quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Multicare

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Já aqui muito se falou de tempo. E das dores de cabeça que é gerir várias relações e a dedicação a cada uma delas. Mas hoje dei por mim a pensar no contrário. Que ser poly me dá mais tempo para mim e me permite dar com tranquilidade mais tempo aos outros.
Se souber que os meus amores têm outras pessoas para cuidar deles, não sinto a pressão de ser tudo para alguém, em todos os momentos. E por ter eu própria várias pessoas, não sobrecarrego cada uma delas com todas as minhas necessidades.
Há pouco tempo comecei uma relação com uma pessoa, que poucos dias depois se viu atolado de trabalho e complicações. E a intensidade, a urgência, a ânsia de estarmos juntos, deu rapidamente lugar a momentos mais espaçados e mais fugazes. Felizmente tenho a sorte de o ver quase todos os dias, e isso chega-me.
Uma mensagem hoje prometia-me que em breve tudo voltará ao normal, mas não sei o que isso é, nem me preocupa. Não me sinto negligenciada porque não dependo de uma única pessoa para me dar felicidade e estabilidade emocional. Sinto-me rodeada de amor, em todas as suas formas de expressão.
Apesar das possíveis complicações logísticas, no geral o poliamor dá-me este fundo de segurança e de tranquilidade em relação ao futuro. E é isto que me parece “normal”. Este dar e receber sem pressões, sem angústias e sem obrigações.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

«Quelq'un m'a dit»

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Em geral, as pessoas precisam de saber que lugar(es) ocupam no mapa dos afectos daqueles de quem gostam. Precisamos, quase todos, de perceber em que página do catálogo estão os sentimentos que os outros nutrem por nós.

Ele tem um desejo animal por mim mas sem sexo até nem gosta muito de estar comigo? Ela quer a minha companhia de vez em quando para conversar sobre tudo e mais um par de botas? Ele quer viver comigo e partilhar cama e mesa?

Ou, de forma mais elementar, embora mais perigosa se não se tiver consciência de que as definições pessoais dos termos amorosos variam quase tanto como os traços fisionómicos:
Ele ama-me? Ela é minha namorada? Somos fuck buddies?

Algumas palavras, no entanto, têm um peso tão grande na nossa cultura que, seja qual for o significant other que no-las diz, ficamos instantaneamente com a certeza de que a coisa é profunda. Expressões como «Amo-te», ou mesmo «acho que te amo», têm este poder.

Aqui vai um vídeo que me foi enviado esta semana, num dia muito especial, por uma pessoa que adoro. Obrigado! A ambas!


On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose, | Elles passent en un instant comme fanent les roses. | On me dit que le temps qui glisse est un salaud, | Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux. || Pourtant quelqu'un m'a dit… | Que tu m'aimais encore, | C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore. | Serait-ce possible alors ? || On me dit que le destin se moque bien de nous, | Qu'il ne nous donne rien, et qu'il nous promet tout. | Parait que le bonheur est à portée de main, | Alors on tend la main et on se retrouve fou. || Pourtant quelqu'un m'a dit… || Mais qui est-ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais ? | Je ne me souviens plus, c'était tard dans la nuit. | J'entends encore la voix, mais je ne vois plus les traits, | "Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que je vous l'ai dit." || Tu vois, quelqu'un m'a dit… || On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose… || Pourtant quelqu'un m'a dit…

A canção Quelq'un m'a dit é da autoria de Carla Bruni (a sua primeira intérprete) e Leos Carax. O vídeo deste post é do espectáculo de 2006 Le village des Enfoirés, do colectivo Les Enfoirés. Cantam, da esquerda para a direita, Zazie, Marc Lavoine, Patrick Bruel e Raphaël. Na guitarra, Francis Cabrel.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

S. Valentim, esse chato…

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Para quem está com os tomates, ovários, meninges, e outros órgãos bem sensíveis apertados por causa do São Valentim e até tem várias relações a gerir.

Dia dos namorados… e das namoradas… e dos amigos de cama… e dos amigos coloridos… únicos ou vários ou simplesmente inexistentes e/ou desejados..

… Poderia ser um pesadelo logístico, para poliamorosos que o sejam também na prática..

A primeira pergunta a fazer, é porque é que vocês se querem meter numa seca dessas… pensem lá…

(hmmmm… hmmm… hmmm…)

ok, vocês querem mesmo meter-se nessa seca. E não sabem quem é que vão convidar para jantar, ou para almoçar ou para dormir nessa noite. É isso? Ok, não posso resolver esse problema por vocês, porque me recuso a celebrar isso e a meter-me nessa alhada. Mas a título de apoio moral e solidariedade, este senhor também está pelos cabelos com o São Valentim.

Mas olhem! A nossa grande santa galdéria de serviço, Dossie Easton, de vestido vermelho e gert na mão, responde-vos a à pergunta: Como celebrar o São Valentim enquanto poly.

Depois contem como foi.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

PUG?

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Vi hoje uma página de um webcomic que costumo ler (Questionable Content), que me fez lembrar da expressão LUG - Lesbian Until Graduation. Só que, neste caso, seria mais Poly Until Graduation, ou assim.

A personagem Tai queixa-se de não conseguir encontrar ninguém que esteja "virado para a monogamia" ou com quem queira "ser exclusiva". Tai tem um problema: identifica-se como poly, mas é uma coisa que não quer fazer "a vida toda".

Vai na volta, o problema dela é precisamente procurar uma identificação pública que, depois, não corresponde ao seu plano privado de vida. O que vale para qualquer coisa. Todos nós podemos experimentar, e todos nós podemos - devemos! - mudar de opiniões e comportamentos ao longo da vida. Mas devemos procurar, também, ser coerentes entre o que fazemos e dizemos, entre o que dizemos fazer e imaginamos. E aí, tanto um mono entre polys pode ter problemas, como um poly entre monos.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Taras perdidas

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Acontece-me muitas vezes gostar de pessoas. É das poucas certezas que tenho. Que qualquer que seja a actividade que me ocupe os dias, tem de ter a ver com pessoas. Várias, variadas e muitas. Com diferentes backgrounds, abordagens e opiniões.
Quando conheço uma pessoa interessa-me perceber como pensa e como sente. E quando me envolvo sexualmente, interessa-me (muito) saber que taras tem. O que é que realmente toca cada pessoa, o que a faz suspirar, arrepiar-se, ficar tensa ou descontraída. Em que é que pensa no segundo antes de se vir, ou quando se masturba, ou se cruza com alguém atraente. E que tipo de pessoas acha atraente.
Este é um dos maiores gozos de começar uma nova relação. Todo este manancial de novas associações, imagens, fantasias e loucuras que vai na cabeça de cada um e que muitas vezes achamos que são exclusivos nossos. Tudo isto me parece digno de ser explorado e desenvolvido. Ampliado pela experiência e troca de ideias.
Ao longo das minhas relações, tenho encontrado pessoas habituadas a estas trocas. Que hesitam a princípio, mas que rapidamente desatam a trocar galhardetes assim que se lhes abre uma nesga de oportunidade. E às vezes os nossos interesses são radicalmente opostos. O que nos entusiasma é diametralmente oposto e possivelmente incompatível. Mas vale pelo momento e pelo conhecimento.
O que me frustra ou pelo menos desinteressa, são as pessoas que afirmam não ter taras. E sei bem do que falo porque já fui uma delas. Quando aos 18 anos conheci um dos gajos mais deliciosamente tarados com que a vida me presenteou, também eu me dizia “destarada”. Mas ele lá me foi falando das suas ideias e aos poucos fui identificando padrões, tirando do baú coisas que lá estavam desde tenra infância, que me interessavam desde sempre e continuam a interessar. E com base nisso fui formulando novos interesses, querendo experimentar coisas novas, e aumentando a minha tolerância aos interesses dos outros.
O que me parece essencial neste processo, é esta comunicação que nem todos se sentem preparados ou com possibilidade de ter com o outro. Uma tara não partilhada é uma tara perdida, e isso é realmente uma pena.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mal amado, mal amando

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Esta semana fiquei sem bateria. O mecânico vem cá amanhã para levar o carro. Já estou a fazer contas à vida.

E outras contas agora. À minha vida amorosa. Algumas etapas:

1980
às escondidas porque não era suposto
1982
às escondidas porque ele era casado
1985
pediu namoro a outro; eu não soube dizer que não tinha de ser uma disjunção exclusiva
1988
afinal havia outro
1991
não conseguiu resistir à droga; nem a mentir-me acerca disso
1998
casada e ele não sabia de nós
2000
não resistiu a saber de mim e da outra
2002
casada também; por fim acabou com um terceiro, e garantindo-me que estava sozinha
2005
casou depois, e não quer que ninguém saiba de nós
2007
jurei-lhe exclusividade, a muito custo; acabou por andar com outro às escondidas

Isto faz mossa, deforma uma personalidade, desgasta a máquina. Esta semana, fiquei sem bateria. Quero pedir ao mecânico para me levar também o coração.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Trios: Hemingway

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Continuemos, que a inspiração não dá para mais, a série sobre trios, reais, imaginários, literários, ou tudo junto. Hoje deixo vos com Hemingway e o seu "Garden of Eden". Segundo consta é uma história que o próprio Hemingway suprimiu em vida, e que nunca chegou a acabar até à sua morte. Passa-se na Cote d'Azur nos anos 20, e conta a história de, imaginem, um escritor, a sua mulher, e os jogos entre eles enquanto partilham uma mulher mais nova. Dizem por aí os especialistas que é autobiográfico... foi reeditado recentemente.