sábado, 31 de outubro de 2009

Procura-se bloggers para relações sérias

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O DILEMA DO BLOGGER
Postar ou não postar, eis a questão.


Tenho quatro meses acabadinhos de fazer, sou um blog descontraído e open minded, gosto de me divertir mas também de conversas sérias e estou aberto a novas experiências. Tenho muito para dar mas também quero receber.


Aos Sábados este espaço está aberto a contribuições não só dos nossos convidados mas também de quem quiser escrever.

Envie o seu texto (entre 50 e 500 palavras) sobre poliamor para polyportugal@gmail.com.


Aceita-se propostas de bloggers com ou sem experiência poliamorosa.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A pura relação e o poliamor - V

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Poder-se-ia pensar que eu me esqueci da pura relação, e do pobrezinho do Giddens. Mas não.

Da penúltima vez que o tema foi abordado, ficaram duas questões no ar. A mais importante delas: o que representa para o sujeito a pura relação?
Se vimos já que estamos perante a necessidade que o sujeito tem de se afirmar como independente, de se (re-)criar a si mesmo, então percebemos também que a relação codependente que fundamenta o romantismo clássico (oitocentista) funciona ao arrepio desta mesma dinâmica, ao negar o sujeito de um valor total. O sujeito não é completo enquanto não estiver acompanhado.

Pode argumentar-se que o humano é um ser eminentemente social, e que procurar ser-se humano sem se ser social é quimérico e, em última análise, impossível. Sim, é verdade. Mas a questão aqui não é posta em termos de uma solidão absoluta ou de uma presença constante. Já vimos que só nos podemos abrir aos outros se tivermos algo a abrir, se tivermos barreiras.

O problema aqui é o facto de apenas uma determinada e muito estrita forma de ligação inter-humana poder ser o caminho para esta totalidade. Apenas uma determinada e muito estrita forma de exprimir amor, com uma série de condições e de rituais associados, pode ser vista como conducente a esta completude.

Este determinismo normativo pode ser descrito da seguinte forma: necessitamos, todos nós, de uma forma específica de ligação a algo fora de nós mesmos para podermos ser entidades de pleno direito. Estranhamente, esta definição pode encaixar-se tão bem na ideia de que o amor romântico é indispensável, como na ideia de religião. Haverá por aqui uma religião da relação amorosa em vigor? Uma religião que ignore outras formas de estar?

A pura relação, por outro lado, apresenta-se como algo volátil. Instável. E é ambas estas coisas porque aquilo que sustenta a pura relação são os benefícios que cada pessoa envolvida pode daí retirar. Quem não se encontra satisfeito e não consegue sanar a questão termina o seu envolvimento. A presença de alguém não é nunca garantida, e a relação funciona para que cada sujeito possa, de certa forma, cuidar de si. Crescer, melhorar-se como elemento numa relação entre singulares e iguais, ao invés de numa amálgama indistinta de quase-seres.

Índice
A pura relação e o poliamor - I

A pura relação e o poliamor - I
I
A pura relação e o poliamor - III

A pura relação e o poliamor - IV

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Comer o bolo e ficar com ele

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Escrevo este post com uma semana de atraso, e espero não voltar a repetir a gracinha. Têm acontecido muitas coisas, todas boas, mas realmente o tempo não dá para tudo, e ultimamente os dias têm passado com uma velocidade alucinante.
Entre tudo o que poderia comentar, escolho um artigo com que me cruzei numa altura bastante conveniente. É grande e requer uma leitura cuidadosa, com o tempo que agora não tenho. Mas só o tema e uma leitura na diagonal me suscitam de imediato algumas ideias.
O conceito de self-care, que se aplica a toda a gente que tenha mais de uma actividade na vida (trabalho, família, amigos, amores, hobbies, etc.), faz ainda mais sentido quando se trata de gerir uma vida poly. Como diz Meg Barker, a dificuldade está em adaptarmo-nos a novas realidades trazidas por novas relações, em alturas em que temos tão pouco tempo para nós, precisamente devido ao tempo que essas relações nos ocupam.
A ideia é levarmos em conta a nossa relação com nós próprios. Considerá-la, se não como a nossa principal relação, pelo menos como mais uma, com as mesmas necessidades de tempo e dedicação que qualquer outra. Pensarão alguns que uma pessoa poly é alguém que tem muito amor para dar, e capacidade para o receber em igual proporção. Mas capacidade não implica necessidade. E imersos na cultura reinante de que estar sozinho é estar infeliz ou ser incapaz, acabamos por não conseguir explicar a alguém porque é que preterimos um jantar estimulante, seguido de noite escaldante, em favor de um serão em casa, com rolos na cabeça e esponjas entre os dedos dos pés.
Pessoalmente tenho tendência para me esquecer de (quase) tudo o resto quando começo uma nova relação. Deixa de haver tempo para ir ao ginásio, para ler, família e amigos começam a interrogar-se se terei sido atropelada. E dizer “não” começa a ser cada vez mais difícil, gerir todos os horários e sobreposições torna-se um quebra-cabeças, até ao ponto em que só me apetece desaparecer do mapa e não fazer absolutamente nada com absolutamente ninguém.
Fico cansada, durmo pouco, como mal e, basicamente, torno-me uma chata insuportável, susceptível a pequenos conflitos que requerem ainda mais tempo para serem sanados, e mais investimento nas relações para não sofrerem com isso.
Passei os últimos anos a tentar desenvolver esta capacidade de dizer “não” sem culpa, a esquivar-me à chantagem emocional, e a tentar ser clara quanto aos meus desejos. Mas a verdade é que a maior parte das vezes não digo que “não”, porque quero mesmo dizer “sim”. Quero estar com essa pessoa, e com a que me liga a seguir, e com a que já tinha ligado a semana passada, e ao mesmo tempo quero estar no ginásio, e quero ler, e quero dormir, não fazer nada, trabalhar e ir ao cinema.
Resumindo: Está aberta uma vaga para secretári@. Paga-se em tempo e dedicação a quem me conseguir encaixar isto tudo em 24 horas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

independência emocional

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a lara, a sofia, o daniel e outr@s têm escrito sobre as dificuldades que temos quando nos encantamos por alguém que não é poly, ou pelo menos não é imediatamente poly. por vezes temos desilusões.

tenho conversado bastante com a scarlet choche, nossa blogger convidada de há umas semanas, sobre este tema e as angústias que gera. no caso dela, sentiu-se muito desiludida quando foi "trocada", pelo namorado, por "outra" que só aceitava uma relação monogâmica, ou nada.

questiona-me regularmente sobre como lidar com a sua perda. deve ela procurar outra pessoa já ou deixar passar algum tempo?

o marido, de mais de vinte anos e pai dos seus três filh@s, acha que ela deve procurar outra pessoa imediatamente, isto por estar a vê-la tão infeliz.

é claro para mim que não há soluções mágicas para as perdas amorosas, seja-se poly ou não... é preciso fazer-se o luto. no entanto, acho que cada um@ tem de fazê-lo à sua maneira.

mas importante para o crescimento pessoal é a capacidade de criar uma independência emocional, por forma a não se depender de terceiros para a felicidade. não é fácil atingir-se esse patamar, mas é fundamental para poder participar em relações de forma saudável e igualitária.

se o conseguirmos, podemos sentir tod@s as emoções que a paixão/amor/sexualidade trazem e tirar prazer sem termos de estar preocupad@s com as hipotéticas consequências negativas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Poliamor lava mais branco

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No ano passado (2008), decidi ir pela primeira vez à Marcha do Orgulho LGBT, em Lisboa. Estava a começar a sentir necessidade de reacordar o meu espírito de activista, desta vez para reforçar o trabalho pioneiro das recém-conhecidas (e agora amigas e cobloguistas) Lara e Antidote na divulgação de uma imagem positiva do poliamor.

Além de colaborar muito ao de leve no panfleto criado especificamente para o efeito, decidi criar uma série de slogans para serem ditos durante a Marcha ou escritos em faixas. Aqui deixo, para me divertir mais tarde, alguns dos que fiz para essa marcha e para as seguintes de Lisboa e Porto. Espero que se divirtam também com alguns deles (outros são coisa mais sisuda e "respeitável").

Se alguém tiver ideias para slogans, venham elas! Para isso é que servem os comentários.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Denunciada pelo rol da lavadeira..

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Há alguns anitos estive deslocada noutra cidade em trabalho. A minha companhia mandou-me numa missão que deveria durar alguns meses. E como qualquer pessoa deslocada em trabalho, trabalhava que nem uma desalmada, e ainda queria aproveitar ao máximo o estar numa cidade nova. Por isso, e por não ter máquina de lavar no meu alojamento temporário, tinha de confiar os meus andrajos a uma lavandaria. E como qualquer pessoa deslocada em trabalho estava longe de quem me quer bem, na altura o meu namorado e a minha namorada. A lavandaria ficava (e ainda fica) num bairro muito popular, e era gerida por uma senhora protótipo desse mesmo bairro, mistura de bom senso, vontade de tratar bem o cliente, mas também de não deixar um comentário ou uma piada por atirar. No fundo todo um "natural cool" que se está a perder, mas que ainda de pode encontrar nalguns recantos da Mouraria em Lisboa, da Ribeira do Porto, etc

Quando era visitada pelos meus dois queridos, costumava pedir que me fossem levantar a roupa à lavandaria, porque esta costumava fechar muito cedo, enquanto eu ainda estava a trabalhar. Repetiu-se muitas vezes que as minhas roupas fossem deixadas por mim de manhã e levantadas por cada um deles no dia seguinte à tarde.

Isto prolongou-se vários meses. Um dia, a minha namorada é brindada com o seguinte comentário "Ai, quer as roupas da menina X? Muito bem, imagine que eu até sei onde elas estão... Imagine que já distingo quando ela tem o namorado ou a namorada cá só pela roupa que ela deixa".
Pensei se haveria de mudar de lavandaria com medo de enfrentar o tigre, mas deixei-me de merdas. Mas fiquei impressionada com a maneira como a minha vida foi posta a nu, eu que achava que era tão discreta. A mim ela nunca me disse nada, mas olhava-me de cima a baixo a medir a oportunidade de o fazer. E não, não lhe dei essa oportunidade.

domingo, 25 de outubro de 2009

Introdução ao Poliamor (III)

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A quantidade de informação disponível na Internet é já mais de 500 exabites (500 mil milhões de gigabites). As empresas que gerem motores de busca (Google, Microsoft, Yahoo, etc) têm vindo a indexar todos estes dados, de modo a facilitar qualquer pesquisa de conteúdos na Web. No entanto, o acesso à informação fidedigna nem sempre é fácil, pelo que a Google criou há dois anos um novo projecto chamado Knol (abreviatura de knowledge, «conhecimento»), onde os artigos são escritos por fontes supostamente credíveis. Ao contrário dessa extraordinária enciclopédia colectiva chamada Wikipédia, o Knol é assim uma espécie de enciclopédia online mais clássica.

Há pouco mais de um ano, um geek interessado no universo do poliamor (mas que aparentemente não é poly), chamado James O'Neill, publicou o knol Polyamory. Tem incorrecções de linguagem (ou, para ser menos politicamente correcto, não está lá muito bem escrito) mas cita muitíssimas fontes e, do ponto de vista do conteúdo, não parece ter grandes problemas.

Já aqui publicámos uma tradução do início das FAQ de Franklin Veaux e outra das FAQ do Loving More. Aqui fica agora um excerto deste knol, traduzido também para português:

O mantra poly
Desde os anos 80, e mais ainda desde os anos 90, a comunidade poly cresceu muitíssimo e tem vindo a partilhar, ao vivo e online, muitas lições aprendidas arduamente por tentativa e erro.
A experiência mostrou que, para perceber o que se passa com as emoções e pensamentos de cada um, é necessário criar o hábito de comunicar com abertura e honestidade; e que, na ausência dessa comunicação num grupo poly, é praticamente garantido que surgirão problemas. Comunicar o mais cedo possível os pensamentos e emoções (tanto positivos como negativos) previne ressentimentos e situações difíceis, ou força-os a serem postos sobre a mesa. Os parceiros não conseguem «ler a mente dos outros» e não têm «obrigação de perceber ou saber»; estes ideais fantasiados são rapidamente postos de lado pelas pessoas poly bem sucedidas. Quando surge um problema, há que ser aberto, honesto, calmo e compreensivo — e tudo poderá assim resolver-se por si. Algumas pessoas e grupos poly têm «reuniões de família» regulares a fim de promover o desanuviamento de problemas ainda em embrião. Quando não se consegue resolver problemas sérios, é possível procurar a ajuda de um conselheiro habituado a lidar com pessoas poly. Os livros Radical Honesty [sem tradução para português], Os Homens são de Marte, as Mulheres de Vénus e Nonviolent Communication [também sem tradução] podem contribuir com ferramentas para uma comunicação eficaz.