segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Já fui a Macau...
sábado, 27 de agosto de 2011
Eis o homem,

sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Para cuidar de si
Between the pole of the meditatio [...] and the pole of the exercitatio, [...] there is a whole series of other possible practices designed for proving oneself.
[...]
Epictetus insists that one must be in an attitude of constent supervision over the representations that may enter the mind.
[...]
One can see that this control of representations is not aimed at uncovering, beneath appearances, a hidden truth that would be that of the subject itself; rather, it finds in these representations, as they present themselves, the occasion for recalling to mind a certain number of true principles [...] and by means of this reminder one can see if he is able to respond in accordance with such principles.
- Foucault, The Hermeneutic of the Subject
sábado, 20 de agosto de 2011
roads to love... or whatever we seek to be happy
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Vira o disco
Foi há uma semana que, na sequência de uma conversa via Facebook, Manuel Damas (presidente da CASA) decidiu utilizar o seu programa no Porto Canal (cujo tema já antes tinha sido definido como sendo "poliamor", para essa semana) para, à falta de melhor termo, avacalhar. Que é como quem diz: falou-se pouco (e mal) de poliamor, mas falou-se bastante de mim, das Panteras Rosa, bem como de outras pessoas que andam metidas no activismo.
Não vou pôr-me aqui a desmontar os argumentos simplistas do M.D. (quando se ataca alguém pela forma como anda vestido, já se está a raspar o fundo do barril) porque isso seria aborrecido (para vós e para mim). Mas vou aproveitar a questão para fazer um pouco de meta-análise a algumas coisas que por lá se ouviram, e que julgo serem dignas disso.
Primeira questão - tamanho.
A ideia está repetida até à exaustão que xs poliamorosxs são meia dúzia de gatxs pingadxs que por aqui andam, numa coisa que não tem visibilidade nem credibilidade. Mas a realidade permite-se discordar. Está neste momento, nos EUA, a ser discutido o fim do Defense of Marriage Act e, como não podia deixar de ser, o poliamor está a ser mencionado (explicitamente) como um dos grandes perigos caso se cometa o inominável crime de deixar as pessoas do mesmo sexo casarem entre si (alerta de ironia para quem está a dormir) - por virtude de um argumento slippery slope, "se fazemos X, vamos acabar com Y; logo, não podemos fazer X". No Canadá, a coisa está e tem estado nos tribunais, e mobilizado bastante atenção, criando uma espécie de movimento de avalanche de workshops e reconhecimento social. Nada disto é típico de um tema que, supostamente, só diz respeito a meia dúzia de pessoas... Indirectamente, a oposição ao poliamor (e, já agora, a quaisquer outras formas de não-monogamia consensual e responsável, ou a outras sexualidades ainda menos mainstream) é também a oposição ao avanço dos direitos civis em contexto geral - porque se estão a fornecer argumentos e força às pessoas que supostamente queremos evitar.
Segunda questão - identidade.
Foi atirada a ideia de que o poliamor não é uma identidade. Que é apenas um comportamento relacional ("como a violência doméstica" - que exemplo tão isento, não é?). Mas, agora perguntam vocês, afinal o que é uma identidade? Vamos simplificar: uma identidade é uma coisa com a qual nos identificamos. Algo que dizemos que somos. É um conjunto de atitudes, crenças, valores, padrões morais, hábitos - que são socialmente construídos em interacção connosco. Assim, ser do Rio Ave é uma identidade, ser mulher é uma identidade, ser homossexual é uma identidade e, espanto dos espantos, ser poliamorosx é uma identidade. A sério, isto não é ciência de foguetões. E não me venham com a coisa das identidades essenciais que nunca se mudam e já nascem connosco, porque senão eu zango-me e vou fazer queixinhas à Lisa Diamond.
Terceira questão - amor ou virar mesmo o disco.
Amor... Ah, o amor... essa coisa inefável, indefinível, incomportável... [som de disco riscado].
Alto lá com isso. O "amor" é, como tudo o resto, socialmente e culturalmente variável. Não se ama aqui da mesma maneira que se ama ali. É possível até historiografar a forma como amamos (ou amámos?). O amor, e as relações afectivas, são historicamente variáveis, culturalmente variáveis, espacialmente variáveis... acham que se ama da mesma maneira em todo o mundo, que se vivem as famílias da maneira como nós as vivemos, em todo o mundo? Então acham muito mal... O amor, como qualquer palavra, é polissémico. Muda. E, para não estar a repetir o último link, vai continuar a mudar. Se há coisa que me incomoda é aquele pessoal que acha que pode chegar e dizer: "O Amor Verdadeiro (TM) é assim, assim e assado" [tradução: heterossexual, monogâmico e monoamoroso]. Ou então, o pessoal que tira um dos assins ou assados, mas quer deixar o resto. Porque convém. Porque a cabecinha não dá para mais. Porque não vêem a parvoíce de fazer de conta que as coisas mudam mas não mudam... enfim.
Questão agregada
Porque é que o discurso do M.D. é tão significativo que lhe dedico mais um post? Precisamente pela sua falta de originalidade. O discurso do M.D. é importante na medida em que representa uma determinada postura mental, e não um trabalho de reflexão pessoal criativo. O M.D., com a sua postura contra o poliamor, representa a luta pela institucionalização normativa de algumas afectividades e algumas sexualidades, dentro de um quadro de trabalho essencialista, que defende um conjunto restrito de valores ao mesmo tempo que pretende deixar outros elementos (inseparáveis) intocados. Só que não dá para escolher. A vida não funciona assim - se nós questionamos umas coisas e não outras, eventualmente alguém vai dar pela contradição, pela incoerência, e começar a fazer força nesse sentido.
O M.D. afirma-se herói dos fracos e oprimidos, canta a Ode da Ascensão contra os poderes instituídos - mas o M.D. não quer eliminar a lógica dos poderes instituídos, quer ocupar a posição dos poderes instituídos (ou, vá lá, fazer parte do panteão). M.D. quer um lugar na História, e repetirá para isso o mesmo discurso de quem o queria deixar fora da História. Ele próprio afirma a importância da seriedade, da sobriedade. M.D. deseja comandar respeito, admiração.
M.D. esquece-se que a seriedade e a sobriedade vêm da estrutura patriarcal, machista, homofóbica, misógina e hierarquizante. (Ou não se esquece, e apenas não se importa.) M.D. quer dar cabo dessa estrutura - mas só de um bocadinho...
Vou-me armar em Nostradamus: não. serve. de. nada. A sério. Não serve de nada. As coisas mudam. E ou o pessoal faz parte da mudança, ou o pessoal acaba como este fulano. O paradigma está a mudar. A Gayle Rubin (porra, que eu farto-me de a citar!) já dizia que precisamos de uma nova ética sexual, baseada na forma como as pessoas se tratam mutuamente, e não baseada nos actos que praticam. E sabem que mais? Há quem ande aí a lutar por isso. Não importa o número de pagens que se tem à volta, a repetir o mesmo discurso em eco... Porque, carxs leitorxs, eu vou fundir a Emma Goldman e a Beatriz Preciado e dizer que o sistema patriarcal se caga todo quando se lhe apresenta uma revolução à queer, com dança, festa e sem sobriedade nenhuma. Ou então sou eu que me cago para ele.
Porque o sistema patriarcal É o sistema homofóbico É o sistema capitalista É o sistema racial É o sistema falogocêntrico É o sistema monogâmico É o sistema nacionalista É o sistema de género/sexo binarista... e É uma grande cagada.
Agora, inspirado por uma amiga, deixo-vos uma reflexão profunda, que requer, no entanto, algumas mudanças de apelido...
Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.
E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
- "Manifesto Anti-Dantas", José Almada de Negreiros
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Manifesto das duas gajas com um gajo - Parte 1
Marcha dxs Galdérixs – II
2 – os ataques imparáveis, prévios e posteriores, nacionais e internacionais, ao conceito da marcha, ao que ela defende, à sua forma de execução; que vêm não apenas da ala tipicamente patriarcal, mas também, e especialmente, de várias alas de alguns feminismos
Existem vários exemplos de blogs onde se podem ler críticas feministas à SlutWalk (ou a SlutWalks específicas) – um famoso exemplo é este. Um exemplo ao nível de Portugal (ou seja, sem sofisticação, base conceptual ou desenvolvimento de ideias para além do insulto barato) seria este. [Tomem um momento para ler estes ou outros textos, a bem da contextualização.]
Estas críticas tendem a concentrar-se em dois aspectos fundamentais:
Cito do primeiro exemplo:
“This is a word that has been used to hurt, shame, and abuse me. It is a word that has been used to hurt, shame, and abuse women everywhere. In order to silence them, control them, punish them and, of course, blame them. […]This word, as I have mentioned, has been used in a myriad of ways to hurt me. I have been called a slut for having sex, for not having sex, and for being coerced into sex. I have been called a slut by partners, by friends, and by acquaintances. I wish that this word did not hold the power it does. I wish that it had not been used to hurt and abuse me. But it has. There is no erasing that.”
Quanto a isto, em nada posso ou quero discordar. Mas o mesmo pode ou não aplicar-se à palavra “gay”, “fufa”, “queer”? E, no entanto, estas palavras foram repescadas por vários movimentos, em vários países, e são agora consideradas como fonte de empowerment para milhões de pessoas quando, anos antes, ninguém (dentro dos mesmos movimentos) as usava sequer. Ora, se a palavra “slut” não pode seguir o mesmo caminho, então terá que existir alguma característica da palavra que sirva para a distinguir das outras. Vejamos: “gay” é uma palavra violenta, usada para causar dano e excluir grupos de pessoas, com uma longa tradição de uso para fins discriminatórios, e tem como base um padrão normativo de género e sexualidade. A mesma descrição se pode aplicar à palavra “slut”. Também pertencem à mesma categoria gramatical… Ou seja, a diferença, para todos os efeitos, não existe.
Outra citação:
“I may well be, in theory and in life, the ‘ally’ of a self-described ‘slut’. But I am not about to call her one.”
Bem, se a palavra-ferramenta de agressão que está ao serviço da cultura machista e patriarcal não pode ser de forma nenhuma re-significada (e não existe reapropriação sem re-significação), então isso quer dizer que, no caso da palavra “slut”, essa mesma cultura patriarcal tem um poder absoluto e inalienável sobre uma determinada ferramenta de agressão, e nada podemos fazer sobre isso. Podemos tentar silenciar ou banir o uso da palavra, claro, mas isso não iria contra a regra de que só a estrutura social patriarcal teria então o poder de dominar esta palavra.
Dizer que a palavra “slut” (ou outra palavra qualquer, já agora) é inapropriável, é reforçar e essencializar o domínio de uma cultura sobre essa mesma palavra – constitui em si um acto de submissão, ainda que limitado.
Por fim, acho que me cabe dizer que existe mais um motivo pelo qual a palavra “slut” é, de facto, apropriável: porque é uma palavra! As palavras não existem e não operam fora da sua apropriação por alguém – nem têm um ‘escudo Actimel’ que as proteja de outras interpretações, leituras, subversões, ironias, etc.
Passo agora ao ponto b), que trata da objectificação das mulheres quando elas afirmam a sua autonomia sexual, quando saem para a rua vestidas de forma sexy.
Outra citação, daqui:
“In the post 9/11 climate, the focus on a particular version of sex(y)-positive feminism runs the risk of further marginalizing Muslim women’s movements who are hugely impacted by the racist ‘reasonable accommodation’ debate and state policies against the niqab. […]I find that the term disproportionately impacts women of colour and poor women in order to reinforce their status as inherently dirty and second-class, and hence more rape-able.”
“Sluwalk does, in many ways, resemble the same kind of privileged, individualist, ‘anything goes so long as it’s my choice‘ feminism which argues that prostitution is simply a choice like any other (or ‘work’ like any other kind of work), that objectification can be empowering as long as we are choosing to objectify ourselves […]”
Mais: a possibilidade de as mulheres escolherem torna-se, aqui, um possível problema que tem que ser resolvido – ao que parece, é o corpo teórico do feminismo que tem que ditar às mulheres o que elas podem ou não podem fazer com os seus corpos.
Isto é também visível no exemplo português que dei acima. A figura da miúda transmontana é tratada como se o sistema que a oprime especificamente fosse, de alguma forma, separado ou alheio às questões debatidas e feitas relevar na SlutWalk. É também um texto que, contra si, reinstaura o insulto como insulto (“Galdéria é a tua tia, pá”) e articula-o de forma machista e que, ao dizer que o Manifesto da SlutWalk Lisboa não explicita o “não” da galdéria, falha a realização de que a galdéria é toda aquela pessoa que está em todas aquelas situações descritas no manifesto (e em muitas outras). Porque a galderice, como insulto, não surge das práticas, mas dos investimentos dados, cognitivamente, às práticas!
Outra questão: é aqui usada a palavra “objectificar” várias vezes, e de a SlutWalk representar uma forma de objectificação das mulheres pelas mulheres. No meu entendimento da “objectificação”, o sujeito não se pode objectificar (embora possa dar-se à objectificação, embora possa exteriorizar-se e, a partir desse ponto, objectificar-se) e, ao mesmo tempo, manter a sua vontade. Objectificação tem que ver com perda de vontade. Porém, a SlutWalk é a afirmação inequívoca da vontade, a afirmação inequívoca de que, independentemente dos comportamentos (que, percepcionados patriarcalmente, transformam qualquer mulher em “slut”, ou ameaçam fazê-lo), “NÃO É NÃO”.
Os corpos das pessoas que foram desfilar para a SlutWalk serviram para demonstrar aquilo a que o agressor NÃO tem direito. Aquilo que, ainda que veja (e vê apenas porque o deixaram ver) não está legitimado em fazer o que quer que seja. A objectificação é o oposto deste processo. As “sluts” desfilaram em vários estados de nudez (desde o estado quase-nu até ao estado está-calor-com-tanta-roupa) e com indumentárias também não-ocidentais. Porque todas estão em risco de ser consideradas “sluts”.
“Entonces me di cuenta que no hay nada que moleste más a hombres y mujeres machistas que una mujer presumiendo, y enorgulleciéndose, de lo puta que es. Sencillamente les jode. Y POR ALGO SERÁ.”
- Manifiesto Puta, Beatriz Espejo