segunda-feira, 25 de junho de 2012

SlutWalk Porto e Lisboa 2012

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O grupo PolyPortugal apoia as SlutWalks portuguesas, e apela à participação!

SlutWalk Porto: www.slutwalkporto.wordpress.com
SlutWalk Lisboa: www.slutwalklisboa.wordpress.com
   




  

















SlutWalk* Portugal

* SLUT, galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil

Em Janeiro de 2011 um polícia afirmou em Toronto que as mulheres devem evitar vestir-se de forma provocante se não quiserem ser violadas. Um ano depois, Portugal junta-se pela segunda vez à vaga de indignação que esta afirmação causou um pouco por todo o mundo, através da SLUTwalk Porto e da SLUTwalk Lisboa.

A SlutWalk tem como base a recusa da culpabilização das vítimas de violência sexual e de género; a recusa da vergonha pela afirmação da auto-determinação sexual de cada pessoa; a recusa dos moralismos sobre as várias expressões de sexualidade e não-sexualidade existentes, desde que exercidas com o consenso de todas as pessoas envolvidas.

Uma SLUT (galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil) é qualquer pessoa que pretende afirmar o direito ao seu próprio corpo, o direito à(s) sua(s) sexualidade(s) (ou ausência dela(s)), o direito a vestir-se como bem entende, o direito a expressar-se livre e responsavelmente – e que, por isso, é insultada, agredida, discriminada, atacada. Não existe um comportamento típico da SLUT.

A SlutWalk pretende reclamar as palavras usadas para insultar, magoar e discriminar todas essas pessoas, reclamar o direito à não-moralização de quem é “fácil”, “difícil” ou “assim-assim” – e à violência de género associada. Temos a noção de que nem todas as pessoas se encontram em posição de poder reclamar esta e outras palavras. Temos a noção de que nem todas as pessoas são agredidas com estas palavras em específico. Ainda assim, defendemos que a recuperação de palavras agressoras é uma estratégia válida e possível, a par de outras – e que deve ser desenvolvida em conjunto com as lutas de quem não o pode ou deseja fazer.

A SlutWalk não pretende falar por todas as mulheres, ou por todas as pessoas. As diferentes experiências de etnia, estatuto sócio-económico, cultura, religião, configuração corporal e de género, etc, não se prestam a isso. Mas, ainda assim, a experiência de se ser chamada galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca ou fácil está bastante disseminada em Portugal, e faz parte de uma dinâmica mais abrangente de discriminação e opressão patriarcal.

As pessoas envolvidas na SlutWalk são feministas – mulheres, trans*, homens, genderqueer, entre outras identidades. O feminismo não trata apenas de ‘direitos das mulheres’, trata da dignidade humana para todas as pessoas, independentemente do seu sexo ou género. É essa dignidade que é violada quando se culpam as vítimas de violência sexual e de género, quando se atacam pessoas por aquilo que elas fazem com o seu próprio corpo, tempo, roupa, palavras e atitudes.

Convém, no entanto, não esquecer que as mulheres* são ainda as mais claramente visadas pela violência de género: em 2011, mais de meia centena de mulheres foram vítimas de homicídio ou tentativa de homicídio por parte de companheirxs ou esposxs (dados da UMAR) e 40% das mulheres com mais de 60 anos também é alvo de abusos (dados da Univ. do Minho). O corpo de qualquer pessoa deve ser propriedade da própria pessoa. Recusamos a existência de proprietários de primeira (geralmente, homens), de segunda (geralmente, mulheres) e de terceira (geralmente, pessoas trans*).

Se SLUT – galdéria, desavergonhada, puta, descarada, vadia, badalhoca, fácil – é uma pessoa que decide sobre o seu corpo, sobre a sua sexualidade, e que procura prazer (nas suas várias formas), então, somos SLUTs, sim!

Não queremos piropos sexistas, não queremos paternalismo, não queremos violência sexual. Dizemos não, por mais cidadania. Dizemos não, por mais democracia. Dizemos não, pela possibilidade de todas as pessoas poderem habitar os espaços públicos e privados em igual segurança, com igual respeito. Dizemos não à dominação patriarcal do espaço físico onde as mulheres* se movimentam. Dizemos não, por mais liberdade.



Se ponho um decote… Não é Não!
Se pus aquelas calças de que tanto gostas… Não é Não!
Se visto calções ou mini-saia … Não é Não!
Se uso burqa… Não é Não!
Se tenho as mamas à mostra … Não é Não!
Se durmo com quem me apetece… Não é Não!
Se sou virgem… Não é Não!
Se tenho mais de 60 anos … Não é Não!
Se passo naquela rua… Não é Não!
Se vamos para os copos… Não é Não!
Se me sinto vulnerável… Não é Não!
Se sou deficiente… Não é Não!
Se saio com xs maiores galdérixs…Não é Não!
Se ontem dormi contigo… Não é Não!
Se sou trabalhadora sexual… Não é Não!
Se és meu chefe… Não é Não!
Se somos casadxs, companheirxs, namoradxs… Não é Não!
Se sou tua paciente… Não é Não!
Se sou tua parente… Não é Não!
Se sou imigrante ilegal… Não é Não!
Se tenho relações poliamorosas… Não é Não!
Se sou empregada de hotel… Não é Não!
Se tens dúvidas se aquilo foi um sim, então… Não é Não!
Se és padre, imã, rabi ou pujari… Não é Não!
Se beijo outra mulher no meio da rua… Não é Não!
Se a pessoa com quem estou agora gosta de sexo a três… Não é Não!
Se sou brasileira, cabo-verdiana, angolana ou de outro país que sofreu colonização… Não é Não!
Se tenho mamas e pila… Não é Não!
Se disse sim e já não me apetece… Não é Não!
Se sou empregada doméstica… Não é Não!
Se adoro ver pornografia… Não é Não!
Se ando à boleia… Não é Não!
Se estamos numa festa swing, numa sex party ou numa cena BDSM… Não é Não!
Se já abrimos o preservativo… Não é Não!
NÃO é sempre NÃO. Quando é SIM, não há ambiguidades ou dúvidas porque sabemos o que queremos e sabemos ser clarxs.

sábado, 23 de junho de 2012

PolyPortugal na Marcha Orgulho LGBT Lisboa 2012

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Podem ver aqui o discurso final na Marcha do Orgulho LGBT Lisboa 2012, proferido por Alistair, em nome do PolyPortugal.

sábado, 2 de junho de 2012

Nunca

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Nunca o provérbio “se não os podes vencer, junta-te a eles” fez tanto sentido. Não que eu queira vencer alguém, mas é a frase que me vem à cabeça cada vez que penso no que aconteceu este último mês. Sempre fui ciumenta. Quando estava numa relação, essa pessoa era minha e só minha, eu dela e só dela. Compreendia o poliamor, lutava pelo direito a amar mais do que uma pessoa, mas tinha a certeza que nunca iria embarcar numa relação a três, quatro, muitos. Ah, não. Achava que não era para mim. Que os meus ciúmes não iam nunca permitir uma relação deste tipo.

Quando surgiu a oportunidade de passar umas semanas numa comunidade de amor livre (que por razões de privacidade não vou identificar, tal como não me vou identificar), a minha mente e o meu coração fecharam-se. “Estou numa relação, por isso não vou procurar nada nem deixar que aconteça”, foi a resposta que dei ao meu namorado. Ele pediu-me que deixasse as portas abertas, que se o meu coração se fechasse ao exterior também se fecharia a ele (talvez?). Eu, na minha posição de fazer finca-pé, assegurei-lhe que nada se iria passar, porque eu não queria.

Mas passou-se. Não se trata de uma questão de querer, as coisas simplesmente acontecem. As minhas defesas foram caindo umas a seguir às outras quando via uma certa pessoa da comunidade. Desejava-o, gostava de estar na companhia dele e cada pequena acção me parecia um sinal. O simples facto dele se vir sentar junto a mim na esplanada ao jantar, quando podia ter escolhido dezenas de outros lugares, era para mim uma espécie de vitória. E eu seduzia-o. Fazia-o, mas sempre pensando que não iria passar daí, “porque eu tenho namorado à minha espera lá fora”. Aos poucos, apaixonei-me.

Telefonei ao meu namorado e falei-lhe do que sentia. Ele apenas me perguntou “se gostas dele, porque é que estás com tantos receios? Tens medo da minha reacção? Então porque me ligaste a contar? Vai em frente. Eu apoio-te, o meu amor por ti não muda, tal como espero que o teu por mim não mude”. Mas alguma coisa estava presa na garganta. Queria falar com o outro homem, mas as palavras não saíam. Não foi preciso – naquele lugar basta ler a expressão corporal e a minha brilhava como um anúncio de néon quando ele passava. Deixei-me levar e, no dia seguinte, a primeira pessoa a quem contei foi ao meu namorado. Ficou felicíssimo por mim, porque sentia que, naquele momento, eu estava verdadeiramente feliz. Quando estamos apaixonadas, a paixão não se dirige só à última pessoa de quem começámos a gostar. Estava apaixonada pelo meu namorado novamente, de uma forma tão forte como se tivesse sido a primeira vez que falávamos.

Entretanto voltei. Não sem antes falarmos sobre o que se tinha passado. Ele sabe que eu tenho um relacionamento, eu sei que ele tem outros relacionamentos, mais ou menos fugazes. E sei que ele vai deixar a comunidade antes de eu lá voltar, que vai voltar ao seu país e ao seu trabalho. Que talvez nem nos voltemos a ver. Mas a experiência ensinou-me muito. Não se trata de dançar conforme a música que é tocada, mas sim de não fechar o coração nem a mente. Amo-os aos dois – sim, é possível. E tenho saudades dos dois, tenho mais saudades do meu namorado do que alguma vez imaginei ter, com ou sem uma terceira pessoa. Estamos mais unidos que nunca – a relação passou a prova da verdade, da transparência. Deixou de haver ciúme e desconfiança. E isso vale mais do que tudo.

K.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Dois artigos sobre poliamor no P3

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Hoje trazemos mais cobertura noticiosa sobre poliamor, desta feita no P3, pelas mãos de Amanda Ribeiro.

A primeira peçaPoliamor: o amor não se divide, multiplica-se

A segundaPoliamor: como é viver uma relação a três ou mais?

Leiam, comentem, divulguem!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

3ª Marcha contra a Bifobia, Intersexofobia, Homofobia, Lesbofobia, Polifobia e Transfobia

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Foi há uns poucos dias que vi anunciada a 3ª Marcha contra a Bifobia, Intersexofobia, Homofobia, Lesbofobia, Polifobia e Transfobia. Tanto quanto sei, é a primeira vez que uma manifestação pública se dirige, no nome, à questão específica do poliamor (e daí o “polifobia”, embora eu costume escrever polyfobia só mesmo para não criar confusões – coisa que nem sei muito bem se resulta ou não).


Esta atitude, por parte da PATH, é de louvar, não apenas pela inclusão do poliamor no nome, mas pelo desdobrar, explicitar e visibilizar também da intersexualidade (e, já agora, dos elementos mais comuns da sigla LGBT).

Por outro lado, convém lembrar e reflectir sobre o que é esta coisa da “polyfobia”, já que a palavra será certamente ainda desconhecida de muita gente (como “poliamor” o é). Claramente, todas estas fobias pretendem fazer um paralelismo e dar continuidade à ideia de homofobia, a primeira a aparecer historicamente enquanto palavra. O uso da palavra em contexto escrito surgiu em 1971, pela mão de George Weinberg, que pretendia assim significar o medo de estar perto de pessoas homossexuais mas também, e significativamente, o medo que essa proximidade pudesse funcionar como um vector de contágio e, assim, atacar a heterossexualidade das pessoas homofóbicas. Este medo iria portanto ter as características de outros tipos de fobias, gerando reacções irracionais, violentas, cujo objectivo seria a protecção de um risco inexistente de contágio – uma abordagem psicologizante do fenómeno.

O termo homofobia e seus derivados (presentes no nome da marcha) marcaram, na altura, um ponto de viragem importante: o recentrar da génese do problema; a deslocação retórica do “problema da homossexualidade” para o “problema da homofobia”, quase que diametralmente oposto. Porém, isto também implica um problema: esta viragem é feita mantendo os termos de base da situação. Troca-se uma psicologização por outra. Essa psicologização acaba a ocultar, até certo ponto, o nível supra-pessoal da “homofobia”, na medida em que a violência não é apenas pessoal e subjectiva, mas também estrutural e institucional. 

E, não obstante a importância de pensarmos nas palavras que usamos, e no peso que elas têm, não deixa de ser verdade que o próprio significado de “homofobia” e suas variantes se tem vindo a alterar. Quando falamos de homofobia institucional, quando falamos de homofobia estrutural – podemos estar a usar a mesma palavra, mas não porque acreditemos que uma instituição tem necessariamente uma psique. Antes, e não obstante o continuado uso da “fobia”, temos vindo a desenvolver um pensamento sobre como a hostilidade não é apenas pessoal, nem é apenas contextual. Podemos, por exemplo, relacionar este medo com outros elementos: nomeadamente, com o papel que o Outro é feito ocupar no questionar das certezas identitárias e das mundo-visões do “Eu”.

Mais uma coisa: no meio disto tudo, nunca é demais lembrar – a hostilidade contra as pessoas poliamorosas e contra a ideia abstracta de poliamor existe.
Existe quando alguém nos deseja uma “feliz vida com SIDA”. Ou quando alguém avisa uma pessoa com quem temos uma relação que ela vai apanhar SIDA. (Para quem estiver a pensar “Bem, se calhar ele é seropositivo”: não, não sou; e ainda que o fosse, este é um comentário que é hostil tanto para pessoas poly, como para pessoas seropositivas.)

Existe quando nos dizem que viver assim é “animalesco”.

Existe quando vamos na rua e temos que ouvir comentários machistas a serem-nos dirigidos, e não nos sentimos segurxs.

Existe quando beijar duas pessoas ao mesmo tempo deixa uma dezena a olhar para nós.

Existe quando apresentam queixa de nós no trabalho por nos afirmarmos publicamente como poly.






E existe em tantas, tantas outras situações…

Não quero fazer deste um texto triste. Quero fazer deste um texto feliz – porque estou feliz, porque me sinto feliz por haver quem avance, quem inove, quem alargue horizontes.

Obrigado, PATH. Obrigado pela tertúlia para a qual me convidaram. Obrigado por lutarem por mim também. De todo o meu coração (coração de poly!), obrigado.

domingo, 22 de abril de 2012

(miss)understandings

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Poliamor pode parecer à partida uma coisa individualista. O centrar na pessoa - e no que a pessoa deseja e quer para si - pode dar a impressão de que se trata de algo egoísta. Poderia ser. O que eu tenho vindo a aprender é que é mais sobre ter cuidado com os outros. Ter cuidado comigo, com os meus sentimentos sem nunca correr o risco de descurar os sentimentos das pessoas com quem estou... e das pessoas que estão com as pessoas com quem estou... e por aí adiante. Cuidar do outro. Não posso dizer que seja algo que aprendamos na socialização, realmente. Como mulher eu até devia saber o que é isso - a minha função tradicional devia ser cuidar da casa, cuidar do marido, cuidar dos filhos, cuidar dos mais velhos, doentes, acamados... só depois de mim. Mas o cuidar do poliamor - a sua ética de cuidado - tem pouco que ver com esta. Tem que ser um cuidar que parte de mim e do meu encontro comigo. Um cuidar que parte da compreensão dos meus sentimentos e de uma reflexão sobre as minhas acções. Um cuidar que não é subserviente, mas sim, responsável. Responsável por compreender que algo que não tem importância para mim pode ter importância para outro. Responsável por me recordar de que as outras pessoas não têm acesso à minha cabeça, nem aos meus raciocínios, nem ao que eu estou a sentir - e portanto sair da lógica da relação romântica idealizada em que o outro percebe sempre o meu íntimo e conhece todos os meus medos e portanto não necessidade de falar. Há absoluta necessidade de falar. E de saber como falar - com honestidade e sem recriminação. E perceber que mesmo falando e falando (e falando) isso não vai automaticamente resolver tudo. Compreender que há momentos melhores para falar que outros. E que cada um tem o seu tempo e a sua maneira de comunicar. Saber quando dizer: "não sei". Saber reconhecer isso como válido e perceber o que isso pode significar para quem ouve. Esta preocupação com uma honestidade comunicativa e uma ética de cuidar dos outros e das nossas relações não é exclusiva do poliamor, nem da não-monogamia. Só exige níveis distintos de complexidade, que têm mais que ver com as pessoas e não com as formas das relações.

Escrevo isto tão seriamente e logicamente, mas com o coração apertado. Foi mais um daqueles momentos em que não tenho a certeza de ter sabido o que sentia, de ter comunicado o que sentia ou não sentia atempadamente e com cuidado, de não ter cuidado de mim e de quem está comigo como queria. Gostaria que houvesse alguma forma melhor de reduzir a incompreensão - não no sentido de não ser compreensivo, mas no sentido dado muito melhor pela palavra inglesa missunderstanding. Estes missunderstandings podem sempre ser infinitos, como infinitas são as formas de cuidar que temos disponíveis. Neste momento eu gostava de não ter de usar mais palavras e de poder abraçar esse um meu amor. E talvez depois fosse possível continuarmos a cuidar de nós.

Inês

sábado, 21 de abril de 2012

Carta Aberta a Quintino Aires

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Caro Dr. Quintino Aires

Queria agradecer-lhe pelo muito que aprendi recentemente consigo no programa “A Hora do Sexo” da Antena 3. As suas palavras nos dias 7 e 30 de Março tiveram um efeito revelador sobre mim, que transformou radicalmente a minha visão do mundo e de mim mesma.

Finalmente, alguém capaz de me explicar preto-no-branco o que é o amor, e como se distingue de outras relações que não tem nada a ver, como o afecto entre pais e filhos, ou a amizade. Tanta poesia, tantos filmes, tantas canções, tanta gente a gastar dinheiro no psicólogo quando afinal é muito simples: basta verificar se há sexo oral. Afinal, uma mãe não faz sexo oral a um filho (e se faz, temos aqui uma situação crítica que inclusive é crime). Contra factos não há argumentos. Percebo agora a sua convicção de que não é possível amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo – realmente, é tecnicamente complicado fazer sexo oral a duas pessoas em simultâneo, e a três ou mais é talvez impossível. Vou tentar e depois logo lhe digo.

Mas, sabe (e tenho uma certa vergonha em admitir isto), eu continuo a achar que se calhar há outros aspectos do amor para além do sexo oral. Mas as suas palavras fizeram-me perceber que essa minha visão é simplesmente imatura, dado que ainda nao atingi o estado de desenvolvimento intelectual e emocional que me permite reconhecer o amor como uma relação que só pode acontecer entre duas pessoas. Percebi que o amor faz parte da inteligência, mas que com a inteligencia vem necessariamente a monogamia; logo alguém que ama uma pessoa é inteligente mas alguém que ama duas ou três tem o cérebro atrofiado. Da mesma forma que alguém um milhão de euros é rico, mas com dois ou três milhões é pobre.

Mas onde as suas palavras me tocaram realmente foi na forma como me permitiu perceber pela primeira vez a distinção entre a pessoa (o ser humano), e a espécie humana (Homo sapiens sapiens). As diferenças são claras e estão à vista de todos. O ser humano é monogâmico, a espécie é poligâmica. As pessoas fazem sexo, os indivíduos H. s. sapiens abordam-se uns aos outros. Consequentemente, o ser humano só pode ser compreendida recorrendo à Psicologia, enquanto a espécie humana é perfeitamente explicável pela Biologia. Nem queira saber a crise existencial que me causou saber que sou da espécie humana mas não um ser humano, uma pessoa. Mas explica muita coisa e fico-lhe eternamente grata.

Dr. Aires, esta sua visão é revolucionária, um salto quântico na nossa compreensão de nós mesmos. Está a desperdiçar o seu intelecto neste programeca de rádio quando o mundo inteiro precisa de saber estas coisas. Encorajo-o enfaticamente a escreva um artigo para a Nature, a fazer uma TED Talk sobre isto – o Dr. Aires é a nossa grande esperança para o próximo Prémio Nobel Português!

Um grande bem-haja

A.


PS: Transcrevo em baixo os extractos dos programas que mais me inspiraram, porque isto que diz é demasiado importante para não ser difundido.

A Hora do Sexo 07/03/2012

Raquel Bulha: “Vamos falar do poliamor. [...] Poli implica muita gente, gostar de muita gente, amar muita gente?”

Dr. Quintino Aires: “Não, não, não; gostar. Desejar, muita gente, no máximo; agora amar não. Amar é sempre uma relação só entre duas pessoas, dois adultos, o que implica também uma estruturação psicológica que uma criança ou um adolescente não pode, não consegue ainda.”

Raquel Bulha: “Sim, portanto há uma estruturação emocional amadurecida.”

Dr. Quintino Aires: “Exactamente. É só entre duas pessoas, não pode ser com muitas pessoas. Poliamor é uma expressão que dá jeito para quem não atingiu ainda esse estado de desenvolvimento.”

A Hora do Sexo 30/3/2012

Dr. Quintino Aires: “A espécie Homo sapiens sapiens não é monogâmica; a pessoa, o ser humano, é monogâmico. O que é que isto quer dizer: quando nós nascemos com informação genética tal como há 400 mil anos atrás, ou como quando há 100 mil anos antes da linguagem, antes da fala, funcionávamos na selva, na verdade não éramos monogâmicos, e portanto abordávamos-mos uns aos outros, mas também não fazíamos sexo. Quando nós evoluímos e o cérebro humano pode começar a transformar-se, aumentar em 50% pela relação que estabelece com as outras pessoas e pelo uso da linguagem, aumentar em 50% o tecido cerebral que o suporta e que lhe permite responder e tornar-se inteligente, quando se tornou inteligente, [...] aí já é monogâmico.”

[...]

Dr. Quintino Aires: “O amor é uma característica, é uma categoria psicológica, o amor faz parte da inteligência. E portanto [...] sendo uma característica psicológica [...] que portanto tem a ver com a inteligência, não é explicável pela biologia, apenas é explicável pela psicologia. Qual é o erro técnico científico grave que existe neste email, e que se repete muito, pelo menos em Portugal repete-se muito. É dar uma explicação de um fenómeno psicológico com base em leis da biologia. Portanto, se nós olharmos para a espécie Homo sapiens sapiens com os olhos da biologia (uma ciência lindíssima, importantíssima para entendermos a vida) então é verdade que [...] é poligâmico. Agora se olharmos com os olhos da psicologia e se quisermos falar de amor, então só podemos falar de amor ou de sexo dentro da psicologia, aí temos que reconhecer que é monogâmico.

[...]

Carta do ouvinte: “[...] o amor que se tem para dar (ou não), depende de cada individuo, e discordo que uma pessoa não seja capaz de amar 2 ou 3 outras pessoas.”

Dr. Quintino Aires: “Não, amar não. Diga desejar, ter vontade de fazer sexo, isso é outra coisa.”

Carta do ouvinte: “De facto, existem vários tipos de amor, e por certo ninguém vai considerar que uma mãe só consegue amar um filho, certo?”

Dr. Quintino Aires: “Não tem nada a ver, estás a ver o que eu tava-te a dizer Raquel?”

Raquel Bulha: “O amor não é entre mãe e filho.”

Dr. Quintino Aires: “Claro, a mãe não faz sexo oral ao filho.”

Raquel Bulha: “Ó pá, por favor Quintino!”

Dr. Quintino Aires: “Ó Raquel, temos que falar as coisas se não as pessoas não pensam.”

Raquel Bulha: “Sim, claro...”

Dr. Quintino Aires: “Uma mãe faz sexo oral ao filho?”

Raquel Bulha: “Não.”

Dr. Quintino Aires: “E se faz, temos aqui uma situação crítica que inclusive é crime. [...] Temos que ter cuidado com as palavras. A mãe sente afecto pelo filho, dois amigos sentem amizade, duas pessoas que estão apaixonadas e se amam sentem amor, mas então é outra categoria.”