
Quando eu descobri
sites em inglês sobre
polyamory, não descobri nada em português. Porque, espante-se, estava a procurar por "poliamoria".
Um dia, lembrei-me de procurar por "poliamor" -
bingo. Depois acabei a conhecer mais pessoas e reparei, para minha consternação, que ninguém me sabia responder concretamente à dúvida sobre "qual a formulação correcta da palavra em português". Mais: pessoas diferentes utilizavam formas diferentes da palavra. Eu continuei a usar a versão "poliamor" (e "poliamoroso" para me referenciar a mim mesmo) - essencialmente por gosto pessoal, só porque "poliamoria" não me soava bem. Acabei até a tomar contacto com uma terceira versão: "poliamorismo".
Confesso que deixei cair a questão, e na minha cabeça traduzi todos os modos da palavra para "poliamor". Mas depois - há uma semana, mais coisa menos coisa - lembrei-me que daria um bom tema (?) para um
post aqui. De modo que resolvi armar-me em linguista amador. Ou seja: se alguém discordar de mim,
óptimo - manifeste-se!
Então, a ver vamos, que versão estará correcta?
Para responder a isto, perdi todos uns 60 segundos a olhar para a minha fiel "
Nova Gramática do Português Contemporâneo", de Celso Cunha e Lindley Cintra.
Conclusões:
Para designar "a coisa" em si (ou seja, aquilo a que eu gostava de chamar "poliamor"), a forma mais correcta será poliamorismo.
Para designar uma pessoa que se reveja, pratique, ou afins, no poliamorismo, usa-se poliamorista.
O uso de poliamoria designará, apenas, eventualmente, o conjunto de poliamoristas, caso se considerem que formem um grupo (e.g.: cavalaria, burguesia).Explicações:
Tudo isto radica na simples questão: O que significam os sufixos aplicados à palavra?
"-ismo" pode significar, entre outras coisas: a) doutrinas ou sistemas (artísticos, filosóficos, políticos, religiosos, etc); b) modo de proceder ou pensar.
"-ista" refere-se, entre outros sentidos, a partidários ou sectários de doutrinas ou sistemas (cujo sufixo é -ismo).
"-ia" pode significar uma noção colectiva.
Porém:
- Não é o uso que estabelece a forma "correcta", na perspectiva de que a linguagem é um construto social cujas regras apenas existem a posteriori e como uma tentativa (sempre infrutífera) de estabelecer uma total uniformidade eficiente? E, nesse caso, qual é o uso que devemos considerar? Em português, parece-me que este tende para a versão "poliamor". (Id est, no Google temos ~33600 resultados para "poliamor" e menos de mil para "poliamorismo".)
- Não poderemos até acabar a seguir uma via que produza uma palavra totalmente diferente desta, menos... híbrida? Ou será que isso é agora, por questões identitárias, pouco aconselhável, mesmo contraproducente?
Perguntas para as quais não tenho resposta. Convido-vos a criá-la comigo, connosco. Claro que esta pequena reflexão se debruça apenas sobre
que palavras usar dentro de um conjunto limitado. Para outra altura ficarão algumas considerações sobre estas e outras palavras, noutros contextos - sem nunca deixar de lado a questão da nomeação e da identidade no processo público de reconhecimento intersubjectivo.
Foto roubada daqui.