quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Multicare

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Já aqui muito se falou de tempo. E das dores de cabeça que é gerir várias relações e a dedicação a cada uma delas. Mas hoje dei por mim a pensar no contrário. Que ser poly me dá mais tempo para mim e me permite dar com tranquilidade mais tempo aos outros.
Se souber que os meus amores têm outras pessoas para cuidar deles, não sinto a pressão de ser tudo para alguém, em todos os momentos. E por ter eu própria várias pessoas, não sobrecarrego cada uma delas com todas as minhas necessidades.
Há pouco tempo comecei uma relação com uma pessoa, que poucos dias depois se viu atolado de trabalho e complicações. E a intensidade, a urgência, a ânsia de estarmos juntos, deu rapidamente lugar a momentos mais espaçados e mais fugazes. Felizmente tenho a sorte de o ver quase todos os dias, e isso chega-me.
Uma mensagem hoje prometia-me que em breve tudo voltará ao normal, mas não sei o que isso é, nem me preocupa. Não me sinto negligenciada porque não dependo de uma única pessoa para me dar felicidade e estabilidade emocional. Sinto-me rodeada de amor, em todas as suas formas de expressão.
Apesar das possíveis complicações logísticas, no geral o poliamor dá-me este fundo de segurança e de tranquilidade em relação ao futuro. E é isto que me parece “normal”. Este dar e receber sem pressões, sem angústias e sem obrigações.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

«Quelq'un m'a dit»

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Em geral, as pessoas precisam de saber que lugar(es) ocupam no mapa dos afectos daqueles de quem gostam. Precisamos, quase todos, de perceber em que página do catálogo estão os sentimentos que os outros nutrem por nós.

Ele tem um desejo animal por mim mas sem sexo até nem gosta muito de estar comigo? Ela quer a minha companhia de vez em quando para conversar sobre tudo e mais um par de botas? Ele quer viver comigo e partilhar cama e mesa?

Ou, de forma mais elementar, embora mais perigosa se não se tiver consciência de que as definições pessoais dos termos amorosos variam quase tanto como os traços fisionómicos:
Ele ama-me? Ela é minha namorada? Somos fuck buddies?

Algumas palavras, no entanto, têm um peso tão grande na nossa cultura que, seja qual for o significant other que no-las diz, ficamos instantaneamente com a certeza de que a coisa é profunda. Expressões como «Amo-te», ou mesmo «acho que te amo», têm este poder.

Aqui vai um vídeo que me foi enviado esta semana, num dia muito especial, por uma pessoa que adoro. Obrigado! A ambas!


On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose, | Elles passent en un instant comme fanent les roses. | On me dit que le temps qui glisse est un salaud, | Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux. || Pourtant quelqu'un m'a dit… | Que tu m'aimais encore, | C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore. | Serait-ce possible alors ? || On me dit que le destin se moque bien de nous, | Qu'il ne nous donne rien, et qu'il nous promet tout. | Parait que le bonheur est à portée de main, | Alors on tend la main et on se retrouve fou. || Pourtant quelqu'un m'a dit… || Mais qui est-ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais ? | Je ne me souviens plus, c'était tard dans la nuit. | J'entends encore la voix, mais je ne vois plus les traits, | "Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que je vous l'ai dit." || Tu vois, quelqu'un m'a dit… || On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose… || Pourtant quelqu'un m'a dit…

A canção Quelq'un m'a dit é da autoria de Carla Bruni (a sua primeira intérprete) e Leos Carax. O vídeo deste post é do espectáculo de 2006 Le village des Enfoirés, do colectivo Les Enfoirés. Cantam, da esquerda para a direita, Zazie, Marc Lavoine, Patrick Bruel e Raphaël. Na guitarra, Francis Cabrel.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

S. Valentim, esse chato…

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Para quem está com os tomates, ovários, meninges, e outros órgãos bem sensíveis apertados por causa do São Valentim e até tem várias relações a gerir.

Dia dos namorados… e das namoradas… e dos amigos de cama… e dos amigos coloridos… únicos ou vários ou simplesmente inexistentes e/ou desejados..

… Poderia ser um pesadelo logístico, para poliamorosos que o sejam também na prática..

A primeira pergunta a fazer, é porque é que vocês se querem meter numa seca dessas… pensem lá…

(hmmmm… hmmm… hmmm…)

ok, vocês querem mesmo meter-se nessa seca. E não sabem quem é que vão convidar para jantar, ou para almoçar ou para dormir nessa noite. É isso? Ok, não posso resolver esse problema por vocês, porque me recuso a celebrar isso e a meter-me nessa alhada. Mas a título de apoio moral e solidariedade, este senhor também está pelos cabelos com o São Valentim.

Mas olhem! A nossa grande santa galdéria de serviço, Dossie Easton, de vestido vermelho e gert na mão, responde-vos a à pergunta: Como celebrar o São Valentim enquanto poly.

Depois contem como foi.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

PUG?

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Vi hoje uma página de um webcomic que costumo ler (Questionable Content), que me fez lembrar da expressão LUG - Lesbian Until Graduation. Só que, neste caso, seria mais Poly Until Graduation, ou assim.

A personagem Tai queixa-se de não conseguir encontrar ninguém que esteja "virado para a monogamia" ou com quem queira "ser exclusiva". Tai tem um problema: identifica-se como poly, mas é uma coisa que não quer fazer "a vida toda".

Vai na volta, o problema dela é precisamente procurar uma identificação pública que, depois, não corresponde ao seu plano privado de vida. O que vale para qualquer coisa. Todos nós podemos experimentar, e todos nós podemos - devemos! - mudar de opiniões e comportamentos ao longo da vida. Mas devemos procurar, também, ser coerentes entre o que fazemos e dizemos, entre o que dizemos fazer e imaginamos. E aí, tanto um mono entre polys pode ter problemas, como um poly entre monos.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Taras perdidas

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Acontece-me muitas vezes gostar de pessoas. É das poucas certezas que tenho. Que qualquer que seja a actividade que me ocupe os dias, tem de ter a ver com pessoas. Várias, variadas e muitas. Com diferentes backgrounds, abordagens e opiniões.
Quando conheço uma pessoa interessa-me perceber como pensa e como sente. E quando me envolvo sexualmente, interessa-me (muito) saber que taras tem. O que é que realmente toca cada pessoa, o que a faz suspirar, arrepiar-se, ficar tensa ou descontraída. Em que é que pensa no segundo antes de se vir, ou quando se masturba, ou se cruza com alguém atraente. E que tipo de pessoas acha atraente.
Este é um dos maiores gozos de começar uma nova relação. Todo este manancial de novas associações, imagens, fantasias e loucuras que vai na cabeça de cada um e que muitas vezes achamos que são exclusivos nossos. Tudo isto me parece digno de ser explorado e desenvolvido. Ampliado pela experiência e troca de ideias.
Ao longo das minhas relações, tenho encontrado pessoas habituadas a estas trocas. Que hesitam a princípio, mas que rapidamente desatam a trocar galhardetes assim que se lhes abre uma nesga de oportunidade. E às vezes os nossos interesses são radicalmente opostos. O que nos entusiasma é diametralmente oposto e possivelmente incompatível. Mas vale pelo momento e pelo conhecimento.
O que me frustra ou pelo menos desinteressa, são as pessoas que afirmam não ter taras. E sei bem do que falo porque já fui uma delas. Quando aos 18 anos conheci um dos gajos mais deliciosamente tarados com que a vida me presenteou, também eu me dizia “destarada”. Mas ele lá me foi falando das suas ideias e aos poucos fui identificando padrões, tirando do baú coisas que lá estavam desde tenra infância, que me interessavam desde sempre e continuam a interessar. E com base nisso fui formulando novos interesses, querendo experimentar coisas novas, e aumentando a minha tolerância aos interesses dos outros.
O que me parece essencial neste processo, é esta comunicação que nem todos se sentem preparados ou com possibilidade de ter com o outro. Uma tara não partilhada é uma tara perdida, e isso é realmente uma pena.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mal amado, mal amando

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Esta semana fiquei sem bateria. O mecânico vem cá amanhã para levar o carro. Já estou a fazer contas à vida.

E outras contas agora. À minha vida amorosa. Algumas etapas:

1980
às escondidas porque não era suposto
1982
às escondidas porque ele era casado
1985
pediu namoro a outro; eu não soube dizer que não tinha de ser uma disjunção exclusiva
1988
afinal havia outro
1991
não conseguiu resistir à droga; nem a mentir-me acerca disso
1998
casada e ele não sabia de nós
2000
não resistiu a saber de mim e da outra
2002
casada também; por fim acabou com um terceiro, e garantindo-me que estava sozinha
2005
casou depois, e não quer que ninguém saiba de nós
2007
jurei-lhe exclusividade, a muito custo; acabou por andar com outro às escondidas

Isto faz mossa, deforma uma personalidade, desgasta a máquina. Esta semana, fiquei sem bateria. Quero pedir ao mecânico para me levar também o coração.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Trios: Hemingway

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Continuemos, que a inspiração não dá para mais, a série sobre trios, reais, imaginários, literários, ou tudo junto. Hoje deixo vos com Hemingway e o seu "Garden of Eden". Segundo consta é uma história que o próprio Hemingway suprimiu em vida, e que nunca chegou a acabar até à sua morte. Passa-se na Cote d'Azur nos anos 20, e conta a história de, imaginem, um escritor, a sua mulher, e os jogos entre eles enquanto partilham uma mulher mais nova. Dizem por aí os especialistas que é autobiográfico... foi reeditado recentemente.


domingo, 31 de janeiro de 2010

Citações (3)…

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«No meu entender, depois da abstinência,
a monogamia é a perversão sexual
mais abjecta que eu conheço.»

Ricardo de Araújo Pereira,
no programa da TSF Governo Sombra
da última sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010, ao minuto 35'00

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ainda a FHM...

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Sei que já fizemos alguns posts sobre a reportagem da FHM dirigida ao tema do Poliamor, mas a UMAR convidou-me a comentar o artigo, pelo que vos deixo o link:

Reinterpretações masculinizantes

Agradeço à Carla Cerqueira o convite para escrever o post.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Meu, só meu, meu até ao fim

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Esta semana peguei num livro que aqui andava por mesas alheias. Comecei a ler o artigo sobre poliamor que abre logo desta maneira brilhante (sempre tive um fascínio por inícios que agarram o leitor):

«Tinha dezassete anos quando a minha educação sexual começou. “És responsável pelo teu próprio orgasmo”, disse-me o meu namorado. Ele foi o tipo com quem perdi a virgindade, com quem tive o meu primeiro orgasmo, e cujas palavras viriam um dia a ser o meu mantra: Sou responsável pelo meu próprio orgasmo. Acredito nisso literal e figurativamente. Na cama, assumo um papel activo em obter o que quero. Mas também me encarrego de conseguir o que quero ao longo da minha vida sexual. É por isso que, para além de um marido que amo, tenho outros amantes.»
Texto 1. “And Then We Were Poly” – Jenny Block

Estas palavras remeteram-me imediatamente para uma cena do filme Shortbus (das coisas mais bonitas e envolventes a que alguma vez assisti). Sofia, uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo, fala sobre a sua própria situação ao marido, usando uma história sobre um suposto casal da clínica. E quando o marido lhe diz qualquer coisa sobre o outro não conseguir dar um orgasmo à mulher, Sofia corrige-o dizendo que não é ele que não dá, é ela que não o consegue ter. Que é ela que o tem de reclamar para si própria. Encontrar uma maneira de ter o seu próprio orgasmo, e não esperar que alguém lho dê, facilite ou arranje.


Tal como Jenny Block, considero que estas palavras têm um grande poder, literal e simbólico. Ser poly também passa por ouvir os outros dizer “Mas essa tua postura não é nada comum, blá, e a sociedade blá blá blá” e responder “E então?” O que tem a sociedade a ver com aquilo que quero para mim própria, e ao qual tenho direito, desde que não prejudique ninguém pelo caminho? Porquê esperar sentada e a queixar-me em vez de procurar activamente aquilo que me faz feliz?

Tudo isto vem também a propósito de esta semana ter resolvido deixar-me de merdas e ter ido, forte e feio, atrás de algo que desejava há muito.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Perdi a fome

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«A. está com uma imensa vontade de ir comer sushi a um novo restaurante de fusão que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de comer, tem fome. Chega ao restaurante na esperança de que haja lugar mas sabe que o local é muito concorrido e por isso preparou-se para ter de deixar este restaurante para outra noite sem sentir grande frustração. À entrada, fica a saber que há lugar, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a fome mais a vontade de comer, e vai para casa fazer a sua comidinha à mão.»
Idiota?… E com algumas alterações, será que faz mais sentido?
«A. está com uma imensa vontade de ir comer uma pessoa que conheceu na Net e que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de a comer, tem um desejo carnal urgente. Chega ao local combinado na esperança de que essa pessoa também fique encantada quando se virem agora ao vivo, mas sabe que a tal pessoa é muito concorrida e por isso preparou-se para ter de deixar este assunto para outra noite sem sentir grande frustração. Mal começa a conversa, percebe que há um enorme desejo do outro lado, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a pica mais a vontade de a comer, e já nem vai para casa fazer a sua cena à mão.»
Na nossa sociedade, tudo é uma desculpa para não se fazer o sexo que se quer fazer. Tudo faz perder a pica. Especialmente entre as mulheres. «Porque podemos», diz-me uma amiga, referindo-se a contactos com homens, «os gajos estão sempre com tanta vontade que nós não precisamos de nos esforçar». Sim, pode ser verdade. E então? A comida, para os que vivem acima do limiar da pobreza, também é de fácil acesso, e o fácil acesso nunca fez perder a fome. Quando muito, a livre escolha far-me-á optar por outro restaurante, ou outra refeição — mas não por jejuar.

Porquê especialmente entre as mulheres, então? Não me parece rebuscado partir do princípio que isto é o resultado directo de as raparigas serem endoutrinadas desde pequeninas na teoria de que gostar de sexo é mau: os homens até podem ser uns heróis se tiverem muitas mulheres mas elas são sem dúvida umas galdérias se tiverem «muitos» homens. E «galdérias», infelizmente, é pejorativo… Ora esta endoutrinação é feita, mais ou menos explicitamente, por tudo o que nos rodeia, mesmo que os principais educadores — pais, professores, amigos — sejam suficientemente desempoeirados. E fica cravado nos recessos da mente a ponto, digo eu, de policiar cada contacto potencialmente sexual à procura de pretextos para o silenciar.

A «abundância sexual» tão enaltecida no Ethical Slut, e bem, é lamentavelmente a realidade de muito pouca gente. Mesmo das mulheres que «não precisam de se esforçar». E eu solidarizo-me com toda a gente que tem menos sexo do que gostaria de ter, que é com certeza uma população maior do que aqueles que têm menos dinheiro do que gostariam.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Trios, mais um livro e mais confidências na primeira pessoa

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Ameacei comecar e continuar a falar de trios há cerca de duas semanas....


Continuo por aqui muito contente com o meu trio, uma das componentes da minha vida emocional raramente aborrecida. Estava relutante em falar disto porque ainda não definimos a coisa, e até porque precisamente o não ter definido a coisa com elas me estava a fazer comichão, a mim, académica empedernida. Até que tive uma epifânia, por voz de uma delas, a mais prática e mais "novata" nestas andanças não monogamicas, a propósito do sentimento que tem acerca de ter uma neta que é a neta da ex-namorada: "Eu não quero saber o que é que vocês lhe chamam ou mesmo eu cá por dentro lhe chamo, mas o que me interessa é o que eu faço ou que esperam que eu faço. Estou me a borrifar como se chama a relação que tenho com ela. Eu só sei que a minha neta precisa de mim, apita, assobia, ri ou chora, e eu estou lá no mesmo instante".

E sim, se calhar não é preciso ir buscar o arsenal de nomes e definições.. Somos amigas? Somos amantes? Queremos ser amantes? Queremos ser amigas? o que é que isso interessa se se calhar até temos nomes iguais para práticas diferentes ou nomes diferentes práticas? se calhar a coisa é toda simplificada por concordarmos no que queremos fazer juntas e no que queremos dar umas às outras. E o resto fica para discutir ociosamente num dia de chuva preguiçosamente passado em casa.

E para quem tudo isto é muito pessoal, fica mais um livrinho mais ou menos indiscreto acerca de trios. Para quem leu o seu Jack Kerouac "On the Road" e tem olho para especular para além das aparências, o livro Off the Road: Twenty Years with Cassady, Kerouac and Ginsberg by Carolyn Cassady nao trará surpresas. Trocando por miúdos, a mulher de Neal, e amante de Jack, conta a sua versão dos acontecimentos que deram origem a "on the Road" e da sua vida com o seu marido - o modelo para a personagem Dean Moriartry. Por um lado ela revela claramente o que se passa entre Jack e Neal, mas apenas sugere ambiguamente uma relação física entre os dois homens.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Como será o futuro?

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Estou agora em Londres, num hotel, à espera que venham as horas do jantar. Vai ser num restaurante indiano, boa comida e - felizmente! - não vou ser eu a pagar. O que é que isto tem que ver com Poliamor? Nada.

Mas estar aqui, no Reino Unido, local onde falar de polyamory não faz erguer tantas sobrancelhas em demonstração de desconhecimento, faz-me pensar sobre como poderá ser o futuro. Aqui, já há um dia escolhido para celebrar o poliamor. Aqui surge muito do debate e da actividade em torno do poliamor. Há uma plataforma minimamente montada e organizada, que está a anos-luz do que se faz, neste momento, em Portugal. Quer isso dizer que nós somos os atrasadinhos do costume, ou assim? Não. Mudanças sociais demoram o seu tempo, têm o seu ritmo, e não é por haver algumas pessoas empenhadas no assunto que, da noite para o dia, se constrói algo. Também o Reino Unido passou por esta fase. Também nos EUA se passou por esta fase.

O poliamor tem que ver com uma mudança. Uma mudança pessoal, subjectiva, relacional. E como a mudança não pára de mudar, tenho curiosidade em saber como irá ser o poliamor daqui a dez ou vinte anos. Esperemos que esteja cá para o saber. Mas também sei que, aconteça o que acontecer, há uma série de pessoas a quem é preciso agradecer por estarem a contribuir para que, daqui a esses tantos anos, possamos talvez estar como os poly do R. U. A Lara e a antidote, que escrevem aqui, são duas dessas pessoas.

Conhecê-las, e conhecer o trabalho delas, foi um momento importante da minha vida, como é importante para qualquer pessoa descobrir que existe uma base de apoio, um princípio de trabalho, um esforço inicial feito. Há, certamente, muita gente por aí que não pretende viver relações monógamas. Desse conjunto de pessoas, algumas pessoas quererão inclusive não as viver de uma forma aberta e respeitosa. Descobrir como fazer isso pode ser complicado, pode ser um caminho incerto. Ter referências e guias elimina, por um lado, o medo da anormalidade e, por outro, permite encontrar quem tenha empatia. Isto porque houve quem, a certo ponto, fez um esforço para fazer ver, para tornar visível, essa sua faceta. Porque houve quem tenha empenhado tempo e recursos para fazer com que essa palavra - poliamor - tivesse expressão.

Não basta que as coisas existam. Não basta a ideia abstracta da liberdade de escolha. Para podermos escolher, temos que saber quais as possibilidades. Para isso, é necessária publicidade - o acto de tornar algo público. E eu quero estar aqui quando o Poliamor atingir esse estatuto público. Não estou à espera de nenhuma revolução. Gosto, porém, de ver mudanças. E gosto ainda mais de mudar com elas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

nós por cá tod@s bem

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há uns dias cheguei a casa mais tarde e tive uma experiência muito agradável... no sofá, sentado com o notebook no colo, estava um dos meus filhos, aquele que tem 17 anos.

deitada ao lado dele estava uma das suas amigas a dormir ferrada. com a mão esquerda fazia-lhe festas na cabeça e com a direita fez-me sinal para não a acordar.

toda esta cena, que não tem, aparentemente, nada de muito especial, estava envolvida num carinho que me comoveu. digo aparentemente, mas achei mesmo especial: espero, mesmo, que reflicta um ambiente de carinho, amor e bem estar mais lato, que ele, esse mesmo filho, tenha absorvido da nossa vivência diária.

no passado fim-de-semana esteve cá em lisboa connosco uma amiga de londres. organizámos um dos nossos encontros mensais por forma a coincidir com esta vinda e acabámos por jantar também... quando nos separámos do grupo já eram quase 2 da manhã!

falou-se muito nessa tarde e noite sobre poliamor, monogamia e relações interpessoais em geral... e foi muito bom!

no dia seguinte, e antes de a levar ao aeroporto de onde partiria de volta para sua casa em londres onde a esperavam o marido e três filh@s, almoçámos em colares... na troca de impressões sobre o encontro da véspera realçou dois aspectos, que me tocaram particularmente: primeiro a referência aos afectos partilhados no nosso grupo e segundo o facto de ela sentir que nos ficou a conhecer mais intimamente em poucas horas do que conhece @s companheir@s do seu grupo poly em londres.

alguma coisa estaremos a fazer bem por cá...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Adeste fideles (¹)

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Quando «fidelidade» é sinónimo de «exclusividade», não há fiador que possa fiar-se inteiramente na «fidelidade» do afiançado. Sim, para um monogâmico, ser «fiel» é sempre um desafio, um resistir às tentações.

Por isso, o grande Vinicius de Moraes começa assim o «Soneto da Fidelidade»:

De tudo, ao meu amor serei atento | Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto | Que mesmo em face do maior encanto | Dele se encante mais meu pensamento

E pronto, o homem encanta-se com um novo amor mas, coitado, está sempre a compará-lo com o primeiro. E, mesmo que admita o poliamor (nada aqui o impede), o primeiro será sempre o primário — e, consequentemente, o segundo o secundário.

E continua:

Quero vivê-lo em cada vão momento | E em seu louvor hei de espalhar meu canto | E rir meu riso e derramar meu pranto | Ao seu pesar ou seu contentamento

Vamos lá a ver. Rir com o seu contentamento e chorar com o seu pesar, tudo bem. Cantar em seu louvor, nada contra. Mas pensar nisso a cada momento já me parece uma obsessão muito pouco saudável, um vício, uma dependência.

O que vale é que o poeta era realmente genial e termina em beleza:

E assim quando mais tarde me procure | Quem sabe a morte, angústia de quem vive | Quem sabe a solidão, fim de quem ama || Eu possa me dizer do amor (que tive): | Que não seja imortal, posto que é chama | Mas que seja infinito enquanto dure

E é genial porque não podia ser mais certeiro. De facto, é só isso que eu quero do amor que tenho para dar: que seja infinito enquanto dure.

(Sim, eu sei, a minha leitura é propositadamente enviesada. Se o «amor» da primeira estrofe é uma pessoa, o da última não deveria ser um sentimento, e vice-versa. Mas arrepia-me substancialmente que alguém ame o amor mais do que as próprias pessoas.)


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¹ Aproximai-vos, fiéis

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Referendemos o casamento heterosexual

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Palmado do blog da ATTAC. E dedicado a quem, com simpatia pela possibilidade de haver relações com mais do que uma pessoa, ou em que o género não tem que meter prego em estopa, se fartou de tantas asneiras ditas a propósito da extensão da lei do casamento às pessoas do mesmo sexo. Eu assinei.

http://www.petitiononline.com/cpsd/petition.html


ao parlamento português

Um grupo de cidadãos portugueses inicia neste dia as diligências necessárias ao lançamento de uma iniciativa popular que proporá a realização de um referendo que incidirá sobre a seguinte pergunta:
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“Concorda que o casamento possa ser celebrado entre pessoas de sexo diferente?”

A definição do conceito de casamento de forma a nesse contrato incluir uniões entre pessoas de sexo diferente cristaliza o instituto milenar, que tem sido mutável em todas as épocas da história e a todas as civilizações. 

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É de exigir que uma petrificação com este alcance histórico e civilizacional seja directa e claramente apreciada pela vontade popular.
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A mesma exigência de debate se deve colocar sobre a admissibilidade da adopção por uniões de sexo diferente, e ainda que a procriação seja aprovada caso a caso avaliado por comissões específicas de forma a proteger a criança.
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A opção sobre estas questões atravessa transversalmente o eleitorado dos vários partidos 
políticos e é patente que não reúne consenso, conforme se constata pelo número de deputados divorciados. 


Nas últimas eleições legislativas, este assunto não foi suficientemente debatido, de modo a poder deduzir-se a vontade dos portugueses acerca dele. 
Os partidos negligenciaram notoriamente nos seus programas o ‘casamento’ entre pessoas de sexo diferente não podendo os eleitores manifestar-se acerca desta premente questão.

O Referendo é o mais fiel amigo da democracia participativa e da expressão da vontade 
popular. O poder é do povo e a classe política não tem de se comprometer com decisões arriscadas para com o status quo.
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O instituto de Referendo tem sido utilizado com frequência noutros Estados para decidir sobre esta mesma questão, a vida da vizinha, a regionalização ou a independência da Madeira.

Os filhos de pais recém divorciados têm uma palavra a dizer, assim como os de pais casados.

A minoria que se casa todos os anos não pode impor ao resto da sociedade que aceite os seus "casamentos" feitos livremente e ao deus dará, muitas vezes com consequências nefastas como o divórcio, lares desfeitos e partilhas onerosas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Carta Pessoal Aberta

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Car@s discriminador@s,

Vejo-vos a pregarem contra a existência de vários amores. Vejo-vos a falarem da infelicidade inerente a se ser poly. Mas não vos vejo, coerentemente, a falar da infelicidade de ser mono. Porque, espante-se!, a felicidade (ou infelicidade, pronto...) não se prende com a modalidade, e sim com a execução.

Considerar que alguém será automaticamente infeliz num ou noutro tipo de relação sem se considerar as pessoas envolvidas é estar a fazer uma clara petição de princípios que se limita, no fundo, a uma ingerência sobre a vida pessoal. Como podemos considerar saber o que outra pessoa irá sentir, irá fazer, irá achar. Que se considere, retrospectivamente, que ess@s discriminador@s tinham razão no resultado - não o terão nunca na razão fundamental que apresentam, porque não é possível divinar o futuro. Logo, qualquer coisa que peça poderes divinatórios estará por definição errada.

Por outro lado, vós sois quem causa o sofrimento contra o qual avisais. Com os vacticínios que fazeis, por supostas pias razões, estais a provocar o que alegadamente quereis impedir.

Deixem as pessoas ser felizes. Deixem as pessoas sofrer. Deixem as pessoas errar. Deixem as pessoas experimentar. Deixem as pessoas fazer-se.

A discriminação tem uma quota parte de medo e de vontade de poder.
Medo do que é diferente. Porque o que é diferente ameaça a supremacia e a certeza do que é igual, cria dúvida. E @s discriminador@s não lidam bem com a dúvida.
Vontade de poder, porque qualquer pessoa que entre num acto de discriminação quer, por esse meio, exercer poder. Poder de normalização, de aplainamento, de ortopedia. A disciplina pretende a ortopedia do sujeito. Pretende sujeitar o sujeito.

O sujeito pode, e deve, recusar essa ortopedia. O sujeito deve cuidar de si. Reflectir-se, pensar-se, criar-se. Cabe ao sujeito a ortopedia de si.

Que se reduza ao silêncio a voz peripatética, frágil, ilógica, mas altamente consequente, da discriminação.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ainda há bocado estava tão bem...

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Uma das coisas que o poliamor nos dá é a possibilidade de crescer enquanto pessoas e desenvolver a nossa maturidade emocional. Ter várias relações, às vezes ao mesmo tempo, lidar com inícios, finais e crises, dá-nos uma capacidade de gestão surpreendente. E ao mesmo tempo, em confronto com o Outro, descobrimos coisas sobre nós que desconhecíamos por completo, ou tínhamos simplesmente escondido muito bem debaixo do tapete.

É quase sempre uma montanha-russa de emoções, variando entre picos de alegria, paixão, comunhão, e vales profundos de angústia e medos. E possivelmente os picos tornam-se cada vez mais altos e os vales cada vez mais profundos. Mas quando saímos do outro lado do túnel, sentimos que nos é cada vez mais fácil discernir o essencial do acessório, arrumar e assimilar.

Não recomendado a cardíacos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

when mono meets poly do we just get monopoly?

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recentemente tem-se falado muito aqui no blog sobre as novas relações e a energia que estas nos trazem... nre, new relationship energy, como nos disse o daniel. é bom, muito bom mesmo, quando sentimos essa energia.

a antidote, anteontem, estava entusiasmada com a energia que sentia por iniciar uma nova relação, desta em triângulo. embora estivesse apreensiva com o facto, sentia uma vontade forte de fazer com que resultasse... e isso, por si só, é positivo.

lembro-me de conversas várias que temos tido, em grupo e individualmente, sobre as formas de abordar as novas pessoas na nossa vida sobre o facto de sermos poliamorosos e as implicações que isso tem numa relação.

na comparação inevitável de experiências que esse tipo de conversas traz e partindo do princípio que a maioria das pessoas é monogâmica, pelo menos até perceber que existe alternativa à monogamia, chegamos à conclusão que tod@s temos tido experiências similares.

quando dizemos que temos uma relação com outra pessoa, por norma, há duas reacções tipo: a primeira, negativa, com a outra pessoa inevitavelmente achando que a relação não vai bem e a segunda, positiva, mas apelando imediatamente à clandestinidade.

quando explicamos que no primeiro caso vai tudo bem e recomenda-se e que no segundo, trair está fora de causa e que pelo contrário podemos fazer tudo às claras e com consentimento da outra pessoa, só tende a ficar quem vislumbra, mesmo com reticencias, que há muito mais fora desse mundo monoheteronormalizado... e que o encantamento e amor são muito maiores que nos tentam fazer crer... e têm um energia muito poderosa!

portanto quando poly encontra mono, dá seguramente muito mais que um simples jogo de monopoly!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Poliamor precoce

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O programa de televisão House Party (1945—1969) ficou famoso pela rubrica Kids Say the Darndest Things, onde o apresentador entrevistava crianças dos 5 aos 10 anos.

É sempre curioso ver o que as pessoas muito jovens pensam de assuntos «dos crescidos», em especial tudo o que diz respeito a relações afectivas. Ter três namoradas não é nada de muito invulgar no discurso duma criança. Mas este miúdo consegue surpreender-nos com muito mais do que isso:


Aqui vai uma transcrição resumida, que nem sempre é fácil de perceber o que eles dizem:

— Do you have a girlfriend?
- Three of them. They are older than me. I get the older ones because they are more mature and they got money and stuff.
— How much older are they then you?
- I have to ask my daddy over again. I think I know one is 30, that's the only one I know the age.
— Your daddy knows how old they are. How does he know?
- Because he's been seeing them for a long time.

No que se terá tornado este puto? Quantas namoradas terá agora? E o pai dele, terá sobrevivido bem a estas declarações?


Alteração (2013): Passados quase três anos, descobri que o programa não é o House Party mas sim um concurso chamado Child's Play. O rapaz chama-se Ronald Blair Wilkinson III e o apresentador à conversa com ele chama-se Bill Cullen. Isto passou-se em 1982 ou 83 e continuo sem saber o que é feito do rapaz passados trinta anos.