terça-feira, 9 de março de 2010

A Igreja, o sexo e o riso

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Um dos tiros mais certeiros do discurso de Stephen Fry contra a Igreja Católica e em especial contra o actual Papa é o seguinte excerto:
[A Igreja Católica] vive obcecada com sexo, absolutamente obcecada. Dizem que quem está obcecado somos nós, com a nossa sociedade permissiva e as nossas piadas porcas. Mas não! Nós temos uma atitude saudável em relação ao sexo, gostamos, é divertido, é alegre. Sim, por ser um impulso primário, pode ser perigoso, negro, difícil. Nesse aspecto, é um pouco como a comida, só que ainda mais excitante. As únicas pessoas que vivem obcecadas com comida são as que sofrem de anorexia ou de obesidade mórbida. Em termos eróticos, isto é, em poucas palavras, a Igreja Católica. ¹
A fantástica personagem Jorge de Burgos, um monge católico n’O nome da rosa, esconde e faz desaparecer o livro de Aristóteles sobre comédia, por considerar que o riso é diabólico e, mais do que isso, é a maior das heresias. ²

Apesar dos esforços da Igreja, o medo do riso não se manteve tanto como o horror ao sexo. Por isso, é de certo modo saudável que, no quase inesgotável universo das piadas e anedotas sobre sexo, uma substancial percentagem recaia sobre quem o não tem. ³

”The
Do divertidíssimo livro The Naked Jape, do comediante britânico Jimmy Carr (o único livro que conheço sobre comédia que realmente tem graça e se lê com agrado), aqui vão algumas pérolas:

I’m dating a homeless woman. It was easier talking her into staying over.

I don’t have a girlfriend. But I do know a woman who’d be mad at me for saying that.

I’m single by choice. Not my choice.

My sister was with two men in one night. She could hardly walk after that. Can you imagine? Two dinners!

So I kissed Lucy, and I was very surprised to feel her tongue pop out. It was my first real snog, and I loved it. You can imagine that I fell in love instantly. Sadly the next year Lucy developed distemper and had to be put down.

I’m a great lover, I’ll bet.

I’ve had more women than most people have noses.

Anedota australiana:
‘Wanna fuck?’
‘Looks like you talked me into it, you sweet-talking bastard’

Anedota espanhola:
‘Hola, buenos días.’
‘Pasa, pasa, que tienes una labia!...’

O que me importa reforçar aqui é que faz falta regressar a um modo de sentir com menos traças na cabeça e menos peso do Vaticano aos ombros, para que possa haver mais «abundância sexual» e mais naturalidade em relação ao sexo. Como diz o Steve Martin,

Sex is one the most wholesome, beautiful and natural things that money can buy.


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^ (¹) O vídeo do discurso (em duas partes) está no meu último post. O excerto que aqui traduzo está na segunda parte, ao minuto 5’48”.
^ (²) No Segundo Dia, Hora Terça, diz «O riso sacode o corpo, deforma as linhas do rosto, torna o homem semelhante ao macaco.» — ao que Guilherme de Baskerville responde: “Os macacos não riem”... (No filme, a frase é ainda melhor: «O riso é um vento demoníaco que deforma os traços da face e faz o homem parecer um macaco.»
^ (³) Poderão ser piadas e anedotas politicamente incorrectas, se atacarem as respeitabilíssimas pessoas assexuais, mas, quanto a mim, uma piada não perde humor só pelo facto de ser incorrecta; muitas vezes, pelo contrário.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Páginas Amarelas, mas às riscas: Profissionais poly

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Existe um portal que tenta listar profissionais poly ou pelo menos poly aware.
As pessoas na lista apresentaram-se ou foram recomendadas como sendo poly-friendly ou pelo menos poly-aware.

Há domínios em que é óbvio que faz toda a diferença do mundo ter um profissional a quem possamos falar da nossa vida e aspirações privadas: médicos, psicólogos, conselheiros, etc. Mas mesmo nos domínios onde isso talvez não seja muito importante (carpinteiro, canalizador..) para a tarefa em si, talvez seja de considerar apoiar a nossa pequena comunidade.

Que tal criar uma listagem para Portugal? aconselho fortemente o tentar fazê-lo. Dá nos visibilidade, e até mesmo alguma respeitabilidade como grupo. Preencham alegre e abundantemente!!!

http://www.polychromatic.com/pfp/main.php

quinta-feira, 4 de março de 2010

Qual é o problema?

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História deliciosa ouvida na sala de professores. Um colega meu, que dá aulas de Expressão Plástica ao 1º Ciclo, contraria um puto de sete anos. A reacção é de birra, berros, e enquanto esperneia, o miúdo solta “O professor é gay!” Sustenho a respiração por um segundo, tal como provavelmente o fizeram todos os que assitiram à cena. Mas a resposta do meu colega é rápida e certeira: “Qual é o problema?? Queres ofender-me? Isso não é ofensa! Tens de arranjar uma ofensa!

Imagino o desconcerto e frustação do miúdo. E apercebo-me que, realmente, grande parte da discriminação está do lado do discriminado. Que é preciso assumir a ofensa para que ela tenha efeito.

O mesmo colega perguntou-me, numa conversa casual, se tinha namorado. Respondi “Tenho vários” e a conversa continuou sem sobressaltos. Cada vez menos os meus ‘coming out’s são seguidos de exaustivas palestras sobre poliamor, em que tento justificar as minhas opções. Falar frontalmente e sem receios próprios retira ao ouvinte a legitimidade para fazer julgamentos. Ou dá-lhe a esperança de ver que outros caminhos são possíveis.

terça-feira, 2 de março de 2010

Se eu fosse um grão de milho

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Chego a casa estourado de um trabalho que consiste em ter ideias e escrever, e tenho à minha frente o computador a dizer-me que preciso de ter ideias e escrever aqui no PolyPortugal. Sugerem-me que faça uma composição que comece por "Se eu fosse um grão de milho". E porque não? Não tenho dúvida de que não é pior do que nenhuma das ideias que tive no caminho para casa. Por isso, aqui vai:

Se eu fosse um grão de milho, seria um fruto, fiquei a saber após leitura desta doutíssima fonte e das referências que lá vêm:
The sex life of corn
Conclusão: a expressão «ser bom (ou boa) como o milho» até é capaz de fazer sentido. Se mesmo nisto se pode encontrar uma lógica, o mundo certamente está perdido — é o mínimo que se pode concluir.

A verdade é que sou insaciável na minha sede de conhecimento de curiosidades sem utilidade aparente, e por isso li de facto o artigo. E fiquei a saber que uma planta de milho tem gâmetas (células sexuais) masculinos e femininos, que realmente é uma coisa invejável. Mas depois não me parece que haja grande diversão por ali. A bandeira ou pendão do milho (são umas inflorescências macho na ponta da espiga), uma vez por ano, liberta pólen, que são os elementos reprodutores masculinos, ou seja, o equivalente ao esperma nos mamíferos, acho eu. O pólen é levado pelo vento para as barbas (que, apesar do nome, são os elementos reprodutores femininos) e pronto: nasce um lindo grão de milho.

«Bom como o milho»? Mas que raio de vida sexual é esta? Se eu fosse um grão de milho, seria muito infeliz com certeza. Antes padre católico: ao menos poderia ter uma vida sexual activa e até com bastante diversidade (e teria sempre a instituição a proteger-me…)¹

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(¹) Talvez não seja demais deixar claro que esta última frase é escrita com uma especial ironia. Embora a parte que começa na palavra «poderia» seja totalmente verdade, o desejo implícito de querer essa verdade para mim é, esse sim, uma ironia. A este propósito, não podia concordar mais com o brilhante Stephen Fry e o seu discurso no Intelligence Squared contra a moção "The Catholic Church is a force for good in the world" (vale mesmo a pena ver as duas partes na totalidade):

segunda-feira, 1 de março de 2010

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O bloqueio de escrita continua por aqui, e ando outra vez com pouca vontade de falar de histórias pessoais. Mas felizmente a minha network de polyinteressadxs insiste em enviar-me toda uma série de recursos e links de coisas que eu posso achar interessante e alguns deles eu posso partilhar aqui. E é isso mesmo que eu vou fazer.

O poliamor chegou até ao insuspeito, mais ou menos imparcial, esporadicamente interessante mas lento Canal Arte. Recentemente fizeram uma série sobre "os amores dos europeus" e dedicaram especial atenção ao poliamor. Infelizmente para a maior parte de nós, lusofalantes, a versao francesa é um resumo e uma sombra da versão alemã da emissão. Ambas emissões contêm uma reportagem sobre uma família poly em Barcelona.

Deixo-vos aqui os links para as duas emissões.

Começando pela emissão francesa, que foi apenas um programa:

- À quoi ressemblent les amours des Européens modernes ?
Les sentiments des Espagnols polyamoureux sont si débordants qu'ils suffisent aisément à combler plusieurs partenaires (Aqui http://www.arte.tv/fr/recherche/3075936.html).

A emissão alemã, como já referido, bastante mais completa, dividiu-se na reportagem principal sobre "os amores dos europeus" (Aqui: http://php5.arte.tv/yourope/blog/category/verliebt-in-europa/) e uma peça/depoimento da jornalista Agnes Veenemans acerca do direito de se viver em poliamor (Aqui: http://php5.arte.tv/yourope/blog/2010/02/08/netzwerkreporterin-polyamorie/).

Obrigada por lerem.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Poly Portugal no Allove Festival

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A convite da simpática organização, o Poly Portugal vai ter um stand no Allove Festival. Associamo-nos a este evento no empenho pela promoção da liberdade e da diversidade sexual. Consideramos que esta presença abrirá novas portas e proporcionará novos contactos. Mais pormenores em breve.

"O Allove é um festival que se irá realizar nos dias 14 e 15 de Maio de 2010 em Lagoa, no Algarve, no recinto da Fatasul. Um dos nossos principais objectivos é fazer com que as pessoas encham os seus corações de "love", daí o nome Allove Festival. Libertem-se de preconceitos e preparem-se para participar no maior evento LGBT e heterofriendly de Portugal.
O festival não se prende com qualquer tipo de reivindicação, mas sim com uma celebração e homenagem à comunidade LGBT, de forma a mostrar o quão divertida esta é. O tema central do festival é, então, a
diversidade sexual e a celebração da Primavera, através de uma explosão de cores. Tal como a Primavera está relacionada com o pioneirismo, isto é, o começo de algo novo, também o Allove Festival se afirma como pioneiro, constituindo o primeiro festival LGBT e heterofriendly de Portugal.
Num espaço fantástico cheio de diversões, moda, música, espectáculos, bares, restaurantes e outros atractivos, o Allove Festival afirmará os valores culturais e intelectuais da comunidade LGBT através de espaços dedicados às artes, como a fotografia, pintura, literatura e cinema, num contributo de excelência para a sociedade."

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O medo do singular

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Esta semana estreou-se em Portugal o filme Um homem singular ¹. Um dos momentos mais conseguidos do filme é a aula sobre o medo, que não tem correspondente no livro que deu origem ao filme, de resto.

Transcrevo aqui uma parte desse excelente discurso do protagonista:

GEORGE
There are all sorts of minorities, blondes for example… But a minority is only thought of as one when it constitutes some kind of threat to the majority. A real threat or an imagined one. And therein lies the FEAR. And, if the minority is somehow invisible... the fear is even greater. And this FEAR is the reason the minority is persecuted.
E continua assim (o actor é o britânico Colin Firth e foi nomeado para um Oscar por este filme):


Ontem almocei com uma pessoa que já não via há muito. Trocámos histórias, entre elas a de que estou numa relação poly e também a viver numa família intencional. Lá tive de lhe explicar o que é o poliamor e responder às perguntas habituais. E, como de costume, aliás, a reacção não foi negativa: não senti que o poliamor inspirasse nenhum medo. Além disso, a resposta desta minha amiga à minha conversa sobre poly incluiu qualquer coisa como «andei eu a vida toda confusa com os meus relacionamentos e os meus desejos quando afinal, se eu soubesse que havia pessoas a pensar assim, talvez me sentisse identificada e conseguisse ter paz comigo própria.»

Não foi a primeira vez que ouvi este tipo de resposta. Conheço razoavelmente esta pessoa, o suficiente para me parecer também que realmente ouvir falar de poliamor lhe teria feito bem.

O medo que ela tinha, afinal, era medo dela própria. E estou convencido que haverá muito boa gente por esse país fora que só não é poliamorosa na prática porque nem sequer sabe que há mais pessoas assim.

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(¹) A Single Man, do estilista e agora realizador Tom Ford, com argumento do também estreante David Scearce sobre o livro homónimo de Christopher Isherwood (traduzido por Maria Filomena Duarte para a Labirinto com o título Um homem no singular). O filme está em exibição em cinco salas da Grande Lisboa e duas do Porto.