ninguém».

O que vale é que, como disse no início, preciso de muito pouco para ficar feliz. Diário de hoje: acordar cedo e com ideias (bem disposto), ficar horas sozinho ao computador durante horas no silêncio absoluto da casa (a ficar mal dispostinho), almoçarada com toda a família (bem disposto de novo), a luz a ir-se abaixo e com ela o computador (mal disposto, agora sim), darem-me um abraço um pouco mais tarde (bem disposto de novo), ver uma comédia que me deu sono (boa disposição perdida), e por fim descobrir estas músicas e em particular o último vídeo (que, de tão ridiculamente melodramáticos, me põem extremamente bem disposto).

No domingo que passou, recebi uma mensagem duma pessoa que conheci há muito pouco tempo na Net, e a quem tinha dito que os suecos têm um dia dedicado a uma espécie de caracol de canela (acreditem que havia uma razão para lho dizer). E a mensagem era isto: "Thanks for telling me about Kanelbullens dag; that absolutely makes up for Valentines." Eu nem me tinha apercebido que era Dia dos Namorados, vejam lá o que eu ligo à coisa. Mas o que importa é que alguém ficou instantaneamente feliz com uma frase minha. Haja mais destas idiossincrasias!

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Aqui vai alguma informação e excertos das letras destes extraordinários «valses peruanos» cantados de forma sublime pelo maior cantor equatoriano de todos os tempos, Julio Jaramillo.

“Interrogación”, de Minerva Valdez Olizondo (de quem não sei nada)
Ya no creo en nada | Hasta dudo de ti | Siento desconfianza | Ya no creo ni en mí

“Odiame”, letra sobre o poema “Último ruego”, do peruano Federico Barreto, música do seu compatriota Rafael Otero López
Odiame por piedad, yo te lo pido… | ¡Odiame sin medida ni clemencia! | Odio, quiero más que indiferencia | Porque el rencor hiere menos que el olvido. || Si tú me odias quedaré yo convencido | De que me amaste, mujer, con insistencia, | Pero ten presente, de acuerdo a la experiencia, | Que tan solo se odia a lo querido.

“Que nadie sepa mi sufrir”, valsa peruana composta na Argentina por Ángel Cabral, com uma mal amanhada letra escrita em colaboração com o também argentino Enrique Dizeo
Amor de mis amores | Si dejaste de quererme, | No hay cuidado que la gente | De eso no se enterará. || ¿Qué gano con decir | Que una mujer cambió mi suerte? | Se burlarán de mí, | Que nadie sepa mi sufrir.

“Alma mía”, do peruano Pedro Miguel Arrese
Fuiste tu todo mi ser, | Mi amor todo te lo entregue | El amor que te profeso, es el mas puro mujer | Si los lazos que nos unen se llegaran a romper | Que se acabe ahorita mismo la existencia de mi ser.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

«Quelq'un m'a dit»

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Em geral, as pessoas precisam de saber que lugar(es) ocupam no mapa dos afectos daqueles de quem gostam. Precisamos, quase todos, de perceber em que página do catálogo estão os sentimentos que os outros nutrem por nós.

Ele tem um desejo animal por mim mas sem sexo até nem gosta muito de estar comigo? Ela quer a minha companhia de vez em quando para conversar sobre tudo e mais um par de botas? Ele quer viver comigo e partilhar cama e mesa?

Ou, de forma mais elementar, embora mais perigosa se não se tiver consciência de que as definições pessoais dos termos amorosos variam quase tanto como os traços fisionómicos:
Ele ama-me? Ela é minha namorada? Somos fuck buddies?

Algumas palavras, no entanto, têm um peso tão grande na nossa cultura que, seja qual for o significant other que no-las diz, ficamos instantaneamente com a certeza de que a coisa é profunda. Expressões como «Amo-te», ou mesmo «acho que te amo», têm este poder.

Aqui vai um vídeo que me foi enviado esta semana, num dia muito especial, por uma pessoa que adoro. Obrigado! A ambas!


On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose, | Elles passent en un instant comme fanent les roses. | On me dit que le temps qui glisse est un salaud, | Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux. || Pourtant quelqu'un m'a dit… | Que tu m'aimais encore, | C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore. | Serait-ce possible alors ? || On me dit que le destin se moque bien de nous, | Qu'il ne nous donne rien, et qu'il nous promet tout. | Parait que le bonheur est à portée de main, | Alors on tend la main et on se retrouve fou. || Pourtant quelqu'un m'a dit… || Mais qui est-ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais ? | Je ne me souviens plus, c'était tard dans la nuit. | J'entends encore la voix, mais je ne vois plus les traits, | "Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que je vous l'ai dit." || Tu vois, quelqu'un m'a dit… || On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose… || Pourtant quelqu'un m'a dit…

A canção Quelq'un m'a dit é da autoria de Carla Bruni (a sua primeira intérprete) e Leos Carax. O vídeo deste post é do espectáculo de 2006 Le village des Enfoirés, do colectivo Les Enfoirés. Cantam, da esquerda para a direita, Zazie, Marc Lavoine, Patrick Bruel e Raphaël. Na guitarra, Francis Cabrel.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mal amado, mal amando

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Esta semana fiquei sem bateria. O mecânico vem cá amanhã para levar o carro. Já estou a fazer contas à vida.

E outras contas agora. À minha vida amorosa. Algumas etapas:

1980
às escondidas porque não era suposto
1982
às escondidas porque ele era casado
1985
pediu namoro a outro; eu não soube dizer que não tinha de ser uma disjunção exclusiva
1988
afinal havia outro
1991
não conseguiu resistir à droga; nem a mentir-me acerca disso
1998
casada e ele não sabia de nós
2000
não resistiu a saber de mim e da outra
2002
casada também; por fim acabou com um terceiro, e garantindo-me que estava sozinha
2005
casou depois, e não quer que ninguém saiba de nós
2007
jurei-lhe exclusividade, a muito custo; acabou por andar com outro às escondidas

Isto faz mossa, deforma uma personalidade, desgasta a máquina. Esta semana, fiquei sem bateria. Quero pedir ao mecânico para me levar também o coração.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Perdi a fome

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«A. está com uma imensa vontade de ir comer sushi a um novo restaurante de fusão que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de comer, tem fome. Chega ao restaurante na esperança de que haja lugar mas sabe que o local é muito concorrido e por isso preparou-se para ter de deixar este restaurante para outra noite sem sentir grande frustração. À entrada, fica a saber que há lugar, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a fome mais a vontade de comer, e vai para casa fazer a sua comidinha à mão.»
Idiota?… E com algumas alterações, será que faz mais sentido?
«A. está com uma imensa vontade de ir comer uma pessoa que conheceu na Net e que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de a comer, tem um desejo carnal urgente. Chega ao local combinado na esperança de que essa pessoa também fique encantada quando se virem agora ao vivo, mas sabe que a tal pessoa é muito concorrida e por isso preparou-se para ter de deixar este assunto para outra noite sem sentir grande frustração. Mal começa a conversa, percebe que há um enorme desejo do outro lado, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a pica mais a vontade de a comer, e já nem vai para casa fazer a sua cena à mão.»
Na nossa sociedade, tudo é uma desculpa para não se fazer o sexo que se quer fazer. Tudo faz perder a pica. Especialmente entre as mulheres. «Porque podemos», diz-me uma amiga, referindo-se a contactos com homens, «os gajos estão sempre com tanta vontade que nós não precisamos de nos esforçar». Sim, pode ser verdade. E então? A comida, para os que vivem acima do limiar da pobreza, também é de fácil acesso, e o fácil acesso nunca fez perder a fome. Quando muito, a livre escolha far-me-á optar por outro restaurante, ou outra refeição — mas não por jejuar.

Porquê especialmente entre as mulheres, então? Não me parece rebuscado partir do princípio que isto é o resultado directo de as raparigas serem endoutrinadas desde pequeninas na teoria de que gostar de sexo é mau: os homens até podem ser uns heróis se tiverem muitas mulheres mas elas são sem dúvida umas galdérias se tiverem «muitos» homens. E «galdérias», infelizmente, é pejorativo… Ora esta endoutrinação é feita, mais ou menos explicitamente, por tudo o que nos rodeia, mesmo que os principais educadores — pais, professores, amigos — sejam suficientemente desempoeirados. E fica cravado nos recessos da mente a ponto, digo eu, de policiar cada contacto potencialmente sexual à procura de pretextos para o silenciar.

A «abundância sexual» tão enaltecida no Ethical Slut, e bem, é lamentavelmente a realidade de muito pouca gente. Mesmo das mulheres que «não precisam de se esforçar». E eu solidarizo-me com toda a gente que tem menos sexo do que gostaria de ter, que é com certeza uma população maior do que aqueles que têm menos dinheiro do que gostariam.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Adeste fideles (¹)

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Quando «fidelidade» é sinónimo de «exclusividade», não há fiador que possa fiar-se inteiramente na «fidelidade» do afiançado. Sim, para um monogâmico, ser «fiel» é sempre um desafio, um resistir às tentações.

Por isso, o grande Vinicius de Moraes começa assim o «Soneto da Fidelidade»:

De tudo, ao meu amor serei atento | Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto | Que mesmo em face do maior encanto | Dele se encante mais meu pensamento

E pronto, o homem encanta-se com um novo amor mas, coitado, está sempre a compará-lo com o primeiro. E, mesmo que admita o poliamor (nada aqui o impede), o primeiro será sempre o primário — e, consequentemente, o segundo o secundário.

E continua:

Quero vivê-lo em cada vão momento | E em seu louvor hei de espalhar meu canto | E rir meu riso e derramar meu pranto | Ao seu pesar ou seu contentamento

Vamos lá a ver. Rir com o seu contentamento e chorar com o seu pesar, tudo bem. Cantar em seu louvor, nada contra. Mas pensar nisso a cada momento já me parece uma obsessão muito pouco saudável, um vício, uma dependência.

O que vale é que o poeta era realmente genial e termina em beleza:

E assim quando mais tarde me procure | Quem sabe a morte, angústia de quem vive | Quem sabe a solidão, fim de quem ama || Eu possa me dizer do amor (que tive): | Que não seja imortal, posto que é chama | Mas que seja infinito enquanto dure

E é genial porque não podia ser mais certeiro. De facto, é só isso que eu quero do amor que tenho para dar: que seja infinito enquanto dure.

(Sim, eu sei, a minha leitura é propositadamente enviesada. Se o «amor» da primeira estrofe é uma pessoa, o da última não deveria ser um sentimento, e vice-versa. Mas arrepia-me substancialmente que alguém ame o amor mais do que as próprias pessoas.)


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¹ Aproximai-vos, fiéis

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Poliamor precoce

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O programa de televisão House Party (1945—1969) ficou famoso pela rubrica Kids Say the Darndest Things, onde o apresentador entrevistava crianças dos 5 aos 10 anos.

É sempre curioso ver o que as pessoas muito jovens pensam de assuntos «dos crescidos», em especial tudo o que diz respeito a relações afectivas. Ter três namoradas não é nada de muito invulgar no discurso duma criança. Mas este miúdo consegue surpreender-nos com muito mais do que isso:


Aqui vai uma transcrição resumida, que nem sempre é fácil de perceber o que eles dizem:

— Do you have a girlfriend?
- Three of them. They are older than me. I get the older ones because they are more mature and they got money and stuff.
— How much older are they then you?
- I have to ask my daddy over again. I think I know one is 30, that's the only one I know the age.
— Your daddy knows how old they are. How does he know?
- Because he's been seeing them for a long time.

No que se terá tornado este puto? Quantas namoradas terá agora? E o pai dele, terá sobrevivido bem a estas declarações?


Alteração (2013): Passados quase três anos, descobri que o programa não é o House Party mas sim um concurso chamado Child's Play. O rapaz chama-se Ronald Blair Wilkinson III e o apresentador à conversa com ele chama-se Bill Cullen. Isto passou-se em 1982 ou 83 e continuo sem saber o que é feito do rapaz passados trinta anos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

«O tic-tac do meu coração»

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Na minha festa de aniversário do ano passado tive um momento «tão bonito que me senti meio anirvanado», como escrevi na altura. Eu, uma amiga por quem me sentia muito atraído e um grande amigo dela que conheci na altura estivemos em troca de carinhos num V que terá sido talvez a minha primeira situação poly-indeed. Sim, era polivirgem, apesar de ter já trinta anos de defesa de uma coisa que só quase cinquentão viria a saber chamar-se «poliamor». Aquele momento foi, para um poliamorista, o equivalente ao primeiro beijo para um adolescente (e nem beijo houve, reparem!).

Agora, no fim-de-ano, voltei a encontrar-me com essa minha amiga e tive o meu primeiro threesome. Não vou contar aqui pormenores. Digo apenas que me senti novamente «meio anirvanado» por ver as outras duas pessoas tão enamoradamente enleadas. Compersão pura.

O que acontece num fim-de-ano pode ser encarado como um rito de passagem se, na ficção que cada um vai fazendo da sua própria vida, quiser encaixar essa interpretação.

Não estivesse eu, neste momento, mal por dentro, e comigo próprio (por ter descoberto há quinze dias uma característica em mim que não me lembro de conhecer e que não me agrada minimamente; e por não saber se a coisa passa ou veio para ficar; e por não saber ainda se devo falar disso seja a quem for — logo eu, que nunca tive problemas em esventrar-me e mostrar as mais sórdidas entranhas)… Se, dizia eu, não andasse com esse peso pendurado aos ombros e a puxar-me para baixo, ainda mais acrescido do lastro do «desemprego», estaria agora com o «tic-tac do meu coração» a bater fortemente em Allegro vivace con fuoco.

Mas a ideia de que cumpri um rito de passagem deixou-me pelo menos suficientemente autoconfiante para poder ouvir uma música divertida com uma letra triste e simplesmente adorar a música, a ponto de me puxar uma alegre lagrimeta de felicidade. E pronto, hoje é isto que me apetece partilhar.

«Tic-tac do meu coração», uma canção com setenta anos, dos compositores de MPB Alcyr Pires Vermelho e Valfrido Silva, celebrizada pela meio-portuguesa Carmen Miranda, e aqui numa fantástica interpretação de uma cantora paulista genial mas quase desconhecida em Portugal: Ná Ozzetti.


E, já agora, aqui fica a própria Carmen Miranda, no papel de Rosita Murphy, a cantar o «Tic-tac …» no filme americano Springtime in the Rockies ("A minha secretária brasileira"), de 1942: