domingo, 31 de janeiro de 2010

Citações (3)…

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«No meu entender, depois da abstinência,
a monogamia é a perversão sexual
mais abjecta que eu conheço.»

Ricardo de Araújo Pereira,
no programa da TSF Governo Sombra
da última sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010, ao minuto 35'00

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ainda a FHM...

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Sei que já fizemos alguns posts sobre a reportagem da FHM dirigida ao tema do Poliamor, mas a UMAR convidou-me a comentar o artigo, pelo que vos deixo o link:

Reinterpretações masculinizantes

Agradeço à Carla Cerqueira o convite para escrever o post.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Meu, só meu, meu até ao fim

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Esta semana peguei num livro que aqui andava por mesas alheias. Comecei a ler o artigo sobre poliamor que abre logo desta maneira brilhante (sempre tive um fascínio por inícios que agarram o leitor):

«Tinha dezassete anos quando a minha educação sexual começou. “És responsável pelo teu próprio orgasmo”, disse-me o meu namorado. Ele foi o tipo com quem perdi a virgindade, com quem tive o meu primeiro orgasmo, e cujas palavras viriam um dia a ser o meu mantra: Sou responsável pelo meu próprio orgasmo. Acredito nisso literal e figurativamente. Na cama, assumo um papel activo em obter o que quero. Mas também me encarrego de conseguir o que quero ao longo da minha vida sexual. É por isso que, para além de um marido que amo, tenho outros amantes.»
Texto 1. “And Then We Were Poly” – Jenny Block

Estas palavras remeteram-me imediatamente para uma cena do filme Shortbus (das coisas mais bonitas e envolventes a que alguma vez assisti). Sofia, uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo, fala sobre a sua própria situação ao marido, usando uma história sobre um suposto casal da clínica. E quando o marido lhe diz qualquer coisa sobre o outro não conseguir dar um orgasmo à mulher, Sofia corrige-o dizendo que não é ele que não dá, é ela que não o consegue ter. Que é ela que o tem de reclamar para si própria. Encontrar uma maneira de ter o seu próprio orgasmo, e não esperar que alguém lho dê, facilite ou arranje.


Tal como Jenny Block, considero que estas palavras têm um grande poder, literal e simbólico. Ser poly também passa por ouvir os outros dizer “Mas essa tua postura não é nada comum, blá, e a sociedade blá blá blá” e responder “E então?” O que tem a sociedade a ver com aquilo que quero para mim própria, e ao qual tenho direito, desde que não prejudique ninguém pelo caminho? Porquê esperar sentada e a queixar-me em vez de procurar activamente aquilo que me faz feliz?

Tudo isto vem também a propósito de esta semana ter resolvido deixar-me de merdas e ter ido, forte e feio, atrás de algo que desejava há muito.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Perdi a fome

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«A. está com uma imensa vontade de ir comer sushi a um novo restaurante de fusão que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de comer, tem fome. Chega ao restaurante na esperança de que haja lugar mas sabe que o local é muito concorrido e por isso preparou-se para ter de deixar este restaurante para outra noite sem sentir grande frustração. À entrada, fica a saber que há lugar, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a fome mais a vontade de comer, e vai para casa fazer a sua comidinha à mão.»
Idiota?… E com algumas alterações, será que faz mais sentido?
«A. está com uma imensa vontade de ir comer uma pessoa que conheceu na Net e que lhe parece extraordinariamente atraente. Durante toda a tarde não pensou noutra coisa, e agora, além da vontade de a comer, tem um desejo carnal urgente. Chega ao local combinado na esperança de que essa pessoa também fique encantada quando se virem agora ao vivo, mas sabe que a tal pessoa é muito concorrida e por isso preparou-se para ter de deixar este assunto para outra noite sem sentir grande frustração. Mal começa a conversa, percebe que há um enorme desejo do outro lado, e nem precisa de esperar… Que desilusão: perde a pica mais a vontade de a comer, e já nem vai para casa fazer a sua cena à mão.»
Na nossa sociedade, tudo é uma desculpa para não se fazer o sexo que se quer fazer. Tudo faz perder a pica. Especialmente entre as mulheres. «Porque podemos», diz-me uma amiga, referindo-se a contactos com homens, «os gajos estão sempre com tanta vontade que nós não precisamos de nos esforçar». Sim, pode ser verdade. E então? A comida, para os que vivem acima do limiar da pobreza, também é de fácil acesso, e o fácil acesso nunca fez perder a fome. Quando muito, a livre escolha far-me-á optar por outro restaurante, ou outra refeição — mas não por jejuar.

Porquê especialmente entre as mulheres, então? Não me parece rebuscado partir do princípio que isto é o resultado directo de as raparigas serem endoutrinadas desde pequeninas na teoria de que gostar de sexo é mau: os homens até podem ser uns heróis se tiverem muitas mulheres mas elas são sem dúvida umas galdérias se tiverem «muitos» homens. E «galdérias», infelizmente, é pejorativo… Ora esta endoutrinação é feita, mais ou menos explicitamente, por tudo o que nos rodeia, mesmo que os principais educadores — pais, professores, amigos — sejam suficientemente desempoeirados. E fica cravado nos recessos da mente a ponto, digo eu, de policiar cada contacto potencialmente sexual à procura de pretextos para o silenciar.

A «abundância sexual» tão enaltecida no Ethical Slut, e bem, é lamentavelmente a realidade de muito pouca gente. Mesmo das mulheres que «não precisam de se esforçar». E eu solidarizo-me com toda a gente que tem menos sexo do que gostaria de ter, que é com certeza uma população maior do que aqueles que têm menos dinheiro do que gostariam.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Trios, mais um livro e mais confidências na primeira pessoa

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Ameacei comecar e continuar a falar de trios há cerca de duas semanas....


Continuo por aqui muito contente com o meu trio, uma das componentes da minha vida emocional raramente aborrecida. Estava relutante em falar disto porque ainda não definimos a coisa, e até porque precisamente o não ter definido a coisa com elas me estava a fazer comichão, a mim, académica empedernida. Até que tive uma epifânia, por voz de uma delas, a mais prática e mais "novata" nestas andanças não monogamicas, a propósito do sentimento que tem acerca de ter uma neta que é a neta da ex-namorada: "Eu não quero saber o que é que vocês lhe chamam ou mesmo eu cá por dentro lhe chamo, mas o que me interessa é o que eu faço ou que esperam que eu faço. Estou me a borrifar como se chama a relação que tenho com ela. Eu só sei que a minha neta precisa de mim, apita, assobia, ri ou chora, e eu estou lá no mesmo instante".

E sim, se calhar não é preciso ir buscar o arsenal de nomes e definições.. Somos amigas? Somos amantes? Queremos ser amantes? Queremos ser amigas? o que é que isso interessa se se calhar até temos nomes iguais para práticas diferentes ou nomes diferentes práticas? se calhar a coisa é toda simplificada por concordarmos no que queremos fazer juntas e no que queremos dar umas às outras. E o resto fica para discutir ociosamente num dia de chuva preguiçosamente passado em casa.

E para quem tudo isto é muito pessoal, fica mais um livrinho mais ou menos indiscreto acerca de trios. Para quem leu o seu Jack Kerouac "On the Road" e tem olho para especular para além das aparências, o livro Off the Road: Twenty Years with Cassady, Kerouac and Ginsberg by Carolyn Cassady nao trará surpresas. Trocando por miúdos, a mulher de Neal, e amante de Jack, conta a sua versão dos acontecimentos que deram origem a "on the Road" e da sua vida com o seu marido - o modelo para a personagem Dean Moriartry. Por um lado ela revela claramente o que se passa entre Jack e Neal, mas apenas sugere ambiguamente uma relação física entre os dois homens.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Como será o futuro?

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Estou agora em Londres, num hotel, à espera que venham as horas do jantar. Vai ser num restaurante indiano, boa comida e - felizmente! - não vou ser eu a pagar. O que é que isto tem que ver com Poliamor? Nada.

Mas estar aqui, no Reino Unido, local onde falar de polyamory não faz erguer tantas sobrancelhas em demonstração de desconhecimento, faz-me pensar sobre como poderá ser o futuro. Aqui, já há um dia escolhido para celebrar o poliamor. Aqui surge muito do debate e da actividade em torno do poliamor. Há uma plataforma minimamente montada e organizada, que está a anos-luz do que se faz, neste momento, em Portugal. Quer isso dizer que nós somos os atrasadinhos do costume, ou assim? Não. Mudanças sociais demoram o seu tempo, têm o seu ritmo, e não é por haver algumas pessoas empenhadas no assunto que, da noite para o dia, se constrói algo. Também o Reino Unido passou por esta fase. Também nos EUA se passou por esta fase.

O poliamor tem que ver com uma mudança. Uma mudança pessoal, subjectiva, relacional. E como a mudança não pára de mudar, tenho curiosidade em saber como irá ser o poliamor daqui a dez ou vinte anos. Esperemos que esteja cá para o saber. Mas também sei que, aconteça o que acontecer, há uma série de pessoas a quem é preciso agradecer por estarem a contribuir para que, daqui a esses tantos anos, possamos talvez estar como os poly do R. U. A Lara e a antidote, que escrevem aqui, são duas dessas pessoas.

Conhecê-las, e conhecer o trabalho delas, foi um momento importante da minha vida, como é importante para qualquer pessoa descobrir que existe uma base de apoio, um princípio de trabalho, um esforço inicial feito. Há, certamente, muita gente por aí que não pretende viver relações monógamas. Desse conjunto de pessoas, algumas pessoas quererão inclusive não as viver de uma forma aberta e respeitosa. Descobrir como fazer isso pode ser complicado, pode ser um caminho incerto. Ter referências e guias elimina, por um lado, o medo da anormalidade e, por outro, permite encontrar quem tenha empatia. Isto porque houve quem, a certo ponto, fez um esforço para fazer ver, para tornar visível, essa sua faceta. Porque houve quem tenha empenhado tempo e recursos para fazer com que essa palavra - poliamor - tivesse expressão.

Não basta que as coisas existam. Não basta a ideia abstracta da liberdade de escolha. Para podermos escolher, temos que saber quais as possibilidades. Para isso, é necessária publicidade - o acto de tornar algo público. E eu quero estar aqui quando o Poliamor atingir esse estatuto público. Não estou à espera de nenhuma revolução. Gosto, porém, de ver mudanças. E gosto ainda mais de mudar com elas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

nós por cá tod@s bem

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há uns dias cheguei a casa mais tarde e tive uma experiência muito agradável... no sofá, sentado com o notebook no colo, estava um dos meus filhos, aquele que tem 17 anos.

deitada ao lado dele estava uma das suas amigas a dormir ferrada. com a mão esquerda fazia-lhe festas na cabeça e com a direita fez-me sinal para não a acordar.

toda esta cena, que não tem, aparentemente, nada de muito especial, estava envolvida num carinho que me comoveu. digo aparentemente, mas achei mesmo especial: espero, mesmo, que reflicta um ambiente de carinho, amor e bem estar mais lato, que ele, esse mesmo filho, tenha absorvido da nossa vivência diária.

no passado fim-de-semana esteve cá em lisboa connosco uma amiga de londres. organizámos um dos nossos encontros mensais por forma a coincidir com esta vinda e acabámos por jantar também... quando nos separámos do grupo já eram quase 2 da manhã!

falou-se muito nessa tarde e noite sobre poliamor, monogamia e relações interpessoais em geral... e foi muito bom!

no dia seguinte, e antes de a levar ao aeroporto de onde partiria de volta para sua casa em londres onde a esperavam o marido e três filh@s, almoçámos em colares... na troca de impressões sobre o encontro da véspera realçou dois aspectos, que me tocaram particularmente: primeiro a referência aos afectos partilhados no nosso grupo e segundo o facto de ela sentir que nos ficou a conhecer mais intimamente em poucas horas do que conhece @s companheir@s do seu grupo poly em londres.

alguma coisa estaremos a fazer bem por cá...