terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Adeste fideles (¹)

Publicado por 
Quando «fidelidade» é sinónimo de «exclusividade», não há fiador que possa fiar-se inteiramente na «fidelidade» do afiançado. Sim, para um monogâmico, ser «fiel» é sempre um desafio, um resistir às tentações.

Por isso, o grande Vinicius de Moraes começa assim o «Soneto da Fidelidade»:

De tudo, ao meu amor serei atento | Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto | Que mesmo em face do maior encanto | Dele se encante mais meu pensamento

E pronto, o homem encanta-se com um novo amor mas, coitado, está sempre a compará-lo com o primeiro. E, mesmo que admita o poliamor (nada aqui o impede), o primeiro será sempre o primário — e, consequentemente, o segundo o secundário.

E continua:

Quero vivê-lo em cada vão momento | E em seu louvor hei de espalhar meu canto | E rir meu riso e derramar meu pranto | Ao seu pesar ou seu contentamento

Vamos lá a ver. Rir com o seu contentamento e chorar com o seu pesar, tudo bem. Cantar em seu louvor, nada contra. Mas pensar nisso a cada momento já me parece uma obsessão muito pouco saudável, um vício, uma dependência.

O que vale é que o poeta era realmente genial e termina em beleza:

E assim quando mais tarde me procure | Quem sabe a morte, angústia de quem vive | Quem sabe a solidão, fim de quem ama || Eu possa me dizer do amor (que tive): | Que não seja imortal, posto que é chama | Mas que seja infinito enquanto dure

E é genial porque não podia ser mais certeiro. De facto, é só isso que eu quero do amor que tenho para dar: que seja infinito enquanto dure.

(Sim, eu sei, a minha leitura é propositadamente enviesada. Se o «amor» da primeira estrofe é uma pessoa, o da última não deveria ser um sentimento, e vice-versa. Mas arrepia-me substancialmente que alguém ame o amor mais do que as próprias pessoas.)


═════════════
¹ Aproximai-vos, fiéis

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Referendemos o casamento heterosexual

Publicado por 
Palmado do blog da ATTAC. E dedicado a quem, com simpatia pela possibilidade de haver relações com mais do que uma pessoa, ou em que o género não tem que meter prego em estopa, se fartou de tantas asneiras ditas a propósito da extensão da lei do casamento às pessoas do mesmo sexo. Eu assinei.

http://www.petitiononline.com/cpsd/petition.html


ao parlamento português

Um grupo de cidadãos portugueses inicia neste dia as diligências necessárias ao lançamento de uma iniciativa popular que proporá a realização de um referendo que incidirá sobre a seguinte pergunta:
.
“Concorda que o casamento possa ser celebrado entre pessoas de sexo diferente?”

A definição do conceito de casamento de forma a nesse contrato incluir uniões entre pessoas de sexo diferente cristaliza o instituto milenar, que tem sido mutável em todas as épocas da história e a todas as civilizações. 

.
É de exigir que uma petrificação com este alcance histórico e civilizacional seja directa e claramente apreciada pela vontade popular.
.
A mesma exigência de debate se deve colocar sobre a admissibilidade da adopção por uniões de sexo diferente, e ainda que a procriação seja aprovada caso a caso avaliado por comissões específicas de forma a proteger a criança.
.
A opção sobre estas questões atravessa transversalmente o eleitorado dos vários partidos 
políticos e é patente que não reúne consenso, conforme se constata pelo número de deputados divorciados. 


Nas últimas eleições legislativas, este assunto não foi suficientemente debatido, de modo a poder deduzir-se a vontade dos portugueses acerca dele. 
Os partidos negligenciaram notoriamente nos seus programas o ‘casamento’ entre pessoas de sexo diferente não podendo os eleitores manifestar-se acerca desta premente questão.

O Referendo é o mais fiel amigo da democracia participativa e da expressão da vontade 
popular. O poder é do povo e a classe política não tem de se comprometer com decisões arriscadas para com o status quo.
.
O instituto de Referendo tem sido utilizado com frequência noutros Estados para decidir sobre esta mesma questão, a vida da vizinha, a regionalização ou a independência da Madeira.

Os filhos de pais recém divorciados têm uma palavra a dizer, assim como os de pais casados.

A minoria que se casa todos os anos não pode impor ao resto da sociedade que aceite os seus "casamentos" feitos livremente e ao deus dará, muitas vezes com consequências nefastas como o divórcio, lares desfeitos e partilhas onerosas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Carta Pessoal Aberta

Publicado por 
Car@s discriminador@s,

Vejo-vos a pregarem contra a existência de vários amores. Vejo-vos a falarem da infelicidade inerente a se ser poly. Mas não vos vejo, coerentemente, a falar da infelicidade de ser mono. Porque, espante-se!, a felicidade (ou infelicidade, pronto...) não se prende com a modalidade, e sim com a execução.

Considerar que alguém será automaticamente infeliz num ou noutro tipo de relação sem se considerar as pessoas envolvidas é estar a fazer uma clara petição de princípios que se limita, no fundo, a uma ingerência sobre a vida pessoal. Como podemos considerar saber o que outra pessoa irá sentir, irá fazer, irá achar. Que se considere, retrospectivamente, que ess@s discriminador@s tinham razão no resultado - não o terão nunca na razão fundamental que apresentam, porque não é possível divinar o futuro. Logo, qualquer coisa que peça poderes divinatórios estará por definição errada.

Por outro lado, vós sois quem causa o sofrimento contra o qual avisais. Com os vacticínios que fazeis, por supostas pias razões, estais a provocar o que alegadamente quereis impedir.

Deixem as pessoas ser felizes. Deixem as pessoas sofrer. Deixem as pessoas errar. Deixem as pessoas experimentar. Deixem as pessoas fazer-se.

A discriminação tem uma quota parte de medo e de vontade de poder.
Medo do que é diferente. Porque o que é diferente ameaça a supremacia e a certeza do que é igual, cria dúvida. E @s discriminador@s não lidam bem com a dúvida.
Vontade de poder, porque qualquer pessoa que entre num acto de discriminação quer, por esse meio, exercer poder. Poder de normalização, de aplainamento, de ortopedia. A disciplina pretende a ortopedia do sujeito. Pretende sujeitar o sujeito.

O sujeito pode, e deve, recusar essa ortopedia. O sujeito deve cuidar de si. Reflectir-se, pensar-se, criar-se. Cabe ao sujeito a ortopedia de si.

Que se reduza ao silêncio a voz peripatética, frágil, ilógica, mas altamente consequente, da discriminação.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ainda há bocado estava tão bem...

Publicado por 
Uma das coisas que o poliamor nos dá é a possibilidade de crescer enquanto pessoas e desenvolver a nossa maturidade emocional. Ter várias relações, às vezes ao mesmo tempo, lidar com inícios, finais e crises, dá-nos uma capacidade de gestão surpreendente. E ao mesmo tempo, em confronto com o Outro, descobrimos coisas sobre nós que desconhecíamos por completo, ou tínhamos simplesmente escondido muito bem debaixo do tapete.

É quase sempre uma montanha-russa de emoções, variando entre picos de alegria, paixão, comunhão, e vales profundos de angústia e medos. E possivelmente os picos tornam-se cada vez mais altos e os vales cada vez mais profundos. Mas quando saímos do outro lado do túnel, sentimos que nos é cada vez mais fácil discernir o essencial do acessório, arrumar e assimilar.

Não recomendado a cardíacos.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

when mono meets poly do we just get monopoly?

Publicado por 

recentemente tem-se falado muito aqui no blog sobre as novas relações e a energia que estas nos trazem... nre, new relationship energy, como nos disse o daniel. é bom, muito bom mesmo, quando sentimos essa energia.

a antidote, anteontem, estava entusiasmada com a energia que sentia por iniciar uma nova relação, desta em triângulo. embora estivesse apreensiva com o facto, sentia uma vontade forte de fazer com que resultasse... e isso, por si só, é positivo.

lembro-me de conversas várias que temos tido, em grupo e individualmente, sobre as formas de abordar as novas pessoas na nossa vida sobre o facto de sermos poliamorosos e as implicações que isso tem numa relação.

na comparação inevitável de experiências que esse tipo de conversas traz e partindo do princípio que a maioria das pessoas é monogâmica, pelo menos até perceber que existe alternativa à monogamia, chegamos à conclusão que tod@s temos tido experiências similares.

quando dizemos que temos uma relação com outra pessoa, por norma, há duas reacções tipo: a primeira, negativa, com a outra pessoa inevitavelmente achando que a relação não vai bem e a segunda, positiva, mas apelando imediatamente à clandestinidade.

quando explicamos que no primeiro caso vai tudo bem e recomenda-se e que no segundo, trair está fora de causa e que pelo contrário podemos fazer tudo às claras e com consentimento da outra pessoa, só tende a ficar quem vislumbra, mesmo com reticencias, que há muito mais fora desse mundo monoheteronormalizado... e que o encantamento e amor são muito maiores que nos tentam fazer crer... e têm um energia muito poderosa!

portanto quando poly encontra mono, dá seguramente muito mais que um simples jogo de monopoly!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Poliamor precoce

Publicado por 
O programa de televisão House Party (1945—1969) ficou famoso pela rubrica Kids Say the Darndest Things, onde o apresentador entrevistava crianças dos 5 aos 10 anos.

É sempre curioso ver o que as pessoas muito jovens pensam de assuntos «dos crescidos», em especial tudo o que diz respeito a relações afectivas. Ter três namoradas não é nada de muito invulgar no discurso duma criança. Mas este miúdo consegue surpreender-nos com muito mais do que isso:


Aqui vai uma transcrição resumida, que nem sempre é fácil de perceber o que eles dizem:

— Do you have a girlfriend?
- Three of them. They are older than me. I get the older ones because they are more mature and they got money and stuff.
— How much older are they then you?
- I have to ask my daddy over again. I think I know one is 30, that's the only one I know the age.
— Your daddy knows how old they are. How does he know?
- Because he's been seeing them for a long time.

No que se terá tornado este puto? Quantas namoradas terá agora? E o pai dele, terá sobrevivido bem a estas declarações?


Alteração (2013): Passados quase três anos, descobri que o programa não é o House Party mas sim um concurso chamado Child's Play. O rapaz chama-se Ronald Blair Wilkinson III e o apresentador à conversa com ele chama-se Bill Cullen. Isto passou-se em 1982 ou 83 e continuo sem saber o que é feito do rapaz passados trinta anos.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ménage à Trois: o livro

Publicado por 
Não vou escapar à onda de compersion e de revelações ou epifanias que por aqui vai, vou-me deixar contagiar por ela. Assinalo e agradeço a grande generosidade de quem partilhou as suas histórias e maravilhamento com tanta generosidade.

Seguindo então a onda dos meus companheiros de blog, não chegarei ao exagero de proclamar como Rilke que o "amor ideal é a três". Não o fiz para me sincronizar com os meus companheiros, mas embarquei recente e alegremente em mais uma historia a três. Sim, não é a primeira e espero que não vá ser a última. Nao vou começar a contar-vos como eu com cinismo empedernido já acho isto normal, mas sim precisamente o contrário, dizer-vos como me continuo a maravilhar com a beleza frágil e improvável destas constelações. Trios não são particularmente robustos ou estáveis (falo-vos de trios, não de "V"s, e falo-vos de trios para além da duração duma noite curta de verão, ou do que é apenas habitualmente tratado entre lençóis), e exigem, mesmo quando correm bem, muita atenção, continência e cuidado. Estou grata a seja o que for que faz com que estes episódios que tanto aprecio continuem a acontecer, e sempre com grande intensidade, sinceridade e beleza. E adoro o Design for Living, que nos mostra que isto não é modernice.

Tenho mandado uns bitaites acerca de trios ao longo dos anos, porque sempre me marcaram pela sua intensidade e beleza e por os não tomar como coisa óbvia ou fácil. Quem quiser, estão no Our Laundry List (que, a propósito, completa 5 anos de existência) sob a tag "trios" (http://laundrylst.blogspot.com/search/label/trios)

Tenho engatilhada uma série de artigos sobre trios, que espero finalmente me tirem do meu bloqueio literário, e que já agora me tornem rica e famosa, mas para começar deixo-vos com um livro que não é propriamente profundo ou um poço de beleza e poesia, mas que é uma boa plataforma de embarque para os curiosos. Trata-se do livro "Three in Love: Ménages à Trois from Ancient to Modern Times" (Barbara Foster, Michael Foster and Letha Hadady). Os três autores, de backgrounds bastante diferentes e supostamente com conhecimento de causa acerca de trios, tentam construir uma história da Ménage à Trois desde a idade média até aos dias de hoje. Para os cuscos ou simplesmente curiosos, a lista de personagens históricas comprometidas em trios é espantosa.