A tertúlia "(re)pensar a sigla", organizada pelo grupo NOVA Equality, teve lugar a 16/10/2015. Inês Rôlo esteve em representação do PolyPortugal.
Podem ouvir a sua intervenção inicial aqui!
Mostrar mensagens com a etiqueta categorização e/ou mononormatividade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta categorização e/ou mononormatividade. Mostrar todas as mensagens
sábado, 17 de outubro de 2015
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Ser poly e marginal
Publicado por
Imagina isto: estás a conversar. Uma conversa banal sobre uma coisa qualquer. Estás, sei lá, a falar sobre cinema, num café com malta que conheces mais ou menos e com quem até te dás bem, mas não são o teu círculo íntimo de pessoas. Conhecem-se há relativamente pouco tempo, ou até há algum mas nunca falaram realmente umxs sobre xs outrxs e conhecem-se superficialmente. Sabes que uma das raparigas do grupo tem um namorado, sabes que a outra é de não sei onde e que tem uma licenciatura em não sei o quê, e um dos rapazes joga futebol e gosta de sci-fi. Tens ali colegas, amigxs de amigxs que conheceste numa noite qualquer, foste ali tomar um café porque calhou. Ou então são colegas de faculdade, ou colegas de trabalho, algo assim.
Estão a falar sobre cinema. E tu viste o filme no outro dia com a tua namorada. E alguém diz “ah, tens namorada? Fixe.” e passam à frente, porque a malta até é evoluída, e continuam a conversar. Até estás com sorte, porque não fizeram comentários menos agradáveis que já ouviste antes. Decidiste arriscar falar um bocadinho de ti e correu bem. Mas já estás a pensar estrategicamente, não sabes se é seguro falares muito mais de ti e estás, desde o início, a pensar se hás-de conversar à vontade ou não. Não que aches que as pessoas te vão atacar directamente, mas não sabes bem o que esperar.
Decides arriscar. Porque afinal estás ali com amigxs e faz sentido que fales de ti, certo? Gostas que partilhem coisas contigo e gostas de partilhar coisas sobre ti, porque é o que se faz quando se conhecem pessoas novas e estás a fazer amizades.
Então casualmente continuas a conversar, e contas que no outro dia foste ao cinema com a tua namorada e o namorado da tua namorada e mais algumas pessoas que fazem parte da tua vida e da tua família (que por acaso são companheiras do companheiro da tua companheira). Não te apetece propriamente dizer “fui ao cinema com amigxs”, porque isso não corresponde exactamente à verdade.
Isto tudo porque querias dizer que foste ao cinema, mas não querias estar a mentir ou ocultar coisas sobre ti e poder falar delas naturalmente. NATURALMENTE. Assim como a tua amiga entretanto disse que foi ao cinema com o namorado dela e a conversa passou à frente.
Mas, no teu caso, a conversa pára ali porque de repente as pessoas começam a perguntar-te coisas da tua vida privada, porque se esqueceram da conversa interessante que estavam a ter sobre cinema e a conversa passa a ser sobre ti. Aliás, não sobre ti: sobre a tua vida. A conversa na verdade gira à volta das pessoas que começam a fazer-te perguntas atrás de perguntas sobre a tua vida, não porque estejam interessadas nos teus sentimentos, mas porque querem satisfazer uma curiosidade mórbida qualquer que tenham sobre se lá em tua casa dorme toda a gente na mesma cama e se fazes orgias ao fim de semana. Não têm lá muita empatia. Começam a reduzir-te a ideias pré-concebidas e tu passas a ser vistx como um rótulo ambulante. Nada contra rótulos, atenção, mas tu sabes que és mais do que uma só coisa. Tens de fazer um esforço para descontruir na cabeça delas a imagem que criaram automaticamente de ti e que não tem nada a ver contigo só porque disseste uma coisa que, para ti, é simples de assimilar porque é a tua vida.
Não sabes exactamente o que fazer, porque a partir do momento em que falaste no assunto é como se tivesses uma espécie de dever de 1) provar que és uma pessoa decente APESAR DE TUDO; 2) responder a toda e qualquer pergunta que te façam sobre a tua forma “hippie” ou “hipster e contemporânea” (ou, pior, “promíscua e psicopata”) de viver.
E tu queres falar sobre isso. Queres, porque é a tua vida, e queres partilhá-la, e até te dá algum gozo falar de ti, falar de coisas não-normativas. É fixe dizeres que és diferente. Mas também não queres falar sobre isso. Porque te apercebes de que as perguntas que te fazem não são perguntas de pessoas que se preocupam com o teu bem estar, ou pessoas que gostam de ti pelo que és. Mas porque te transformas num objecto de estudo, de fetichização, de estranheza, de exotismo, o que for.
É giro. Até certo ponto. A partir de determinada altura, torna-se cansativo. Esgotante. Irritante… Ofensivo. Agressivo. Queres poder ter uma conversa sem teres de sair de um armário de todas as vezes. Sem teres de “admitir” alguma coisa. Sem haver uma pausa na conversa em que de repente tu dás uma aula sobre a tua forma de viver, de ser, de estar.
De todas as vezes, tens de fazer várias escolhas: 1) evitar assuntos sobre a tua vida ou 2) abordá-los, tendo a noção de que podes ter A) reacções activamente agressivas ou B) teres de explicar exaustivamente tudo o que se passa na tua vida e responder a perguntas que, por bem intencionadas que sejam, sejam invasivas e ofensivas. Ou C) não responder a absolutamente nada e passar à frente, e depois lidar com as reacções das pessoas que acham que lhes deves uma explicação.
Entretanto já nem te lembras do que estavam a falar. Ah, de cinema. Então tu foste ao cinema com a tua namorada, o namorado dela, as namoradas do namorado dela. A tua família. E falas do filme, mas parece que as pessoas nem te estão a ouvir porque, na cabeça delas, ainda estão a fazer uma série de perguntas.
Depois pensas que se calhar talvez não seja melhor mencionares outros aspectos menos normativos da tua vida, tipo questões de género, activismo, feminismo. Se calhar é melhor também não falares sobre coisas que tenham a ver com foder, porque provavelmente também vais ficar com o rótulo de galdéria (pelo qual tu até tens um certo carinho, mas é melhor não lhes responderes isso de qualquer das maneiras).
Tu só querias falar sobre a merda do filme.
Depois vais-te afastando lentamente das pessoas porque não encontras propriamente tema de conversa, uma vez que todos aqueles que são temas centrais da tua vida te passam pela cabeça e ficam presos no filtro de “é melhor não puxar este assunto”.
Voltas àquele círculo pequenino e bom e fofinho das pessoas que te são íntimas e são parecidas contigo e refilas com elas e queixas-te de que, pela quinquagésima vez, não te sentiste à vontade no café que tiveste. E elas abraçam-te e compreendem-te porque passaram exactamente pelo mesmo.
Isabel Martinez
terça-feira, 4 de agosto de 2015
Amor num pedestal
Publicado por
O nosso corpo veste o medo e de relação para relação somos pessoas mais distantes e ponderadas. As quedas influenciam a frieza. O afastamento. A forma como nos é dado o amor desde sempre torna o sentimento imaculado, frágil e delicado. Morrer por amor. Aceitar tudo por amor. Viver para amar. A forma como nos é colocada a possibilidade de amar, torna-nos também a nós imaculadxs, frágeis e delicadxs. Vivemos tão intensamente o que pensamos ser amor que nos esquecemos de equilibrar a beleza dos sentimentos com a possibilidade da razão. Depois dói. Parecem dores no peito. Parece o Mundo a acabar e o Universo a cuspir-nos para uma zona em que o ar é denso e os pulmões parecem de vidro. É o que vende: amar loucamente. E de forma igualmente louca - não sabemos amar. No fim de contas, parece uma constante destruição poética.
Enquanto pessoa extremamente romântica, foi difícil para mim tornar algo tão abstrato como o amor, uma eterna conversa. Uma eterna adaptação. Foi difícil olhar para o amor e ver nele uma construção que não me servia. Um modelo aplicado a todxs. Uma formatação. É algo que ainda me persegue. De cada vez que tenho que trabalhar o meu amar, é um desafio. Fazer da matemática poesia e da prosa ciência. A verdade é que o resultado das coisas mais improváveis pode ser surpreendentemente bonito se nos for dada essa possibilidade. Se não vivêssemos de e para amar da forma formatada que vivemos, da forma que nos foi ensinada, conseguíamos explorar o todo dos sentimentos de forma livre e plena. É o sexo mais tabu que o amor? O pedestal em que colocamos o amor da nossa vida - é uma mentira que nos faz esquecer, muitas vezes, que somos Pessoas individuais. Mas ninguém fala disso. É destruir o sonho do Mundo pegar no amor e falar dele de forma diferente dos finais felizes. Mexer nele. No fundo o que sabemos é que é algo tão profundo que só pode ser vivido intensamente por duas pessoas - é algo que nem é possível descrever mas que pode ser explorado quando não segue o padrão. Os filmes, os anúncios, as músicas e o que nos rodeia. Um homem e uma mulher que claramente se amam. Uma sociedade esculpida delicadamente para parecer perfeita. Depois tropeçamos nos defeitos desse amar. Um amor que justifica violência. Que justifica a traição. A nossa maior qualidade - o nosso maior defeito. É nos dado assim, em tom de paradoxo. Nem sempre correspondemos ao que está exposto no pedestal. Nem sempre é este amor correspondido. Nem sempre é a dois. Nem sempre é.
No fundo, se não amarmos, somos leituras solitárias e criticadas pela vida vazia que escolhemos para nós. Se amarmos mas fugirmos da heteronormativadade, enfrentamos dificuldades que podem muitas vezes ter consequências gravíssimas e um futuro anulado, em segredo e oprimido. Se amarmos muitxs, somos desenvergonhadas.
O amor não está num pedestal. Pelo menos o meu amor não está num pedestal. Não é delicado. O amor não é o que abraça o mundo e nos faz ter força para viver. O amor é uma construção social. É de mau tom que se agarre no que de mais bonito temos e seja colocado em vitrine para venda. Uma janela com vista para o todo. A única janela. O único todo. Um Universo que nos cospe. O meu amor não está num pedestal. Não é delicado. Pode magoar e exigir coisas de mim que nem sabia existirem - mas é forte. Enorme. Tem diferentes formas. Renasce. Não é justificação para tudo. É privado e é público. É a sós e é a muitxs. É o que escolho ser e o que me deixa feliz.
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Se és (hetero-)mono, tens coisas mais importantes com que te preocupar
Publicado por
ou, De como as pessoas poliamorosas estão fartas de perspectivas pseudo-“críticas” do mono-mundo
Já chega. Estamos fartxs.
Sabem o que acontece cada vez que uma pessoa poliamorosa, com uma perspectiva queer-feminista, reflecte sobre a mono-normatividade? Pois é: há (quase) sempre alguém que surge, muito rapidamente [haverá plantão?; haverá vigília?], a fazer uma de duas coisas (ou, mais comum, ambas ao mesmo tempo):
- A defesa da legitimidade da monogamia;
- A crítica ao poliamor e a outras formas de não-monogamias consensuais.
Isto cansa, porra.
Senão vejamos.
«Deixem a monogamia em paz, que chatxs!»
Está uma pessoa muito entretida com os seus botões, a reflectir sobre um sistema multi-milenar de opressão sistemática de sexo/género e de reprodução de papéis de género binários e normativos, e assim que abre a boca para falar logo alguém (que é legível ou se apresenta mesmo como mono) tem que vir dizer qualquer coisa do estilo “Ai que me estão a oprimir!”.
E a base desta brilhante argumentação é a de que todas as pessoas devem ser livres de escolher a estrutura relacional que mais se adapta ao seu projecto de vida e à forma como sentem e se sentem realizadas.
… Porque, como toda a gente sabe, “normatividade” quer dizer que todas as pessoas têm todas as escolhas possíveis colocadas à sua frente, sem constrangimentos legais, institucionais, sociais. Certo? … Certo? ... Ceeeeeertooooo?
E também quer dizer que lá no fundo, no fundo, todxs queremos ser felizes e basta escolhermos o que nos faz feliz e está tudo bem, não é? Porque a noção do que faz feliz e do que é a felicidade é perfeitamente pessoal e subjectiva e igual para todxs, certo?
Ou então não.
E vai daí, temos que perder novamente tempo - perder, porque este tipo de diálogos geralmente viram monólogos - a explicar, por exemplo, que a monogamia é menos uma “estrutura relacional” e mais um sistema político. Que a monogamia está associada ao surgimento, estabelecimento e fortalecimento do Estado-Nação capitalista. Que a hetero-monogamia se encaixa numa rede que pretende preventivamente erradicar a dissidência sexual lésbica. Que a monogamia colabora activamente para a manutenção do statu quo patriarcal.
E que não, não é simplesmente uma escolha subjectiva - «porque é assim que sou feliz e cada um tem direito a ser feliz como quer!» - ideia bonita mas que falha por não ter qualquer conexão com a realidade em que são socialmente vistos como felizes apenas os casais hetero, mono, casadxs ou juntos de forma semelhante, de classe média, brancxs, com casa, carro, 1,2 filhxs. E são miseravelmente infelizes ou falhadxs as pessoas sozinhas, as pessoas que não querem ter filhxs, as pessoas que têm sexo com toda a gente, as pessoas que não querem ter sexo com ninguém, as pessoas não-monogâmicas (tudo isto piora se forem mulheres e/ou minorias étnicas e sociais).
Que, como diz Brigitte Vasallo no primeiro link do anterior parágrafo, a postura “«cada um que faça o que quiser» é, na prática, «que cada um faça o que conseguir»”. E, numa sociedade hetero-mono-normativa, consegue-se realmente muito pouco e a muito custo.
Vêm geralmente depois os argumentos do excepcionalismo - “Mas eu sou diferente!”, que é como quem diz, «a minha monogamia não é igual à monogamia da vizinha».
Nós sabemos, nós sabemos: não estais habituadxs a que falar da vossa monogamia cause desconforto. Azar. Notícia de Última Hora: nós estávamos a falar de mono-normatividade e, espanto dos espantos!, não estamos interessadxs em saber como a tua monogamia é extra-diferente, extra-especial, baixa em heteropatriarcado e rica em realização pessoal. Tens uma monogamia dessas? Eh pá, que fixe!... Para ti. We really don’t care. Até porque a realização pessoal que retiras dela não apaga a tua performance pública (política!) de monogamia, nem o efeito de reforço de privilégio que isso tem (e que escapa largamente ao teu controlo).
«Isso do poliamor também tem muitos problemas!»
Então há bocadinho a tua monogamia era versão Extra-XPTO-Plus-Gold-Limited-Edition. Mas agora “o poliamor” - Sagrada Cona das Generalizações Abusivas! - já tem muitos problemas. [Notem, por favor, que novamente a conversa foi desviada para longe de qualquer crítica possível à mono-normatividade.] Claro que a implicação, subentendida, é que o nosso poliamor tem problemas. Mas não a tua monogamia. Não, isso nunca, céus!...
E então, a partir deste momento, vem o desfiar do argumentário… Que “o poliamor” serve é para beneficiar homens cisgénero, que o “poliamor” é usado como forma de manter as mulheres submissas e validar a falta de compromisso de homens cisgénero, que “o poliamor” não implica qualquer discriminação, que “o poliamor” é tão passível de ser ‘escolhido’ como a monogamia, que “o poliamor” não tem nada a ver com feminismo, e por aí em diante… Já para não falar naquela tendência irritante até mais não de achar que “poliamor” é sinónimo de todas as formas de não-monogamia consensual, e portanto tratá-las todas como um conjunto amorfo de categorias intermutáveis.
No fundo, descobrimos assim, para nossa infinita surpresa, que não existe maior especialista em poliamor do que… pessoas monogâmicas (e, em menor grau, pessoas que, sendo não-monogâmicas, ainda assim não são poliamorosas).
Vá, vamos ser honestxs: não, o poliamor não é uma espécie de paraíso perfeito de liberdade pura e absoluta onde todos os males da sociedade se evaporam em fumo e se atinge o nirvana.
Mas… calma, que isto pode ser chocante para algumas pessoas… o raio das generalizações abusivas com “boas intenções de Cavaleirxs Brancxs” acaba a ser mais tóxico que muitas das supostas coisas que tão magnanimamente querem evitar!
Porque, Notícia de Última Hora - parte 2: existem mais que dois géneros; existem relações poliamorosas só com mulheres, e só com homens, e com pessoas não-binárias, e com pessoas trans*... que não apreciam nada mais uma camada de apagamento feita, alegadamente, por uma preocupação com a igualdade de género! Infantilizar ou apagar mulheres, pessoas não-binárias e trans* através de críticas generalistas, abstractas e desinformadas à sua vida não é aceitável.
Aliás, não vos devia fazer um bocado de comichão o facto de que, recentemente - e de uma forma que talvez não tinham ainda imaginado! - quem mais se queixa do poliamor são os homens? Porque, lembremo-nos disso, aquilo que o poliamor procura fazer é precisamente retirar o privilégio que os bio-gajos têm de poder ter várias relações sem ter que responder por isso!
E não, não nos esquecemos de termos dito que o poliamor não é perfeito. Aliás, até há várias pessoas a fazer uma leitura crítica de vários elementos do poliamor, com base em considerações sobre feminismo, pós-colonialismo, classe, e por aí em diante… Sabem quem?
Uma pequena pista: não são vocês. Não. São, na sua maioria, pessoas que têm experiência e reflexão feitas sobre a questão, que não se encontram a falar a partir de uma posição de privilégio e que, em todos esses casos, não se limitam a fazer generalizações sobre “o poliamor”. Identificam problemas concretos com dinâmicas específicas, com balizas bem demarcadas.
Ou então, quando se trata de comentar a história do poliamor, não disparatar, confundindo “poliamor” com “relações abertas” ou com outras formas de não-monogamia consensual (sim, existem mais!, não, não são todas iguais!, sim, tens mesmo de te calar e ir ler se não sabes a diferença!), esquecendo que, sim, o poliamor tem um forte cunho feminista e de crítica à desigualdade de género na sua base [O que não quer dizer que uma pessoa, por chamar “poliamorosa” à sua relação, vá logo ser o paradigma da igualdade de género, né?; porque não há fiscais do uso do termo]...
E mesmo quem tem alguma experiência em relacionamentos não-monogâmicos em sentido lato (desde relações abertas a swing), ainda assim faria melhor, achamos, em ver que a sua experiência particular pode não ser - e geralmente não é - a melhor para comentar outro paradigma relacional diferente. Embora alguém nessa situação não esteja simplesmente a reproduzir o privilégio monogâmico, ainda assim e por uma questão de solidariedade, convém que possamos reconhecer a diversidade de posturas e também as limitações que vêm com estarmos num estilo relacional e não noutro.
Vá, para resumir: estamos fartxs do [atenção à palavra desconhecida] monosplaining. Que é como quem diz: estamos fartxs de ter pessoas monogâmicas a julgarem-se especialistas em poliamor e outras não-monogamias. Estamos fartxs de pessoas monogâmicas a quererem ‘expor’ publicamente os ‘males’ “do poliamor” mas que não são capazes de escrever dez linhas, publicamente, sobre o papel normativo da monogamia como sistema político opressor.
Querem ser umas pessoas muito socialmente conscientes? Que bom!
Primeiro passo: desconstruam a vossa própria monogamia.
Segundo passo: ver o primeiro passo.
Quê?! Achavam que esta coisa do “desconstruir” era como nos menus de instalação de programas? Chega aos 100% e ‘tá feito?
Ouvimos dizer… que não é assim que funciona!
Depois disso, e depois de investigarem a fundo ou de passarem de facto pelas experiências de uma não-monogamia feminista e crítica, cá estaremos para ouvir e trabalhar com as vossas/nossas críticas. Até lá, preferimos ouvir as vozes (críticas!) de quem reflecte sobre as suas experiências de não-monogamia, e não os gritos que nos querem afogar a expressão crítica das estruturas macro-sociais que pendem sobre as cabeças de todxs.
Nota: Vamos aguardar para ver se os comentários a este nosso rant confirmam a existência do mesmo; uma espécie de versão poly da Lei de Lewis.
Inês Rôlo
Isabel Martinez
Rumpelstilzchenriel
Daniel Cardoso
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Um Ano de Poliamor
Publicado por
Há 3 dias, eu e o meu companheiro fizemos um ano de namoro.
Hm, um ano não é grande coisa, né? Passa a correr. Ainda para mais se estou a trabalhar e os dias passam mais depressa do que consigo processar. A maioria dos casais que conheço tem mais de um ano de namoro, neste momento. Um ano é average, o checkpoint por onde passa qualquer relação "séria". Certo? Já tive outras relações que chegaram a esse marco.
Com um detalhe: pela primeira vez, nós não somos um casal. Estamos numa relação não-monogâmica ética que funciona com o consentimento de todas as pessoas afectadas. E por ser a minha primeira relação fora da conformação mononormativa, este aniversário não é um qualquer.
Um ano de poliamor. O primeiro aniversário da minha primeira relação poliamorosa.
E dizer isto por si só não chega.
Não é apenas o mesmo que dizer "fiz um ano de namoro, só que além de nós podemos estar/estamos com outras pessoas". Poliamor não é sinónimo de "muitxs namoradxs". A forma de estar no poli, como em qualquer outra relação, muda de pessoa para pessoa. E o impacto que descobrir esta orientação relacional teve em mim foi também único, e poucas pessoas o compreendem (conto pelos dedos de uma mão as que conheço e sei que passaram por algo semelhante).
Toda a minha vida fui confrontada com situações em que me sentia atraída, interessada ou até mesmo apaixonada por mais do que uma pessoa em simultâneo. Inclusive quando tinha namorado. Claro está que nunca falei disto a ninguém. Não é propriamente fácil, se considerarmos que estou inserida numa sociedade heteromononormativa e a mínima menção de desconforto com o facto de estar com alguém sem saber muito bem porquê era um gatilho para um chorrilho de julgamentos tais como "isso não é amar a sério", "tu fartas-te muito facilmente das pessoas" ou "isso é normal, é só uma fase, depois passa".
Sabes qual é a sensação de passares mais de dez anos da tua vida convencidx de que algo em ti não funciona bem e deves estar estragadx/ter um problema fisiológico/psicológico, só porque não te identificas com aquilo que te é vendido como "amor verdadeiro"? Sabes qual é a sensação de duvidares da tua própria capacidade de amar porque a forma como o fazes não é "normal"? E sabes qual é a sensação de teres noção de que não és normal, mas como não tens nome para aquilo que estás a sentir e mais ninguém à tua volta o sente ou partilha contigo não sabes como falar disso? Tudo porque não tens um nome, uma palavra, para chamar ao sentimento/situação. Tudo porque não conheces os nomes das coisas que são constantemente apagadas e invisibilizadas, tidas como aberrantes, anti-naturais e, em alguns casos, criminosas.
O meu actual companheiro foi a primeira pessoa a tirar-me esse peso dos ombros, a aliviar-me essa asfixia. Com essa pessoa, pude exclamar "Ah! Existe um nome para o que estou a sentir! Não sou a única!" - não me interpretes mal, no entanto. A primeira vez que vi a palavra poliamor, não sabia nada sobre o assunto e achei que era uma parvoíce que nunca poderia resultar - sabes qual é a sensação de estares tão convencidx de que se não sentes como é suposto sentir tens de te obrigar a sentir até conseguires ser normal? Sim, estava em auto-negação. Eu era a pessoa mais ciumenta que conhecia (qualquer ex-namorado meu pode confirmar as minhas crises de ciúmes).
Quer isto dizer que as minhas relações anteriores foram uma farsa? Wow, calminha lá. Longe disso. Precisamente por gostar tanto das pessoas com quem estava e achar que a ideia de namoro convencional como a única forma de namoro sério estava certa, sentia-me horrível por começar a gostar de mais alguém ao mesmo tempo e não aguentava continuar nessa relação.
Era excruciante estar com uma pessoa, gostar dela e de outra ao mesmo tempo, e não poder partilhar isso com ninguém porque... não era "suposto" isso acontecer. Era também excruciante não perceber o que se passava comigo, não perceber porque é que eu funcionava de outra maneira.
Até que um dia comecei a falar com ele, e pela primeira vez me foi dito que não existe uma forma correcta de amar. Não há uma check list de elementos que têm de existir naquilo que sentes para se poder chamar amor ou amizade, tal como uma relação íntima não se distingue nem se limita apenas por ter uma componente romântica associada a uma componente sexual. E por tudo isto, eu não estava "estragada" nem a "funcionar mal" - simplesmente não me identificava com a monogamia.
Tal como não há nada de errado com alguém que nunca se apaixonou, ou com alguém que ama a mesma pessoa há 30 anos e nunca se apaixonou por mais ninguém, ou mesmo com quem nem sequer tem interesse em ter relações íntimas nem sexuais nem românticas. Ninguém tem o direito de me dizer que o que estou a sentir está errado ou tem este ou aquele nome porque ninguém melhor do que eu própria sabe o que sinto.
E depois de me começar a conhecer melhor e aceitar-me a mim mesma como sou, coisas extraordinárias começaram a acontecer. Era como se tivesse esfregado dos olhos uma névoa teimosa e as coisas começassem aos poucos a ficar mais definidas e claras. Para chegar onde estou neste momento, passei por muitos momentos de dúvida, de auto-questionamento, de frustração, de sofrimento, de mudança, de adaptabilidade, de descoberta. Acho piada quando dizem "just be yourself" quando eu, para poder ser eu mesma, tive de mudar. Ainda estou nesse processo, ainda sou um rebento verde - e mais pequena me sinto quando penso nas relações poliamorosas que existem há décadas, com pessoas que trabalham arduamente para a visibilidade desta conformação relacional. E, ainda assim, é fantástico conhecer-me melhor do que nunca, e descobrir que consigo sentir compersão pelas companheiras do meu companheiro. Não vim dar numa de proselitista e pregar como o poliamor é superior às outras formas de relação - mas numa relação monogâmica nunca teria a oportunidade de fazer amizades com punaluas. E é aqui que, para mim, o poli diverge da descrição de uma simples relação romântica mas com várias pessoas - todas as pessoas que fazem parte da constelação da qual também sou parte têm relações diferentes umas com as outras. O que o meu companheiro tem comigo tem uma dinâmica diferente da que tem com outra companheira, assim como a minha relação com cada uma delas é diferente, da mesma forma que a maneira como elas se relacionam entre si é única de pessoa para pessoa. Para além disto, todxs lutamos para equilibrar diferenças de poder. Todos comunicamos e buscamos o consentimento de todos - e aqui entram estratégias de comunicação mais complicadas, porque não é fácil conciliar consentimento, com comunicação, com os limites de toda a gente. Aprendi não só a falar mais, mas melhor. Aprendi a distinguir os momentos em que é preciso comunicar dos momentos em que é preciso dar espaço. E continuo a aprender.
Para mim, ser poliamorosa não é apenas poder amar mais pessoas. É também poder amar de mais maneiras diferentes. É ter o poder de conhecer os meus próprios limites e dá-los a conhecer sem recear ser julgada, porque todas as partes envolvidas sabem que toda a gente tem necessidades diferentes. É respeitar e sentir-me respeitada, aceite, compreendida e amada de uma forma que nunca senti antes. É poder ter uma postura com que me identifico realmente sem ter medo de ser reprimida outra vez. É poder falar sem ter medo de ser silenciada. É poder sentir-me livre - porque para mim ser livre é poder escolher.
É, além de algo intrínseco, a minha escolha.
Um ano de ser mais eu. Um ano de ser mais feliz. Um ano de fazer aquilo que escolhi fazer.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Espaços públicos e normatividade afectiva
Publicado por
Ainda no rescaldo (lento) da reportagem que saiu na SIC Notícias sobre poliamor, e no rescaldo das reacções tidas a essa mesma reportagem, sinto que devo assinalar uma crítica feita repetidamente - tanto por pessoas bem-intencionadas como por mal-intencionadas - à reportagem ou, mais precisamente, ao que foi feito na reportagem.
Ao que parece, uma das cenas mais absolutamente horríveis a passar na reportagem foi o facto de eu ter dado um beijo na boca (à "passarinho", como se costuma dizer, lábios nos lábios, curto e rápido) a uma das minhas companheiras e, no momento seguinte, ter feito o mesmo a outra das minhas companheiras.
Deixem isto assentar: numa reportagem sobre poliamor, foi perturbante para muita gente ver um gesto discreto e pacífico de amor.
Isto na mesma sociedade onde ver televisão - seja a que hora for - é quase certamente ver beijos de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade onde sair à rua é ver, quase certamente, expressões de afecto de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade que tem como líderes de audiência reality shows.
Mais, esta crítica vem não apenas da já gasta ala conservadora direitista, mas também (e mais preocupantemente) da ala progressista, de luta dos direitos humanos, de luta por igualdade.
Que igualdade é esta? Que igualdade é esta em que a ocupação do espaço público é particionada de acordo com a orientação sexual e com a orientação relacional? Que igualdade é esta em que um gesto considerado perfeitamente natural numa família monogâmica leva como epítetos "exibicionismo" e "taradice", numa família poliamorosa?
Exibicionismo - exibição - armário. A legitimidade das práticas existe, na cabeça de muita gente, desde que seja dentro do armário. Desde que não se façam cócegas à sensibilidade hetero-mono-normativa vigente. Quando isso sucede, torna-se então válido atacar as pessoas que pretendem mostrar práticas interpessoais diferentes. A moral vigente retorna, mais alargada (vai na volta até se tolera isto nas pessoas não-hetero, desde que com cuidado) mas não menos moralista, não menos policiadora.
Achar que uma demonstração de afecto tão simples quanto um beijo nos lábios entre três pessoas é ofensivo ou desrespeitador para quem está a ver é contribuir activamente para a discriminação contra sexualidades e afectos alternativos, dos vários tipos.
Não, não são as pessoas poliamorosas que são exibicionistas ou taradas. Não existe sexualidade mais exibicionista, sexualidade mais 'perversa', do que a sexualidade hetero-mono-normativa, que se infunde - ou procura infundir-se - em tudo.
[Um agradecimento ao Paulo Jorge Vieira por, há uns tempos, me ter ajudado a pensar estas questões.]
Ao que parece, uma das cenas mais absolutamente horríveis a passar na reportagem foi o facto de eu ter dado um beijo na boca (à "passarinho", como se costuma dizer, lábios nos lábios, curto e rápido) a uma das minhas companheiras e, no momento seguinte, ter feito o mesmo a outra das minhas companheiras.
Deixem isto assentar: numa reportagem sobre poliamor, foi perturbante para muita gente ver um gesto discreto e pacífico de amor.
Isto na mesma sociedade onde ver televisão - seja a que hora for - é quase certamente ver beijos de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade onde sair à rua é ver, quase certamente, expressões de afecto de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade que tem como líderes de audiência reality shows.
Mais, esta crítica vem não apenas da já gasta ala conservadora direitista, mas também (e mais preocupantemente) da ala progressista, de luta dos direitos humanos, de luta por igualdade.
Que igualdade é esta? Que igualdade é esta em que a ocupação do espaço público é particionada de acordo com a orientação sexual e com a orientação relacional? Que igualdade é esta em que um gesto considerado perfeitamente natural numa família monogâmica leva como epítetos "exibicionismo" e "taradice", numa família poliamorosa?
Exibicionismo - exibição - armário. A legitimidade das práticas existe, na cabeça de muita gente, desde que seja dentro do armário. Desde que não se façam cócegas à sensibilidade hetero-mono-normativa vigente. Quando isso sucede, torna-se então válido atacar as pessoas que pretendem mostrar práticas interpessoais diferentes. A moral vigente retorna, mais alargada (vai na volta até se tolera isto nas pessoas não-hetero, desde que com cuidado) mas não menos moralista, não menos policiadora.
Achar que uma demonstração de afecto tão simples quanto um beijo nos lábios entre três pessoas é ofensivo ou desrespeitador para quem está a ver é contribuir activamente para a discriminação contra sexualidades e afectos alternativos, dos vários tipos.
Não, não são as pessoas poliamorosas que são exibicionistas ou taradas. Não existe sexualidade mais exibicionista, sexualidade mais 'perversa', do que a sexualidade hetero-mono-normativa, que se infunde - ou procura infundir-se - em tudo.
[Um agradecimento ao Paulo Jorge Vieira por, há uns tempos, me ter ajudado a pensar estas questões.]
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Quintino Aires e a má imprensa portuguesa
Publicado por
A má imprensa volta a atacar em Portugal, e novamente com o Quintino Aires a reboque (está a tornar-se tradição!).
Desta feita, foi um artigo na Saber Viver assinado por Sofia Cardoso, disponível aqui. Lá também se fala de poliamor, mas dá-se a questão a comentar ao já conhecido polifóbico, não-especialista (e agora em sarilhos com a Ordem dos Psicólogos), Quintino Aires.
Tenham cuidado quando abrirem o artigo, porque a presença de lugares comuns sobre falta de capacidade de compromisso, imaturidade psicológica e emocional e outros disparates afins poderão causar dores de cabeça, especialmente quando comparados com a investigação que existe e que deita por terra todas essas supostas asserções.
Lamentamos também que a imprensa nacional (não interessa se “light” ou não, “cor-de-rosa” ou não) tenha perdido em grande medida o amor à existência do contraditório e da pluralidade de visões, preferindo recorrer ao discurso do “especialista” (seja ele qual for) sem se questionar sobre as habilitações do mesmo, a sua credibilidade, formação específica ou mesmo sem fazer notar que nem todos os especialistas (mesmo quando o são) concordarão inevitavelmente em tudo o que dizem.
Lamentamos também que a jornalista Sofia Cardoso, apesar de ter sido contactada por várias pessoas do PolyPortugal dispostas a falar sobre poliamor (e algumas até com investigação sobre o assunto), tenha entrado num processo de aparente autismo e nem sequer se tenha dignado a responder às ditas potenciais fontes.
Parece ser já hábito fazer acompanhar o surgimento de novas ou diferentes identidades sexuais, relacionais ou íntimas, de um discurso “especialista” que as desqualifica de forma aparentemente auto-evidente, em artigos onde se conclui aquilo que já se sabia à partida – e portanto onde nada se aprende, nada se debate; onde a função jornalística está totalmente ausente.
Exigimos mais e melhor trabalho jornalístico. Exigimos seriedade e profissionalismo.
Desta feita, foi um artigo na Saber Viver assinado por Sofia Cardoso, disponível aqui. Lá também se fala de poliamor, mas dá-se a questão a comentar ao já conhecido polifóbico, não-especialista (e agora em sarilhos com a Ordem dos Psicólogos), Quintino Aires.
Tenham cuidado quando abrirem o artigo, porque a presença de lugares comuns sobre falta de capacidade de compromisso, imaturidade psicológica e emocional e outros disparates afins poderão causar dores de cabeça, especialmente quando comparados com a investigação que existe e que deita por terra todas essas supostas asserções.
Lamentamos também que a imprensa nacional (não interessa se “light” ou não, “cor-de-rosa” ou não) tenha perdido em grande medida o amor à existência do contraditório e da pluralidade de visões, preferindo recorrer ao discurso do “especialista” (seja ele qual for) sem se questionar sobre as habilitações do mesmo, a sua credibilidade, formação específica ou mesmo sem fazer notar que nem todos os especialistas (mesmo quando o são) concordarão inevitavelmente em tudo o que dizem.
Lamentamos também que a jornalista Sofia Cardoso, apesar de ter sido contactada por várias pessoas do PolyPortugal dispostas a falar sobre poliamor (e algumas até com investigação sobre o assunto), tenha entrado num processo de aparente autismo e nem sequer se tenha dignado a responder às ditas potenciais fontes.
Parece ser já hábito fazer acompanhar o surgimento de novas ou diferentes identidades sexuais, relacionais ou íntimas, de um discurso “especialista” que as desqualifica de forma aparentemente auto-evidente, em artigos onde se conclui aquilo que já se sabia à partida – e portanto onde nada se aprende, nada se debate; onde a função jornalística está totalmente ausente.
Exigimos mais e melhor trabalho jornalístico. Exigimos seriedade e profissionalismo.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Redefinir amizades, intimidades e sexo
Publicado por
Esta madrugada pus-me a ler coisas um pouco ao calhas para
ver se o sono vinha quando me deparei com um daqueles textos/conceitos que
fazem instantaneamente click na cabeça: “relacionamentos queerplatónicos”.
O interessante desta ideia, e a razão pela qual tanto me
cativou, é por finalmente conseguir ter um termo que aproxime ou resuma, de
certa forma, algumas das ideias que já expus em posts anteriores, sobre o papel
cruzado da sexualidade e da amizade.
Para mim, bem como para muitas outras pessoas, o poliamor
não trata apenas de redefinir o número de pessoas com quem podemos ter relações
românticas e/ou sexuais, mas também redefinir o que se entende por “amor”,
abrindo as portas a vários tipos de amor, e à validação de relações de
intimidade que possam contemplar variantes diferentes de amor – bem como à
validação de intimidades que não passem necessariamente pelo amor (romântico ou
de outros tipos) e se possam fundamentar em relações centralmente físicas e/ou
centralmente emocionais mas com modulações que dão um passo ao lado do que
geralmente entendemos por amor.
| Por alguma razão, o pessoal em inglês chama a quem está neste tipo de relações, courgettes. |
Como é costume em mim, acabo a ser atirado para algumas das
coisas que Michel Foucault disse para melhor compreender os elementos
envolvidos. Neste caso, fui repegar na entrevista “Amizade como Forma de Vida”,
onde o autor comenta especificamente as relações entre homens em vários
contextos institucionais e sociais e o quanto isso pode servir para um
constante trabalho de reinvenção de uma ‘cultura gay’. Entrementes, ele oferece uma lindíssima definição de amizade
nesse contexto: “A soma de todas as coisas através das quais podem dar prazer
um ao outro”. Tal como é o caso das relações de camaradagem no exército, entre
homens – tão espartilhadas, mas onde o amor também surge e sustenta os vínculos
pessoais – também as construções contemporâneas de amizade parecem
estranhamente espartilhadas, e os sentimentos amorosos (em sentido lato)
tornados neutros, formulaicos, e fortemente a-corporais (não era também disso
que a Adrienne Rich falava?). A resposta, para Foucault, seria então a
existência de uma “inventividade especial para uma situação como a nossa e para
esses sentimentos […]. Temos que escavar profundamente para mostrar como as
coisas são historicamente contingentes, por razões tais e tais, inteligíveis
mas não necessárias”.
As descrições de Foucault na entrevista são-me
particularmente apelativas porque não precludem nem forçam a existência de
práticas sexuais como parte dessa amizade, deixando antes um campo aberto onde,
ainda assim, a criação de vínculos potencialmente disruptivos para o sistema
afectivo vigente passa necessariamente por uma ligação psico-emocional entre
pessoas dispostas a realizar trabalho relacional.
É por causa da centralidade do papel da disrupção que não me
surpreende onde acabei a encontrar este termo, a relação queerplatónica – em recursos dedicados à assexualidade e ao
arromantismo; grupos de pessoas praticamente invisíveis pelo simples facto de
não se reverem na ideia de que toda a gente deve
amar romanticamente e/ou sentir-se sexualmente atraída, e que a ausência destes
elementos é, de alguma forma, patológica.
A Aromantics Wiki
define esta relação como sendo “não-romântica mas ao mesmo tempo envolvendo uma
ligação emocional intensa para além do que a maior parte das pessoas consideram
actualmente como sendo normal numa amizade”, fazendo o cruzamento possível com
todas as formas de orientação de género, sexual, de identidade sexual,
relacional, etc.
No tumblr Aromantic Aardvark há uma explicação mais aprofundada que, para quem escreveu o post,
implica “a quebra das narrativas. Implica não haver regras. Implica fazer, no
fundo, o que quer que seja que a pessoa se sinta confortável a fazer. […] Queerplatónico quer dizer criar a
própria definição, dizer ‘nem platónico nem romântico encaixam’ […] e fazer uma
salada russa daquilo com que as pessoas envolvidas se sentem confortáveis”. Isto
pode incluir ou não elementos mais sexuais, pode incluir ou não esta ou aquela
forma de carinho e intimidade, consoante as pessoas em questão, consoante o momento
em questão – mas tendo sempre como substrato uma noção de compromisso, de laço
estreitamente firmado, intenso, que frequentemente corre o risco de ser
confundido (especialmente por terceiras pessoas) com algo romântico ou
criticável.
A mera existência deste tipo de relações perturba
fundamentalmente o sistema relacional mononormativo (dados os ‘erros’ de
leitura do que estas relações são, e a centralidade da ideia de compromisso,
normalmente associada apenas às relações românticas sexuais), e encontra no
poliamor e outras não-monogamias consensuais aliados naturais – mesmo nos casos em que o
sexo esteja totalmente excluído da relação. Ao mesmo tempo, ao permitir o
estabelecimento de formas relacionais a
la carte, serve para quebrar os ditames normativos de disciplina corporal
sobre quem podemos beijar ou não, tocar ou não, amar ou não, comprometermo-nos ou não (não sei se já notaram que
basta alguém não estar num namoro para se dizer que a pessoa não está “comprometida”;
como se os outros compromissos fossem secundários).
Reconheço que o termo talvez não seja o melhor: afinal, a
ideia de uma relação platónica não é a ideia de uma relação não-romântica, mas
a ideia de uma relação casta e não-sexual, e tenho dúvidas sobre se simplesmente adicionar a possibilidade de
uma componente sexual ao mesmo tempo é suficiente para se considerar que se
está a queerizar o termo “amor
platónico”. (Vai daí que convido quem me lê a sugerir mais e melhores termos!!).
Para já, fico contente por ter uma expressão e uma série de links que posso
mostrar, e que facilitarão a comunicação futura para explicar a outras pessoas
o que sinto/quero/gosto. Algo que, nos últimos 9 anos de poly, não tem sido
nada, nada fácil.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Hierarquias de compromisso
Publicado por
Tenho um bocado a mania, sei-o bem, de escrever coisas sobre a reformulação das hierarquias de sentimentos, de crítica à importância que o romantismo tem como expressão máxima de amor, sobre o privilégio associado a 'estar em casal', blá blá blá.
E, para muita gente, tal coisa é densa, abstracta, pouco útil ou pouco prática. De modo que hoje quis mostrar que tudo isto é extremamente prático e, também, extremamente doloroso de se ver/viver.
Já me aconteceu, mais do que uma vez, envolver-me com alguém que não se identifica necessariamente como poliamorosx, ou sequer como não-monogâmicx. Fazê-lo tem sempre o seu quê de tensão, porque há um conjunto de experiências pelas quais eu passo que não encontram eco ou reflexo na experiência dessa pessoa - e isso pode, por vezes, tornar mais difícil a empatia de parte a parte, ou a gestão de situações com mais tensão.
Uma particularidade deste tipo de relação é a de que, caso essa pessoa se interesse por outro alguém, poderá haver a ruptura da relação existente. Noutros casos, uma pessoa que se identifique como não-monogâmica pode mesmo deixar de se identificar como tal, e querer uma relação monogâmica (eventualmente com um terceiro elemento).
Ora, é para mim mais do que óbvio que todas estas coisas são legítimas. Achar que quem entra numa relação enquanto poly, assim tem que ficar até ao fim dos tempos amén é irrealista. As pessoas, sentimentos, vontades e contextos mudam. Para mim, a questão não é, de todo, essa.
Trata-se, antes, da existência de hierarquias de compromisso. Permitam-me explicar: a situação em que uma pessoa mono (numa relação com uma pessoa poly) se vê na possibilidade de iniciar uma outra relação com uma outra pessoa mono (terminando assim a relação com a pessoa poly) não é igual a quando uma relação mono acaba e dá lugar a outra.
Isto porque terminar a relação com a pessoa poly para estar com a pessoa mono é visto, frequentemente (e socialmente), como um regresso ao normal, ao saudável, ao expectável.
Quando a isto se junta, por exemplo, a situação de o envolvimento entre a pessoa poly e mono não ser do tipo romântico (e o das duas pessoas mono potencialmente o ser), desce-se mais um degrau nesta hierarquia. Não só se está a regressar ao normal, como também se está a regressar a uma vivência que vale a pena, é respeitável e que é melhor porque faz mais sentido (afinal de contas, se alguém é monogâmicx, porque iria desperdiçar a sua única relação com algo não-romântico?! /fim de sarcasmo).
Desconfio que isto torna mais fácil 'saltar fora' de uma relação com alguém poly. Pela minha experiência pessoal, isto também torna mais fácil que surjam comportamentos de desrespeito pela pessoa poly, pela relação com essa pessoa, pelos compromissos assumidos - porque essa relação/pessoa está 'naturalmente' mais abaixo numa hierarquia de compromissos. Ao mesmo tempo, espera-se que essa mesma pessoa poly compreenda a naturalidade de ser colocada na prateleira de baixo dessa hierarquia de compromisso, e os comportamentos possivelmente abusivos ou desrespeitosos.
(Nota: embora eu considere que, por questões de discriminação e invisibilidade social, as configurações acima descritas têm dinâmicas e características próprias, no abstracto, que facilitam tais acontecimentos, existem imensas outras situações que não passam por haver um elemento poly. Um exemplo corriqueiro é o típico "Adorava ir sair contigo, mas x namoradx também quer e portanto tenho ir sair com elx". Todas estas situações têm que ver com os elementos 'teóricos' abordados acima: a suposta primazia naturalizada do casal e do amor romântico.)
E, para muita gente, tal coisa é densa, abstracta, pouco útil ou pouco prática. De modo que hoje quis mostrar que tudo isto é extremamente prático e, também, extremamente doloroso de se ver/viver.
Já me aconteceu, mais do que uma vez, envolver-me com alguém que não se identifica necessariamente como poliamorosx, ou sequer como não-monogâmicx. Fazê-lo tem sempre o seu quê de tensão, porque há um conjunto de experiências pelas quais eu passo que não encontram eco ou reflexo na experiência dessa pessoa - e isso pode, por vezes, tornar mais difícil a empatia de parte a parte, ou a gestão de situações com mais tensão.
Uma particularidade deste tipo de relação é a de que, caso essa pessoa se interesse por outro alguém, poderá haver a ruptura da relação existente. Noutros casos, uma pessoa que se identifique como não-monogâmica pode mesmo deixar de se identificar como tal, e querer uma relação monogâmica (eventualmente com um terceiro elemento).
Ora, é para mim mais do que óbvio que todas estas coisas são legítimas. Achar que quem entra numa relação enquanto poly, assim tem que ficar até ao fim dos tempos amén é irrealista. As pessoas, sentimentos, vontades e contextos mudam. Para mim, a questão não é, de todo, essa.
Trata-se, antes, da existência de hierarquias de compromisso. Permitam-me explicar: a situação em que uma pessoa mono (numa relação com uma pessoa poly) se vê na possibilidade de iniciar uma outra relação com uma outra pessoa mono (terminando assim a relação com a pessoa poly) não é igual a quando uma relação mono acaba e dá lugar a outra.
Isto porque terminar a relação com a pessoa poly para estar com a pessoa mono é visto, frequentemente (e socialmente), como um regresso ao normal, ao saudável, ao expectável.
Quando a isto se junta, por exemplo, a situação de o envolvimento entre a pessoa poly e mono não ser do tipo romântico (e o das duas pessoas mono potencialmente o ser), desce-se mais um degrau nesta hierarquia. Não só se está a regressar ao normal, como também se está a regressar a uma vivência que vale a pena, é respeitável e que é melhor porque faz mais sentido (afinal de contas, se alguém é monogâmicx, porque iria desperdiçar a sua única relação com algo não-romântico?! /fim de sarcasmo).
Desconfio que isto torna mais fácil 'saltar fora' de uma relação com alguém poly. Pela minha experiência pessoal, isto também torna mais fácil que surjam comportamentos de desrespeito pela pessoa poly, pela relação com essa pessoa, pelos compromissos assumidos - porque essa relação/pessoa está 'naturalmente' mais abaixo numa hierarquia de compromissos. Ao mesmo tempo, espera-se que essa mesma pessoa poly compreenda a naturalidade de ser colocada na prateleira de baixo dessa hierarquia de compromisso, e os comportamentos possivelmente abusivos ou desrespeitosos.
(Nota: embora eu considere que, por questões de discriminação e invisibilidade social, as configurações acima descritas têm dinâmicas e características próprias, no abstracto, que facilitam tais acontecimentos, existem imensas outras situações que não passam por haver um elemento poly. Um exemplo corriqueiro é o típico "Adorava ir sair contigo, mas x namoradx também quer e portanto tenho ir sair com elx". Todas estas situações têm que ver com os elementos 'teóricos' abordados acima: a suposta primazia naturalizada do casal e do amor romântico.)
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
15 de Fevereiro
Publicado por
Em 2010 a antidote deixou aqui umas dicas sobre como lidar com o chato do S. Valentim; em 2011 a sophia falou aqui da sua alegria de passar essa mesma data a 3 (repetidamente).
Este ano foi talvez a primeira vez nos últimos 4 ou 5 anos que passei o dia (ou parte dele, vá, sem ser a 3). Aliás, na verdade até o passei maioritariamente sozinho, e em alturas alternadas com uma ou outra pessoa. Nada combinado, simplesmente as limitações de horários laborais semi-incompatíveis.
Mas aproveitei bem o dia para ler e ver várias coisas interessantes, com as quais concordo na generalidade...
O The Guardian publicou uma peça de opinião sobre os problemas em torno da compulsão social para nos organizarmos em "casais", onde Priyamvada Gopal aponta ligações entre a forma como o amor e a lealdade são tratados em contexto político e em contexto relacional íntimo, terminando com um apelo a que deixemos de considerar a figura do casal romanticamente apaixonado, casado e com vista à reprodução como a forma mais fácil ou preferível de atingir a felicidade.
A universidade para a qual Meg Barker, investigadora de longa data sobre poliamor, trabalha organizou um pequeno filme sobre o dia de S. Valentim como estrutura de exclusão de várias alternativas de vida, e como isso se liga a muito do comercialismo associado a esta data. (Ah, e depois ainda promoveram um debate em tempo real no Facebook. Academia portuguesa que dormis...)
Uma outra investigadora, Lisa Downing, publicou no seu blog uma agressiva diatribe sobre "os horrores do dia de S. Valentim", apontando os 5 principais problemas da data, e que se prendem fundamentalmente com ser uma comemoração hetero-mono-normativa e que, de acordo com ela, é extremamente difícil de reapropriar de forma radical ou crítica (e, mais do que isso, inútil), tal como a figura do casamento em si.
Para mim, foi também um dia para reflectir sobre exclusão. Sobre as pessoas que conheço que se sentem mal nesta data por estarem sozinhas, quando o poderiam até celebrar; sobre as pessoas que gostaria de ter tido perto de mim (não neste dia, mas no geral), e de quem sinto saudades. É um excelente lembrete, no fim de contas, do quanto ainda está por fazer, no que toca a lutar por uma sociedade menos normativa, menos presa às suas próprias tradições e a leituras que consideram tudo inócuo e "só uma brincadeira" (estranha brincadeira essa, que traz a morte consigo).
PS - Resisti à tentação de chamar a este post "A pílula do dia seguinte".
Este ano foi talvez a primeira vez nos últimos 4 ou 5 anos que passei o dia (ou parte dele, vá, sem ser a 3). Aliás, na verdade até o passei maioritariamente sozinho, e em alturas alternadas com uma ou outra pessoa. Nada combinado, simplesmente as limitações de horários laborais semi-incompatíveis.
Mas aproveitei bem o dia para ler e ver várias coisas interessantes, com as quais concordo na generalidade...
O The Guardian publicou uma peça de opinião sobre os problemas em torno da compulsão social para nos organizarmos em "casais", onde Priyamvada Gopal aponta ligações entre a forma como o amor e a lealdade são tratados em contexto político e em contexto relacional íntimo, terminando com um apelo a que deixemos de considerar a figura do casal romanticamente apaixonado, casado e com vista à reprodução como a forma mais fácil ou preferível de atingir a felicidade.
A universidade para a qual Meg Barker, investigadora de longa data sobre poliamor, trabalha organizou um pequeno filme sobre o dia de S. Valentim como estrutura de exclusão de várias alternativas de vida, e como isso se liga a muito do comercialismo associado a esta data. (Ah, e depois ainda promoveram um debate em tempo real no Facebook. Academia portuguesa que dormis...)
Uma outra investigadora, Lisa Downing, publicou no seu blog uma agressiva diatribe sobre "os horrores do dia de S. Valentim", apontando os 5 principais problemas da data, e que se prendem fundamentalmente com ser uma comemoração hetero-mono-normativa e que, de acordo com ela, é extremamente difícil de reapropriar de forma radical ou crítica (e, mais do que isso, inútil), tal como a figura do casamento em si.
Para mim, foi também um dia para reflectir sobre exclusão. Sobre as pessoas que conheço que se sentem mal nesta data por estarem sozinhas, quando o poderiam até celebrar; sobre as pessoas que gostaria de ter tido perto de mim (não neste dia, mas no geral), e de quem sinto saudades. É um excelente lembrete, no fim de contas, do quanto ainda está por fazer, no que toca a lutar por uma sociedade menos normativa, menos presa às suas próprias tradições e a leituras que consideram tudo inócuo e "só uma brincadeira" (estranha brincadeira essa, que traz a morte consigo).
PS - Resisti à tentação de chamar a este post "A pílula do dia seguinte".
Subscrever:
Mensagens (Atom)