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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Carta aberta do PolyPortugal à SIC Mulher

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No passado dia 22 de Novembro de 2012, a SIC Mulher emitiu, durante a sua programação, um curto segmento do programa “Mais Mulher” que dedicou ao tema “Poliamor”. Durante este segmento, Ana Rita Clara, a apresentadora, fez algumas perguntas a Pedro Lucas (director da revista Men’s Health), que retirava e fornecia as respostas a partir de uma fonte desconhecida.



O grupo PolyPortugal vem por este meio apresentar o seu repúdio pelos conteúdos de desinformação veiculados durante este programa, bem como pelo formato de apresentação dos mesmos. Consideramos que a forma como o conceito foi apresentado não corresponde a um mínimo de profissionalismo por parte dos profissionais de comunicação envolvidos no programa, especialmente se tomarmos em consideração que até uma rápida consulta pela Wikipédia teria trazido melhores e mais exactas informações do que as apresentadas.

É particularmente grave – e principal ponto de contenção desta carta – a perspectiva machista, patriarcal e homofóbica de que poliamor é “quando um homem tem várias mulheres e elas não se importam”. Esta suposta definição, que não encontra suporte em qualquer dicionário ou exploração académica, ignora o facto de que existem mulheres – muitas, proactivas e auto-determinadas, que fazem mais do que meramente “aceitar” aquilo que um homem deseja – em relações poliamorosas com vários homens, mulheres em relações poliamorosas com várias mulheres, mulheres em relações poliamorosas com vários homens e mulheres, pessoas transexuais e transgénero que não se identificam enquanto homens nem enquanto mulheres. Ignora também que existem igualmente homens em relações poliamorosas apenas com outros homens, ou com homens e mulheres. O que torna, por conseguinte, incompreensível o uso de uma expressão como “homem poliamor”.

Na sua pressa de se dirigir “às mulheres”, e de querer mostrar o que é ser “Mais Mulher”, o programa voltou a utilizar imagens objectificantes, retirando às mulheres a sua voz e a sua capacidade de auto-decisão; a usar o sarcasmo e a ironia ao mesmo tempo que alega “respeitar as decisões de cada pessoa”; a patologizar e diminuir as pessoas poliamorosas ao cruzar poliamor com “solidão”. Ser “Mais Mulher” parece não passar, para a SIC Mulher, por perceber que uma mulher pode efectivamente desejar estabelecer relações amorosas e/ou sexuais com mais do que uma pessoa ao mesmo tempo (por vezes, até, independentemente do sexo ou género dessas pessoas); e parece passar por falar do “verdadeiro homem” que “está só com uma mulher”, convocando o binarismo de género para elidir as experiências de tantas e tantos portuguesas e portugueses.

O PolyPortugal identifica-se como um grupo heterogéneo e defende a liberdade e a diversidade, tanto a nível sexual como relacional. O PolyPortugal esteve associado à organização da primeira Marcha do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros/Transexuais) do Porto, onde continuou a participar nos anos subsequentes, bem como na de Lisboa. O PolyPortugal tem também vindo a associar-se a outras iniciativas e grupos feministas. Por tudo o acima exposto, e assumindo o seu feminismo, o PolyPortugal não se revê em nenhum do conteúdo apresentado neste programa.

O PolyPortugal ademais recomenda que neste, como em qualquer outro assunto, os profissionais a cargo de contactar com o público assumam a responsabilidade ligada à sua actividade profissional, e se informem, ou busquem quem seja capaz de fornecer informação sobre um tema, ao invés de replicarem e alimentarem discriminação e desinformação.

O grupo PolyPortugal

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Contar cabeças

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Como é que se contam pessoas? Como é que se contam relações? O que é uma relação?

Já estive em tertúlias, programas variados, entrevistas aqui e ali, e um dos pontos que tento fazer passar é o de que existem mil e uma diferentes maneiras como, todos os dias, inserimos pequenos pedaços subtis de discriminação mono-normativa. Quando falamos de "relações a sério", quando falamos de "relações duradouras", quando falamos de "estar numa relação" - tudo uma série de marcadores 'oficiais' que dão credibilidade a uns tipos de relação, e a tiram a outros.

Costumo dizer que um one-night stand de 5 minutos é uma relação. E que uma amizade de 15 anos é uma relação. Mas quando dizemos "estou numa relação com X", os nossos interlocutores ficam com duas palavras a retinir-lhes na cabeça: sexo e paixão.

Tudo isto para dizer que há uma pergunta que me fazem constantemente, especialmente em entrevistas: Quantas relações tens?

Francamente, cada vez me custa mais responder a essa pergunta. Porque a resposta que eu dou remete constantemente para as relações que ocupam um papel mais nuclear na minha vida: as duas pessoas com quem estou a viver, e com quem tenho de facto relações românticas. A realidade, porém, é que bastaria alargar um pouco que fosse a definição de "relação", ou mesmo de "relação poliamorosa", e teria que incluir mais do que essas duas pessoas. Muitas vezes, acabo a não o fazer. E, muitas vezes também, essas "outras" relações - essas outras pessoas - acabam a não ter, também, visibilidade social (dentro do meu círculo social, entenda-se), quase como se não existissem. Quase como se não fossem importantes para mim. E, no entanto, são-no, profundamente.

Incomoda-me - e é isso que quero partilhar aqui - a minha cumplicidade na criação e reprodução de um sistema de privilégios. Privilégio de quem é relação a sério sobre quem não é. Privilégio de quem é visível sobre quem não é. Para mim, isso está errado e é profundamente desrespeitoso para com pessoas que escolheram partilhar uma parte das suas vidas, do seu tempo, e da sua pachorra, comigo.

(Por outro lado, deixo aqui a ressalva de que também defendo a possibilidade de alguma dessas pessoas - ou outras que nada tenham que ver comigo, noutras relações com outras pessoas - quererem ou precisarem de ficar dentro dessa invisibilidade.)

A essas pessoas, que posso ter deixado à sombra e desconsiderado: desculpem. É algo em que estou activamente a trabalhar.

sábado, 21 de abril de 2012

Carta Aberta a Quintino Aires

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Caro Dr. Quintino Aires

Queria agradecer-lhe pelo muito que aprendi recentemente consigo no programa “A Hora do Sexo” da Antena 3. As suas palavras nos dias 7 e 30 de Março tiveram um efeito revelador sobre mim, que transformou radicalmente a minha visão do mundo e de mim mesma.

Finalmente, alguém capaz de me explicar preto-no-branco o que é o amor, e como se distingue de outras relações que não tem nada a ver, como o afecto entre pais e filhos, ou a amizade. Tanta poesia, tantos filmes, tantas canções, tanta gente a gastar dinheiro no psicólogo quando afinal é muito simples: basta verificar se há sexo oral. Afinal, uma mãe não faz sexo oral a um filho (e se faz, temos aqui uma situação crítica que inclusive é crime). Contra factos não há argumentos. Percebo agora a sua convicção de que não é possível amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo – realmente, é tecnicamente complicado fazer sexo oral a duas pessoas em simultâneo, e a três ou mais é talvez impossível. Vou tentar e depois logo lhe digo.

Mas, sabe (e tenho uma certa vergonha em admitir isto), eu continuo a achar que se calhar há outros aspectos do amor para além do sexo oral. Mas as suas palavras fizeram-me perceber que essa minha visão é simplesmente imatura, dado que ainda nao atingi o estado de desenvolvimento intelectual e emocional que me permite reconhecer o amor como uma relação que só pode acontecer entre duas pessoas. Percebi que o amor faz parte da inteligência, mas que com a inteligencia vem necessariamente a monogamia; logo alguém que ama uma pessoa é inteligente mas alguém que ama duas ou três tem o cérebro atrofiado. Da mesma forma que alguém um milhão de euros é rico, mas com dois ou três milhões é pobre.

Mas onde as suas palavras me tocaram realmente foi na forma como me permitiu perceber pela primeira vez a distinção entre a pessoa (o ser humano), e a espécie humana (Homo sapiens sapiens). As diferenças são claras e estão à vista de todos. O ser humano é monogâmico, a espécie é poligâmica. As pessoas fazem sexo, os indivíduos H. s. sapiens abordam-se uns aos outros. Consequentemente, o ser humano só pode ser compreendida recorrendo à Psicologia, enquanto a espécie humana é perfeitamente explicável pela Biologia. Nem queira saber a crise existencial que me causou saber que sou da espécie humana mas não um ser humano, uma pessoa. Mas explica muita coisa e fico-lhe eternamente grata.

Dr. Aires, esta sua visão é revolucionária, um salto quântico na nossa compreensão de nós mesmos. Está a desperdiçar o seu intelecto neste programeca de rádio quando o mundo inteiro precisa de saber estas coisas. Encorajo-o enfaticamente a escreva um artigo para a Nature, a fazer uma TED Talk sobre isto – o Dr. Aires é a nossa grande esperança para o próximo Prémio Nobel Português!

Um grande bem-haja

A.


PS: Transcrevo em baixo os extractos dos programas que mais me inspiraram, porque isto que diz é demasiado importante para não ser difundido.

A Hora do Sexo 07/03/2012

Raquel Bulha: “Vamos falar do poliamor. [...] Poli implica muita gente, gostar de muita gente, amar muita gente?”

Dr. Quintino Aires: “Não, não, não; gostar. Desejar, muita gente, no máximo; agora amar não. Amar é sempre uma relação só entre duas pessoas, dois adultos, o que implica também uma estruturação psicológica que uma criança ou um adolescente não pode, não consegue ainda.”

Raquel Bulha: “Sim, portanto há uma estruturação emocional amadurecida.”

Dr. Quintino Aires: “Exactamente. É só entre duas pessoas, não pode ser com muitas pessoas. Poliamor é uma expressão que dá jeito para quem não atingiu ainda esse estado de desenvolvimento.”

A Hora do Sexo 30/3/2012

Dr. Quintino Aires: “A espécie Homo sapiens sapiens não é monogâmica; a pessoa, o ser humano, é monogâmico. O que é que isto quer dizer: quando nós nascemos com informação genética tal como há 400 mil anos atrás, ou como quando há 100 mil anos antes da linguagem, antes da fala, funcionávamos na selva, na verdade não éramos monogâmicos, e portanto abordávamos-mos uns aos outros, mas também não fazíamos sexo. Quando nós evoluímos e o cérebro humano pode começar a transformar-se, aumentar em 50% pela relação que estabelece com as outras pessoas e pelo uso da linguagem, aumentar em 50% o tecido cerebral que o suporta e que lhe permite responder e tornar-se inteligente, quando se tornou inteligente, [...] aí já é monogâmico.”

[...]

Dr. Quintino Aires: “O amor é uma característica, é uma categoria psicológica, o amor faz parte da inteligência. E portanto [...] sendo uma característica psicológica [...] que portanto tem a ver com a inteligência, não é explicável pela biologia, apenas é explicável pela psicologia. Qual é o erro técnico científico grave que existe neste email, e que se repete muito, pelo menos em Portugal repete-se muito. É dar uma explicação de um fenómeno psicológico com base em leis da biologia. Portanto, se nós olharmos para a espécie Homo sapiens sapiens com os olhos da biologia (uma ciência lindíssima, importantíssima para entendermos a vida) então é verdade que [...] é poligâmico. Agora se olharmos com os olhos da psicologia e se quisermos falar de amor, então só podemos falar de amor ou de sexo dentro da psicologia, aí temos que reconhecer que é monogâmico.

[...]

Carta do ouvinte: “[...] o amor que se tem para dar (ou não), depende de cada individuo, e discordo que uma pessoa não seja capaz de amar 2 ou 3 outras pessoas.”

Dr. Quintino Aires: “Não, amar não. Diga desejar, ter vontade de fazer sexo, isso é outra coisa.”

Carta do ouvinte: “De facto, existem vários tipos de amor, e por certo ninguém vai considerar que uma mãe só consegue amar um filho, certo?”

Dr. Quintino Aires: “Não tem nada a ver, estás a ver o que eu tava-te a dizer Raquel?”

Raquel Bulha: “O amor não é entre mãe e filho.”

Dr. Quintino Aires: “Claro, a mãe não faz sexo oral ao filho.”

Raquel Bulha: “Ó pá, por favor Quintino!”

Dr. Quintino Aires: “Ó Raquel, temos que falar as coisas se não as pessoas não pensam.”

Raquel Bulha: “Sim, claro...”

Dr. Quintino Aires: “Uma mãe faz sexo oral ao filho?”

Raquel Bulha: “Não.”

Dr. Quintino Aires: “E se faz, temos aqui uma situação crítica que inclusive é crime. [...] Temos que ter cuidado com as palavras. A mãe sente afecto pelo filho, dois amigos sentem amizade, duas pessoas que estão apaixonadas e se amam sentem amor, mas então é outra categoria.”

sábado, 7 de abril de 2012

Os perigosos peritos

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Pois é Joaquim… seria descabido tratarmo-nos com cerimónias, chamá-lo Dr. Quintino Aires não valorizaria o conhecimento profundo que tem sobre mim e os meus sentimentos. Assim prefiro trata-lo pelo seu nome, quero sentir-me tão próxima de si como se sente de mim…

Quando ouvi os seus comentários sobre poliamor na Hora do Sexo, a minha reacção instintiva foi procurar o seu carro e furar-lhe os quatro pneus….mas como sou civilizada pensei: “Mas o Quim é só humano, não fez por mal. Infelizmente, acredita mesmo que sabe do que está a falar.” E pronto, o meu coração amoleceu, e os seus pneus Joaquim ficaram em segurança.

Mas…. Porque a falta de consciência é perigosa, sinto-me obrigada a conversar consigo Joaquim, para o seu próprio bem, para o ajudar a pensar, tal como o próprio Joaquim diz "Temos que falar as coisas porque senão as pessoas não pensam", diria até mais, para o ajudar a sentir. Porque ao ouvi-lo falar senti coisas, senti-me por exemplo como aquelas crianças de quem os pais falam na sua presença como se não estivessem lá. Senti-me triste, zangada, desrespeitada nos meus sentimentos.

Se o seu programa não é um receituário de sexo, então qualquer coisa não funcionou desta vez, o Joaquim disse-nos com clareza o que podemos ou não sentir se quisermos fazer parte do clube privado que é a humanidade. E de facto Quim, às vezes um quadrado cabe dentro do círculo outras não, sabe porquê? Porque há círculos de todos os tamanhos e quadrados também. Erro técnico…

E se o Ser Humano é monogâmico, então muito me conta, nesse caso, todos os povos poligâmicos e poliândricos não são humanos…. Não aumentaram o cérebro como os outros. Erro técnico? Espero que sim, porque a outra alternativa é assustadora, sobretudo num especialista, num professor que forma as mentes dos jovens.

E porque é uma área que me apaixona, a ligação corpo-mente, espanta-me que alguém que dá aulas de Neuropsicologia, diga em público que a biologia não tem a ver com a psicologia… lá se iria por terra tanto bom estudo e investigação que mostram o contrário. Teriamos portanto biologia de um lado, e psicologia do outro, nada de misturas para não sujar a segunda com a primeira?

“Temos que reconhecer que o ser humano é monogâmico”. Pois, lamento mas não temos, eu não reconheço, nem eu nem muitas outras pessoas que como eu. Parece-me que o senhor acha que o que distingue os afectos é a presença ou ausência de sexo oral. Embora considere tecnicamente exigente fazer sexo oral a duas pessoas ao mesmo tempo, consigo com certeza amá-las ao mesmo tempo, o que me tornará aos seus olhos um caso óbvio de imaturidade cerebral e subdesenvolvimento emocional.

Mas sabe uma coisa Joaquim, eu não o autorizei a definir-me, nem a si nem a nenhum “especialista”. E até estou a tentar respeitar os seus sentimentos, embora não tenha respeitado os meus, porque está a chamar-me e a todas as pessoas que acreditam ou vivem em poliamor idiotas ou mentirosas. Parece-se muito como um daltónico a rir-se das pessoas que “acham que vêem outras cores”.

Os “especialistas” sempre foram bons a definir o que era normal e anormal e graças a eles que têm a certeza daquilo em que acreditam, houve boa gente que passou muito maus bocados, simplesmente por não fazerem parte da opinião dominante da altura … e se há uma coisa em que os “especialistas” são “especialistas” é em mudar de opinião… mas isso já não apaga o que está feito pois não? E também gostam muito é de dar opiniões acerca de coisas que não experimentaram. O Joaquim já esteve envolvido numa relação poliamorosa assumida? É amigo de alguma família poliamorosa? Conhece sequer alguém que o seja? O tudo o que diz é baseado em teorias?

É demasiado fácil escudar-se atrás de uma de muitas teorias científicas para “provar” que quem é diferente de si tem uma falha no desenvolvimento. Teorias são coisas engraçadas, servem geralmente para provar que aquilo que achamos certo é melhor do que o que o vizinho acha certo. E que há uma verdade única que deve servir para toda a gente. Para mim Joaquim, as verdades são como os remédios, o que funciona para um, pode matar o outro.

E só para não acabar sem corrigir alguns erros técnico, numa relação poliamorosa ninguém está sempre nada, excepto vivo. “No poliamor cada um dos envolvidos está sempre envolvido com muitos outros….”, bem Joaquim só se for no seu caso. Isso implicaria uma de duas coisas: a obrigatoriedade de amar um número certo de pessoas, que é exactamente o contrário do poliamor, ou então a obrigatoriedade de se envolver com pessoas que não se ama para manter os números no sítio, o que é igualmente o contrário do poliamor. Pois, aqui o que conta não são os números nem as médias, ninguém está a tentar provar que é normal. O que importa são as pessoas.

E é verdade que há umas pessoas “patológicas”, porque não correspondem a norma e não têm ciúme, sentem até compersion (vá ao Google, Joaquim), mas eu preocupar-me-ia mais com aquelas pessoas que são ciúmentas e por isso são capazes de atrocidades para com as pessoas que “amam” do que comnosco que dê lá a volta que der não incomodamos ninguém (a não ser alguma mente puritana e um tudo nada retrógrada).

Portanto infelizmente acho que houve mais um pequeno erro técnico, esteve a falar de algo que com certeza não se chama poliamor, talvez Joaquimamor ou eventualmente algo que só existe na sua cabeça. O que existe na realidade são pessoas comuns que vão ao supermercado, cozinham , cuidam dos filhos, acordam rabujentas, passeiam na praia, lidam com os seus sentimentos tal como o Joaquim. Só diferem numa coisa, conseguem amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo. Já sei que não compreende, não faz mal Joaquim, não há problema, ninguém consegue compreender tudo, eu com certeza não o compreendo a si, é suficiente aceitar.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A (má) Hora do Sexo

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Já foi há uns dias valentes, mas reparei que o programa "A Hora do Sexo", da Antena 3, voltou a pegar no tema do poliamor (e digo "voltou", porque já lá tinham passado em 2009). E, como não há fome que não dê em fartura, foram logo duas vezes (a primeira aqui, e a segunda aqui). Se se sentirem tentadxs a ir ouvir os dois pequenos programas, de cinco minutos cada um, recomendo que tenham por perto uma bola anti-stress.

A versão resumida das divagações de Quintino Aires é a seguinte: o homo sapiens sapiens é por natureza genética não-monogâmico, mas o ser humano é, por desenvolvimento cerebral, acesso à linguagem e superior inteligência, monogâmico. O "poliamor", por conseguinte, é: a) impossível, porque não podemos amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, apenas desejar ou 'gostar'; b) uma desculpa para pessoas que desejam entrar em comportamentos promíscuos e usam os sentimentos para produzir um discurso politicamente correcto.

Quintino Aires comete tantos atropelos científicos em dez minutos que até faz doer.

Primeiro, ele pretende separar biologia de psicologia (mas é professor de neuropsicologia), de uma forma que faria o António Damásio ter um esgar de dor. Para Quintino, a psicologia de um indivíduo não é mais do que a acção do social sobre o dito indivíduo, uma espécie de transposição de um conteúdo para outro meio. Assim sendo, tecer considerações sobre a natureza genética ou biológica dos indivíduos é inútil, para ele. Ora, com algumas reticências, até aí eu concordo. Mas o passo seguinte é que me fascina. Porque se o nosso funcionamento psicológico é socialmente determinado, isso quer dizer que os nosso sentimentos, conceitos, etc (entre os quais Quintino acertadamente inclui o amor) são socialmente relativos. Ou seja, não têm mais existência objectiva do que aquela que um determinado contexto social cria.
Assim sendo, como é possível sustentar uma definição única, e objectiva, de amor? Se o amor é algo criado psicologicamente, então as diferentes psicologias humanas irão criar diferentes amores, e diferentes formas de amor, necessariamente!

Em segundo lugar, faz equacionar inteligência (neurológica) a uma suposta evolução cultural unívoca e teleológica. Será que desconhece a vasta quantidade de sociedades não-monogâmicas (patriarcais e matriarcais) existentes desde o surgimento do homo sapiens sapiens?

Por último: esta ideia de que não é possível amar mais do que uma pessoa (e que se prende com o primeiro ponto). Como dizem os ingleses... "says who?". Que provas apresenta Quintino Aires para esta afirmação totalmente anti-científica? Pois... nenhumas. É um problema deste tipo de afirmações, feitas com o peso institucional, mas com total irresponsabilidade científica.

No fim de contas, o mais triste é ver supostos especialistas a deixarem os seus conhecimentos de lado, para manipularem a informação que possuem de forma a fazer passar determinadas crenças e ideologias como sendo científicas, verdadeiras, factos terminados. E é contra esta má ciência, e contra esta má divulgação científica - que é uma falha do serviço público que os media Estatais deveriam prestar - que precisamos de protestar, de lutar, e de chamar a atenção.

PS - Não, Quintino, não... Uma sociedade "poliândrica" é aquela onde uma pessoa tem vários parceiros masculinos! E sim, um quadrado cabe dentro de um círculo - a quadratura do círculo é outra coisa completamente diferente...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Stand by

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Há uma sensação de estranheza quando uma relação acaba, muitas das vezes. Mas não há uma sensação menor de estranheza quando uma relação é posta no frigorífico ou, melhor dizendo, na prateleira.
Eu já aqui falei de poliamor e seus amor(es), diferentes visões da palavra e de como as amizades, ao implicarem intimidade, podem também circular à volta de práticas sexuais que alimentem essa mesma dinâmica de intimidade.

As minhas relações (poli-)amorosas não são todas românticas. Também não são relações de primeira e segunda categoria, são relações que passam por uma panóplia de experiências e tonalidades diferentes que podem misturar várias emoções, práticas eróticas, etc. Isto funciona precisamente porque, tendo cada uma das relações a sua especificidade, nenhuma está intrinsecamente valorizada face a outra (já cheguei, há anos atrás, quando estava ainda a descobrir esta coisa de como ser poliamoroso, a perigar uma relação de “namoro” por uma relação de amizade em que também existia sexo).

Só que, obviamente, nem toda a gente opera segundo os mesmos princípios, e o que acontece é uma descoincidência entre aquilo que se diz fazer, e aquilo que se faz na mesma. Porque, pela minha experiência, o que acaba a acontecer é que as relações de amizade (com sexo também) são vistas como não sendo “a sério”. Porque “a sério” é um namoro. A sério é alguém que se pode levar aos pais, apresentar e falar explicitamente sobre a existência de uma relação. E aí, a componente íntima sexual, ao invés de passar a ser uma parte integrante da relação de amizade, é um módulo externo a ela, sem a qual ela deverá passar tão bem como quando existe (dando provas da sua irrelevância, então?).

O resultado de uma visão hierarquizada das relações (ou do tipo de relações que se deve ter) é precisamente este: quando uma relação socialmente valorada como superior aparece no horizonte de possibilidades, então aquilo que existe perde importância relativa e torna-se passível de ser descartado.

Conheço várias pessoas que me dizem que isto tem que ver com “respeitar” a pessoa com quem iniciam essa nova relação. Tem que se respeitar os desejos monogâmicos dessa pessoa mesmo quando esses desejos são antitéticos aos de quem toma a decisão de secundarizar outras relações, já íntimas (supostamente) e duradouras (factualmente). Estranha coisa esta, que alguém entre num modelo de relação que não é aquele que mais deseja, por “respeito” a esse desejo de monogamia – porque é que tem que ser o desejo de monogamia a ser superiormente respeitado, face ao desejo de não-monogamia? Se fosse ao contrário, não se falaria de respeito: falar-se-ia de uma cedência ou sacrifício que a pessoa monogâmica faria em aceitar os comportamentos não-monogâmicos da pessoa por quem se apaixonou. E como este acto de respeito (acho que conseguem ouvir o sarcasmo através do computador!) é, apesar de tudo, muitas vezes feito um pouco a contra-gosto, então põe-se essa componente sexual / íntima na prateleira… até haver disponibilidade de lá ir buscar novamente (até já não ser preciso respeitar mais ninguém, parece). Porque a posição normativa é de respeito… as outras são uma violência, uma agressão a que algumas pessoas se sujeitam, então não se vê logo?!...

No meio disto tudo, onde fica o respeito pela relação pré-existente e pela sua especificidade? Onde fica o respeito que a pessoa tem por si mesma, pelas suas escolhas, e pelas suas preferências não-monogâmicas? E onde está o respeito vindo da tal nova pessoa, que vai ocupar o lugar “cimeiro”, e que se apaixona por alguém que é não-monogâmico, sem atenção ao ecossistema de relações que essa pessoa já tem, e apenas sob a condição de essa pessoa deixar de ser, em parte, quem era/é?

sábado, 7 de janeiro de 2012

Poly Happy, Happy Poly?

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O poliamor, a bissexualidade e outros temas "estranhos" e muito à frente chegaram há algum tempo às revistas femininas. A última foi a Happy Woman de Dezembro que comprei para poder ler o artigo, não sem no acto da compra a minha cabeça ter ficado a latejar ao aperceber-me do módico preço: 2,50 € por 200 e tal páginas por mês - um preço em conta nos tempos que correm (não admira que se venda).

Como poliamorosa é sempre interessante para mim ver o discurso indirecto que sobre a minha vida se faz e quase nunca há um efeito de identificação com o que leio. As reacções podem ir da gargalhada à fúria gelada, mas nunca olhei para uma reportagem e disse: ora, aqui está como me sinto e vivo. Pois é. Sei bem dos constrangimentos da profissão - ou não fosse essa a minha formação, mas não tenho qualquer empatia por recriações ilusórias de realidades supostamente não ficcionadas. Esta foi mais uma dessas.

Há uma série de coisas que as pessoas que escrevem sobre poliamor deviam entender de uma vez por todas (ordem perfeitamente aleatória):

1) O poliamor não é uma tendência.
2) Eu não estou na moda.
3) Nós não somos adeptos (para o caso de não terem reparado, isto não é futebol).
4) Também não somos uma corrente ou movimento.
5) Nós não somos "eles" - uma senda qualquer obscura de pessoas estranhas com opções esquisitas que fazem coisas numa qualquer realidade paralela que não vai certamente tocar nos leitores das revistas. Porque os leitores das revistas às vezes (!) são bissexuais, lésbicas, transgéneros e até... poly. Que estranho!

Se calhar é por isso mesmo que o director da revista achou por bem escrever um editorial a prevenir as leitoras para a terrível ameaça do fim da monogamia - e cito, «No dia em que acreditar nisso [morte da monogamia] tenho de pensar que a amizade sincera, o altruísmo, o amor sem interesses, a paixão pura e desinteressada... são pura ficção».

Para além de não perceber a correlação entre monogamia e todas estas elevadíssimas categorias e acções morais, deixa-me ainda mais preocupada a assumpção fascinante de que só as pessoas monógamas serão capazes de tais atitudes benéficas...

(neste ponto, pergunto-me: se há uma ligação tão óbvia entre todas estas coisas, porque é que há tantos problemas num mundo supostamente monógamo? Não deveria ser tudo perfeito, senhor editor?)

E continua: «Estou convencido que quase todos procuramos, no fundo, a monogamia». Para além de eu ter medo destes "fundos" essenciais - têm sempre qualquer coisa de abissal e a mim faz-me um bocado confusão a ideia de que a verdade de todos nós se encontre sempre no fundo de qualquer coisa (ajuda a perceber porque é que a honestidade parece ser tarefa titânica) - também tenho medo de andarmos todos à procura do mesmo - e mais ainda de isso ser certeza absoluta de alguém que não me conhece. Mas pronto, há o termo "quase", «quase todos» - afinal não são todos (já agora, todxs), mas para quê pensar nos que NÃO pensam ou agem assim (não importa que "esses" sejam o tema da reportagem em destaque na capa).

E se de falácias não estivermos ainda fartos, ainda temos umas quantas mais: a monogamia leva-nos «a outro patamar» (divino? ancestral? surreal? abissal? hum?); ajuda-nos a encontrar o «verdadeiro eu» (mas que raio é isso?) e por fim, «tudo está construído hoje para acreditarmos que a monogamia é algo passado e fora de moda» - e eu que pensei que era nestas condições que estava o Feminismo, mas afinal não, é a monogamia à qual se dedicam todos os filmes, livros, Disney, reportagens, notícias, consumismo, rotinas, instituições, etc etc etc... imagino se ela estivesse na moda, o que não seria.

Depois de ler um editorial destes, que já tudo interpretou por nós, o que sobra às leitoras da revista fazerem? Guardarem o cérebro a sete chaves e verem se não o usam durante a leitura da reportagem, que é para a sua concepção de mundo não ser alterada (ou a concepção do editorial?)

/sarcasm mode off.

E pronto, não tenho mais nada a dizer. Think for yourselves.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Pedro não sofre de poliamor, não

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Portugal inteiro, ou perto disso, por esta altura já sabe que o Pedro, da Casa dos Segredos 2 (programa da TVI) “sofre de poliamor”. Longe de mim não gostar da disseminação, mas a frase em si levou-me a pensar no que é “sofrer de…” alguma coisa, e como é que isso precisa de ser lido historicamente e ao nível de uma política das identidades.

Há muito tempo atrás, e para dar um exemplo como poderia dar vários outros, a figura do homossexual foi criada. O homossexual foi criado. E foi criado precisamente dentro do contexto de uma patologia. A homossexualidade era uma doença, uma anormalidade que podia ser (talvez) curada, tratada, cuidada – mas, acima de tudo, estudada. É um ponto que tanto Foucault como Lynne Huffer, a partir do trabalho dele, fazem: o surgimento da figura do homossexual é o surgimento de um objecto de estudo científico redutível à verdade epistemológica da sua homossexualidade. Reparem: objecto de estudo. Uma boa parte do movimento LGBTQI desde então tem-se preocupado, justamente, com quebrar esta objectificação dos afectos, desejos, comportamentos.

A quebra desta objectificação entre outras finalidades, tem o objecto de poder criar sujeitos de desejo, prazer, sexo. E isso está ligado à noção de responsabilidade pessoal. Não no sentido do velho debate de “eu escolhi ser homossexual” versus “eu nasci homossexual”, mas no sentido de se poder identificar, obter e utilizar autonomia na vida sexual e erótica / afectiva.

Então, porque é que Pedro diz que “sofre de poliamor”? Porque, se for uma doença, um padecimento, então ele não pode ser responsabilizado pelos seus próprios actos. Se for algo que lhe aconteceu, e não que ele faz acontecer, a culpa não é dele (soa tão cristão, isto, não soa?).
Ora, como o poliamor é uma daquelas raras identidades cuja génese não passou por uma patologização prévia, então há agora quem tente patologizar esta identidade, de forma a, mais uma vez, poder objectificar-se a si ou a outrxs, removendo qualquer complexidade ética e colocando-se a salvo da responsabilidade que daí adviria.

O problema é que o poliamor é uma forma de não-monogamia responsável. Portanto, não. Pedro não sofre de poliamor. Não é possível sofrer-se de poliamor – os afectos não são patologias, e a responsabilidade não é descartável. Mas mesmo que fosse possível, ele continuaria a estar ‘de fora’ – ao que parece, a parte da honestidade não o afecta.

sábado, 20 de agosto de 2011

roads to love... or whatever we seek to be happy

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A viver numa relação poliamorosa há mais de um ano e meio tenho aprendido imenso comigo e com as pessoas que me são próximas, bem como com pessoas que não me eram próximas e passaram a ser. Não sei se por estar numa relação deste tipo passei a prestar mais atenção a determinados sinais que amigxs me transmitem, ou se é mesmo o mundo, as pessoas, as relações, que estão a mudar, ou se tudo sempre foi assim e as pessoas estão agora a falar mais disto.

Por debaixo da capa assumida da monogamia fundamental, eu tenho visto as pessoas a fazerem as suas monogamias de forma não-monogâmica... e responsável. Sucessivamente tenho-me deparado com casais que conheço há anos, bem como com amigxs solteiros que estão a fazer as suas "monogamias" de forma cada vez mais aberta, pensada e questionada... As relações passam por diversos períodos, uns melhores, outros terríveis. Estas pessoas discutem, falam, choram, separam-se, voltam a juntar-se, fazem tudo de outra maneira, criam novas regras, recomeçam, aprendem, reconstróem-se, pensam tudo de novo... alguns, até, livram-se de etiquetas relacionais no meio deste processo. Há aqui uma coragem de romper com um modelo, lentamente, aos poucos, começando a alargar limites, estabelecendo novos percursos, novas formas de viver, que não são poliamor, e não são monogamia, são um qualquer híbrido feito de aprendizagens, sofrimentos, forças. São opções, são novas esperanças para vidas em comum, são novos formatos, são outros guiões, são tropeções e novas tentativas. Não há desistências enquanto há razões para se querer estar com alguém, alguéns, amores, amantes, companheirxs, fuck buddies, amigxs coloridxs...

O que eu tenho visto é as pessoas a fazerem as suas relações com novos pressupostos, com novos objectivos. Infelizmente não falo de uma maioria, mas sim de amigos e amigas que tenho visto escolherem os caminhos menos fáceis, a honestidade em vez do empurrar do lixo para debaixo da carpete. Este texto, curto e pouco inspirado, é uma homenagem a todxs elxs, às suas forças renovadas, aos seus caminhos diversos. Para que todxs recordemos: there's always a way.

«We can be strong follow that unicorn
on the road to love
I'm on the road to love»

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vira o disco

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...e toca o mesmo.

Foi há uma semana que, na sequência de uma conversa via Facebook, Manuel Damas (presidente da CASA) decidiu utilizar o seu programa no Porto Canal (cujo tema já antes tinha sido definido como sendo "poliamor", para essa semana) para, à falta de melhor termo, avacalhar. Que é como quem diz: falou-se pouco (e mal) de poliamor, mas falou-se bastante de mim, das Panteras Rosa, bem como de outras pessoas que andam metidas no activismo.

Não vou pôr-me aqui a desmontar os argumentos simplistas do M.D. (quando se ataca alguém pela forma como anda vestido, já se está a raspar o fundo do barril) porque isso seria aborrecido (para vós e para mim). Mas vou aproveitar a questão para fazer um pouco de meta-análise a algumas coisas que por lá se ouviram, e que julgo serem dignas disso.

Primeira questão - tamanho.
A ideia está repetida até à exaustão que xs poliamorosxs são meia dúzia de gatxs pingadxs que por aqui andam, numa coisa que não tem visibilidade nem credibilidade. Mas a realidade permite-se discordar. Está neste momento, nos EUA, a ser discutido o fim do Defense of Marriage Act e, como não podia deixar de ser, o poliamor está a ser mencionado (explicitamente) como um dos grandes perigos caso se cometa o inominável crime de deixar as pessoas do mesmo sexo casarem entre si (alerta de ironia para quem está a dormir) - por virtude de um argumento slippery slope, "se fazemos X, vamos acabar com Y; logo, não podemos fazer X". No Canadá, a coisa está e tem estado nos tribunais, e mobilizado bastante atenção, criando uma espécie de movimento de avalanche de workshops e reconhecimento social. Nada disto é típico de um tema que, supostamente, só diz respeito a meia dúzia de pessoas... Indirectamente, a oposição ao poliamor (e, já agora, a quaisquer outras formas de não-monogamia consensual e responsável, ou a outras sexualidades ainda menos mainstream) é também a oposição ao avanço dos direitos civis em contexto geral - porque se estão a fornecer argumentos e força às pessoas que supostamente queremos evitar.

Segunda questão - identidade.
Foi atirada a ideia de que o poliamor não é uma identidade. Que é apenas um comportamento relacional ("como a violência doméstica" - que exemplo tão isento, não é?). Mas, agora perguntam vocês, afinal o que é uma identidade? Vamos simplificar: uma identidade é uma coisa com a qual nos identificamos. Algo que dizemos que somos. É um conjunto de atitudes, crenças, valores, padrões morais, hábitos - que são socialmente construídos em interacção connosco. Assim, ser do Rio Ave é uma identidade, ser mulher é uma identidade, ser homossexual é uma identidade e, espanto dos espantos, ser poliamorosx é uma identidade. A sério, isto não é ciência de foguetões. E não me venham com a coisa das identidades essenciais que nunca se mudam e já nascem connosco, porque senão eu zango-me e vou fazer queixinhas à Lisa Diamond.

Terceira questão - amor ou virar mesmo o disco.
Amor... Ah, o amor... essa coisa inefável, indefinível, incomportável... [som de disco riscado].
Alto lá com isso. O "amor" é, como tudo o resto, socialmente e culturalmente variável. Não se ama aqui da mesma maneira que se ama ali. É possível até historiografar a forma como amamos (ou amámos?). O amor, e as relações afectivas, são historicamente variáveis, culturalmente variáveis, espacialmente variáveis... acham que se ama da mesma maneira em todo o mundo, que se vivem as famílias da maneira como nós as vivemos, em todo o mundo? Então acham muito mal... O amor, como qualquer palavra, é polissémico. Muda. E, para não estar a repetir o último link, vai continuar a mudar. Se há coisa que me incomoda é aquele pessoal que acha que pode chegar e dizer: "O Amor Verdadeiro (TM) é assim, assim e assado" [tradução: heterossexual, monogâmico e monoamoroso]. Ou então, o pessoal que tira um dos assins ou assados, mas quer deixar o resto. Porque convém. Porque a cabecinha não dá para mais. Porque não vêem a parvoíce de fazer de conta que as coisas mudam mas não mudam... enfim.

Questão agregada
Porque é que o discurso do M.D. é tão significativo que lhe dedico mais um post? Precisamente pela sua falta de originalidade. O discurso do M.D. é importante na medida em que representa uma determinada postura mental, e não um trabalho de reflexão pessoal criativo. O M.D., com a sua postura contra o poliamor, representa a luta pela institucionalização normativa de algumas afectividades e algumas sexualidades, dentro de um quadro de trabalho essencialista, que defende um conjunto restrito de valores ao mesmo tempo que pretende deixar outros elementos (inseparáveis) intocados. Só que não dá para escolher. A vida não funciona assim - se nós questionamos umas coisas e não outras, eventualmente alguém vai dar pela contradição, pela incoerência, e começar a fazer força nesse sentido.
O M.D. afirma-se herói dos fracos e oprimidos, canta a Ode da Ascensão contra os poderes instituídos - mas o M.D. não quer eliminar a lógica dos poderes instituídos, quer ocupar a posição dos poderes instituídos (ou, vá lá, fazer parte do panteão). M.D. quer um lugar na História, e repetirá para isso o mesmo discurso de quem o queria deixar fora da História. Ele próprio afirma a importância da seriedade, da sobriedade. M.D. deseja comandar respeito, admiração.
M.D. esquece-se que a seriedade e a sobriedade vêm da estrutura patriarcal, machista, homofóbica, misógina e hierarquizante. (Ou não se esquece, e apenas não se importa.) M.D. quer dar cabo dessa estrutura - mas só de um bocadinho...

Vou-me armar em Nostradamus: não. serve. de. nada. A sério. Não serve de nada. As coisas mudam. E ou o pessoal faz parte da mudança, ou o pessoal acaba como este fulano. O paradigma está a mudar. A Gayle Rubin (porra, que eu farto-me de a citar!) já dizia que precisamos de uma nova ética sexual, baseada na forma como as pessoas se tratam mutuamente, e não baseada nos actos que praticam. E sabem que mais? Há quem ande aí a lutar por isso. Não importa o número de pagens que se tem à volta, a repetir o mesmo discurso em eco... Porque, carxs leitorxs, eu vou fundir a Emma Goldman e a Beatriz Preciado e dizer que o sistema patriarcal se caga todo quando se lhe apresenta uma revolução à queer, com dança, festa e sem sobriedade nenhuma. Ou então sou eu que me cago para ele.

Porque o sistema patriarcal É o sistema homofóbico É o sistema capitalista É o sistema racial É o sistema falogocêntrico É o sistema monogâmico É o sistema nacionalista É o sistema de género/sexo binarista... e É uma grande cagada.


Agora, inspirado por uma amiga, deixo-vos uma reflexão profunda, que requer, no entanto, algumas mudanças de apelido...

Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "Século" a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas- Magnésia.

E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.

- "Manifesto Anti-Dantas", José Almada de Negreiros

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Manifesto das duas gajas com um gajo - Parte 1

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É certo e sabido que quando estamos ocupados a fazer o contrário do que a maioria faz, a remar contra a maré, a recusar fazer o que toda a gente faz só porque toda a gente o faz, quando estamos, precisamente, ocupados a viver vidas sem guião preparado, a fazer coisas que não sabemos se mais alguém fez, a sermos visíveis nas nossas identidades e opções in your face e, activamente, a não nos preocuparmos sequer com isso, é certo e sabido, dizia eu, que nos vai cair o carmo e a trindade em cima (perdoem-me a expressão característica) na forma de críticas infundadas, estereótipos formatados, bocas foleiras, comentários paternalistas e tons condescendentes. Quando para além disto tudo ainda somos mulheres, lésbicas, feministas, queer, kinky, poliamorosas e jovens, a coisa tende a complicar-se gravemente.

Ora eu sou tudo isto, e tenho pouca paciência para silêncios, ou o chamado "comer e calar", aquela virtude para a qual as mulheres foram sempre treinadas e na obtenção da qual eu falhei grande e desastrosamente. Com esta minha incapacidade vem uma profunda alergia a que me tentem formatar, encaixar, confinar, limitar, circunscrever, encerrar em bonitas caixinhas que constituem os alicerces fundamentais da sociedade patriarcal, heteromononormativa. Aparentemente a caixinha mulher torna-me um ser humano a ter em menor conta do que aqueles que se encontram na caixinha homem. Como lésbica sou invisível. Como feminista sou ignorada. Como queer sou desconhecida. Como kinky sou excluída. Como jovem sou desconsiderada. E como poli sou estereotipada. E porquê? Porque, por alguma razão obscura, quando ando com o meu companheiro e a companheira do meu companheiro o que as pessoas vêm é - adivinhem só - um gajo com duas gajas. É curioso que nem o número - o facto de sermos duas gajas e portanto maioria, de um certo ponto de vista - nos traz mais visibilidade positiva. Pelo contrário. O gajo é o sujeito, as gajas as coitadas. O gajo é o garanhão que come duas. As gajas deixam-se ir. O gajo é que se diverte, as gajas suportam ou sofrem. O gajo fica a ganhar, as gajas são, no mínimo, desgraçadas. Curiosamente, no meio disto tudo, as gajas desaparecem. E toda a gente se parece esquecer que estão ali, também, duas gajas com um gajo. Mas isto seria totalmente contra-intuitivo - primeiro porque as gajas não são sujeitos, mas objectos decorativos. Depois porque as gajas nunca escolheriam uma coisa destas. E por último, porque provavelmente as gajas não devem ser pessoas com vontade, inteligência, determinação, livre arbítrio e capacidade de decisão. Porque raio quereriam estar elas com o mesmo gajo?

Pois é, sendo eu uma das gajas, devo dizer que me divirto. Estou com quem quero, como quero e bem entendo, disponho da minha vida, das minhas escolhas. Sou livre - a nível relacional, afectivo, sexual, pessoal. Sou livre de me afirmar lésbica e me apaixonar por um homem. Sou livre de me afirmar poli e andar de mão dada a três na rua. Sou livre para ser queer e rebentar com as caixas onde me querem meter.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Felicidade

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Já várias vezes me perguntaram pelo que luto. Ou pelo que lutam os movimentos sociais dedicados à pluralidade de sexualidades e afectividades que por aí andam, bem como os dedicados ao reconhecimento de outras profissões, etnias, religiões, configurações corporais e de género, etc etc etc.

Deixem-me que vos diga: não luto apenas pela minha felicidade. Não luto apenas pelo reconhecimento. Não subscrevo a frase "I just want to be happy".

Eu luto contra a fixação. A fixação de práticas, significados, comportamentos, cristalizações do poder que nos fazem praticar e que praticamos. Resistir é um trabalho infinito. Porque até a resistência pode tornar-se normalizada, regulada, acéfala e acrítica, automatizada, performativizada. E aí, 'ser resistente' seria como é ainda hoje em dia 'ser homem' ou 'ser mulher'.

Eu não caminho para um fim, eu não caminho para um objectivo. Eu caminho pela possibilidade de continuar a caminhar.

We're here, we're queer, get used to it!

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Poliamor e amor(es)

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Ultimamente tenho passado algum tempo (não necessariamente agradável) de volta de um dos novos formatos de grupos no Facebook, dedicado precisamente ao poliamor - e que, por estar em inglês, atrai muito mais pessoas, ganha âmbito internacional. E realmente gostei pouco de várias coisas que por lá vi.

Nomeadamente - e, de novo, isto parece assombrar a história do poliamor desde o princípio - a relação entre poliamor e sexo continua tão espinhosa como sempre. Vários são os comentários que pretendem vir trazer às outras pessoas "a verdade sobre o poliamor". Que verdade é essa? A verdade é que o poliamor tem que ver com o amor, com sentimentos, e não tem nada que ver com sexo. Ou seja, a dinâmica do poliamor - para estas pessoas - tem que ver (de forma aplicável a todas as pessoas) com a criação de relações emocionais a longo-prazo, em detrimento de relações emocionais de curto prazo, de relações principalmente sexuais, etc etc. Ou seja, no fundo, uma visão exclusionista do que se pode fazer dentro do conceito. Claro que, a seguir, vem o discurso de "ah, sim, isso é tudo perfeitamente aceitável, mas não é poliamor" - uma forma mais disfarçada de dizer "pois, façam lá o que quiserem, mas não aqui ao pé de nós".

Daí aquele típico discurso que insiste no que separa poliamor de swing, poliamor de X, de Y, de Z...

Uma das fundamentações é a presença do "-amore" latino que, supostamente, vem provar a predominância do amor - aquele amor que afinal de contas acaba a ser o amor romântico, ainda e sempre visto como intemporal, imutável e invariante. Só que a tradição latina vai buscar aos gregos uma curiosidade interessante: existem, na prática, vários tipos de amor, e a palavra "amore" acaba por ser, no fundo, um termo generalista que só com óculos anti-linguísticos é que vai apontar direitinho (que conveniente!) para o significado romântico, típico, normativo, de amor.

Só para terminar, fica um desafio: se fosse a questão do amor (típico, romântico) a definir em absoluto o poliamor, então onde ficava uma pessoa que tem, ao mesmo tempo, relações românticas de longa duração, e de curta duração, e relações sexuais de longa e curta duração, e relações que nem sequer se encaixam nestas descrições? Pois. Não há exclusão que opere sem simplificação...

sábado, 2 de abril de 2011

Reequilíbrio

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Em termos de poliamor, de amor e intimidade, ou relações no geral, não sei o que é melhor ou pior, normal ou anormal, e isso cada vez me interessa menos. Por outro lado, saber o que é autêntico e me faz sentir viva, interessa-me cada vez mais.
É difícil escrever sobre a minha identidade afectiva. Quero, mas bloqueio. Há demasiada emoção e as palavras não conseguem corresponder. Tenho medo de ser mal compreendida, mal interpretada. Aprendi pela experiência que isso é possível, até provável, e sobretudo doloroso.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Poliamor, mas só fora de CASA

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Manuel Damas é sexólogo (de uma faculdade de medicina, um caso acabado da scientia sexualis de que fala Michel Foucault) e, como se pode ver na sua página do Facebook, acusa os Portugueses de serem "analfabetos sexuais... e emocionais". É também o director do CASA - Centro Avançado de Sexualidades e Afectos. Este centro surge "com o intuito de denunciar todas as formas de discriminação e, acima de tudo, de lutar pela Universalidade do Direito à Felicidade", constando da sua Carta de Intenções "combater todos os actos discriminatórios".

sexta-feira, 18 de março de 2011

Interface

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Há uma coisa que me foi sendo incutida ao longo da minha breve experiência dentro do mundo da academia: o pensamento mais frutuoso não é aquele que se concentra sobre as continuidades, mas sobre as descontinuidades. Talvez essa seja uma diferença importante entre as Ciências ditas exactas e as Ciências Sociais e Humanas: a procura da tipificação (das continuidades) da primeira leva à criação de grandes sistemas teóricos; a procura das descontinuidades, das ligações e desligamentos leva à criação de grandes sistemas teóricos na segunda.

O começo de uma nova relação (ou da modificação dos termos de uma relação pré-existente) - algo que pode ser tão simples como um sim dito num café, numa resposta de reconhecimento e anuência de algo que parecia já prenunciar-se - traz consigo, antes de novas continuidades, a inauguração de uma ruptura, de uma mudança, de um interface. Não deixa de ser curioso: estou a escrever sobre poliamor, e a lembrar-me simultaneamente de uma aula que dei sobre o conceito de cyborg, onde insistia que a importância estava no interface, naquele espaço aparentemente vazio (mas não realmente vazio) onde não habita nem a tecnologia nem a biologia, precisamente porque é a zona de cruzamento e confluência entre as duas coisas, e não alguma delas ou sequer ambas. Esta ruptura, esta mudança é, numa relação poliamorosa que não esteja associada ao modelo 'don't ask, don't tell', vertical. Vertical no sentido em que, ao se iniciar primordialmente nessa relação que começa ou muda, espalha-se a todas as relações, impõe um ponto de corte sobre tudo o que está à sua volta. Aquela relação surge não apenas como momento paradigmático (por minúsculo ou até invisível que esse paradigma possa ser) para as pessoas directamente envolvidas, mas também para todas as outras à volta, que se relacionam com essas pessoas centrais.

Isto quer dizer que o princípio de uma nova relação, ou a alteração de uma relação existente, vai fazer parte da cronologia de todas as relações, vai implicar mudanças em todas as relações. Aquela ideia, que às vezes nos sentimos tentadxs a usar («não te preocupes, vai ficar tudo exactamente igual») é fundamentalmente impossível de ser verdade. Mas se há um elemento que inicia esse corte, ao iniciar uma nova relação ou modificar uma relação existente, não é apenas a esse elemento que pertence a responsabilidade do que se processa ao longo dessa linha de corte, especialmente no que diz respeito à intersecção entre essa linha de corte e as linhas das outras relações. Essa linha, ou essa zona, é a instauração da possibilidade de interface: de um ponto de conexão (de [re-]criação de sentido) entre o antes e o depois dessa linha. E o que está em jogo é a forma que esse interface adopta. Na medida em que uma relação existe entre pelo menos duas pessoas, ambas as pessoas são responsáveis pela forma como irão realizar esse acto de interface. Longe disto está, por exemplo, essa outra (distante) pessoa com quem a tal nova relação foi começada. Se essa pessoa pode parecer, ficticiamente, o nexo de origem, na verdade ela não é mais do que um nódulo possível de entre outros, uma coordenada para o desenhar desse espaço de interface.

E aqui, como é que cada pessoa ajuda a desenhar esse espaço de conexão? Como se realiza a ponte entre um antes e um depois desses eventos? À base do medo, da insegurança, da fragilidade, da dependência? É, sem dúvida, a via mais automatizada para responder, fruto de anos ou décadas de condicionamento, fruto de um contexto social que privilegia a aceitação acrítica do paradigma mono-amoroso, mesmo no meio da mais espampanante hipocrisia. Mas que tipo de interface é este? Não será esta uma forma de bloquear a criação de um espaço de interface? Não será esta uma forma de deixar cair as várias ligações que se podem manter e estabelecer dentro da própria área do interface? Há aqui o fantasma da 'crise', também. Da crise nas relações existentes quando a nova relação surge. Mas não será esta noção de crise (que nos aponta para um algo que temos que ultrapassar) uma forma de bloquear o pensar do momento em si? Do interface em si como ponto de acção, inter-acção, alteridade, transformação?

Deixo um apelo a que se pense a mudança-em-si-mesma, ao invés de nos concentrarmos num antes e num depois, numa comparação que elide, como se de algo unidimensional se tratasse, o processo da ruptura.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pelo direito a crescer sem «bulência»

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Na semana passada, voltou a falar-se de um tema que recorrentemente tem feito notícia: a violência escolar, ou bullying, como quase sempre é denominada na imprensa portuguesa, que não tem a flexibilidade linguística dos franceses e nao é capaz de inventar uma palavra nova quando faz falta.

A «bulência», chamemos-lhe assim, foi tema do Projecto de Lei 495/XI, que acabou por ser rejeitado em plenário no passado dia 21 de Janeiro. Não cheguei a ler o projecto de lei mas ficou-me na memória a frase de bullying parlamentar que o deputado Sérgio Sousa Pinto proferiu a esse respeito: «faz tanta falta às escolas e ao ordenamento jurídico como uma gaita num funeral» (não estou a inventar: vídeo aqui).

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Ser bissexual e ler revistas idiotas

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A revista Activa publicou no seu site, no passado dia 18, um artigo que já tinha publicado em papel, em Junho de 2009. Um texto sobre bissexualidade que, entre inúmeras pérolas, avança uma definição para o poliamor:

"Cada vez mais há variantes da sexualidade, como é o caso do poliamor, uma relação entre três ou quatro pessoas, que vivem juntas." (citação atribuída ao psicólogo Fernando Mesquita)

O que me deixa a pensar que, se quero mesmo ser poliamorosa, tenho que meter uma pessoa fora de casa (porque cinco já deixa de ser poliamor e começa a ser libertinagem). E pôr um dos outros quatro quartos em regime de rotação. Bem que me avisaram que isto do poliamor era mesmo complicado!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Porque falham as explicações

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Dou por mim, como devem imaginar, a explicar imensas vezes o que é o poliamor, e que sentido faz, etc etc etc. E nem sempre consigo estar a ter estas conversas na net, onde simplesmente envio um link para o site do Franklin Veaux e a partir dessa base tento rearticular algumas das perguntas que as pessoas me fazem.

Fora isso, e quando se está offline, há uma série de argumentos e mecanismos retóricos mais ou menos utilizados de forma generalista para tentar explicar ou desconstruir uma série de noções de base. Ainda assim, é um processo complicado. Complicado fundamentalmente porque esses tais pressupostos, esses dogmas de base que definem a própria definição do que é o amor ou do que são relações amorosas (ou do que é a fidelidade, and so on...) são, no poliamor, repensados.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

discriminação sexual é punida por lei

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Isto pode interessar, directa ou indirectamente, à malta que vive ou pensa viver poly:

Os comentários relativos ao homicídio de Carlos Castro têm-se multiplicado, tanto nas edições online de jornais e revistas como nas redes sociais. Poucos dias depois da violenta morte do jornalista, uma utilizadora do Facebook criou um grupo chamado "Eu apoio Renato Seabra, matar gays não devia ser crime". Segundo o advogado Arrobas da Silva, a haver violação da lei, "deve ser o Ministério Público a promover uma acção penal. Parece-me, pela descrição, que deverá ser um crime público ou semipúblico", explica o causídico. Este tipo de crime contra a identidade