terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Poliamor sem hesitações

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Anteontem li no Jornal de Notícias um artigo extraordinário (é de Novembro mas só me veio parar às mãos agora, por via dum atrasadíssimo Google Alert).

O autor consegue a proeza irrepetível de escrever contra tudo aquilo em que acredito: o poliamor, o combate ao tabu da monogamia, a não-exclusividade, o direito à igualdade, o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, a equiparação do casamento a uniões entre mais do que duas pessoas, o Estado-providência e, por fim, o desafio a esse manual de maus costumes que é a Bíblia. E, no entanto, fá-lo usando um único recurso estilístico: a ironia. Por definição, a ironia é a expressão de uma intenção ou significado usando expressões que normalmente significam o exacto oposto. A luminária que assina este artiguelho (vêem? também sei: "luminária" é ironia; já "artiguelho" não é) — esse bota-de-elástico, dizia eu, usa e abusa das aspas para marcar a ironia.

E o que há de extraordinário em tal artigo? É que, precisamente graças à sua pobreza estilística, basta tirar as aspas para ser um texto que eu assinaria por baixo na totalidade. É isso: tirem as aspas e vão ver se o velho não tem razão. Vá lá: tirem as aspas e, no penúltimo parágrafo, a palavra «má». E, pronto, mudem o título para Poliamor sem hesitações.

Ora então é clicar e alegrar, rapaziada: Poligamia sem hesitações - JN.

"FAITH-BASED CONNECT THE DOTS"

cartoon do brilhante Don Addis, que morreu faz hoje um mês

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Monogamicxs

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Fotografado no último sábado no Fluviário de Mora:

Monogâmico: relativo à condição na qual um macho e uma fêmea estabelecem uma relação de acasalamento mais ou menos exclusiva.

domingo, 27 de dezembro de 2009

My boyfriend's girlfriend isn't me

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Não há muitas músicas em que o tema seja explícita ou implicitamente o poliamor. Uma das mais claramente poliamorosas é de uma banda canadiana de rock a atirar para a comédia. A banda é pouco conhecida e chama-se Must Be Tuesday. A canção chama-se My Boyfrend's Girlfriend (Isn't Me)", ou simplesmente Boyfriend's Girlfriend e é possivelmente o maior sucesso deles.



There's lots of kinds of people in this world | and I'm, well, I'm not like other girls | How do I explain this properly? | My boyfriend's girlfriend isn't me

Well obviously one of them is | But there's another girl of his | And I know her and she knows me | and that would be great if it was just us three

But she has a guy who's even more pretty | and a long-distance thing in another city | He and his wife come by when they can | and they have a kid who calls me his aunt

Just when I thought it was all too crazy | I tried to draw our family tree | There's nothing wrong with extra love | But the paper wasn't big enough


Refrão:
Of all the ways I've ever dated | it's never been so complicated | The chain can extend to eternity | 'cause my boyfriend's girlfriend isn't me

We spent Christmas eve with my boyfriend's dad | Christmas day with my folks and the feast they had | New Years, he went to his girlfriend's city | I mean the one who isn't me

She brought him and her other guy | to her company picnic and I won't lie | I wasn't used to being alone | so I want someone new of my own

It isn't easy to find a fling | 'Cause when you hit on some tasty thing | They say "Aren't you with that guy?" | You say "Oh he doesn't mind.

Have you ever seen 'Big Love'? | Know what I mean, wink, wink, nudge, nudge…" | And they say "Oh, so you're a Mormon?" | "No! …I'll explain from the beginning…"


Refrão

When the partners get together, | the primaries and all the others, | we give the newbies a little primer | and we all get out our day timers

Calendars as far as the eye can see. | "When can I see you?" "When are you free?" | "Who gets me on my birthday?" and then | "Does anyone have an extra pen?"

The kids have the best celebration. | Gifts from three dozen odd relations. | There's Uncle Jackie's girlfriend, Mary, | Ed who is her secondary…

Ed's new boyfriend brought along | his ex, whose fling is going strong | with someone that I used to know | and just became my boyfriend's beau…


Refrão

A couch where four can snuggle up | Suddenly isn't big enough | And even so we don't give up. | There's no such thing as too much love.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Punalua

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No seu livro sobre "A origem da Família...", Engels fala sobre um termo que alguns poliamorosos gostam de usar - punalua.

A família punaluana seria uma forma evoluída de modelo familiar - sendo que ele vai buscar o termo e exemplo a um costume havaiano - ainda dentro dos costumes de sociedades consideradas "bárbaras". É interessante ver como este modelo familiar tinha um traço fortemente matriarcal, já que, dentro destas famílias-grupo não era possível estabelecer a paternidade de uma determinada criança, mas era sempre possível estabelecer a sua maternidade. Este era um modelo de coabitação e cooperação em que os membros de um determinado grupo de homens se chamavam punalua entre si, e idem para cada determinado grupo de mulheres.

A análise de Engels leva-nos mais longe, analisando uma evolução nas estruturas familiares a par de progressos civilizacionais, e eis que chegamos ao modelo monogâmico.

Compreender este modelo é importante, creio, para termos uma perspectiva de quais as suas raízes. Porque se é verdade, como já referi várias vezes, que a monogamia pode ser praticada de uma forma igualitária e com respeito pelos direitos e deveres de cada indivíduo, é também verdade que só com a noção das raízes podemos começar a desmontar os processos de dominação que operam nessa esfera.

Diz-nos então Engels que a monogamia

"se baseia na supremacia do homem, com o propósito expresso de produzir crianças cuja paternidade não possa ser disputada; tal paternidade inequívoca é exigida pelo facto de que esses filhos serão, mais tarde, herdeiros daquele pai. [...] O direito da infidelidade conjugal também se mantém adstrito a ele, quanto mais não seja pelo costume [...]"

Vemos actualmente ainda muitas provas de como resquícios destas ideias se mantêm no século XXI. Os homens são, estereotipicamente, os traidores por excelência, os principais preocupados com passar o legado da família (quanto mais não seja, o nome da família, que é o nome do homem).

Ora, se como tenho abordado, é o fechamento da relação monógama que, a contrario, institui a traição, é também ela que retira a possibilidade de cooperação e inter-relação presente entre punaluas. Essa relação não existe dentro de um modelo estritamente monógamo, embora possa, ainda assim, existir dentro de alguns modelos de poliamor em que existe um fechamento das relações a um determinado conjunto de pessoas.

E isso deixa-me, por estranho que possa parecer - porque deveria ser indiferente, não? -, triste. Fico triste porque tenho assistido muito de perto ao quão bela e forte pode ser uma relação entre punaluas, e questiono-me sobre que visão terá a posição mononormativa sobre estas pessoas que resolvem assumir-se como punaluas, que resolvem gostar disso, que daí retiram prazer e compersion.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

"Poly" Pocket

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Todos os anos por altura do Natal fico doente com esta coisa dos brinquedos para as crianças. Nem tanto com a febre consumista de que todos nos queixamos, e para a qual volta e meia nos descai o cartão de débito, mas com outra questão que, apesar de tudo, me parece mais chocante. A ideia de que há brinquedos para meninos e para meninas. Por mais que se ache que se fizeram já progressos enormes na dissipação de papéis de género, torna-se quase impossível para uma criança escapar a esta ditadura dicotómica de haver toda uma lista de coisas com as quais pode e não pode brincar. Todo um código de cores, tipos de letra, formas de embalagem, que no seu conjunto se referem a uma coisa ou outra. Nada de confusões ou ambiguidades.
Era assim há vinte anos, quando eu era criança, e continua a ser assim agora, sem tirar nem pôr. E depois venham-me com milhares de estudos, cientificamente comprovadíssimos, de que as mulheres são assim e os homens são assado. E venham-me pais com a conversa de que o filho e a filha foram educados exactamente da mesma maneira e olha, vá-se lá saber porquê, um tem mais raciocínio matemático e a outra tem mais propensão para a literatura. Enquanto não se mudarem estas condicionantes fortíssimas, qualquer estudo com base no género é tão sério como uma brincadeira de crianças.
Quando há uns anos a minha sobrinha tentava assimilar o divórcio dos pais, um dos conselhos da brilhante psicóloga da infantário, foi que lhe oferecessem no Natal famílias de bonecos tipo Barbie, que contivessem obrigatoriamente mamã, papá e filhotes. Para a criança não perder a referência de família. Ou seja, toma lá isto que não tem nada a ver com a tua realidade nem, mais cedo ou mais tarde, com a de quase nenhum dos teus amigos. Não vás tu lembrar-te de ser feliz de outra maneira.
Já eu, felizmente, tive a sorte de ter um irmão, o que nos possibilitou ter todo o espectro de brinquedos em casa. E o discernimento de os misturar todos, brincando em conjunto e multiplicando as possibilidades. Pessoalmente sempre desejei ter comboios, pistas de carrinhos e carros telecomandados. E uma das vantagens que o meu irmão via em ter uma irmãzinha, era poder brincar com as miniaturas de electrodomésticos que via nas montras.
Este Natal, enquanto lamento o facto de até as peças Lego (haverá coisa mais universal que o Lego?) virem numa caixa cor-de-rosinha para meninas, ponho-me a olhar para a embalagem da Polly e a fantasiar que se trata de uma personagem poliamorosa, com vários Ken’s e suas respectivas Skipper’s, que por sua vez são amigas da Barbie e fazem corridas de carros com os Legos do Espaço.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Paixões e tempestades

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Hoje à hora de almoço vinha a ouvir na Antena 2 o sempre interessante Em Sintonia com António Cartaxo.

O programa de hoje era sobre Beethoven e dá para ouvir de novo às 23h00 ou, em qualquer altura, na página do programa ou directamente aqui.

Aos 35'00", António Cartaxo passa um excerto da sonata nº 23, a Appassionata. Depois, aos 40'30", diz o seguinte:
"Quando lhe perguntaram qual o sentido da Appassionata (o cognome é do editor mas Beethoven aprovou-o), a resposta foi a seguinte: «Leia A Tempestade de Shakespeare». E Romain Rolland, estudioso de Beethoven, lembrará que A Tempestade é a fúria das forças elementares — paixões, destemperos dos homens e dos elementos —, é o senhorio do espírito, mago que, a seu bel-prazer, congrega ou dissipa a ilusão. A definição da arte beethoveniana neste período de maturidade." ¹
Eu diria que A Tempestade (a peça) nada tem a ver com a «fúria das paixões»… Mas já que aqui estamos, vejam lá bem o que diz o protagonista, Próspero, a propósito de um casalinho que ele, num espírito casamenteiro, quer ver atingido pelas setas de Cupido (e que realmente se apaixonam num instante): «They are both in either's powers: but this swift business / I must uneasy make, lest too light winning / Make the prize light.» Ou seja, «deixa-me cá dificultar a coisa, que estes dois pombinhos começaram a arrulhar depressa demais», (e agora em tradução mais literal) «não vá uma conquista tão ligeira tornar o prémio demasiado ligeiro».

Mas que raio de ideia é esta?! Que mal fizemos nós para sermos ainda hoje bombardeados com este e outros disparates do Romantismo? Atenção, a frase, a peça e o autor são sem dúvida alguma geniais — mas a ideia romântica de que uma conquista sem sangue, suor e lágrimas não tem valor é simplesmente uma má interpretação dos naturais ajustes que duas pessoas precisam de fazer quando iniciam uma relação, acertos esses que sucedem novamente, de modo sempre diferente, de cada vez que se soma uma nova relação.

Eu cá prefiro as pessoas fáceis. E descomplicadas. E preferia ser eu próprio mais simples (fácil já eu sou que chegue). Mas levamos com tanta história de amores difíceis que essa peçonha se nos enfia debaixo da pele e custa mais a remover do que uma tatuagem.

_________________
(¹) A pergunta sobre o sentido da Appassionata — e, já agora acrescento, de uma outra sonata, a nº 17, publicada precisamente sob o título A Tempestade — terá sido feita a Beethoven pelo biógrafo seu contemporâneo Anton Schindler, que a refere no livro Biographie von Ludwig van Beethoven (traduzido para inglês como Beethoven as I Knew Him mas sem tradução portuguesa, que eu saiba). Directamente da fonte, para quem lê alemão ou sabe usar uma ferramenta de tradução online: «Eines Tages, als ich dem Meister den tiesen Eindruck geschildert, den die Sonaten in D moll und F moll (Op. 31 und 57) in der Bersammlung bei C. Czerny hervorgebracht und er in guter Stimmung war, bat ich ihn, mir den Schlüssel zu diesen Sonaten zu geben. Er erwiderte: "Lesen Sie nur Shakespeare's Sturm."»

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Sexo Mais Seguro: O prazer está nas tuas mãos

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O Sexo mais Seguro é não só útil para prevenir várias doenças desagradáveis, mortais, limitantes ou incómodas, mas também para tornar o sexo uma experiência mais agradável e divertida.


O Sexo mais Seguro é mais uma atitude crítica acerca da nossa postura e comportamento do que um conjunto de práticas. Neste workshopseg iremos reflectir em grupo sobre o conceito de redução de risco, falar de algumas técnicas mais comuns, e desmontar alguns preconceitos a seu respeito. Teremos activamente em conta que há mais géneros do que homem e mulher, e que há várias definições, muito pessoais ou não, do que sexo é.


As discussões e reflexões em grupo permitirão a cada participante encontrar a solução mais adequada para si próprix.


Workshop para mulheres e trans* de todos os géneros. Preço: 2 euros.


Terça feira, 22 de Dezembro, às 19.00 na UMAR. Rua de S. Lázaro 111.1o, Lisboa


Contactos e informações: antidote@imensis.net e dijk@walla.com