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terça-feira, 13 de outubro de 2015

Ser poly e marginal

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Imagina isto: estás a conversar. Uma conversa banal sobre uma coisa qualquer. Estás, sei lá, a falar sobre cinema, num café com malta que conheces mais ou menos e com quem até te dás bem, mas não são o teu círculo íntimo de pessoas. Conhecem-se há relativamente pouco tempo, ou até há algum mas nunca falaram realmente umxs sobre xs outrxs e conhecem-se superficialmente. Sabes que uma das raparigas do grupo tem um namorado, sabes que a outra é de não sei onde e que tem uma licenciatura em não sei o quê, e um dos rapazes joga futebol e gosta de sci-fi. Tens ali colegas, amigxs de amigxs que conheceste numa noite qualquer, foste ali tomar um café porque calhou. Ou então são colegas de faculdade, ou colegas de trabalho, algo assim.

Estão a falar sobre cinema. E tu viste o filme no outro dia com a tua namorada. E alguém diz “ah, tens namorada? Fixe.” e passam à frente, porque a malta até é evoluída, e continuam a conversar. Até estás com sorte, porque não fizeram comentários menos agradáveis que já ouviste antes. Decidiste arriscar falar um bocadinho de ti e correu bem.  Mas já estás a pensar estrategicamente, não sabes se é seguro falares muito mais de ti e estás, desde o início, a pensar se hás-de conversar à vontade ou não. Não que aches que as pessoas te vão atacar directamente, mas não sabes bem o que esperar.

Decides arriscar. Porque afinal estás ali com amigxs e faz sentido que fales de ti, certo? Gostas que partilhem coisas contigo e gostas de partilhar coisas sobre ti, porque é o que se faz quando se conhecem pessoas novas e estás a fazer amizades.

Então casualmente continuas a conversar, e contas que no outro dia foste ao cinema com a tua namorada e o namorado da tua namorada e mais algumas pessoas que fazem parte da tua vida e da tua família (que por acaso são companheiras do companheiro da tua companheira). Não te apetece propriamente dizer “fui ao cinema com amigxs”, porque isso não corresponde exactamente à verdade.

Isto tudo porque querias dizer que foste ao cinema, mas não querias estar a mentir ou ocultar coisas sobre ti e poder falar delas naturalmente. NATURALMENTE. Assim como a tua amiga entretanto disse que foi ao cinema com o namorado dela e a conversa passou à frente.

Mas, no teu caso, a conversa pára ali porque de repente as pessoas começam a perguntar-te coisas da tua vida privada, porque se esqueceram da conversa interessante que estavam a ter sobre cinema e a conversa passa a ser sobre ti. Aliás, não sobre ti: sobre a tua vida. A conversa na verdade gira à volta das pessoas que começam a fazer-te perguntas atrás de perguntas sobre a tua vida, não porque estejam interessadas nos teus sentimentos, mas porque querem satisfazer uma curiosidade mórbida qualquer que tenham sobre se lá em tua casa dorme toda a gente na mesma cama e se fazes orgias ao fim de semana. Não têm lá muita empatia. Começam a reduzir-te a ideias pré-concebidas e tu passas a ser vistx como um rótulo ambulante. Nada contra rótulos, atenção, mas tu sabes que és mais do que uma só coisa. Tens de fazer um esforço para descontruir na cabeça delas a imagem que criaram automaticamente de ti e que não tem nada a ver contigo só porque disseste uma coisa que, para ti, é simples de assimilar porque é a tua vida.

Não sabes exactamente o que fazer, porque a partir do momento em que falaste no assunto é como se tivesses uma espécie de dever de 1) provar que és uma pessoa decente APESAR DE TUDO; 2) responder a toda e qualquer pergunta que te façam sobre a tua forma “hippie” ou “hipster e contemporânea” (ou, pior, “promíscua e psicopata”) de viver.

E tu queres falar sobre isso. Queres, porque é a tua vida, e queres partilhá-la, e até te dá algum gozo falar de ti, falar de coisas não-normativas. É fixe dizeres que és diferente. Mas também não queres falar sobre isso. Porque te apercebes de que as perguntas que te fazem não são perguntas de pessoas que se preocupam com o teu bem estar, ou pessoas que gostam de ti pelo que és. Mas porque te transformas num objecto de estudo, de fetichização, de estranheza, de exotismo, o que for.

É giro. Até certo ponto. A partir de determinada altura, torna-se cansativo. Esgotante. Irritante… Ofensivo. Agressivo. Queres poder ter uma conversa sem teres de sair de um armário de todas as vezes. Sem teres de “admitir” alguma coisa. Sem haver uma pausa na conversa em que de repente tu dás uma aula sobre a tua forma de viver, de ser, de estar.

De todas as vezes, tens de fazer várias escolhas: 1) evitar assuntos sobre a tua vida ou 2) abordá-los, tendo a noção de que podes ter A) reacções activamente agressivas ou B) teres de explicar exaustivamente tudo o que se passa na tua vida e responder a perguntas que, por bem intencionadas que sejam, sejam invasivas e ofensivas. Ou C) não responder a absolutamente nada e passar à frente, e depois lidar com as reacções das pessoas que acham que lhes deves uma explicação.

Entretanto já nem te lembras do que estavam a falar. Ah, de cinema. Então tu foste ao cinema com a tua namorada, o namorado dela, as namoradas do namorado dela. A tua família. E falas do filme, mas parece que as pessoas nem te estão a ouvir porque, na cabeça delas, ainda estão a fazer uma série de perguntas.

Depois pensas que se calhar talvez não seja melhor mencionares outros aspectos menos normativos da tua vida, tipo questões de género, activismo, feminismo. Se calhar é melhor também não falares sobre coisas que tenham a ver com foder, porque provavelmente também vais ficar com o rótulo de galdéria (pelo qual tu até tens um certo carinho, mas é melhor não lhes responderes isso de qualquer das maneiras).

Tu só querias falar sobre a merda do filme.

Depois vais-te afastando lentamente das pessoas porque não encontras propriamente tema de conversa, uma vez que todos aqueles que são temas centrais da tua vida te passam pela cabeça e ficam presos no filtro de “é melhor não puxar este assunto”.

Voltas àquele círculo pequenino e bom e fofinho das pessoas que te são íntimas e são parecidas contigo e refilas com elas e queixas-te de que, pela quinquagésima vez, não te sentiste à vontade no café que tiveste. E elas abraçam-te e compreendem-te porque passaram exactamente pelo mesmo.

Isabel Martinez

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Quem define família?

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Durante o meu pequeno percurso poly existiram várias coisas que compreendi e muitas delas me magoaram. Para viver o amor sem mentir e esconder - vivo uma vida de amores a mentir e esconder. Esconder relações. Não estarmos - perante famílias ou em questões profissionais - todxs no mesmo patamar. Ter que optar pela verdade e as consequências implícitas; pela omissão de alguém e me apresentar como pessoa monogâmica - ou omitir todas as relações por me ser difícil decidir quem apresentar. Como apresentar. 

Em tom de piada é recorrente utilizarmos estas situações cá em casa como peripécias poly. Vamos rindo. Ignorando que escolhemos ser esta a nossa vida: um conjunto de peripécias que nos tornam invisíveis e nos magoam.   

Passei a tarde a procurar uma casa mas setenta por cento eram para famílias. Foda-se - quem define família? Esta é a minha família. A família que estou a construir a seu tempo. Que é muitas vezes desvalorizada. Invisível. Que tenho que omitir à minha outra família - a biológica. Que tenho que esconder se tiver medo na rua. Mas é a minha família. Quem define família por mim? Se amo estas pessoas. São um colo e um porto-de-abrigo. São a minha luta constante. Uma luta bonita. Uma casa para uma família é qualquer uma casa para nós. Pessoas que partilham o mesmo espaço. Que se amam. Que se respeitam. É esta a minha família - mas não podemos gritar. Ou podemos - posso. Sempre que posso, grito. Mas não posso gritar que quero uma casa para esta minha família. Vamos sendo magoados. Invisíveis. Somos uma piada - um conjunto de peripécias que escolhemos viver por escolhermos desconstruir o amor e esse é infinito, ainda que lamentavelmente ninguém o reconheça. O acolha. O respeite. No fim de contas esta é uma sociedade formatada, formatada para a falta de amor. Nos vamos sendo pessoas que se riem das peripécias. Que ultrapassam. Que se abraçam. Que vencem. Que são de certo uma família.  

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Activismo brasileiro

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A notícia já tem uns dias, mas está a chegar à imprensa portuguesa agora: uma família poliamorosa foi fazer-se reconhecer em notário, no Brasil!

No entanto, não deixa de ser interessante que a imprensa portuguesa não vá falar directamente com as pessoas envolvidas, que troque relação poliamorosa por "relação polígama", entre outras imprecisões... como falar de "casamento".


TVI 24

Público

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pedro não sofre de poliamor, não

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Portugal inteiro, ou perto disso, por esta altura já sabe que o Pedro, da Casa dos Segredos 2 (programa da TVI) “sofre de poliamor”. Longe de mim não gostar da disseminação, mas a frase em si levou-me a pensar no que é “sofrer de…” alguma coisa, e como é que isso precisa de ser lido historicamente e ao nível de uma política das identidades.

Há muito tempo atrás, e para dar um exemplo como poderia dar vários outros, a figura do homossexual foi criada. O homossexual foi criado. E foi criado precisamente dentro do contexto de uma patologia. A homossexualidade era uma doença, uma anormalidade que podia ser (talvez) curada, tratada, cuidada – mas, acima de tudo, estudada. É um ponto que tanto Foucault como Lynne Huffer, a partir do trabalho dele, fazem: o surgimento da figura do homossexual é o surgimento de um objecto de estudo científico redutível à verdade epistemológica da sua homossexualidade. Reparem: objecto de estudo. Uma boa parte do movimento LGBTQI desde então tem-se preocupado, justamente, com quebrar esta objectificação dos afectos, desejos, comportamentos.

A quebra desta objectificação entre outras finalidades, tem o objecto de poder criar sujeitos de desejo, prazer, sexo. E isso está ligado à noção de responsabilidade pessoal. Não no sentido do velho debate de “eu escolhi ser homossexual” versus “eu nasci homossexual”, mas no sentido de se poder identificar, obter e utilizar autonomia na vida sexual e erótica / afectiva.

Então, porque é que Pedro diz que “sofre de poliamor”? Porque, se for uma doença, um padecimento, então ele não pode ser responsabilizado pelos seus próprios actos. Se for algo que lhe aconteceu, e não que ele faz acontecer, a culpa não é dele (soa tão cristão, isto, não soa?).
Ora, como o poliamor é uma daquelas raras identidades cuja génese não passou por uma patologização prévia, então há agora quem tente patologizar esta identidade, de forma a, mais uma vez, poder objectificar-se a si ou a outrxs, removendo qualquer complexidade ética e colocando-se a salvo da responsabilidade que daí adviria.

O problema é que o poliamor é uma forma de não-monogamia responsável. Portanto, não. Pedro não sofre de poliamor. Não é possível sofrer-se de poliamor – os afectos não são patologias, e a responsabilidade não é descartável. Mas mesmo que fosse possível, ele continuaria a estar ‘de fora’ – ao que parece, a parte da honestidade não o afecta.

sábado, 2 de abril de 2011

Reequilíbrio

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Em termos de poliamor, de amor e intimidade, ou relações no geral, não sei o que é melhor ou pior, normal ou anormal, e isso cada vez me interessa menos. Por outro lado, saber o que é autêntico e me faz sentir viva, interessa-me cada vez mais.
É difícil escrever sobre a minha identidade afectiva. Quero, mas bloqueio. Há demasiada emoção e as palavras não conseguem corresponder. Tenho medo de ser mal compreendida, mal interpretada. Aprendi pela experiência que isso é possível, até provável, e sobretudo doloroso.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Just Out

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Fotografia: Daniel Cardoso

Para quê dar a cara? Para quê dar a voz? Para quê dizer: sou lésbica? Para quê dizer: este homem, aqui, é o meu companheiro? Para quê falar daquelxs que nos oprimem? Para quê um feminismo, uma luta, um grito? Para quê, pergunto eu, fazer da minha vida uma forma de política? Porquê é que, pergunto eu, andarmos xs três de mão dada na rua me parece a mim mais do que andarmos xs três de mão dada na rua? Porquê dizer: sou poly? Não sei quando decidi fazer da minha vida, das minhas escolhas, das minhas relações, das minhas opções académicas e profissionais, das minhas opções de amizade e amor, não sei quando decidi fazer disto a minha bandeira, a minha cruzada. E todos os dias encontro respostas para estas perguntas. Quando oiço citar uma lésbica de 24 anos que diz ter o cuidado de não demonstrar comportamentos afectuosos para com a sua companheira em locais públicos quando há famílias com crianças, de forma a não chocar as crianças. Quando vejo que um par de namorados se coíbe de dar as mãos na rua. Quando sei que gays, lésbicas e bissexuais se afastam propositadamente dos locais onde moram e onde trabalham para viver a sua relação. Quando conheço relações de vários anos ocultas sob a capa da amizade. Quando sei que pessoas vivem toda a sua vida sem nunca dizer a verdade. Eu sou gay. Eu sou poly. Eu sou trans-queer-lés, whatever. Eu sou. Ser deveria ser quanto baste. E quando não temos mais nada, isso tem que ser a nossa força.

Inês

domingo, 31 de outubro de 2010

«The price of freedom is death...»

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Foi precisamente há uma semana atrás que apareci numa peça da TVI, dois minutos e quarenta e cinco sobre poliamor. Dei a cara e o nome, a minha voz por uma identidade. Uma minha identidade. As duas frases que disse nos segundos que me foram reservados nestes dois minutos e quarenta e cinco tiveram muito pouco a ver directa e especificamente com poliamor. Tiveram mais a ver com a minha posição política como feminista, com uma luta que tem vindo a ser a minha por muitos anos, a luta pela visibilidade, pela quebra do silêncio. Foi como feminista que falei da minha vida, das minhas opções pessoais, da relação que escolhi. Falei em meu nome, falei pela minha relação. No fundo de mim, eu queria falar por todxs xs que estão em silêncio. Falar é sempre político e eu sabia que o impacto para mim seria grande. E foi.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Prefiro saber

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Tradução: Nesta dieta posso comer de tudo, desde que não conte ao meu médico.

O que me faz sempre mais confusão é aquela ideia do “prefiro não saber”. Consigo entender que não se queira saber detalhes específicos de tragédias alheias e distantes, acerca das quais achamos que não conseguimos fazer nada. Mas acho bastante estranho que se prefira não saber o que acontece na vida de um filho ou de um amante.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Qual é o problema?

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História deliciosa ouvida na sala de professores. Um colega meu, que dá aulas de Expressão Plástica ao 1º Ciclo, contraria um puto de sete anos. A reacção é de birra, berros, e enquanto esperneia, o miúdo solta “O professor é gay!” Sustenho a respiração por um segundo, tal como provavelmente o fizeram todos os que assitiram à cena. Mas a resposta do meu colega é rápida e certeira: “Qual é o problema?? Queres ofender-me? Isso não é ofensa! Tens de arranjar uma ofensa!

Imagino o desconcerto e frustação do miúdo. E apercebo-me que, realmente, grande parte da discriminação está do lado do discriminado. Que é preciso assumir a ofensa para que ela tenha efeito.

O mesmo colega perguntou-me, numa conversa casual, se tinha namorado. Respondi “Tenho vários” e a conversa continuou sem sobressaltos. Cada vez menos os meus ‘coming out’s são seguidos de exaustivas palestras sobre poliamor, em que tento justificar as minhas opções. Falar frontalmente e sem receios próprios retira ao ouvinte a legitimidade para fazer julgamentos. Ou dá-lhe a esperança de ver que outros caminhos são possíveis.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O medo do singular

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Esta semana estreou-se em Portugal o filme Um homem singular ¹. Um dos momentos mais conseguidos do filme é a aula sobre o medo, que não tem correspondente no livro que deu origem ao filme, de resto.

Transcrevo aqui uma parte desse excelente discurso do protagonista:

GEORGE
There are all sorts of minorities, blondes for example… But a minority is only thought of as one when it constitutes some kind of threat to the majority. A real threat or an imagined one. And therein lies the FEAR. And, if the minority is somehow invisible... the fear is even greater. And this FEAR is the reason the minority is persecuted.
E continua assim (o actor é o britânico Colin Firth e foi nomeado para um Oscar por este filme):


Ontem almocei com uma pessoa que já não via há muito. Trocámos histórias, entre elas a de que estou numa relação poly e também a viver numa família intencional. Lá tive de lhe explicar o que é o poliamor e responder às perguntas habituais. E, como de costume, aliás, a reacção não foi negativa: não senti que o poliamor inspirasse nenhum medo. Além disso, a resposta desta minha amiga à minha conversa sobre poly incluiu qualquer coisa como «andei eu a vida toda confusa com os meus relacionamentos e os meus desejos quando afinal, se eu soubesse que havia pessoas a pensar assim, talvez me sentisse identificada e conseguisse ter paz comigo própria.»

Não foi a primeira vez que ouvi este tipo de resposta. Conheço razoavelmente esta pessoa, o suficiente para me parecer também que realmente ouvir falar de poliamor lhe teria feito bem.

O medo que ela tinha, afinal, era medo dela própria. E estou convencido que haverá muito boa gente por esse país fora que só não é poliamorosa na prática porque nem sequer sabe que há mais pessoas assim.

__________________
(¹) A Single Man, do estilista e agora realizador Tom Ford, com argumento do também estreante David Scearce sobre o livro homónimo de Christopher Isherwood (traduzido por Maria Filomena Duarte para a Labirinto com o título Um homem no singular). O filme está em exibição em cinco salas da Grande Lisboa e duas do Porto.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Trios, mais um livro e mais confidências na primeira pessoa

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Ameacei comecar e continuar a falar de trios há cerca de duas semanas....


Continuo por aqui muito contente com o meu trio, uma das componentes da minha vida emocional raramente aborrecida. Estava relutante em falar disto porque ainda não definimos a coisa, e até porque precisamente o não ter definido a coisa com elas me estava a fazer comichão, a mim, académica empedernida. Até que tive uma epifânia, por voz de uma delas, a mais prática e mais "novata" nestas andanças não monogamicas, a propósito do sentimento que tem acerca de ter uma neta que é a neta da ex-namorada: "Eu não quero saber o que é que vocês lhe chamam ou mesmo eu cá por dentro lhe chamo, mas o que me interessa é o que eu faço ou que esperam que eu faço. Estou me a borrifar como se chama a relação que tenho com ela. Eu só sei que a minha neta precisa de mim, apita, assobia, ri ou chora, e eu estou lá no mesmo instante".

E sim, se calhar não é preciso ir buscar o arsenal de nomes e definições.. Somos amigas? Somos amantes? Queremos ser amantes? Queremos ser amigas? o que é que isso interessa se se calhar até temos nomes iguais para práticas diferentes ou nomes diferentes práticas? se calhar a coisa é toda simplificada por concordarmos no que queremos fazer juntas e no que queremos dar umas às outras. E o resto fica para discutir ociosamente num dia de chuva preguiçosamente passado em casa.

E para quem tudo isto é muito pessoal, fica mais um livrinho mais ou menos indiscreto acerca de trios. Para quem leu o seu Jack Kerouac "On the Road" e tem olho para especular para além das aparências, o livro Off the Road: Twenty Years with Cassady, Kerouac and Ginsberg by Carolyn Cassady nao trará surpresas. Trocando por miúdos, a mulher de Neal, e amante de Jack, conta a sua versão dos acontecimentos que deram origem a "on the Road" e da sua vida com o seu marido - o modelo para a personagem Dean Moriartry. Por um lado ela revela claramente o que se passa entre Jack e Neal, mas apenas sugere ambiguamente uma relação física entre os dois homens.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Boyfriend(s)

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Especialmente para os mais novos de entre os leitores deste blog, aqui vai uma curta-metragem feita há dois anos pelo americano Robert Anthony Hubbell. A ideia é simples: Kelly, uma rapariga de 16 anos, namora com Will. Apercebe-se de que gosta muito de um amigo comum, Brian, e descobre o conceito de poliamor, que transmite a ambos. O namorado, confrontado com esta ideia nova, tem de chegar às suas próprias conclusões…

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Uma carga de trabalhos

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Ontem almocei com colegas de trabalho. Um grupo de gente bem-disposta, com muito sentido de humor (coisa que acho sempre uma rara bênção) e, julgava eu, de mente aberta. Vinham de uma conversa com outro colega, sobre homossexualidade(s). Os comentários foram curtos e não me chegaram para formar uma opinião, mas diria assim de repente que grassa por ali muita ignorância e falta de experiência. Percebi que estive em silêncio durante esses minutos, e que parte da minha cabeça estava ocupada a pensar quais seriam os comentários, se soubessem de metade da minha história de vida.
O único confronto do género que tive foi depois da minha entrevista no Rádio Clube, que o meu então chefe ouviu e imediatamente reconheceu a minha voz, que mesmo rouca é, pelos vistos, inconfundível. A conversa decorreu mais ou menos assim:
— Então como é que está a andar o projecto?
— Está a correr bem. Já fiz (blá blá blá…) e estava a pensar enviar (blá blá) até ao fim da semana, para depois (blá)..
— Muito bem… (pausa) Gostei muito de a ouvir ontem.
— De me ouvir? Como assim?
— Sim, na rádio.
(Dois milésimos de segundo para escolher entre “Vou negar tudo até à morte” ou “Vou pôr as tripas em cima da mesa, seja o que Deus quiser”. Mais um milésimo para me decidir pela segunda opção, lembrar-me que não acredito em Deus e que sou eu que vou ter de enfrentar todas as consequências, que podem ir da chacota ao assédio sexual ou ao despedimento. Meio milésimo para pensar “Que se lixe!”)
— Não foi ontem, foi na quarta.
E já estava. Não fui despedida. Quanto ao resto não garanto, mas o que ouvi depois disso foram apenas elogios e frases de admiração e incentivo. Não voltei a repetir a experiência, por falta de oportunidade ou pelo meu natural recato em ambientes de trabalho. Mas qualquer coisa me diz que nem sempre teria a mesma resposta.
Que o diga o actor Ernie Joseph, que interpreta Ben na série Family, sobre uma família poly, e que no início deste ano viu um belo contrato anulado, por participar em tão infame coisa. Parece que o desgraçado nem sequer é poliamoroso. É apenas um actor a interpretar um papel. No fim de contas, somos todos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Malabarismos amorosos

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Há uma dúvida recorrente nas cabeças poly: ao conhecer-se uma nova pessoa, qual é a altura certa para se anunciar que a monogamia não é para nós um dado adquirido? Deve-se dizer o mais rápido possível, quase a seguir ao “muito prazer”? Tipo “Olá, o meu nome é X e sou poly”? Ou na verdade não é da conta de ninguém a não ser que nos envolvamos com a pessoa? E se assim é, em que ponto do envolvimento se torna oportuno / aconselhável falar nisso?
Já tive várias opiniões e respostas a dar a estas perguntas. Ultimamente opto por dizer descontraidamente “o meu namorado” assim que surge a oportunidade. A reacção a isto normalmente determina se desenvolvo a explicação, e muitas vezes determina também o meu interesse na pessoa.
A frontalidade e a honestidade são para mim uma necessidade, ou um luxo a que me dou quando o interlocutor o permite. Mas o que é perturbador é pensar que essa postura, por se furtar à cumplicidade com outras menos abertas, pode convidar à falsidade alheia. Trocando por miúdos: a maior parte das pessoas percebe muito cedo que não me vai conseguir comer se houver outra que não possa saber da minha existência. Nem sequer se só houver dúvidas.
Ontem falei com uma pessoa com quem me envolvi há uns anos e a quem pareceu que a melhor altura para me dizer que tinha namorada seria precisamente meia hora depois me ter comido. Neste caso, teria a fraca desculpa de dizer que eu é que o comi, me abalancei sobre ele, sem lhe dar muito tempo para abrir a boca. Mas antes disso, horas de conversa sobre poliamor já lhe tinham dado essa oportunidade várias vezes.
A conversa de ontem era sobre uma experiência que tinham tido com outro casal. Encurtando o relato: eram grandes amigos e deixaram de o ser. O ciúme atacou forte e feio. Sério?? E isso era portanto uma surpresa para ele.
Se há coisa que aprendi logo nos primeiros namoros de adolescência é que não se mudam as pessoas. Ou se ama alguém por quem a pessoa é, ou mais vale procurar directamente o que nos faz mais felizes. A namorada deste rapaz é claramente monogâmica e até eu, que nunca tive a oportunidade de a conhecer, já o tinha percebido. O que não percebo é esta compulsão de enganar tudo e todos e persistir num auto-engano, insistindo em que se faz as coisas desta maneira por não haver outras opções.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Good luck with that!

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Uma das perguntas que surgem sempre quando uma pessoa se diz poly, é a inevitável “Então e quantas relações é que tens neste momento?”. Para responder a isto, uma imagem que me vem já à cabeça é a de um buffet de casamento. É como se alguém me dissesse “Eia! Comida à farta o dia inteiro, 30 pratos e 40 sobremesas! Quantos quilos de comida é que meteste no bucho?”. É que eu, para além de gostar quase tanto de casamentos como de funerais, sou aquela pessoa que come menos nesses dias do que em dias normais. Não é a possibilidade que faz a vontade nem a disponibilidade.

Para além disso, há uma agravante nas questões do poliamor e das relações pessoais. É que, ao contrário do leitão de maçã na boca, as pessoas têm vontade própria e, algumas, desejos de exclusividade. Não basta querermos comer alguém, esse desejo também tem de ser recíproco. E a toda a gente que pense “Beeeem, isto do poliamor deve ser só comer gajas!!” (ou gajos, perdoem-me a tendência sexista no que se refere a frases alarves), a todas essas pessoas eu proponho que saiam por aí a tentar engatar, dizendo que são poly, que têm outras relações e que num futuro próximo todos se vão conhecer e participar em alegres almoços de domingo (ou piqueniques, que também os há).

Declararmo-nos poly e colocarmos ênfase na honestidade pode ser um dos maiores entraves à tão fantasiada quantidade de relações a que alguns nos associarão de imediato. Ser poly significa que não tomamos como dado adquirido a exclusividade amorosa, nem para nós nem para quem amamos. Quanto a encontrar pessoas que pensem da mesma maneira e que ainda por cima gostem de nós, o que vos tenho a dizer é "boa sorte"! Com ou sem maçã.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz

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No plano afectivo, fora da minha família de origem, houve ao longo da minha vida uma mão cheia de pessoas que se tornaram parte central da minha história.

Ontem, em momentos diferentes, contei a duas dessas pessoas (A. e B.) que estou enamorado (por C.) como há mais de um ano não me acontecia e não maldisse a vida tanto quanto era o meu jeito de sempre falar (obrigado, Chico e Vinicius*).

A. não é poly. Tem uma relação exclusiva com a única pessoa com quem teve intimidade (e filhos) na vida, e quer continuar assim. Comigo, tem há duas dúzias de anos uma relação que ela própria, sob tortura, classificaria certamente de «poliamorosa casta».

B. não sabe mas julga que não é poly. Vive com a mesma pessoa há dúzia e meia de anos, é uma grande amiga minha há uma dúzia e a amizade coloriu-se durante meia dúzia.

Tanto A. como B. ficaram genuinamente felizes por mim. Noutras alturas, com outros amores meus mais complicados, não tinham ficado felizes. São pessoas com intuição e que, por me amarem (obrigado, Jorge, pelo uso descomplexado do verbo «amar»), querem o melhor para mim. E o meu estado de enamoramento reduplicou por contágio.

A cada dia que passa, sinto que estou a aprender o ABC do poliamor. O A.+B.+C.+n. Amar aprende-se até secar.

Nunca escondi de ninguém o que penso sobre relações afectivas. Publiquei, fiz activismo, dei a cara. Mas é mais fácil falar genericamente das minhas ideias — e ao mundo — do que concretamente dos meus amores — e às pessoas que amo.

Não esperei por 11 de Outubro. Fiz ontem verdadeiramente o meu coming out poly.

sábado, 5 de setembro de 2009

Os meus medos...

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Não, não tenho medo de cães grandes, só dos que mordem mesmo.
Ou melhor, há coisas que nos mordem e magoam mas talvez o pior seja o medo das coisas, que nós achamos, que nos podem magoar. Isto será específico de pessoa para pessoa.

Nas minhas poli-relações, pelo menos nas que são "full time", surgem-me alguns receios que não estão na relação em si mas no mundo que me rodeia.

Fazendo uma introspecção e analisando as coisas que me preocupam quando vivo as minhas relações, há claramente duas coisas que se destacam. Ambas se relacionam com a maneira como as pessoas que considero próximas podem encarar esta realidade poliamorosa na minha vida. Uma está relacionada com os amigos e outra com a família "tradicional" (biológica).
Estes medos são mais óbvios nestas relações "full time", e tenho duas neste momento, o que me tem feito pensar um pouco mais neste assunto. Tenho outras pessoas que amo, e com quem tenho intimidade, mas que vejo esporadicamente e cujas relações são vivenciadas de outras formas...

Nos meus amigos receio o tratamento e a hierarquização que podem dar às pessoas que amo, às minhas relações. Já o disse antes, não tenho relações primárias ou secundárias, não faço comparações e cada uma vale por si.
Mas os meus amigos podem não o fazer! E isso, vá lá, aborrece-me...
Resumindo, temo o dia em que alguém que me seja próximo trate um dos meus amores de forma diferente baseado nestes pressupostos com os quais não me identifico.

Na minha família "tradicional" temo a não aceitação. Penso que este problema será mais transversal e alcança muitos outros tipos de relações. Mas para quem vem de uma família super-tradicional e católica como a minha, estes medos intensificam-se!
Tudo bem, eu não devo explicações a ninguém, sou maior e vacinado... Mas a última coisa que quero é ver sofrer alguém de quem gosto, que amo.
Se puder evitá-lo, faço-o. E é o que tenho feito, ocultando a realidade, o que não me tem sido muito difícil pois não vivemos perto.

Não sei como costumam lidar com os vossos medos, eu não gosto de os ter à perna, e um dia destes, se tiver de ser, cai o Carmo e a Trindade!