Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta família. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 16 de março de 2010

Contradições ou talvez não

Publicado por 
Tenho estado sem tempo para ler ou sequer reflectir sobre o poliamor e assuntos paralelos. O que não significa que esteja sem tempo para o viver. Contradição aparente, apenas. Muito trabalho não significa necessariamente pouca vida social / afectiva / familiar / sexual.

Algumas outras contradições aparentes de que me tenho apercebido ao longo da vida. Umas minhas, outras de pessoas amigas:
Padrões elevados não implicam baixa tolerância.
Desejos sôfregos não implicam ansiedades incontroláveis.
Expectativas elevadas não implicam grandes frustrações.
Lucidez extrema não implica autocontrolo frio.
Sensibilidade à flor da pele não implica falta de clarividência.
Ontem fui ver o último filme dos irmãos Coen, um monumento de humor negro, cómico e perturbante ao mesmo tempo, com uma precisão e uma emoção como poucos outros argumentistas e realizadores alguma vez conseguiram.

Aqui fica um momento do filme A Serious Man (Um homem sério), onde se pode ver o protagonista bastante confuso com as contradições da vida:


Talvez facilite uma transcrição:
LARRY
[…] I haven't been home a lot recently, I, uh, my wife and I are, uh, well, she's got me staying at the Jolly Roger, the little motel there on-
MRS. SAMSKY
You're in the doghouse, huh?
LARRY
Yeah, that's an understatement I guess, I -thank you-I, uh-
MRS. SAMSKY
Do you take advantage of the new freedoms?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ardores latinos

Publicado por 
Para eu mudar de estado de espírito, não preciso de um evento desencadeador após um acumular de tensões, ou de me cercar de atenções. Quero eu dizer: os preliminares podem nem sequer existir, que um simples agravo ou um único abraço podem activar instantaneamente o interruptor que me deixa de mau humor quando antes estava bem, ou feliz se estava mal.

Se me sinto ferido por alguém de quem gosto, e isso pode suceder com uma simples frase, posso de repente pôr tudo em causa, feito personagem de telenovela mexicana.

Parece que isto, assim mo dizem, será uma característica «feminina», normalmente relacionada com as variações hormonais do ciclo menstrual. Tenho sérias dúvidas. Por maior que seja a influência do período e de outras eventuais diferenças entre os géneros, acredito que as pessoas são todas diferentes, e esta minha idiossincrasia é tão de gaja como de menino mimado

Nem sequer vou continuar a falar das minhas peculiaridades, que teria aqui toda uma enciclopédia para escrever. De resto, tenho conhecido as atitudes e comportamentos mais estranhos não só em mim mas também nas pessoas que melhor conheço.

Um dos mais inquietantes traços de personalidade, que soube há pouco não fazer parte apenas do mundo das pessoas que vêem demasiados telefilmes nas tardes de domingo, é a de precisar de odiar alguém para depois voltar a gostar dessa pessoa.

Já não preocupante, mas certamente singular, é a necessidade que algumas pessoas têm de esconder dos outros que estão mal com alguém (ou que estão bem, também acontece).

Estas e outras singularidades conheço eu em pessoas que admiro (ou em mim próprio, que também tenho em boa conta), e serão possivelmente vestígios deixados pela maldita era do amor romântico. O que já acho definitivamente um exagero ultra-romântico, nada saudável por sinal, é a ideia de que «sem ti não sou ninguém».

O que vale é que, como disse no início, preciso de muito pouco para ficar feliz. Diário de hoje: acordar cedo e com ideias (bem disposto), ficar horas sozinho ao computador durante horas no silêncio absoluto da casa (a ficar mal dispostinho), almoçarada com toda a família (bem disposto de novo), a luz a ir-se abaixo e com ela o computador (mal disposto, agora sim), darem-me um abraço um pouco mais tarde (bem disposto de novo), ver uma comédia que me deu sono (boa disposição perdida), e por fim descobrir estas músicas e em particular o último vídeo (que, de tão ridiculamente melodramáticos, me põem extremamente bem disposto).

No domingo que passou, recebi uma mensagem duma pessoa que conheci há muito pouco tempo na Net, e a quem tinha dito que os suecos têm um dia dedicado a uma espécie de caracol de canela (acreditem que havia uma razão para lho dizer). E a mensagem era isto: "Thanks for telling me about Kanelbullens dag; that absolutely makes up for Valentines." Eu nem me tinha apercebido que era Dia dos Namorados, vejam lá o que eu ligo à coisa. Mas o que importa é que alguém ficou instantaneamente feliz com uma frase minha. Haja mais destas idiossincrasias!

__________________
Aqui vai alguma informação e excertos das letras destes extraordinários «valses peruanos» cantados de forma sublime pelo maior cantor equatoriano de todos os tempos, Julio Jaramillo.

“Interrogación”, de Minerva Valdez Olizondo (de quem não sei nada)
Ya no creo en nada | Hasta dudo de ti | Siento desconfianza | Ya no creo ni en mí

“Odiame”, letra sobre o poema “Último ruego”, do peruano Federico Barreto, música do seu compatriota Rafael Otero López
Odiame por piedad, yo te lo pido… | ¡Odiame sin medida ni clemencia! | Odio, quiero más que indiferencia | Porque el rencor hiere menos que el olvido. || Si tú me odias quedaré yo convencido | De que me amaste, mujer, con insistencia, | Pero ten presente, de acuerdo a la experiencia, | Que tan solo se odia a lo querido.

“Que nadie sepa mi sufrir”, valsa peruana composta na Argentina por Ángel Cabral, com uma mal amanhada letra escrita em colaboração com o também argentino Enrique Dizeo
Amor de mis amores | Si dejaste de quererme, | No hay cuidado que la gente | De eso no se enterará. || ¿Qué gano con decir | Que una mujer cambió mi suerte? | Se burlarán de mí, | Que nadie sepa mi sufrir.

“Alma mía”, do peruano Pedro Miguel Arrese
Fuiste tu todo mi ser, | Mi amor todo te lo entregue | El amor que te profeso, es el mas puro mujer | Si los lazos que nos unen se llegaran a romper | Que se acabe ahorita mismo la existencia de mi ser.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Carta Pessoal Aberta

Publicado por 
Car@s discriminador@s,

Vejo-vos a pregarem contra a existência de vários amores. Vejo-vos a falarem da infelicidade inerente a se ser poly. Mas não vos vejo, coerentemente, a falar da infelicidade de ser mono. Porque, espante-se!, a felicidade (ou infelicidade, pronto...) não se prende com a modalidade, e sim com a execução.

Considerar que alguém será automaticamente infeliz num ou noutro tipo de relação sem se considerar as pessoas envolvidas é estar a fazer uma clara petição de princípios que se limita, no fundo, a uma ingerência sobre a vida pessoal. Como podemos considerar saber o que outra pessoa irá sentir, irá fazer, irá achar. Que se considere, retrospectivamente, que ess@s discriminador@s tinham razão no resultado - não o terão nunca na razão fundamental que apresentam, porque não é possível divinar o futuro. Logo, qualquer coisa que peça poderes divinatórios estará por definição errada.

Por outro lado, vós sois quem causa o sofrimento contra o qual avisais. Com os vacticínios que fazeis, por supostas pias razões, estais a provocar o que alegadamente quereis impedir.

Deixem as pessoas ser felizes. Deixem as pessoas sofrer. Deixem as pessoas errar. Deixem as pessoas experimentar. Deixem as pessoas fazer-se.

A discriminação tem uma quota parte de medo e de vontade de poder.
Medo do que é diferente. Porque o que é diferente ameaça a supremacia e a certeza do que é igual, cria dúvida. E @s discriminador@s não lidam bem com a dúvida.
Vontade de poder, porque qualquer pessoa que entre num acto de discriminação quer, por esse meio, exercer poder. Poder de normalização, de aplainamento, de ortopedia. A disciplina pretende a ortopedia do sujeito. Pretende sujeitar o sujeito.

O sujeito pode, e deve, recusar essa ortopedia. O sujeito deve cuidar de si. Reflectir-se, pensar-se, criar-se. Cabe ao sujeito a ortopedia de si.

Que se reduza ao silêncio a voz peripatética, frágil, ilógica, mas altamente consequente, da discriminação.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Poliamor precoce

Publicado por 
O programa de televisão House Party (1945—1969) ficou famoso pela rubrica Kids Say the Darndest Things, onde o apresentador entrevistava crianças dos 5 aos 10 anos.

É sempre curioso ver o que as pessoas muito jovens pensam de assuntos «dos crescidos», em especial tudo o que diz respeito a relações afectivas. Ter três namoradas não é nada de muito invulgar no discurso duma criança. Mas este miúdo consegue surpreender-nos com muito mais do que isso:


Aqui vai uma transcrição resumida, que nem sempre é fácil de perceber o que eles dizem:

— Do you have a girlfriend?
- Three of them. They are older than me. I get the older ones because they are more mature and they got money and stuff.
— How much older are they then you?
- I have to ask my daddy over again. I think I know one is 30, that's the only one I know the age.
— Your daddy knows how old they are. How does he know?
- Because he's been seeing them for a long time.

No que se terá tornado este puto? Quantas namoradas terá agora? E o pai dele, terá sobrevivido bem a estas declarações?


Alteração (2013): Passados quase três anos, descobri que o programa não é o House Party mas sim um concurso chamado Child's Play. O rapaz chama-se Ronald Blair Wilkinson III e o apresentador à conversa com ele chama-se Bill Cullen. Isto passou-se em 1982 ou 83 e continuo sem saber o que é feito do rapaz passados trinta anos.

domingo, 27 de dezembro de 2009

My boyfriend's girlfriend isn't me

Publicado por 
Não há muitas músicas em que o tema seja explícita ou implicitamente o poliamor. Uma das mais claramente poliamorosas é de uma banda canadiana de rock a atirar para a comédia. A banda é pouco conhecida e chama-se Must Be Tuesday. A canção chama-se My Boyfrend's Girlfriend (Isn't Me)", ou simplesmente Boyfriend's Girlfriend e é possivelmente o maior sucesso deles.



There's lots of kinds of people in this world | and I'm, well, I'm not like other girls | How do I explain this properly? | My boyfriend's girlfriend isn't me

Well obviously one of them is | But there's another girl of his | And I know her and she knows me | and that would be great if it was just us three

But she has a guy who's even more pretty | and a long-distance thing in another city | He and his wife come by when they can | and they have a kid who calls me his aunt

Just when I thought it was all too crazy | I tried to draw our family tree | There's nothing wrong with extra love | But the paper wasn't big enough


Refrão:
Of all the ways I've ever dated | it's never been so complicated | The chain can extend to eternity | 'cause my boyfriend's girlfriend isn't me

We spent Christmas eve with my boyfriend's dad | Christmas day with my folks and the feast they had | New Years, he went to his girlfriend's city | I mean the one who isn't me

She brought him and her other guy | to her company picnic and I won't lie | I wasn't used to being alone | so I want someone new of my own

It isn't easy to find a fling | 'Cause when you hit on some tasty thing | They say "Aren't you with that guy?" | You say "Oh he doesn't mind.

Have you ever seen 'Big Love'? | Know what I mean, wink, wink, nudge, nudge…" | And they say "Oh, so you're a Mormon?" | "No! …I'll explain from the beginning…"


Refrão

When the partners get together, | the primaries and all the others, | we give the newbies a little primer | and we all get out our day timers

Calendars as far as the eye can see. | "When can I see you?" "When are you free?" | "Who gets me on my birthday?" and then | "Does anyone have an extra pen?"

The kids have the best celebration. | Gifts from three dozen odd relations. | There's Uncle Jackie's girlfriend, Mary, | Ed who is her secondary…

Ed's new boyfriend brought along | his ex, whose fling is going strong | with someone that I used to know | and just became my boyfriend's beau…


Refrão

A couch where four can snuggle up | Suddenly isn't big enough | And even so we don't give up. | There's no such thing as too much love.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

"Poly" Pocket

Publicado por 
Todos os anos por altura do Natal fico doente com esta coisa dos brinquedos para as crianças. Nem tanto com a febre consumista de que todos nos queixamos, e para a qual volta e meia nos descai o cartão de débito, mas com outra questão que, apesar de tudo, me parece mais chocante. A ideia de que há brinquedos para meninos e para meninas. Por mais que se ache que se fizeram já progressos enormes na dissipação de papéis de género, torna-se quase impossível para uma criança escapar a esta ditadura dicotómica de haver toda uma lista de coisas com as quais pode e não pode brincar. Todo um código de cores, tipos de letra, formas de embalagem, que no seu conjunto se referem a uma coisa ou outra. Nada de confusões ou ambiguidades.
Era assim há vinte anos, quando eu era criança, e continua a ser assim agora, sem tirar nem pôr. E depois venham-me com milhares de estudos, cientificamente comprovadíssimos, de que as mulheres são assim e os homens são assado. E venham-me pais com a conversa de que o filho e a filha foram educados exactamente da mesma maneira e olha, vá-se lá saber porquê, um tem mais raciocínio matemático e a outra tem mais propensão para a literatura. Enquanto não se mudarem estas condicionantes fortíssimas, qualquer estudo com base no género é tão sério como uma brincadeira de crianças.
Quando há uns anos a minha sobrinha tentava assimilar o divórcio dos pais, um dos conselhos da brilhante psicóloga da infantário, foi que lhe oferecessem no Natal famílias de bonecos tipo Barbie, que contivessem obrigatoriamente mamã, papá e filhotes. Para a criança não perder a referência de família. Ou seja, toma lá isto que não tem nada a ver com a tua realidade nem, mais cedo ou mais tarde, com a de quase nenhum dos teus amigos. Não vás tu lembrar-te de ser feliz de outra maneira.
Já eu, felizmente, tive a sorte de ter um irmão, o que nos possibilitou ter todo o espectro de brinquedos em casa. E o discernimento de os misturar todos, brincando em conjunto e multiplicando as possibilidades. Pessoalmente sempre desejei ter comboios, pistas de carrinhos e carros telecomandados. E uma das vantagens que o meu irmão via em ter uma irmãzinha, era poder brincar com as miniaturas de electrodomésticos que via nas montras.
Este Natal, enquanto lamento o facto de até as peças Lego (haverá coisa mais universal que o Lego?) virem numa caixa cor-de-rosinha para meninas, ponho-me a olhar para a embalagem da Polly e a fantasiar que se trata de uma personagem poliamorosa, com vários Ken’s e suas respectivas Skipper’s, que por sua vez são amigas da Barbie e fazem corridas de carros com os Legos do Espaço.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uma família é uma família

Publicado por 
No divisão da casa que destinámos para ser escritório, uma de nós trabalha neste momento ao computador, um outro relaxa ao computador, os restantes conversam sobre não sei o quê, e eu blogo. Há bocado jantámos, três de nós. Os outros ainda não tinham chegado, jantaram uma hora depois. À hora de almoço, eu e outro estivemos a tratar de assuntos com bancos por causa de um crédito. Durante o dia, eu tratei de assuntos diversos, em casa, e os outros nos empregos deles.

Se não fosse o número de pessoas, o que poderia distinguir este relato de um dia normal de um casal? Se não fosse o facto de não haver aqui pais, mães e filhos, qual a diferença entre isto e a vida de uma família convencional? Quem detectaria, pela descrição, que isto só poderia ser uma família intencional?

Daqui a pouco a noite chega ao fim e vai cada um para o seu quarto. Ou talvez haja quartos com mais do que um. Conforme estivermos ou não para aí virados.

Seis semanas ainda é uma experiência muito curta, claro, mas estou mesmo em crer que isto é para durar.

Uma amiga nossa escreveu há pouco no Facebook: "eh pá, grande grande pinta, tiro-vos o chapéu, vocês são fonte de inspiração…" Sabe bem ouvir isto. Qual activismo em marchas e encontros! Se a minha família for realmente fonte de inspiração, que o seja, e para quanto mais gente melhor.

Obrigado à Kerista e aos restantes pioneiros por terem contribuído para espalhar o conceito de não-monogamia responsável.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Tenho aqui uma dor...

Publicado por 
Às vezes tenho uns ataques agudos de “que lindo que seria um mundo poliamoroso”. E esta semana deu-me isto duas vezes. Apanha-me aqui esta zona toda, desde a boca do estômago até ao coração. Socos num e apertos no outro.
O primeiro ataque deu-me a ver a reportagem da SIC, “Filhos de pais em guerra”. Entre outras coisas, a prova de como o ciúme, a despeita e o medo irracional de ser menos amado se podem revelar completamente destrutivos. O final da reportagem pára qualquer digestão em curso.
O segundo achaque foi ontem na escola, a ouvir uma Directora de Turma informar-me do background dos alunos. Eu que acho sempre estas informações importantes, saí de lá sem saber se não preferia ter ficado na ignorância. O rol de desgraças e desamores que me foi desfiado sobre 27 criaturas que algum dia terão sido inocentes, deixou-me a engolir em seco. Quase todas as histórias passavam pelo capítulo “os pais divorciaram-se” e apenas uma incluía o “dão-se todos bem”. As outras incluíam episódios de abandono, alienação parental, instrumentalização e maus tratos psicológicos.

Num artigo que li há uns tempos, a jornalista imaginava como teria sido a história Clinton-Lewinski, se os envolvidos fossem poliamorosos:

“O presidente explica, com graça e dignidade, que ele e Monica estão apaixonados e que a primeira-dama tem conhecimento do relacionamento desde o início. Hillary diz à imprensa que aprova o relacionamento, com base na sua própria amizade e carinho por Monica. Esta junta-se a eles, e explicam que o seu relacionamento é uma tríade poliamorosa, em que os três são parceiros iguais, e que está aberta à inclusão de futuros parceiros.
Quando a imprensa, chocada, pretende saber como isso afectou a filha, Chelsea responde que agora tem três pais, que os ama a todos, e que tudo isto lhe ensinou muito sobre os benefícios de ser completamente honesta em todos os seus relacionamentos.”

E também eu dei por mim, nas duas ocasiões, a fantasiar como todas aquelas histórias podiam ser radicalmente diferentes. Com outros problemas, talvez. Porque o poliamor está longe de ser a panaceia para todos os males.
Mas a mera possibilidade de que as coisas possam ser diferentes, que nem todas as relações amorosas tenham que acabar em ódios militantes, não seria já um caminho pelo menos mais equilibrado? Se em vez de acabar, as coisas pudessem evoluir para outras formas, se as crianças deixassem de ter dois pais em casa para terem quatro ou mais, mesmo em casas diferentes.
Porque, como diz uma psicóloga na reportagem da SIC, a estabilidade provém da flexibilidade, e não de dormir todos os dias na mesma cama.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Balanças

Publicado por 
Tomar decisões é uma daquelas coisas complicadas que todos nós fazemos, todos os dias. Nem sempre pensamos muito, ou muito profundamente, nas que tomamos. Desde que dou aulas de Ética, apercebi-me ainda mais da quantidade industrial de formulações diferentes que tantas outras pessoas já inventaram para tentar resolver essa árdua tarefa de tomar decisões. O que me leva a concluir que, fundamentalmente, ninguém se decide no que toca a tomar decisões. =)

Causas e efeitos, princípios ou consequências, Bem e Mal - e tudo entre estas coisas. O problema é que, como somos constantemente relembrados, parece que só a racionalidade pura e mais abstracta conta para a tomada de decisões. O que, convenhamos, dificulta um bocado a árdua tarefa - ou não! - de tomar decisões com base em sentimentos e emoções. Não basta ir cuscar "O Erro de Descartes" para chegar lá, convenhamos.

Tomar a decisão de iniciar uma nova relação, ou de propor semelhante coisa, requer muito pensamento. Requer uma longa olhadela para a agenda (gasp!), para a(s) relação(ões) pré-existentes, para aquilo que sentimos... Requer coragem, também, para pedirmos a outra pessoa que se coloque no meio de uma situação que é, ainda e infelizmente, estranha ou sui generis. E mesmo para quem conhece, de fora, o poliamor, pode ser complexo dar também esse passo.

Para quem, seja de fora ou de dentro, se preocupa com todas as questões envolvidas - ou com tantas quantas consegue - arrisca-se a bater com a cabeça na parede com a complexidade envolvida. Com todos os sentimentos, com todas as possibilidades más, com todas as fragilidades. Isso às vezes faz com que seja difícil manter os olhos no alvo. E o alvo é sermos felizes, e termos relações felizes (com outr@s e connosco).

Manter os olhos no alvo requer também esquecermo-nos, durante momentos, do que pode correr mal e olhar para a potencialidade que as situações têm de correr bem. De podermos retirar delas algo de bom, uma aprendizagem, um sorriso, um novo amor. E quem não está directamente envolvido nas tomadas de decisão precisa também de ter a coragem de ousar abrir-se à novidade, à diferença; criar o espaço para que nasça ali alguma outra coisa.

Por isso é que falar de constelações familiares no poliamor faz tanto sentido. Mesmo naqueles casos em que nem toda a gente se relaciona com toda a gente - como os clássicos triângulos ou tríades - há, ainda assim, um envolvimento necessário de todas as pessoas. Todas se afectam mutuamente, para bem e para mal. Seja a nova pessoa que não quer perturbar as relações existentes de forma excessiva, ou as pessoas pré-existentes que também não queiram impedir que a nova relação floresça - isto para pegar nos bons exemplos.

E mesmo que isto pareça que se está a fazer malabarismos com balanças, a verdade é que também se cresce e se aprende muito. E, com empenho e um bocadinho de sorte, também se ama e se é amado. Muito mesmo. No meio de uma família-constelação.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Simplesmente... não casados

Publicado por 
Numa altura em que o casamento e o seu alargamento a casais do mesmo sexo está na ordem do dia, dou por mim a pensar porque é que as pessoas ainda se casam. Pessoalmente não tenho nenhuma vontade de promover uma cerimónia que oficialize qualquer uma das minhas relações. Não quero casar, creio que nunca quis, e agradeço que não me convidem para casamentos.
No entanto, é para mim claríssimo que quem o queira fazer deve ter essa liberdade. E só alguém com grandes palas nos olhos consegue acreditar que a homossexualidade tem alguma coisa a ver com a capacidade ou não de formar uma família funcional. Mas toda esta discussão sobre o casamento me parece sempre limitada, truncada, abafada pela polémica homo, que não é mais que uma falsa questão, já desde os gregos, ou desde que saímos da fase de ameba.
Mais do que discutir o sexo dos anjos casadoiros, interessar-me-ia discutir o próprio conceito de família. E dentro dessa linha discutir problemas pragmáticos e prementes, como a relação do Estado com a família, e consequentemente a grande injustiça que subsiste na diferença de tratamento entre pessoas casadas e “os outros”.
Nos Estados Unidos existe uma organização cujo trabalho se centra precisamente em combater estas injustiças. No site da Alternatives to Marriage Project, o poliamor surge na lista de “maneiras de ser não-casado”, na qual se incluem também outras alternativas importantes.
A associação promove acções em torno de assuntos como cuidados de saúde, segurança social, impostos, habitação, adopção e imigração. Todas elas ligadas aos direitos básicos de qualquer cidadão, atropelados diariamente por um Estado que se diz laico, mas cujas leis seguem uma definição muito própria e limitada do que é uma família.
É bem verdade que já temos uniões de facto, que eu própria usufruo de um belo seguro de saúde pago pela empresa onde o meu “unido” trabalha, mas não me agrada que haja regras específicas quanto à quantidade e qualidade dessas uniões. Que se criem outras regras, que se pague um extra por cada pessoa que usufrui de um determinado benefício, … Arranjem-se como entenderem, mas não me digam com quem, nem com quantos, é que posso formar uma família.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Família procura casa (ou «O Esquema»)

Publicado por 
Conversa telefónica em Setembro deste ano:

— Bom dia. Estou a ligar por causa dum apartamento T7, referência […].
— Bom dia. Estou aqui a ver. O apartamento tem as seguintes características: oito assoalhadas, blá-blá-blá e cozinha com 15 m². É uma família?

Hesitação por uma fracção de segundo. Será que legalmente uma família intencional é uma família? Será que o termo “família” é uma figura jurídica?

— Sim, somos uma família.


Nada a fazer, o tom é detectado.

— Uma família, pai, mãe e filhos?
— Porque é que quer saber?
— Porque a proprietária só quer famílias. Teve uma má experiência com estudantes…
— Não somos estudantes.
— Mas são um grupo de pessoas? Primos?
— Somos uma família. Três homens, três mulheres.

Pausa mínima.

— Três casais?
— Não, três homens e três mulheres.

Pausa de constrangimento? Estranheza?

— Pois, mas é que a proprietária quer mesmo uma família… hã… tradicional. Da última vez, deixaram-lhe a casa em muito mau estado, eu própria vi.
— Deixe-me tentar adivinhar. A proprietária quer, naturalmente, que lhe cuidem bem da casa. Talvez seja relevante saber que nós não somos adolescentes, somos todos adultos, profissionais — já um pouco impaciente —, lavadinhos…
— Bem, vou falar com a proprietária e logo digo alguma coisa na segunda-feira.

… … … … …

Escusado será dizer que a vendedora nunca mais disse nada.

Alterámos a abordagem. Passámos a ser mais pão, pão, queijo, queijo. Nada que impedisse um outro proprietário de nos dizer, assim que soube a quantidade de adultos que éramos:


— Não me agrada nada este esquema…

… … … … …

Mudámo-nos anteontem. E está-me a agradar imenso este esquema.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Comer o bolo e ficar com ele

Publicado por 
Escrevo este post com uma semana de atraso, e espero não voltar a repetir a gracinha. Têm acontecido muitas coisas, todas boas, mas realmente o tempo não dá para tudo, e ultimamente os dias têm passado com uma velocidade alucinante.
Entre tudo o que poderia comentar, escolho um artigo com que me cruzei numa altura bastante conveniente. É grande e requer uma leitura cuidadosa, com o tempo que agora não tenho. Mas só o tema e uma leitura na diagonal me suscitam de imediato algumas ideias.
O conceito de self-care, que se aplica a toda a gente que tenha mais de uma actividade na vida (trabalho, família, amigos, amores, hobbies, etc.), faz ainda mais sentido quando se trata de gerir uma vida poly. Como diz Meg Barker, a dificuldade está em adaptarmo-nos a novas realidades trazidas por novas relações, em alturas em que temos tão pouco tempo para nós, precisamente devido ao tempo que essas relações nos ocupam.
A ideia é levarmos em conta a nossa relação com nós próprios. Considerá-la, se não como a nossa principal relação, pelo menos como mais uma, com as mesmas necessidades de tempo e dedicação que qualquer outra. Pensarão alguns que uma pessoa poly é alguém que tem muito amor para dar, e capacidade para o receber em igual proporção. Mas capacidade não implica necessidade. E imersos na cultura reinante de que estar sozinho é estar infeliz ou ser incapaz, acabamos por não conseguir explicar a alguém porque é que preterimos um jantar estimulante, seguido de noite escaldante, em favor de um serão em casa, com rolos na cabeça e esponjas entre os dedos dos pés.
Pessoalmente tenho tendência para me esquecer de (quase) tudo o resto quando começo uma nova relação. Deixa de haver tempo para ir ao ginásio, para ler, família e amigos começam a interrogar-se se terei sido atropelada. E dizer “não” começa a ser cada vez mais difícil, gerir todos os horários e sobreposições torna-se um quebra-cabeças, até ao ponto em que só me apetece desaparecer do mapa e não fazer absolutamente nada com absolutamente ninguém.
Fico cansada, durmo pouco, como mal e, basicamente, torno-me uma chata insuportável, susceptível a pequenos conflitos que requerem ainda mais tempo para serem sanados, e mais investimento nas relações para não sofrerem com isso.
Passei os últimos anos a tentar desenvolver esta capacidade de dizer “não” sem culpa, a esquivar-me à chantagem emocional, e a tentar ser clara quanto aos meus desejos. Mas a verdade é que a maior parte das vezes não digo que “não”, porque quero mesmo dizer “sim”. Quero estar com essa pessoa, e com a que me liga a seguir, e com a que já tinha ligado a semana passada, e ao mesmo tempo quero estar no ginásio, e quero ler, e quero dormir, não fazer nada, trabalhar e ir ao cinema.
Resumindo: Está aberta uma vaga para secretári@. Paga-se em tempo e dedicação a quem me conseguir encaixar isto tudo em 24 horas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

o bitoque e a vagina

Publicado por 
há uma pastelaria em carcavelos que dá pelo nome de primavera. já lá está há muitos anos e por lá passaram gerações de pessoas de carcavelos. jovens, menos jovens, crianças e até os animais de estimação, que, embora agora fiquem à porta, pertencem ao grupo de frequentadores.

mas o que tem a primavera a ver com o poliamor? pouco ou nada, excepto...

que ao longo dos anos se foram juntando namorad@s (oficialmente hetero mas, aqui que ninguém nos ouve, eu sei que também houve namoros mais diversificados!) esses namoros, em muitos casos deram casamento... e filh@s... e sogr@s... e continuavam tod@s a frequentar a primavera...

mas, depois de algum tempo e fazendo jus às estatísticas, muit@s se divorciaram, e apesar de tudo não deixaram a primavera da mão... e mercê dessa continuidade, começou ali mesmo, sim, ali mesmo, uma nova ronda de namoros, tipo dança das cadeiras... novos casamentos, mais filh@s, e sogr@s, e sempre a frequentar a boa da primavera.

mas a primavera tem outra característica: pode-se comer aquilo que se quer e a qualquer hora. entre as 7 da manhã e as 10 da noite, come-se qualquer combinação, altera-se o que se quer e os empregados estão sempre bem dispostos e prontos a ajudar. se calhar é por isso que a primavera facilita esta maluqueira toda de namoros/casamentos/divórcios/casamentos/divórcios e filh@s de uns com filh@s de outros...

mas às 4 da tarde de domingo, entre dentadas do belo do bitoque e dois dedos de conversa com @s vári@s conhecid@s, penso cá para os meus botões como teriam sido estes últimos anos num ambiente poly... é que, em tantos dos casos, a amizade nunca deixou de existir!

ah! e a vagina, então...

na semana que passou li um artigo da eve ensler, sobrevivente de violação, autora dos monólogos da vagina e promotora do dia v, onde ela aborda a situação do realizador roman polanski... vou aqui deixar o link e recomendo a leitura deste texto sobre direitos humanos.

http://www.huffingtonpost.com/eve-ensler/does-the-brotherhood-of-f_b_305581.html

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Terceira pele

Publicado por 
Faz agora 20 anos, escrevi e publiquei, em conjunto com um colega e amigo, as ideias que tínhamos vindo a desenvolver em longas conversas sobre relações afectivas.
Pouco tempo antes, tinha surgido o conceito de «curtir»: estava mais próximo do que idealizávamos para uma relação mas ainda não era bem aquilo.
O pequeno ensaio-manifesto chamar-se-ia Amizade, enamoramento : A elaboração dos acasos e está agora online na íntegra.

A elaboração dos acasos
Uma das nossas referências mais importantes era o lindíssimo livro de Roland Barthes Fragmentos de um discurso amoroso, que tínhamos devorado com o prazer da descoberta de quem tem vinte e tal anos.

De entre as muitas frases memoráveis que poderia aqui citar, escolho uma em particular, pela sua relação irónica com o meu estado actual (de bolsos vazios e coração cheio):
Le cadeau est attouchement, sensualité: tu vas toucher ce que j'ai touché, une troisième peau nous unit. Je donne à X... un foulard et il le porte […]

A prenda é carícia, toque, sensualidade: vais tocar aquilo em que eu já toquei, ficamos unidos por uma terceira pele. Dou um lenço a X e ele usa-o […]
(Tradução minha)

Substitua-se agora «prenda» por «punalua» (pessoa amada da minha pessoa amada) e transforme-se assim o teu objecto amoroso numa terceira pele.

Enquanto escrevo isto, a minha terceira pele está no quarto ao lado, pele com pele com uma outra terceira pele. E eu sinto-me inequivocamente bem nesta minha nova pele.

African Elephant Skin

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Ainda cabe mais um?

Publicado por 
Ontem dei por mim a tentar explicar a alguém que tinha acabado de conhecer algo que, por me ser tão visceral, me custa pôr em palavras. Porque é que me faz sentido que uma pessoa, que já tem uma casa e um namorado com quem vive, considere abdicar dessa privacidade para ir viver com mais pessoas. Todas elas com casa própria, coisas próprias, gostos e personalidades próprias. Suspeito que esta pergunta, como outras, surja regularmente. E suspeito que me vá engasgar mais vezes. Que as palavras que me saiam da boca me pareçam sempre insuficientes para descrever o que talvez tenha sido sempre o meu sonho de família e comunhão.

Hoje vi um programa da TV3 no qual entram duas pessoas que conheci de perto e mais duas que espero conhecer em breve. Formam uma família. Duas mães, um pai e uma bebé. Conhecendo alguns pormenores de como a relação evoluiu, primeiro a dois, depois a três e por fim a quatro (e acredito que não se fiquem por aqui), não posso deixar de me emocionar com a felicidade deles.

Acredito mesmo que há vida para além do modelo pai-mãe-filhos, ou casal, ou viver-sozinho, e que pode ser uma vida feliz. Acredito que o ser humano possui uma capacidade infinita de partilha e de aprendizagem com os outros. E que cada um de nós se pode tornar todos os dias melhor pessoa se rodeado de amor, apoio e estímulos variados.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

dois maridos!... outra vez?

Publicado por 

há uns dias, sentado no sofá, descansadinho da vida, alegremente zapando pelos vários canais de tv (a maioria sem grande interesse, diga-se de passagem), parei num episódio da série ally mcbeal...

já vi, aos bocados, admito, alguns outros episódios de diferentes temporadas e concluo que o tema central é a procura (desesperada, na maioria dos casos) de amor à "antiga"... um homem e uma mulher com um objectivo ideal: o casamento.

mas este episódio em que parei com mais interesse e atenção abordava o casamento, sim, mas de uma mulher e dois homens. o escritório de advogados da ally foi contratado para defender a dita mulher contra a acusação de bigamia.

para ela, assim como para os seus dois maridos, não havia crime algum... estavam tod@s de acordo com a situação e amavam-se de coração. o primeiro era o namorado de infância, de quem ela não se imaginava alguma vez separada e o segundo, um colega de profissão, com quem partilhava um outro lado dela, mais ligado à sua vida como médica.

resumida, a situação era perfeita para @s três.

a linha da defesa foi qualquer coisa parecida com esta e a conclusão do julgamento foi de uma leve pena suspensa para a "infractora"...

como é habitual nesta série, um dos advogados encanta-se por alguém e neste episódio calhou ao bom do john apaixonar-se, naturalmente, pela cliente bígama. esta, depois dele lhe confessar os seus sentimentos, imediatamente se dispõe a abrir espaço no seu coração para mais um!

delicadamente, mas sem a julgar, john declina tal oferta... embora a sua face deixasse transparecer mágoa por não sentir capacidade de aceitar esta outra forma de amar.

provavelmente este caso teria outras consequências, em que no mínimo seria exigido um divórcio.

mas pouco importa.

aqui está em causa a liberdade de amar, assim como a liberdade de escolha para cada pessoa o fazer à sua maneira.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

igualdade ou comemos tod@s

Publicado por 
o movimento pela igualdade no acesso ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo (mpi) tem hoje mais um momento na sua existência. realiza-se esta noite, no hotel ibis saldanha, um encontro com representantes dos partidos com assento parlamentar. o objectivo deste encontro/debate é, naturalmente, clarificar as posições dos partidos em relação ao casamento civil para tod@s na próxima legislatura.

desde o seu início, em abril deste ano, que o mpi tem na lista de subscritores inúmeros nomes de pessoas poliamorosas ou polisimpatizantes, independentemente de estarem a favor, ou não, do casamento entre duas pessoas.

já experimentei o casamento e não o quero repetir. gosto de ter a liberdade de poder viver com quem quero e nas condições que escolher para esse relacionamento, seja ele qual for.

no entanto apoio o mpi.

a razão é muito simples e clara: quero viver numa sociedade inclusiva onde tod@s temos a liberdade de poder casar, querendo... pelo menos enquanto essa mesma sociedade insistir em manter a instituição casamento.

sábado, 5 de setembro de 2009

Os meus medos...

Publicado por 
Não, não tenho medo de cães grandes, só dos que mordem mesmo.
Ou melhor, há coisas que nos mordem e magoam mas talvez o pior seja o medo das coisas, que nós achamos, que nos podem magoar. Isto será específico de pessoa para pessoa.

Nas minhas poli-relações, pelo menos nas que são "full time", surgem-me alguns receios que não estão na relação em si mas no mundo que me rodeia.

Fazendo uma introspecção e analisando as coisas que me preocupam quando vivo as minhas relações, há claramente duas coisas que se destacam. Ambas se relacionam com a maneira como as pessoas que considero próximas podem encarar esta realidade poliamorosa na minha vida. Uma está relacionada com os amigos e outra com a família "tradicional" (biológica).
Estes medos são mais óbvios nestas relações "full time", e tenho duas neste momento, o que me tem feito pensar um pouco mais neste assunto. Tenho outras pessoas que amo, e com quem tenho intimidade, mas que vejo esporadicamente e cujas relações são vivenciadas de outras formas...

Nos meus amigos receio o tratamento e a hierarquização que podem dar às pessoas que amo, às minhas relações. Já o disse antes, não tenho relações primárias ou secundárias, não faço comparações e cada uma vale por si.
Mas os meus amigos podem não o fazer! E isso, vá lá, aborrece-me...
Resumindo, temo o dia em que alguém que me seja próximo trate um dos meus amores de forma diferente baseado nestes pressupostos com os quais não me identifico.

Na minha família "tradicional" temo a não aceitação. Penso que este problema será mais transversal e alcança muitos outros tipos de relações. Mas para quem vem de uma família super-tradicional e católica como a minha, estes medos intensificam-se!
Tudo bem, eu não devo explicações a ninguém, sou maior e vacinado... Mas a última coisa que quero é ver sofrer alguém de quem gosto, que amo.
Se puder evitá-lo, faço-o. E é o que tenho feito, ocultando a realidade, o que não me tem sido muito difícil pois não vivemos perto.

Não sei como costumam lidar com os vossos medos, eu não gosto de os ter à perna, e um dia destes, se tiver de ser, cai o Carmo e a Trindade!