sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Finalmente mais leve

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Tenho andado um bocado calado, é verdade, mas é porque às vezes é preciso pausa e descanso. Entreguei na semana passada a minha tese de Mestrado - tanto quanto sei, a primeira em Portugal sobre poliamor - intitulada "Amando vári@s - Individualização, redes, ética e poliamor".




Depois disso, precisei de uma pausa para descansar, para fazer nada. (Não que a vida profissional permita isso, mas pronto, passei uns três dias a olhar literalmente para as paredes, a dormir - coisa rara nos últimos tempos - e a divertir-me um pouco.)

Olho para trás e reparo que passei dois anos a trabalhar e a reflectir sobre poliamor e que, ainda assim, mal raspei a superfície (resmungo pessoal: uma tese com 60 páginas não permite explorar nada com a devida profundidade). E apesar de o meu tema de doutoramento me levar para longe do poliamor, a verdade é que quero recuperá-lo noutra altura, noutro ponto da minha vida académica, para sobre ele pensar mais aprofundadamente.

Eu sou um cientista social. Isso não quer dizer, porém, que eu seja daquelas pessoas que se vê a si mesma como estando sentada no topo de um observatório impenetrável, através do qual penetra e perfura a realidade para obter uma episteme, uma Verdade. E portanto, aquilo que eu retiro de mais valioso do trabalho que levei a cabo foi a forma como esta investigação me mudou a mim. A forma como este trabalho me permitiu lidar comigo mesmo de uma maneira diferente, aperceber-me mais claramente dos processos dentro dos quais eu me movo; não necessariamente para fugir deles, mas para estar neles com atenção e cuidado, com discernimento.

A ideia central da tese é o conceito foucauldiano de cuidado de si. Cuidarmos de nós mesmos é, não um acto de egoísmo, mas um acto plenamente ético, plenamente justificado e que contribui para uma vida mais positiva para o sujeito. Digo que não é um acto de egoísmo porque não conseguimos cuidar de nós sem termos, connosco, um Outro. Não conseguimos cuidar de nós se não cuidarmos, também, de manter e alimentar as nossas relações com o Outro que nos define, que nos permite definirmo-nos. Na prática, isso implica coisas como estas. Porém, e tendo em conta que venho da área das Ciências da Comunicação, estou relativamente menos interessado no conjunto das práticas, e mais interessado em entender porquê estas e não outras, e de que foram é que elas agem sobre o indivíduo e o constituem como sujeito, com identidade(s) e ética(s), com valores e princípios a seguir.

Ser poliamoroso não é um estado natural. Ser poliamoroso não é um comportamento tipificado. Ser poliamoroso não é simplesmente ser não-monogâmico de forma responsável. Ser poliamoroso é corresponder a uma identidade, é adaptarmo-nos de forma a obtermos reconhecimento. As razões pelas quais necessitamos desse reconhecimento, pelas quais inventamos palavras para em torno delas nos aglutinarmos e a forma como isso nos afecta, à nossa ideia de nós mesmos e à ideia que os outros têm de nós: isso fascina-me, e é na sociologia e na filosofia que procuro encontrar combustível para alimentar estas reflexões.

Quando a tese estiver para ser defendida, procurarei partilhar esta paixão convosco.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Não preciso que precises de mim

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Até à semana passada, se me pedissem para dar uma opinião sobre qual seria a melhor canção sobre o desejo, o querer, eu não hesitaria em referir «O Quereres» do Caetano Veloso. A letra é tão rica e tão poderosa que parece Chico Buarque. Deixo apenas duas linhas como exemplo:
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és ¹
Pois bem, conheci agora um músico que já edita há quase 30 anos mas de quem, na minha reconhecida incultura pop, nunca tinha ouvido falar: Momus. Não me tenho cansado de ouvir as mais diversas faixas dos mais de 20 álbuns deste fantástico contador de histórias. Normalmente não dou atenção suficiente à letra das músicas, porque me foco demasiado na música. Com o Momus, isso é quase impossível. Deixo aqui «I Want You But I Don't Need You», do álbum Ping Pong (de 1997), uma lição exemplar a propósito da confusão, facílima de se fazer, entre amar alguém e precisar dessa pessoa. (A letra está aqui.)

___________________
^ (¹) Letra completa, e também um vídeo (maravilhoso, Chico e Caetano ao vivo) aqui.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

já chegou à moderação e ao coaching...

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Viver há tanto tempo fora de Portugal e ter recusado consciente e convictamente deixar de ler jornais portugueses quando o Público decidiu cortar nas despesas e nos revisores (e passar a ter erros piores que os disléxicos erros meus, má fortuna e amores ardentes), ou seja, há bastante tempo, torna-me uma pessoa alienada do que é que se passa. Gosto de acreditar que os contactos que tenho me vão passando não só uma ideia do zeitgeist, mas também um pouco do dia-a-dia em Portugal.

Isto tudo para dizer, que tanto quanto sei, corrijam-me se estiver errada, ainda não chegou a Portugal a onda do acompanhamento psicológico para indivíduos ou casais, o coaching, o aconselhamento. Ou pelo menos ainda não chegou às vidas das pessoas com quem falo e escrevo regularmente. Estes serviços geralmente oferecem várias coisas, desde gestão e moderação de conflitos, passando por treino de soft-skills e coaching, quer para decisões que afectem carreira ou vida privada, até acompanhamento na procura de visões ou objectivos de longo prazo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poliamor espiritual *

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Lembrei-me deste filme há uns dias, quando andava a tentar decidir se ia a um evento poly em Inglaterra. Decidi que não. A principal razão foi económica, mas houve outras condicionantes. Para além de actividades auto-organizadas, o evento contará com a intervenção de duas personalidades: Deborah Anapol, autora de um dos mais famosos livros sobre poliamor, e um senhor que não conheço, mas cujo currículo repete as palavras sagrado, magia e tantra. Temas sobre os quais a primeira convidada também já escreveu e falou bastante.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

As cascas de banana do poliamor

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Falemos do que não vem nos livros de História, nem nos tratados de Antropologia ou Sociologia.

Tive um fim-de-semana doce e surpreendente, porque sim, conheci alguém e basicamente entrámos em reclusão voluntária, confidências erráticas e compulsivas, além do habitual esquecimento do que sejam horários, fome ou sono.

No meio de toda esta verborreia falámos de tudo o que não vem nos livros de História. Por exemplo, contei-lhe que o que eu me lembro do 25 de Abril são murais pintados, são soldados barbudos a gingar por Lisboa em fardas muito amarrotadas, e uma despensa a abarrotar de conservas (pelos vistos muita gente resolveu açambarcar o supermercado). Ela contou-me que o que se lembra dos dias após a queda do muro de Berlim são cascas de banana. Sim, cascas de banana. Pelos vistos havia uma procura enorme por bananas por pessoas que vinham de todos os Ostländer de comboio a Berlim de propósito comprar bananas (E tampões também, pelos vistos). E que os comerciantes obviamente exploraram isso, e que a situação atingiu extremos de haver contentores de lixo a abarrotar só de cascas de banana.

sábado, 25 de setembro de 2010

Tema de poliamor: Medo (2nd round)

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Primeiro dá um nome ao teu medo. Não comeces nada sem isto feito. Dá o nome, não leias mais nada.

Era uma vez uma jovem de longos cabelos que foi servir a deusa da sabedoria e da estratégia. Dentro do templo, a sua virgindade profanada pelo deus marítimo valeu-lhe devastadora perdição até hoje conhecida. Não se sabe ao certo os moldes desta sedução (voluntária ou não, que nos mitos gregos quase sempre é forçada). Medusa, "a guardiã", é esta rapariga: de longa cabeleira, tanto quanto se sabe "bela", sucumbindo de alguma forma ao deus emocional das tempestades marítimas. Então, a virgem que é guardada e protegida e que se chama Athena transformou a má guardiã neste monstro horrendo de longas víboras encerrando-lhe o rosto, tornando-se a beleza inicial numa fealdade tal, que todos quantos a olhavam se volviam em pedra. Como se sabe, Medusa acabou por ter a sua cabeça cortada pelo jovem Teseu, o qual usou para a vitória o escudo de Athena (a razão), as sandálias de Hermes (a leveza) e o elmo de Hades (a invisibilidade).

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Best of...

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Para informação geral, e para recordar o que já por aqui foi escrito, gostava de homenagear xs colegas de blog. E, para isso, recolhi os posts que foram mais acedidos individualmente, aqui no PolyPortugal! Para quem chegou recentemente, vai poder tomar contacto com alguns dos escritos mais famosos que aqui passaram... quem já conhece, vai poder reencontrar textos interessantes, emocionais, pessoais... e plurais. :)
Dados recolhidos pelo Google Analytics, entre 24 Agosto 2009 - 9 de Maio de 2010 e 14 de Julho de 2010 a 17 de Setembro de 2010. Sim, tivemos um pequeno soluço que passou despercebido quando trocámos de layout.