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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

"Isso é uma teima?"

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Os últimos dias têm sido de stress constante. Não é que seja grande novidade na profissão que escolhi. Mas hoje senti-me mesmo a quebrar. O conflito é algo que me desgasta. E que evito muitas vezes a todo o custo, provavelmente mais do que deveria. Se tiver de escolher, prefiro o silêncio ao conflito. E houve bastante dos dois nos meus anos de crescimento.
Em quase todas as relações profundas que tive, surgiram momentos de confronto, para mim bastante dolorosos e angustiantes. E quando terminam, sinto-me como se tivesse corrido uma maratona. Um cansaço físico e psicológico que se torna incapacitante.
Nestas alturas lembro-me muitas vezes de um capítulo do livro “The Ethical Slut”, que se chama “Embracing Conflict”. Pelos vistos é normal que haja conflito numa relação. E quando essa relação inclui várias pessoas, personalidades e vontades, a coisa pode multiplicar-se na mesma proporção que se multiplica o amor e a felicidade.
Uma das coisas que as autoras preconizam é que se use o que chamam de “I sentences”, ou frases começadas por “eu”. Que se diga “Eu sinto-me…” em vez de “Tu fazes-me sentir…”. Porque os sentimentos são nossos e no limite somos nós os únicos responsáveis por eles.
Há vários conselhos nesse capítulo que considero bastante úteis (descontando o carácter de auto-ajuda de livro de aeroporto). Não funcionarão com toda a gente nem em todas as circunstâncias. Mas pelo menos ajudam a desmontar esta ideia romântica de que os sentimentos são algo de completamente irracional e incontrolável, pretexto para os mais descuidados atropelos da saúde emocional de quem se ama.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

E se saíssem à rua?

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Se fosse aprovada uma lei segundo a qual ninguém pudesse ser monógamo durante mais do que três semanas, as pessoas sofreriam uma imensa pressão. Mas pressão para fazer o quê, exactamente? [...] O que diriam as suas pancartas, quando saíssem para a rua em protesto? - Adam Phillips, 1996

É uma excelente pergunta. Mas, e olhando para o estado actual das coisas, pelo menos uma coisa constaria dessas pancartas - um apelo à necessidade intrinsecamente humana (?) de haver pureza e compromisso. Porque, espante-se, cada vez se ouve como mais óbvio que uma relação aberta é aquela em que o compromisso não existe. Ou, ao invés disso, que uma relação aberta não é uma relação.

Parece-me a mim que isto germina de um profundo desconhecimento do que é a Língua Portuguesa. Ligação afectiva ou sexual. É isso que é uma relação. Portanto... é praticamente impossível escapar-lhe. Que seja claro: a normativização de um determinado conceito não esgota, nem constitui, a definição desse mesmo conceito.

Não roubem palavras.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Maria

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Inspirado pelo post de há uns tempos atrás, queria partilhar com vocês o excerto de uma análise que fiz, no que toca à cobertura noticiosa do poliamor em Portugal. Falo aqui sobre o artigo da Maria:

Mais pequeno que todos os outros, coloca-se numa secção chamada “Emoções”. O título “Já ouviu falar de poliamor?” apela aos conhecimentos da leitora, e os pequenos textos que o encabeçam demonstram aquilo que é, na verdade, uma grande capacidade de derrubar a barreira entre Eu e Outro, apelando directamente à pessoa que lê: “Leia este artigo e pense numa alternativa”, admitindo a priori e retoricamente que uma situação em que se gosta “de mais do que uma pessoa ao mesmo tempo” já terá sucedido.

Um excerto de uma legenda oferece algum conforto a quem já tiver estado nessa situação: “Não é a única!” O parágrafo de abertura faz um contraste marcado entre sonho e concretização, mas num estranho passe de lucidez face ao artigo anterior, coloca o sonho do lado do “grande amor” e a concretização do lado de quem o consegue com “mais do que um e ao mesmo tempo!”. Os títulos das secções e das caixas de texto vacilam entre o informativo e o invectivo: “Cartas em cima da mesa!”, “Confusa, mas confortável!”, bem como “Novos conceitos” e “Sexo não é a prioridade”. O uso de aspas no léxico da raiz de poliamor também é usado, duas vezes, mas isso não representa um uso sistemático.

O discurso especialista “dos sociólogos” nunca chega a ser pessoalizado em alguma voz concreta, e serve para a contextualização histórica e para a análise de algumas combinatórias possíveis. Embora em menor número, algumas das referências parecem ainda apontar para a existência de um “casal”, cujas relações se desmultiplicam eventualmente, mas que permanece como foco de base.

Ainda assim, uma das partes finais do artigo aponta para o elemento da reciprocidade (“seja possível aceitar que o outro conheça outras pessoas e tenha outras relações”) como fundamental.

Este é também o artigo onde é possível encontrar uma referência (a única, pelo que se observou) à homossexualidade masculina como estando dentro do campo de possibilidades – todos os outros artigos tinham referências exclusivas a relações que envolviam ou podiam envolver comportamentos sexuais entre mulheres, ou contactos puramente heterossexuais.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Terceira pele

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Faz agora 20 anos, escrevi e publiquei, em conjunto com um colega e amigo, as ideias que tínhamos vindo a desenvolver em longas conversas sobre relações afectivas.
Pouco tempo antes, tinha surgido o conceito de «curtir»: estava mais próximo do que idealizávamos para uma relação mas ainda não era bem aquilo.
O pequeno ensaio-manifesto chamar-se-ia Amizade, enamoramento : A elaboração dos acasos e está agora online na íntegra.

A elaboração dos acasos
Uma das nossas referências mais importantes era o lindíssimo livro de Roland Barthes Fragmentos de um discurso amoroso, que tínhamos devorado com o prazer da descoberta de quem tem vinte e tal anos.

De entre as muitas frases memoráveis que poderia aqui citar, escolho uma em particular, pela sua relação irónica com o meu estado actual (de bolsos vazios e coração cheio):
Le cadeau est attouchement, sensualité: tu vas toucher ce que j'ai touché, une troisième peau nous unit. Je donne à X... un foulard et il le porte […]

A prenda é carícia, toque, sensualidade: vais tocar aquilo em que eu já toquei, ficamos unidos por uma terceira pele. Dou um lenço a X e ele usa-o […]
(Tradução minha)

Substitua-se agora «prenda» por «punalua» (pessoa amada da minha pessoa amada) e transforme-se assim o teu objecto amoroso numa terceira pele.

Enquanto escrevo isto, a minha terceira pele está no quarto ao lado, pele com pele com uma outra terceira pele. E eu sinto-me inequivocamente bem nesta minha nova pele.

African Elephant Skin

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Encontro no fim do Mundo: os Moso

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Um documentário a ver, se possível: "Encontro no fim do Mundo, o povo Moso" (Eric Blavier, Thomas Lavarechy).

Na verdade não vi o documentário. Ouvi os comentários em segunda mão e desencadeei uma busca na net. Não vou escrever tudo aqui para vos deixar o prazer da descoberta e da investigação.

Os Moso são um povo que vive na China, junto ao Tibete, nas margens do lago Lughu. São 30.000 pessoas que tem visto as suas tradições bastante antigas mais ou menos preservadas.

Em poucas palavras, a sociedade Moso é matriarcal. As mulheres têm o papel predominante na sociedade e querem, podem e executam todas as tarefas. O poder e a influência passam da mãe para a filha que ela considera mais inteligente.

A mulher ao chegar à idade adulta adquire o direito de escolher amantes que recebe em casa dentro de um esquema que preserva a discrição mas que não tem nada de clandestino. As crianças que nascem destes enlaces são criadas dentro da família, às quais o pai biológico não pertence. Pares que se amam encontram-se discretamente mas em liberdade e sem compromisso. Por outras palavras, não usam do conceito de monogamia.

Não existe palavra para marido nem para pai, o que não quer dizer que os homens não participem da educação das crianças ou da sociedade em geral. Simplesmente desaparece completamente a ideia do pai biológico com direitos sobre a prole e a ideia de patriarca. Adicionalmente, parece não haver crime nesta sociedade, que não é tão pequena como isso. Ainda menos há crime passional. O ciúme é considerado uma doença infantil, que aparece muito pouco e, que ao contrário de entre nós, ocidentais, quando aparece não é encorajada.

O que vos mostro aqui não é o modelo que eu quero seguir, ou a sociedade utópica dos meus sonhos. É apenas mais um modelo dissidente daquele em que crescemos e nos habituamos a pensar que é o único possível. Quero apenas mostrar que em termos de relações, se não tentamos seguir o modelo monogâmico e patriarcal ocidental em que crescemos, há provavelmente tantas soluções como pessoas. Este é apenas um dos modelos possíveis. Não é o que eu escolheria, embora me pareça melhor do que é mainstream entre nós.
  • Link para um artigo que comenta o documentário.
  • Link para o resumo do romance "Leaving Mother Lake": para quem não quer seguir a documentação mais sociológica, está aqui um romance à volta de uma jovem Moso que deixa a sua vila para seguir uma carreira como cantora e se confronta com a cultura chinesa.
E finalmente um artigo cientifico sobre adopção e casais convencionais à luz da sociologia dos Moso.

(Escrito originalmente em 2005 este post foi uma sugestão da K., minha namorada na altura, que não se identificando como poly, quis que eu continuasse a assim viver, e me incentivou a começar projectos poly-activistas)

domingo, 2 de agosto de 2009

Jogos humanos

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Está a fazer 10 anos que foi publicado o livro Jogos humanos, com argumento de Paulo Patrício e desenhos de Rui Ricardo. A edição, da Bedeteca de Lisboa em conjunto com a Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, saiu por ocasião do penúltimo Salão.

É uma história de poliamor quase avant la lettre, passada entre adolescentes na cidade do Porto. Mas não se pense, pelos dois desenhos que aqui estão, que é uma história essencialmente erótica. Como descreve de forma concisa João Paulo Cotrim (na altura director da Bedeteca, creio):
"Tradicional e sem excessos gráficos, apesar do número de parceiros."
Tanto Rui Ricardo como o próprio Paulo Patrício têm hoje em dia melhor qualidade gráfica mas já eram experientes nesta altura. Vale a pena procurar esta raridade.

Muitas das bibliotecas municipais têm esta BD disponível e a Biblioteca Nacional tem dois exemplares. Quem quiser comprá-la, no entanto, vai ter dificuldade em encontrá-la à venda.

Muito poucas livrarias online têm agora este livro em catálogo (ISBN-10: 9729746990, ISBN-13: 9789729746994), nenhuma confirma tê-lo disponível e uma delas diz mesmo estar fora de stock:
Talvez seja possível encontrá-lo numa livraria especializada em fundos de colecção — por exemplo a Ler Devagar.

Além dos alfarrabistas, outra hipótese é procurar numa livraria de banda desenhada — de sucesso também duvidoso, porque se especializam normalmente em comics e manga. Aqui ficam alguns contactos: