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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Poliamor sem hesitações

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Anteontem li no Jornal de Notícias um artigo extraordinário (é de Novembro mas só me veio parar às mãos agora, por via dum atrasadíssimo Google Alert).

O autor consegue a proeza irrepetível de escrever contra tudo aquilo em que acredito: o poliamor, o combate ao tabu da monogamia, a não-exclusividade, o direito à igualdade, o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, a equiparação do casamento a uniões entre mais do que duas pessoas, o Estado-providência e, por fim, o desafio a esse manual de maus costumes que é a Bíblia. E, no entanto, fá-lo usando um único recurso estilístico: a ironia. Por definição, a ironia é a expressão de uma intenção ou significado usando expressões que normalmente significam o exacto oposto. A luminária que assina este artiguelho (vêem? também sei: "luminária" é ironia; já "artiguelho" não é) — esse bota-de-elástico, dizia eu, usa e abusa das aspas para marcar a ironia.

E o que há de extraordinário em tal artigo? É que, precisamente graças à sua pobreza estilística, basta tirar as aspas para ser um texto que eu assinaria por baixo na totalidade. É isso: tirem as aspas e vão ver se o velho não tem razão. Vá lá: tirem as aspas e, no penúltimo parágrafo, a palavra «má». E, pronto, mudem o título para Poliamor sem hesitações.

Ora então é clicar e alegrar, rapaziada: Poligamia sem hesitações - JN.

"FAITH-BASED CONNECT THE DOTS"

cartoon do brilhante Don Addis, que morreu faz hoje um mês

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Paixões e tempestades

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Hoje à hora de almoço vinha a ouvir na Antena 2 o sempre interessante Em Sintonia com António Cartaxo.

O programa de hoje era sobre Beethoven e dá para ouvir de novo às 23h00 ou, em qualquer altura, na página do programa ou directamente aqui.

Aos 35'00", António Cartaxo passa um excerto da sonata nº 23, a Appassionata. Depois, aos 40'30", diz o seguinte:
"Quando lhe perguntaram qual o sentido da Appassionata (o cognome é do editor mas Beethoven aprovou-o), a resposta foi a seguinte: «Leia A Tempestade de Shakespeare». E Romain Rolland, estudioso de Beethoven, lembrará que A Tempestade é a fúria das forças elementares — paixões, destemperos dos homens e dos elementos —, é o senhorio do espírito, mago que, a seu bel-prazer, congrega ou dissipa a ilusão. A definição da arte beethoveniana neste período de maturidade." ¹
Eu diria que A Tempestade (a peça) nada tem a ver com a «fúria das paixões»… Mas já que aqui estamos, vejam lá bem o que diz o protagonista, Próspero, a propósito de um casalinho que ele, num espírito casamenteiro, quer ver atingido pelas setas de Cupido (e que realmente se apaixonam num instante): «They are both in either's powers: but this swift business / I must uneasy make, lest too light winning / Make the prize light.» Ou seja, «deixa-me cá dificultar a coisa, que estes dois pombinhos começaram a arrulhar depressa demais», (e agora em tradução mais literal) «não vá uma conquista tão ligeira tornar o prémio demasiado ligeiro».

Mas que raio de ideia é esta?! Que mal fizemos nós para sermos ainda hoje bombardeados com este e outros disparates do Romantismo? Atenção, a frase, a peça e o autor são sem dúvida alguma geniais — mas a ideia romântica de que uma conquista sem sangue, suor e lágrimas não tem valor é simplesmente uma má interpretação dos naturais ajustes que duas pessoas precisam de fazer quando iniciam uma relação, acertos esses que sucedem novamente, de modo sempre diferente, de cada vez que se soma uma nova relação.

Eu cá prefiro as pessoas fáceis. E descomplicadas. E preferia ser eu próprio mais simples (fácil já eu sou que chegue). Mas levamos com tanta história de amores difíceis que essa peçonha se nos enfia debaixo da pele e custa mais a remover do que uma tatuagem.

_________________
(¹) A pergunta sobre o sentido da Appassionata — e, já agora acrescento, de uma outra sonata, a nº 17, publicada precisamente sob o título A Tempestade — terá sido feita a Beethoven pelo biógrafo seu contemporâneo Anton Schindler, que a refere no livro Biographie von Ludwig van Beethoven (traduzido para inglês como Beethoven as I Knew Him mas sem tradução portuguesa, que eu saiba). Directamente da fonte, para quem lê alemão ou sabe usar uma ferramenta de tradução online: «Eines Tages, als ich dem Meister den tiesen Eindruck geschildert, den die Sonaten in D moll und F moll (Op. 31 und 57) in der Bersammlung bei C. Czerny hervorgebracht und er in guter Stimmung war, bat ich ihn, mir den Schlüssel zu diesen Sonaten zu geben. Er erwiderte: "Lesen Sie nur Shakespeare's Sturm."»

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Uma família é uma família

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No divisão da casa que destinámos para ser escritório, uma de nós trabalha neste momento ao computador, um outro relaxa ao computador, os restantes conversam sobre não sei o quê, e eu blogo. Há bocado jantámos, três de nós. Os outros ainda não tinham chegado, jantaram uma hora depois. À hora de almoço, eu e outro estivemos a tratar de assuntos com bancos por causa de um crédito. Durante o dia, eu tratei de assuntos diversos, em casa, e os outros nos empregos deles.

Se não fosse o número de pessoas, o que poderia distinguir este relato de um dia normal de um casal? Se não fosse o facto de não haver aqui pais, mães e filhos, qual a diferença entre isto e a vida de uma família convencional? Quem detectaria, pela descrição, que isto só poderia ser uma família intencional?

Daqui a pouco a noite chega ao fim e vai cada um para o seu quarto. Ou talvez haja quartos com mais do que um. Conforme estivermos ou não para aí virados.

Seis semanas ainda é uma experiência muito curta, claro, mas estou mesmo em crer que isto é para durar.

Uma amiga nossa escreveu há pouco no Facebook: "eh pá, grande grande pinta, tiro-vos o chapéu, vocês são fonte de inspiração…" Sabe bem ouvir isto. Qual activismo em marchas e encontros! Se a minha família for realmente fonte de inspiração, que o seja, e para quanto mais gente melhor.

Obrigado à Kerista e aos restantes pioneiros por terem contribuído para espalhar o conceito de não-monogamia responsável.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Má reputação

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Na primeira marcha LGBT (para quem não saiba, Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero) em que participei (8ª Marcha do Orgulho LGBT — Lisboa 2007), em «representação» do Poly Portugal, confirmei o que já pensava há muito: aquela sigla é obscura para o leigo, pouco prática e acima de tudo limitativa. O T também inclui travestis e transexuais? Onde está o Q de Queer? E o I de Intersexo? A que letra pertencerá uma associação feminista (a UMAR faz parte da organização)? E finalmente — o que me interessava ainda mais —, em que letra se poderia encaixar o Poliamor? Vale a pena ver (por exemplo aqui) a cómica evolução das siglas que têm vindo a designar o conjunto das orientações sexuais e identidades de género.

Durante a marcha, pus-me a pensar quais eram os temas partilhados pelos colectivos e individuais que participam numa marcha «lgbt» e que acrónimo facilmente memorizável se poderia criar a partir desse conceito. Cheguei à conclusão de que as minorias envolvidas reclamam, todas elas, liberdade e diversidade sexual. (Poderia argumentar-se que as questões de género não são questões sexuais mas parece-me preciosismo a mais para a definição em causa.) E foi assim que cheguei a isto, que propus como nome para as marchas seguintes, mas que não pegou:

MALDISEX — Marcha para a liberdade e diversidade sexual

Continuo a achar que a aceitação da diversidade é uma das principais bandeiras que quero carregar. E, na sequência dos meus posts anteriores em defesa da diversidade («E é lá com eles…» + «Nós e laços»), aqui deixo uma canção do fabuloso cantautor francês dos anos 50/60 Georges Brassens, intitulada La mauvaise réputation («A má reputação»)



Tradução de parte da letra:

Lá na aldeia, não é para me gabar,
Mas tenho má reputação
Quer me mate a trabalhar quer fique quieto e calado
Passo por nem sei bem o quê
Mas não faço mal a ninguém
Só porque sigo o meu próprio caminho

Mas as pessoas de bem não gostam de quem
Siga um caminho diferente do delas
Não, as pessoas de bem não gostam de quem
Siga um caminho diferente do delas
Toda a gente diz mal de mim
Excepto os mudos, é claro

[…]

Não é preciso ser um Jeremias
Para adivinhar a sorte que me vai calhar
Se encontrarem uma corda que lhes agrade
Hão-de passar-ma pelo pescoço
Mas eu não faço mal a ninguém
Por seguir caminhos que não levam a Roma

[…]
Toda a gente virá ver o meu enforcamento
Excepto os cegos, está bem de ver

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Indirectas

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Hoje escrevi um email a meia dúzia de pessoas seleccionadas de entre os meus contactos profissionais. Aqui vai a transcrição, para todos os meus três leitores e meio aqui do blog:
Assunto: Sou de novo freelancer

Caros amigos,

É provável que já saibam que os meus sócios e eu decidimos de comum acordo encerrar a [minha empresa de produção de conteúdos e ideias, ou seja, de guiões e outros textos variados]. O fecho foi pacífico e continuamos a ter vontade de trabalhar em conjunto nos projectos que houver. Mas deixámos de ter essa obrigação. Serve assim este email para informar que sou de novo totalmente freelancer. E continuo com a mesma vontade de trabalhar que sempre tive, claro — neste momento, circunstancialmente, acompanhada de demasiada disponibilidade.

Alguns de vós talvez não tivessem este meu endereço de email pessoal. O email da [empresa] vai ficar inactivo muito em breve.

Espero que venhamos a contactar-nos em breve. Saudações cordiais,
[assinatura]
Foi a mensagem que já devia ter escrito há um mês mas que andava a adiar porque me custava. É-me difícil, de facto, dizer a um potencial empregador que tenho falta de trabalho, porque isso me coloca numa posição de desvantagem.

Por analogia, consigo de certa forma perceber que custe, a muita gente, dizer que sente falta de carinho, ou de atenção, ou mesmo de sexo. Mas parece-me que há na nossa sociedade uma clara sobreavaliação do mistério, do rodeio, das evasivas e manobras como formas de seduzir.

Queria só dizer aqui que a última vez que me lembro de ter manifestado falta de carinho, o resultado (indirecto, talvez, nunca se saberá) foi uma das quecas mais poderosas que já tive. Ou duas… que a que houve dois dias depois ainda poderia ser classificada de réplica por um sismologista competente.

Ah, e o carinho regressou. Antes, durante e depois.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

ePoly — encontros online

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Há muitos anos, inscrevi-me pela primeira vez num site de encontros. Já nem me lembro qual. Sei que mais tarde aquilo se transformou em Kiss.com e depois foi adquirido pela uDate. Nunca mais liguei àquilo, até porque tinha de se pagar. Mas tenho uma série de amigos e amigas que conheceram parceiros na Net. Algumas das relações duram há muitos anos, outras foram bons encontros ocasionais, outras ainda um flop, claro. Eu próprio conheci algumas pessoas assim, e só me lembro de boas experiências. Nunca me interessei por coisas mais "antigas", tipo ICQ, Hi5, Messenger ou Netlog, que me parecem à partida um desperdício de tempo, mas tenho exemplos de amigas e amigos que provam o contrário, pelo menos no caso delas e deles.

O Nerve Personals, parte da secção premium — isto é, paga — da excelente revista online Nerve (sobre amor, sexo e cultura) poderia ser muito eficaz se não fosse pago e houvesse mais membros em Portugal com foto (são menos de 100). E poderia ser eficaz porque parto do princípio que ter a Nerve como gosto comum é já um ponto de partida.

Muito mais recentemente — já este ano — inscrevi-me no OKCupid, largamente melhor do que todos os sites de encontros que tinha conhecido até agora, não só porque graficamente é muito interessante mas pelo próprio conceito muito Web 2.0. Os criadores do OKCupid eram estudantes de matemática de Harvard e o sistema que inventaram consiste em propor aos utilizadores que respondam a uma bateria de perguntas de resposta múltipla sobre temas variados, desde gostos e interesses a valores e comportamentos; e que digam como gostariam que o seu parceiro ideal respondesse, e quão importante isso é. Com base nisso, um algoritmo calcula o grau de compatibilidade entre cada par de pessoas, no formato (por exemplo) "92% Match, 88% Friend, 6% Enemy".

Agora que o PolyMatchmaker foi relançado, tratei logo de me inscrever, para testar a coisa. Como foi dito no post de domingo, ainda há menos de 20 membros em Portugal. E só 3 têm foto ainda (um deles sou eu)! Mas fiquei contente por verificar que, no próprio dia em que me inscrevi, fui contactado por duas pessoas, uma em Espanha e a outra nos Estados Unidos. Pelo menos como rede social pode funcionar. E, se o número de portugueses aumentar, quem sabe não virei a conhecer ali alguém que não esteja ainda nos meus círculos de amigos poliamoristas.

Uma coisa é certa: não será esta a panaceia universal que vai resolver o problema de quem anda à procura de gajas. Mas deixo aqui a dica — mal não faz certamente…

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Nós e laços

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Na semana passada referi aqui o desabafo de uma couchsurfer belga sobre o fim de uma relação e de como se sentia mal não só por isso mas também por não conhecer ninguém como ela (isto é, com ideias poliamoristas).

Depois de receber uma série de respostas solidárias, acrescenta (traduzo eu): «Nunca foi fácil, porque nunca encontrei ninguém que pensasse como eu sobre o amor e as relações. E no entanto não deixo de me enamorar e de precisar de afecto. De modo que tenho tentado mudar-me porque pensava que não era normal e tinha de mudar. Por isso sabe bem verificar que há outras pessoas como eu; e não quero mudar porque sei que isso me limita, não me agrada e não me faz feliz.»

Uma das respostas que a couchsurfer recebeu seria uma tentativa de desanuviar com um link para a mais recente mini-BD da série Subnormality (© Winston Rowntree, publicada no seu próprio site Virus Comix). Gostei. E quero partilhar, porque vem na onda da minha letra de canção "Antes que acabe (É lá com eles)" (que já aqui publiquei).

Ora clicai lá na imagem para ver a página em tamanho legível (em inglês).

O resumo? Para quem esteja com a vida demasiado ocupada, aqui vai: «Não há pessoas normais.»

Mas não há dúvida de que sabe muito bem ter conhecimento de que há outras pessoas como nós.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Tristezas não trazem dúvidas

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Há pouco tempo, um amigo meu contou-me que tinha acabado uma relação monogâmica de vários anos porque a namorada tinha começado a andar com outro e ele tinha descoberto. Confrontada, negou. A história do costume.

Hoje, no grupo Polyamory do Couchsurfing, uma couchsurfer belga sentiu necessidade de desabafar: acabou uma relação monogâmica de vários anos porque, apesar de o namorado saber que ela queria uma relação mais aberta, não suportou que ela tivesse dormido com outro e lhe tivesse contado. Nada de novo, infelizmente.

Os meus amigos situam-se quase sempre numa destas categorias em relação às minhas ideias poliamorosas:
— Admiro-te muito mas eu nunca conseguiria
— Admiro-te muito e gostava de tentar
— Tenho medo por ti, porque vais sofrer
— Gosto muito de ti mas quando é que te deixas de ideias malucas?

Os três primeiros podem estar, todos eles, a ver bem a questão (ou não, claro, mas isso aplica-se a qualquer interpretação). Quero eu dizer que os que têm medo por mim «porque vou sofrer» têm razão também.

«Vou sofrer» porque isso faz parte das relações humanas, e em especial das relações afectivas. Quase todas. Nesse sentido, os que me «admiram» talvez estejam simplesmente a dourar demasiado a pílula. Hei-de sofrer por momentos, sim: porque se vão descobrindo as pessoas lentamente e às vezes sai uma ficha que nos agrada menos; porque os ritmos dos enamoramentos não são iguais para os pares de envolvidos e muito menos para as constelações; porque não é invulgar transportar o stress de uma parte da vida para outra (incluindo as partes amorosas); porque com o aumento de à-vontade numa relação diminui-se o tempo para pensar no que se diz antes de o dizer (com todas as boas e más consequências que isso acarreta); e por tantas outras razões.

Isto é assim numa relação monogâmica ou numa relação poliamorosa. E cada um dos modos de pensar tem vantagens e desvantagens. Eu pesei os prós e os contras há mais de trinta anos. E nunca mais deixei de os pesar com novos dados que a vida tem vindo a fornecer-me. E continuo sem dúvida alguma do que quero para mim.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Família procura casa (ou «O Esquema»)

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Conversa telefónica em Setembro deste ano:

— Bom dia. Estou a ligar por causa dum apartamento T7, referência […].
— Bom dia. Estou aqui a ver. O apartamento tem as seguintes características: oito assoalhadas, blá-blá-blá e cozinha com 15 m². É uma família?

Hesitação por uma fracção de segundo. Será que legalmente uma família intencional é uma família? Será que o termo “família” é uma figura jurídica?

— Sim, somos uma família.


Nada a fazer, o tom é detectado.

— Uma família, pai, mãe e filhos?
— Porque é que quer saber?
— Porque a proprietária só quer famílias. Teve uma má experiência com estudantes…
— Não somos estudantes.
— Mas são um grupo de pessoas? Primos?
— Somos uma família. Três homens, três mulheres.

Pausa mínima.

— Três casais?
— Não, três homens e três mulheres.

Pausa de constrangimento? Estranheza?

— Pois, mas é que a proprietária quer mesmo uma família… hã… tradicional. Da última vez, deixaram-lhe a casa em muito mau estado, eu própria vi.
— Deixe-me tentar adivinhar. A proprietária quer, naturalmente, que lhe cuidem bem da casa. Talvez seja relevante saber que nós não somos adolescentes, somos todos adultos, profissionais — já um pouco impaciente —, lavadinhos…
— Bem, vou falar com a proprietária e logo digo alguma coisa na segunda-feira.

… … … … …

Escusado será dizer que a vendedora nunca mais disse nada.

Alterámos a abordagem. Passámos a ser mais pão, pão, queijo, queijo. Nada que impedisse um outro proprietário de nos dizer, assim que soube a quantidade de adultos que éramos:


— Não me agrada nada este esquema…

… … … … …

Mudámo-nos anteontem. E está-me a agradar imenso este esquema.

domingo, 1 de novembro de 2009

Slogans

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Alguns slogans internacionais:

«Um coração, muitos amores»
— jogo de palavras sobre a expressão coloquial
One heart, many lives («Um coração, muitas vidas») —

«Partilha o amor»

«Amor partilhado é amor multiplicado»

«O amor multiplica-se»

«O amor é infinito»

«Plural não possessivo»
— jogo de palavras sobre a confusão que muitos falantes de inglês fazem entre o s final das palavras para denotar o plural e o 's ("clítico possessivo" ou "genitivo saxónico"), que denota possessão

«Adoro a minha esposiaria»
— jogo de palavras sobre um plural fictício de spouse («esposo»),
que seria a mesma palavra que significa «especiaria» —

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Poliamor lava mais branco

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No ano passado (2008), decidi ir pela primeira vez à Marcha do Orgulho LGBT, em Lisboa. Estava a começar a sentir necessidade de reacordar o meu espírito de activista, desta vez para reforçar o trabalho pioneiro das recém-conhecidas (e agora amigas e cobloguistas) Lara e Antidote na divulgação de uma imagem positiva do poliamor.

Além de colaborar muito ao de leve no panfleto criado especificamente para o efeito, decidi criar uma série de slogans para serem ditos durante a Marcha ou escritos em faixas. Aqui deixo, para me divertir mais tarde, alguns dos que fiz para essa marcha e para as seguintes de Lisboa e Porto. Espero que se divirtam também com alguns deles (outros são coisa mais sisuda e "respeitável").

Se alguém tiver ideias para slogans, venham elas! Para isso é que servem os comentários.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Aulas de Poliamor

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N. dá aulas de Formação Pessoal e Social numa Escola de Educação. Conheceu o conceito de poliamor há pouco tempo mas achou-o logo suficientemente interessante para disso falar nas aulas.

As reacções foram extremas: passava-se rapidamente de um silêncio constrangedor para uma discussão violenta. «Isso é traição!» — reclamaram logo alguns. E N. fazia-lhes ver que não. Nas suas próprias palavras, «reparem que é um contrato, tal como o é o contrato que se faz no casamento». É certo que grande parte dos alunos, candidatos a educadores sociais, vomitava tentativas de argumentação muito básicas, do género das que alguns chegaram a usar quando N., noutra altura, lhes tinha falado de homossexualidade. «Eu não concordo com os homossexuais!». Reacção de N., que é de facto hábil na resposta pronta: «Eu não concordo com a trovoada.» (!)

Não é possível "não concordar" com o facto de que as pessoas têm frequentemente a capacidade de sentir atracção por mais do que uma outra em simultâneo, e de essa atracção poder ser física, emocional ou um misto. Pense-se parceiro + amante, namoro + amizade profunda, ou mesmo, em versão literatura light, "o tipo da redacção que ainda não reparou que eu gosto dele" + "o gajo do ginásio que anda mortinho para me comer mas isto não pode ser assim de repente apesar de ele ter um pacote que até dói só de olhar".

O poliamor é apenas uma das formas de lidar com este facto. É certo que cai como uma trovoada tropical na cabeça de muita gente que é confrontada com o conceito. Mas nunca senti indignação da parte de ninguém depois de eu explicar o que é. Porquê? Não sei. Se calhar, simplesmente porque não é na realidade nada de verdadeiramente revolucionário, se calhar porque se baseia num valor tão consensual como a honestidade.

A trovoada, de resto, é que não é de todo consensual, quanto mais não seja porque mata centenas de pessoas por ano. Eu, afinal, não concordo com a trovoada.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

«Je bande»

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Na comunidade poliamorosa e nas redes íntimas do poliamor, coabita, no que diz respeito ao sexo, toda uma enorme gama de pessoas e relações: desde a abstinência militante até à apologia da abundância sexual, há de tudo. O que importa não é de facto a quantidade de sexo que cada um tem, ou quer ter, mas sim a ausência de repressão. E um olhar sobre a expressão sexual como algo de fundamentalmente bom e saudável.

Com 50 anos, o grande cantautor Georges Brassens compunha a divertidíssima canção Fernande, que ainda hoje é proibida na rádio francesa. Proibida porquê? Porque o refrão insiste na expressão Je bande, que se poderia traduzir por «Fico com tusa» ou «Dá-me tusa». E porque é um hino à masturbação.

Fernande tem uma mensagem simples, que se resume nas duas últimas linhas do refrão:
La bandaison, papa | Ça n'se commande pas

A tusa, papá | Não se controla
A inteligentíssima Carla Bruni canta uma versão deliciosa desta Fernande, que deixo aqui:


Aqui vai o refrão completo:
Quand je pense à Fernande | Je bande, je bande | Quand j'pense à Félicie | Je bande aussi | Quand j'pense à Léonor | Mon dieu je bande encore | Mais quand j'pense à Lulu | Là je ne bande plus | La bandaison papa | Ça n'se commande pas.

Quando penso na Fernande | Dá-me tusa, dá-me tusa | Quando penso na Félicie | Também me dá tusa | Quando penso na Léonor | Meu Deus, dá-me tusa outra vez | Mas quando penso na Lulu | Aí já não me dá tusa | A tusa, papá | Não se controla.
E a minha pergunta é: mas então quando tanto a Fernande como a Félicie como a Léonor dão tusa, porque é que as pessoas acham que só com uma delas é que está «certo»? Bem, vou para a caminha a pensar na Carla com a Fernande, mais a Félicie e a Léonor. E, com sorte, pode ser que ainda sonhe comigo e com a Lulu. Sim, que os meus gostos são muito pouco mainstream e os mistérios da tusa são insondáveis.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Terceira pele

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Faz agora 20 anos, escrevi e publiquei, em conjunto com um colega e amigo, as ideias que tínhamos vindo a desenvolver em longas conversas sobre relações afectivas.
Pouco tempo antes, tinha surgido o conceito de «curtir»: estava mais próximo do que idealizávamos para uma relação mas ainda não era bem aquilo.
O pequeno ensaio-manifesto chamar-se-ia Amizade, enamoramento : A elaboração dos acasos e está agora online na íntegra.

A elaboração dos acasos
Uma das nossas referências mais importantes era o lindíssimo livro de Roland Barthes Fragmentos de um discurso amoroso, que tínhamos devorado com o prazer da descoberta de quem tem vinte e tal anos.

De entre as muitas frases memoráveis que poderia aqui citar, escolho uma em particular, pela sua relação irónica com o meu estado actual (de bolsos vazios e coração cheio):
Le cadeau est attouchement, sensualité: tu vas toucher ce que j'ai touché, une troisième peau nous unit. Je donne à X... un foulard et il le porte […]

A prenda é carícia, toque, sensualidade: vais tocar aquilo em que eu já toquei, ficamos unidos por uma terceira pele. Dou um lenço a X e ele usa-o […]
(Tradução minha)

Substitua-se agora «prenda» por «punalua» (pessoa amada da minha pessoa amada) e transforme-se assim o teu objecto amoroso numa terceira pele.

Enquanto escrevo isto, a minha terceira pele está no quarto ao lado, pele com pele com uma outra terceira pele. E eu sinto-me inequivocamente bem nesta minha nova pele.

African Elephant Skin

terça-feira, 29 de setembro de 2009

E é lá com eles…

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Em tempos, a minha amiga Maria João Cruz e eu resolvemos usar as nossas competências de escrita num projecto que nos poderia fazer ganhar bastante dinheiro: letras para música pimba. Decidimos assinar Lena & Macário (seríamos, assim, os Lennon / McCartney do mundo pimba tuga) e começámos a escrever para esse universo.

Rapidamente verificámos que o pimba não é para todos, e para escrevermos pérolas de javardice sobre gajas boas intercaladas com romance xaroposo ainda precisávamos de comer muita papa de milho com Bisolvon.

Na sequência deste projecto surgiu-me, entre outras coisas, o seguinte, que acabou por ser uma espécie de hino em defesa da liberdade e diversidade sexual e emocional, e que deixo aqui para a posteridade electrónica:

ANTES QUE ACABE
(É LÁ COM ELES)

Já conheci quem gostasse de quem gosta | que não gostem muito delas. | Já conheci quem se sentisse disposta | a três paixões paralelas.

Ele há de tudo | e muito mais: | histórias de amor, não há duas mesmo iguais.

E, vai-se a ver, é de noite que há de tudo. | Chego ao balcão, ponho-me à escuta. | Entra cerveja, sai desabafo. | Do macho-puta | à fêmea Safo, | é de noite que eu os ouço, | porque é de noite que se vê o fundo ao poço.

E está na hora de falar do Serafim – | o que é amante da mulher do Zé Cerqueira –, | que, em noite de bebedeira, | soltou-se e disse-me assim:
Eu quero viver a vida com uma mosquinha morta | que não me coloque entraves a casar atrás da porta.

E é lá com ele, | ele é que sabe. | O amor, é bom que comece antes que acabe.

E, já agora, vou falar também da Alice – | a minha amiga que vivia com a Joana –, | que, em noite de carraspana, | se abriu comigo e me disse:
O que eu quero é conhecer um ilustre desconhecido | que faça de mim um homem e queira ser meu marido.

E é lá com ela, | ela é que sabe. | O amor, é bom que comece antes que acabe.

E, sem demora, vou falar do Evaristo – | o meio-irmão da meia-irmã da Catarina –, | que, uma noite de cardina, | abriu a guelra e vai disto:
Eu quero ser um casal e viver uma vida a dois, | nos bons e nos maus momentos, sozinho com os meus botões.

E é lá com ele, | ele é que sabe. | O amor, é bom que comece antes que acabe.

Vamos embora, que eu quero é falar da São – | a namorada temporária do Pitosga –, | que, em noite de grande tosga, | vomitou a confissão:
Eu quero ser solitária e passar a vida em festas; | afagar-me a noite inteira e depois dormir a sesta.

E é lá com ela, | ela é que sabe. | O amor, é bom que comece antes que acabe.

Julgo que agora vou falar do Zé Gaspar – | a maior esponja que eu conheço assim de perto –, | que, em noite de bar aberto, | conseguiu filosofar:
Eu quero ter quem me aqueça como um cobertor de lã, | e já estou a ficar maluco por uma linda astracã.

E é lá com ele, | ele é que sabe. | O amor, é bom que comece antes que acabe.

E vai-se a ver, é de noite que eu os ouço, | porque é de noite que se vê o fundo ao poço.

E o Serafim? | É lá com ele. | E então a Alice? | É lá com ela. | E o Zé Gaspar? | É lá com ele, | ele lá sabe. | O amor, é bom que comece antes que acabe. | O amor, é bom que comece antes que acabe. |
O amor, é bom que comece antes que acabe.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dez mil horas de poliamor

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Uma teoria que tem vindo a ser recuperada e reformulada há quarenta anos diz que a chave do sucesso de qualquer pessoa em qualquer campo é, principalmente, uma questão de praticar uma determinada tarefa durante cerca de 10 mil horas. ¹

A ser verdade, deverão ser necessárias 10 mil horas de relações amorosas para uma pessoa se tornar especialista no assunto. E 10 mil horas de sexo para ser «bom na cama». E outras 10 mil de poliamor para se perceber realmente como isto funciona. Ai, e agora?

Contas feitas, a três horas de prática por dia, são quase dez anos de «exercício» necessário para cada tarefa.

No caso do sexo, aliás, é melhor contar com uma média mais realista. Nos Estudos de Kinsey, afirma-se que a média de actividades sexuais anda em torno das 3,3 por semana (de 1,0 a 6,5 em 3/4 dos casos). Desta, apenas um terço corresponderá a sexo com outra(s) pessoa(s). Mesmo admitindo que a duração de cada actividade sexual é, em média, de uma hora (o que é, infelizmente, uma enorme sobrestimação), isso implica 174 anos de prática para se chegar ao nível de perito!

Com que idade é que somos bons poliamantes então, caraças?!

Solução: começar mais cedo em tudo, fazer muito mais sexo e durante muito mais tempo (por favor, é bom para todos!) e, mesmo assim, não esperar que o nirvana poliamoroso chegue antes dos 30.

Mas aqui fica a tentativa de fechar com uma nota positiva: Malcolm Gladwell, no seu livro mais recente (que eu não li), acrescenta à teoria das 10 mil horas que a família, a cultura e os amigos têm todos um papel primordial no sucesso de um outlier (conceito pescado da estatística para designar uma pessoa que se destaca por qualquer razão).

De acordo com a teoria de Gladwell, poderá talvez depreender-se que um poly de sucesso só o é graças aos que o rodeiam. E rodeado, sem medos, de mais pessoas que o amam do que um monogâmico, estará assim mais inclinado para o caminho do «sucesso». Um poly terá por isso mais probabilidades de ser um bom poly do que um mono de ser um bom mono. Um poly pode lá chegar, um mono- (ó) pode bem tornar-se um mono (ô)… ²

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(¹) Não li a teoria original das 10 mil horas. Cheguei aí por via do editorial ("Dear Betty, about your e-mail") do último número da revista Creative Screenwriting, que tinha a seguinte passagem: «The day before he passed away Aug. 4, the great screenwriting teacher and mentor Blake Snyder wrote a blog titled "10,000 Hours".» Foi pouco menos do que o suficiente para me suscitar a curiosidade. Andei a navegar pela Web e descobri que o inspirador e malogrado Snyder (de quem assisti a uma conferência em Los Angeles, li o primeiro livro, Save the Cat!, e fiquei a saber que morreu recentemente com uma embolia pulmonar) cita o último livro de Malcolm Gladwell (Outliers : Os melhores, os mais inteligentes, os mais bem sucedidos), que dedica um capítulo inteiro ("The 10,000-Hour Rule") a uma ideia que foi buscar ao interessantíssimo livro de Daniel Levitin Uma paixão humana : O seu cérebro e a música (cuja edição original ando a ler há muito tempo), o qual, por sua vez, reporta esta teoria a K. Anders Ericsson, referindo o livro Toward a General Theory of Expertise, que, por sua vez e aparentemente para terminar, fala de uma teoria de três a 30 mil horas exposta no capítulo "The mind’s eye in chess", dos influentíssimos Bill Chase e Herb Simon, na publicação Visual Information Processing, que são as actas do 8th Symposium on Cognition, Carnegie-Mellon University, de 1972. O mundo é pequeno, e revisitável. E, se se seguir as supostas fontes, a verdade é que a «teoria» das 10 mil horas parece não ter fundamento nenhum. Uff…
(²)
mono: mercadoria que não tem venda ou que ninguém procura.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Quando a corrente passa e as luzes acendem

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Relembro aqui um texto da Lara (Sou todos eles... sou um polyedro), que fecha com a frase
«Uma pessoa é algo tridimensional, um poliedro com várias faces, facetas e arestas. Com possibilidades infinitas de encontrar novas formas dentro de si e em intersecção com outros.»
Sim, somos um verdadeiro poliedro. Mas um poliedro desmultiplicável. Quando acende uma luz numa das faces, quando passa corrente numa das arestas, tudo se desmultiplica como não supúnhamos antes ser possível. É o que acontece nos momentos de enorme tensão ou de enorme prazer.


Nos dias antes de o meu pai morrer, além de estar com ele e ajudar a minha mãe a tornar-lhe o fim de vida mais suportável, tive tempo para alguns dos melhores trabalhos que fiz até hoje, e para os amigos também. Certo dia, aquela rapariga «chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar»¹. Há anos que tinha optado por casar com outro. Nesse dia, deu-me um beijo. E só a seguir soube que o meu pai tinha morrido naquela noite.

No mês passado, tive uma reunião onde era suposto eu trazer uma ideia para uma peça de teatro, um one person show. Durante duas semanas não tinha chegado a ideia nenhuma. No próprio dia da reunião, porque as luzes do poliedro se acenderam em série (pelos melhores motivos!), em duas horas já tinha escrito uma ideia, parte do texto, a construção da personagem. E daí a pouco levaria para a reunião uma das ideias mais consistentes que já tive na minha vida de escrevinhador.

Aos meus amigos do Poly Portugal, a quem já viva numa relação poliamorosa e aos que estiverem agora a descobrir o poliamor, desejo que as luzes de todos os vossos vértices se acendam em combinações e ritmos diversos, nas mais variadas cores e intensidades. E que os pequenos curto-circuitos, as ocasionais lâmpadas fundidas, as possíveis desarmonias, caso surjam, sejam apenas ligeiros sobressaltos que não provoquem nenhum apagão.
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¹ Sim, eu sei que já na terça-feira passada me deu para citar a Valsinha. O que é que querem? Está tudo relacionado…

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O mundo compreendeu e o dia amanheceu em paz

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No plano afectivo, fora da minha família de origem, houve ao longo da minha vida uma mão cheia de pessoas que se tornaram parte central da minha história.

Ontem, em momentos diferentes, contei a duas dessas pessoas (A. e B.) que estou enamorado (por C.) como há mais de um ano não me acontecia e não maldisse a vida tanto quanto era o meu jeito de sempre falar (obrigado, Chico e Vinicius*).

A. não é poly. Tem uma relação exclusiva com a única pessoa com quem teve intimidade (e filhos) na vida, e quer continuar assim. Comigo, tem há duas dúzias de anos uma relação que ela própria, sob tortura, classificaria certamente de «poliamorosa casta».

B. não sabe mas julga que não é poly. Vive com a mesma pessoa há dúzia e meia de anos, é uma grande amiga minha há uma dúzia e a amizade coloriu-se durante meia dúzia.

Tanto A. como B. ficaram genuinamente felizes por mim. Noutras alturas, com outros amores meus mais complicados, não tinham ficado felizes. São pessoas com intuição e que, por me amarem (obrigado, Jorge, pelo uso descomplexado do verbo «amar»), querem o melhor para mim. E o meu estado de enamoramento reduplicou por contágio.

A cada dia que passa, sinto que estou a aprender o ABC do poliamor. O A.+B.+C.+n. Amar aprende-se até secar.

Nunca escondi de ninguém o que penso sobre relações afectivas. Publiquei, fiz activismo, dei a cara. Mas é mais fácil falar genericamente das minhas ideias — e ao mundo — do que concretamente dos meus amores — e às pessoas que amo.

Não esperei por 11 de Outubro. Fiz ontem verdadeiramente o meu coming out poly.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Agitprop

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Há quem afirme ter gaydar a ponto de produzir frases como «aquela pessoa é gay, só não sabe ainda que o é» (eu acho altamente duvidoso mas de facto a intuição é um bicho estranho). No entanto, ainda não conheci ninguém que afirme ter um poly-detector.

Ora, sem poly-detector como posso eu encontrar pessoas poly fora do círculo do PolyPortugal? Como posso eu recrutar pessoas poly sem ir para um comício gritar «My name is Miguel Viterbo and I'm here to recruit you»?

Bem, uma das minhas actividades naturais tem sido a «divulgação» poly. Mas o que me dá gozo de vez em quando é fazer a divulgação, mesmo assim, sem aspas. Ou, melhor ainda, meter-me em acções subversivas. Quem leu o livro ou viu o filme Fight Club (Clube de combate) não esquecerá nunca o poder do tumulto e da agitprop.

Faz agora um ano, fui ao casamento de um amigo meu. Ele sabe o que eu penso sobre relações afectivas e sobre o casamento. Por isso, fechou os olhos, incrédulo, mas sorriu-me quando o chefe de sala, durante o copo-d'água, distribuiu por todos os convidados, entre o primeiro e o segundo prato, panfletos de divulgação do poliamor.

E, de facto, acabou por não ser só uma blague: depois de perceberem que aquilo não estava no programa oficial (ou seja, que os noivos não tinham enlouquecido), algumas pessoas passaram mesmo o fim da tarde a falar comigo sobre o conceito.

É preciso ir espalhando a palavra, é preciso ir semeando. E está na altura de outra acção do género. O Borda d'Água é que manda: em Setembro, semear amores-perfeitos.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Ainda bem que há ciúme!

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Se o ciúme não existisse, as pessoas amar-se-iam menos? Claro que não!

Mas a verdade é que sem ciúme nunca teriam sido escritas algumas das mais belas canções que conheço.

O filme brasileiro Perdoa-me por me traíres estreou-se há 25 anos. Chico Buarque, quanto a mim o melhor letrista de língua portuguesa de todos os tempos, escreveu para a banda sonora deste filme a música e letra da extraordinária canção "Mil perdões", que termina com os inesquecíveis versos
Te perdoo
Por te trair
Na voz de Gal Costa (a voz do filme):


Sentimentos tão negativos e improdutivos como o ciúme ou o desejo de vingança têm dado, de facto, canções poderosamente bonitas. Só para continuar com o Chico, vale a pena (re)ouvir / (re)ler as impressionantes canções "Atrás da porta" (Dei pra maldizer o nosso lar | Pra sujar teu nome, te humilhar | E me vingar a qualquer preço | Te adorando pelo avesso | Pra mostrar que inda sou tua | Só pra provar que inda sou tua…) ou "Olhos nos olhos" (Quando você me deixou, meu bem | Me disse pra ser feliz e passar bem | Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci | Mas depois, como era de costume, obedeci | […] | Quando talvez precisar de mim | 'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim | Olhos nos olhos, quero ver o que você diz | Quero ver como suporta me ver tão feliz).

Com músicas assim, o que é que querem que eu diga? Ainda bem que o ciúme existe. Perdoem-me por me trair.