A notícia já tem uns dias, mas está a chegar à imprensa portuguesa agora: uma família poliamorosa foi fazer-se reconhecer em notário, no Brasil!
No entanto, não deixa de ser interessante que a imprensa portuguesa não vá falar directamente com as pessoas envolvidas, que troque relação poliamorosa por "relação polígama", entre outras imprecisões... como falar de "casamento".
TVI 24
Público
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Contar cabeças
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Como é que se contam pessoas? Como é que se contam relações? O que é uma relação?
Já estive em tertúlias, programas variados, entrevistas aqui e ali, e um dos pontos que tento fazer passar é o de que existem mil e uma diferentes maneiras como, todos os dias, inserimos pequenos pedaços subtis de discriminação mono-normativa. Quando falamos de "relações a sério", quando falamos de "relações duradouras", quando falamos de "estar numa relação" - tudo uma série de marcadores 'oficiais' que dão credibilidade a uns tipos de relação, e a tiram a outros.
Costumo dizer que um one-night stand de 5 minutos é uma relação. E que uma amizade de 15 anos é uma relação. Mas quando dizemos "estou numa relação com X", os nossos interlocutores ficam com duas palavras a retinir-lhes na cabeça: sexo e paixão.
Tudo isto para dizer que há uma pergunta que me fazem constantemente, especialmente em entrevistas: Quantas relações tens?
Francamente, cada vez me custa mais responder a essa pergunta. Porque a resposta que eu dou remete constantemente para as relações que ocupam um papel mais nuclear na minha vida: as duas pessoas com quem estou a viver, e com quem tenho de facto relações românticas. A realidade, porém, é que bastaria alargar um pouco que fosse a definição de "relação", ou mesmo de "relação poliamorosa", e teria que incluir mais do que essas duas pessoas. Muitas vezes, acabo a não o fazer. E, muitas vezes também, essas "outras" relações - essas outras pessoas - acabam a não ter, também, visibilidade social (dentro do meu círculo social, entenda-se), quase como se não existissem. Quase como se não fossem importantes para mim. E, no entanto, são-no, profundamente.
Incomoda-me - e é isso que quero partilhar aqui - a minha cumplicidade na criação e reprodução de um sistema de privilégios. Privilégio de quem é relação a sério sobre quem não é. Privilégio de quem é visível sobre quem não é. Para mim, isso está errado e é profundamente desrespeitoso para com pessoas que escolheram partilhar uma parte das suas vidas, do seu tempo, e da sua pachorra, comigo.
(Por outro lado, deixo aqui a ressalva de que também defendo a possibilidade de alguma dessas pessoas - ou outras que nada tenham que ver comigo, noutras relações com outras pessoas - quererem ou precisarem de ficar dentro dessa invisibilidade.)
A essas pessoas, que posso ter deixado à sombra e desconsiderado: desculpem. É algo em que estou activamente a trabalhar.
Já estive em tertúlias, programas variados, entrevistas aqui e ali, e um dos pontos que tento fazer passar é o de que existem mil e uma diferentes maneiras como, todos os dias, inserimos pequenos pedaços subtis de discriminação mono-normativa. Quando falamos de "relações a sério", quando falamos de "relações duradouras", quando falamos de "estar numa relação" - tudo uma série de marcadores 'oficiais' que dão credibilidade a uns tipos de relação, e a tiram a outros.
Costumo dizer que um one-night stand de 5 minutos é uma relação. E que uma amizade de 15 anos é uma relação. Mas quando dizemos "estou numa relação com X", os nossos interlocutores ficam com duas palavras a retinir-lhes na cabeça: sexo e paixão.
Tudo isto para dizer que há uma pergunta que me fazem constantemente, especialmente em entrevistas: Quantas relações tens?
Francamente, cada vez me custa mais responder a essa pergunta. Porque a resposta que eu dou remete constantemente para as relações que ocupam um papel mais nuclear na minha vida: as duas pessoas com quem estou a viver, e com quem tenho de facto relações românticas. A realidade, porém, é que bastaria alargar um pouco que fosse a definição de "relação", ou mesmo de "relação poliamorosa", e teria que incluir mais do que essas duas pessoas. Muitas vezes, acabo a não o fazer. E, muitas vezes também, essas "outras" relações - essas outras pessoas - acabam a não ter, também, visibilidade social (dentro do meu círculo social, entenda-se), quase como se não existissem. Quase como se não fossem importantes para mim. E, no entanto, são-no, profundamente.
Incomoda-me - e é isso que quero partilhar aqui - a minha cumplicidade na criação e reprodução de um sistema de privilégios. Privilégio de quem é relação a sério sobre quem não é. Privilégio de quem é visível sobre quem não é. Para mim, isso está errado e é profundamente desrespeitoso para com pessoas que escolheram partilhar uma parte das suas vidas, do seu tempo, e da sua pachorra, comigo.
(Por outro lado, deixo aqui a ressalva de que também defendo a possibilidade de alguma dessas pessoas - ou outras que nada tenham que ver comigo, noutras relações com outras pessoas - quererem ou precisarem de ficar dentro dessa invisibilidade.)
A essas pessoas, que posso ter deixado à sombra e desconsiderado: desculpem. É algo em que estou activamente a trabalhar.
domingo, 15 de julho de 2012
O amor do teu amor... teu amigo é?
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O título apresenta-se em forma de pergunta porque é isso que este texto é. Uma série de perguntas para quem eventualmente me possa ler. Vocês, nas vossas vidas, com as vossas pessoas, os vossos percursos, as vossas personalidades, as vossas experiências. Reflecti sozinha, gostava de agora reflectir em conjunto.
No poliamor há, quase sempre, uma qualquer possibilidade de expansão. Expansão de afectos, expansão de intimidades, expansão de sexualidades, expansão de experiências. Quando somxs mais de dois há - para ser perfeitamente óbvia - mais. Mais gente. Mais subjectividades. Mais vidas. Mais vontades. Mais tudo. O tempo é a grande subtracção no meio de tantas somas. Mas isto não é matemática. É mais complexo que isso.
Passamos a vida toda a aprender a "marcar territórios". A marcar espaços de segurança e a defendê-los com unhas e dentes. Na minha relação poly, eu passo a vida a desaprender, a desmarcar, a des-defender tudo e mais alguma coisa. Podia ser tão simples como a escrita: colocar des- à frente de cada palavra, acto e emoção. Contrariar instintos e impulsos. Contrariar sensações. Parece-me sempre tudo um movimento de ir contra uma qualquer maré fortíssima que me pode afogar. A maré, muitas vezes, sou eu.
Sou eu quando conheço amores de um meu amor. Quando conheço amigxs colorids de um meu amor. Quando conheço fuck buddies de um meu amor. Quando conheço pessoa-especial-não-muito-definida de um meu amor. Quando conheço pessoa-a-quem-dou-beijos-às-vezes-mas-não-é-muito-importante de um meu amor.
Ou quando...
Não conheço.
Conhecer ou não conhecer. Saber ou não saber. Estar ou não estar.
Qual é a vossa postura? Conhecem todxs xs amores dxs vossxs amores? E aqueles que não são amores mas são outra coisa qualquer significativa? Preferem conhecer a pessoa pessoalmente e conversar? Ou preferem nem sequer ver uma fotografia da pessoa? Gostam de saber que gostos tem, onde gosta de ir, o que faz? Procuram essa informação para saberem se o vosso amor está bem ou para vocês ficarem bem? Ou seja, para saberem com quem estão a lidar? Onde traçam os vossos limites?
Ao longo da minha relação já experimentei diversas posturas e a minha procura tem sido por aquela que é melhor para mim e para com quem estou. Raramente a encontro e falho constantemente.
Já estive perfeitamente bem durante tardes inteiras em que sabia que um amor estava a ter longas horas de sexo. Estava calma, segura e bem comigo mesma. Outras vezes, essas mesmas horas eram passadas em constante nervoso miudinho, que ia crescendo até não ser já miudinho. Nesses momentos são os olhares para o relógio, o tempo que se arrasta, cada coisa pequena que parece correr mal e a mente que não pára - de fervilhar, de inventar, de deduzir. Sou secretamente mordaz nesses momentos, dentro da minha cabeça. Não dói realmente, mas é um estar no tempo que mói.
Outras vezes estive lá, no momento. Vi beijos e carícias, vi toques. Nada se quebrou em mim. Nada de errado se passava, eu estava bem e estava em harmonia e estava lá.
Mas também já estive lá com dor. Também já estive lá de coração aberto para me sentir bem e não foi bom. Mesmo que só descobrisse depois o que havia doído assim tanto.
Às vezes nem sequer são estes momentos em si. Às vezes é a estranha ambiguidade de sentimentos quando ouvimos a voz de um nosso amor a falar de como foi o seu dia com aquela pessoa. Não é bonito mas quase que é mais "fácil" estar ali quando um encontro corre mal. Abraçar, segurar e dizer que para a próxima vai ser melhor. Mas e... quando o encontro corre bem? Quando fica perto de ser perfeito? A felicidade dos nossos amores devia apoderar-se de nós. Devia não deixar espaço para sentir mais nada do que absoluta alegria. Mas deixa demasiados espaços que tentamos preencher como podemos... O que fazem nesses momentos? Falam sobre isso? Revelam esse medo? Ou tentam colocar isso de parte e preencher com alegria e felicidade aquele momento?
Tenho descobrido que as minhas escolhas para todas estas situações podem vir a determinar muito a minha vida e as minhas relações. Muitas vezes tenho escolhido uma postura de espectadora... alguém que assiste e apoia, mas que não faz parte da cena. Escolher entrar na cena e ser participante implica saber em que cenas se pode ou não entrar, como se pode entrar e saber como estar. Implica também uma coragem - um put it out there - no fundo uma exposição de nós mesmos a outrxs olhares, toques e perspectivas. Estar exposto pode ser mais fácil para uns que para outrxs.
Para mim é
ter um coração fora do corpo,
exposto ao tempo e
exposto ao amor e dor de muitas pessoas.
esse coração quer-se proteger e quer proteger quem ama, nas tem que lidar com os seus batimentos cardíacos, a sua própria pulsação... e não há caixa torácica por vezes.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
SlutWalk Porto e Lisboa 2012
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O grupo PolyPortugal apoia as SlutWalks portuguesas, e apela à participação!
SlutWalk Porto: www.slutwalkporto.wordpress.com
SlutWalk Lisboa: www.slutwalklisboa.wordpress.com

SlutWalk Porto: www.slutwalkporto.wordpress.com
SlutWalk Lisboa: www.slutwalklisboa.wordpress.com

SlutWalk* Portugal
* SLUT, galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil
Em Janeiro
de 2011 um polícia afirmou em Toronto que as mulheres devem evitar
vestir-se de forma provocante se não quiserem ser violadas. Um ano
depois, Portugal junta-se pela segunda vez à vaga de indignação que esta
afirmação causou um pouco por todo o mundo, através da SLUTwalk Porto e
da SLUTwalk Lisboa.
A SlutWalk
tem como base a recusa da culpabilização das vítimas de violência sexual
e de género; a recusa da vergonha pela afirmação da auto-determinação
sexual de cada pessoa; a recusa dos moralismos sobre as várias
expressões de sexualidade e não-sexualidade existentes, desde que
exercidas com o consenso de todas as pessoas envolvidas.
Uma SLUT
(galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil) é
qualquer pessoa que pretende afirmar o direito ao seu próprio corpo, o
direito à(s) sua(s) sexualidade(s) (ou ausência dela(s)), o direito a
vestir-se como bem entende, o direito a expressar-se livre e
responsavelmente – e que, por isso, é insultada, agredida, discriminada,
atacada. Não existe um comportamento típico da SLUT.
A SlutWalk
pretende reclamar as palavras usadas para insultar, magoar e discriminar
todas essas pessoas, reclamar o direito à não-moralização de quem é
“fácil”, “difícil” ou “assim-assim” – e à violência de género associada.
Temos a noção de que nem todas as pessoas se encontram em posição de
poder reclamar esta e outras palavras. Temos a noção de que nem todas as
pessoas são agredidas com estas palavras em específico. Ainda assim,
defendemos que a recuperação de palavras agressoras é uma estratégia
válida e possível, a par de outras – e que deve ser desenvolvida em
conjunto com as lutas de quem não o pode ou deseja fazer.
A SlutWalk
não pretende falar por todas as mulheres, ou por todas as pessoas. As
diferentes experiências de etnia, estatuto sócio-económico, cultura,
religião, configuração corporal e de género, etc, não se prestam a isso.
Mas, ainda assim, a experiência de se ser chamada galdéria,
desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca ou fácil está bastante
disseminada em Portugal, e faz parte de uma dinâmica mais abrangente de
discriminação e opressão patriarcal.
As pessoas
envolvidas na SlutWalk são feministas – mulheres, trans*, homens,
genderqueer, entre outras identidades. O feminismo não trata apenas de
‘direitos das mulheres’, trata da dignidade humana para todas as
pessoas, independentemente do seu sexo ou género. É essa dignidade que é
violada quando se culpam as vítimas de violência sexual e de género,
quando se atacam pessoas por aquilo que elas fazem com o seu próprio
corpo, tempo, roupa, palavras e atitudes.
Convém, no
entanto, não esquecer que as mulheres* são ainda as mais claramente
visadas pela violência de género: em 2011, mais de meia centena de
mulheres foram vítimas de homicídio ou tentativa de homicídio por parte
de companheirxs ou esposxs (dados da UMAR) e 40% das mulheres com mais
de 60 anos também é alvo de abusos (dados da Univ. do Minho). O corpo de
qualquer pessoa deve ser propriedade da própria pessoa. Recusamos a
existência de proprietários de primeira (geralmente, homens), de segunda
(geralmente, mulheres) e de terceira (geralmente, pessoas trans*).
Se
SLUT – galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca,
fácil – é uma pessoa que decide sobre o seu corpo, sobre a sua
sexualidade, e que procura prazer (nas suas várias formas), então, somos
SLUTs, sim!
Não
queremos piropos sexistas, não queremos paternalismo, não queremos
violência sexual. Dizemos não, por mais cidadania. Dizemos não, por mais
democracia. Dizemos não, pela possibilidade de todas as pessoas poderem
habitar os espaços públicos e privados em igual segurança, com igual
respeito. Dizemos não à dominação patriarcal do espaço físico onde as
mulheres* se movimentam. Dizemos não, por mais liberdade.
Se ponho um decote… Não é Não!
Se pus aquelas calças de que tanto gostas… Não é Não!
Se visto calções ou mini-saia … Não é Não!
Se uso burqa… Não é Não!
Se tenho as mamas à mostra … Não é Não!
Se durmo com quem me apetece… Não é Não!
Se sou virgem… Não é Não!
Se tenho mais de 60 anos … Não é Não!
Se passo naquela rua… Não é Não!
Se vamos para os copos… Não é Não!
Se me sinto vulnerável… Não é Não!
Se sou deficiente… Não é Não!
Se saio com xs maiores galdérixs…Não é Não!
Se ontem dormi contigo… Não é Não!
Se sou trabalhadora sexual… Não é Não!
Se és meu chefe… Não é Não!
Se somos casadxs, companheirxs, namoradxs… Não é Não!
Se sou tua paciente… Não é Não!
Se sou tua parente… Não é Não!
Se sou imigrante ilegal… Não é Não!
Se tenho relações poliamorosas… Não é Não!
Se sou empregada de hotel… Não é Não!
Se tens dúvidas se aquilo foi um sim, então… Não é Não!
Se és padre, imã, rabi ou pujari… Não é Não!
Se beijo outra mulher no meio da rua… Não é Não!
Se a pessoa com quem estou agora gosta de sexo a três… Não é Não!
Se sou brasileira, cabo-verdiana, angolana ou de outro país que sofreu colonização… Não é Não!
Se tenho mamas e pila… Não é Não!
Se disse sim e já não me apetece… Não é Não!
Se sou empregada doméstica… Não é Não!
Se adoro ver pornografia… Não é Não!
Se ando à boleia… Não é Não!
Se estamos numa festa swing, numa sex party ou numa cena BDSM… Não é Não!
Se já abrimos o preservativo… Não é Não!
NÃO é sempre NÃO. Quando é SIM, não há ambiguidades ou dúvidas porque sabemos o que queremos e sabemos ser clarxs.
sábado, 23 de junho de 2012
PolyPortugal na Marcha Orgulho LGBT Lisboa 2012
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Podem ver aqui o discurso final na Marcha do Orgulho LGBT Lisboa 2012, proferido por Alistair, em nome do PolyPortugal.
sábado, 2 de junho de 2012
Nunca
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Nunca o provérbio “se não os podes vencer, junta-te a eles”
fez tanto sentido. Não que eu queira vencer alguém, mas é a frase que me vem à
cabeça cada vez que penso no que aconteceu este último mês. Sempre fui ciumenta.
Quando estava numa relação, essa pessoa era minha e só minha, eu dela e só
dela. Compreendia o poliamor, lutava pelo direito a amar mais do que uma
pessoa, mas tinha a certeza que nunca iria embarcar numa relação a três,
quatro, muitos. Ah, não. Achava que não era para mim. Que os meus ciúmes não
iam nunca permitir uma relação deste tipo.
Quando surgiu a oportunidade de passar umas semanas numa
comunidade de amor livre (que por razões de privacidade não vou identificar,
tal como não me vou identificar), a minha mente e o meu coração fecharam-se.
“Estou numa relação, por isso não vou procurar nada nem deixar que aconteça”,
foi a resposta que dei ao meu namorado. Ele pediu-me que deixasse as portas
abertas, que se o meu coração se fechasse ao exterior também se fecharia a ele
(talvez?). Eu, na minha posição de fazer finca-pé, assegurei-lhe que nada se
iria passar, porque eu não queria.
Mas passou-se. Não se trata de uma questão de querer, as
coisas simplesmente acontecem. As minhas defesas foram caindo umas a seguir às
outras quando via uma certa pessoa da comunidade. Desejava-o, gostava de estar
na companhia dele e cada pequena acção me parecia um sinal. O simples facto
dele se vir sentar junto a mim na esplanada ao jantar, quando podia ter
escolhido dezenas de outros lugares, era para mim uma espécie de vitória. E eu
seduzia-o. Fazia-o, mas sempre pensando que não iria passar daí, “porque eu
tenho namorado à minha espera lá fora”. Aos poucos, apaixonei-me.
Telefonei ao meu namorado e falei-lhe do que sentia. Ele
apenas me perguntou “se gostas dele, porque é que estás com tantos receios?
Tens medo da minha reacção? Então porque me ligaste a contar? Vai em frente. Eu
apoio-te, o meu amor por ti não muda, tal como espero que o teu por mim não
mude”. Mas alguma coisa estava presa na garganta. Queria falar com o outro
homem, mas as palavras não saíam. Não foi preciso – naquele lugar basta ler a
expressão corporal e a minha brilhava como um anúncio de néon quando ele
passava. Deixei-me levar e, no dia seguinte, a primeira pessoa a quem contei
foi ao meu namorado. Ficou felicíssimo por mim, porque sentia que, naquele
momento, eu estava verdadeiramente feliz. Quando estamos apaixonadas, a paixão
não se dirige só à última pessoa de quem começámos a gostar. Estava apaixonada
pelo meu namorado novamente, de uma forma tão forte como se tivesse sido a
primeira vez que falávamos.
Entretanto voltei. Não sem antes falarmos sobre o que se
tinha passado. Ele sabe que eu tenho um relacionamento, eu sei que ele tem
outros relacionamentos, mais ou menos fugazes. E sei que ele vai deixar a comunidade
antes de eu lá voltar, que vai voltar ao seu país e ao seu trabalho. Que talvez
nem nos voltemos a ver. Mas a experiência ensinou-me muito. Não se trata de
dançar conforme a música que é tocada, mas sim de não fechar o coração nem a
mente. Amo-os aos dois – sim, é possível. E tenho saudades dos dois, tenho mais
saudades do meu namorado do que alguma vez imaginei ter, com ou sem uma
terceira pessoa. Estamos mais unidos que nunca – a relação passou a prova da
verdade, da transparência. Deixou de haver ciúme e desconfiança. E isso vale
mais do que tudo.
K.
K.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Dois artigos sobre poliamor no P3
Publicado por
Hoje trazemos mais cobertura noticiosa sobre poliamor, desta feita no P3, pelas mãos de Amanda Ribeiro.
A primeira peça: Poliamor: o amor não se divide, multiplica-se
A segunda: Poliamor: como é viver uma relação a três ou mais?
Leiam, comentem, divulguem!
A primeira peça: Poliamor: o amor não se divide, multiplica-se
A segunda: Poliamor: como é viver uma relação a três ou mais?
Leiam, comentem, divulguem!
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