
Depois de uns meses de alguma acalmia, eis que o calendário poly se enche de novo de eventos. Confesso que me tem sido complicado acompanhar o ritmo, lembrar-me de datas, responder e corresponder a tudo o que se espera do PolyPortugal.
Ouvido de passagem:
Já aqui muito se falou de tempo. E das dores de cabeça que é gerir várias relações e a dedicação a cada uma delas. Mas hoje dei por mim a pensar no contrário. Que ser poly me dá mais tempo para mim e me permite dar com tranquilidade mais tempo aos outros.
Acontece-me muitas vezes gostar de pessoas. É das poucas certezas que tenho. Que qualquer que seja a actividade que me ocupe os dias, tem de ter a ver com pessoas. Várias, variadas e muitas. Com diferentes backgrounds, abordagens e opiniões.
Uma das coisas que o poliamor nos dá é a possibilidade de crescer enquanto pessoas e desenvolver a nossa maturidade emocional. Ter várias relações, às vezes ao mesmo tempo, lidar com inícios, finais e crises, dá-nos uma capacidade de gestão surpreendente. E ao mesmo tempo, em confronto com o Outro, descobrimos coisas sobre nós que desconhecíamos por completo, ou tínhamos simplesmente escondido muito bem debaixo do tapete.
Todos os anos por altura do Natal fico doente com esta coisa dos brinquedos para as crianças. Nem tanto com a febre consumista de que todos nos queixamos, e para a qual volta e meia nos descai o cartão de débito, mas com outra questão que, apesar de tudo, me parece mais chocante. A ideia de que há brinquedos para meninos e para meninas. Por mais que se ache que se fizeram já progressos enormes na dissipação de papéis de género, torna-se quase impossível para uma criança escapar a esta ditadura dicotómica de haver toda uma lista de coisas com as quais pode e não pode brincar. Todo um código de cores, tipos de letra, formas de embalagem, que no seu conjunto se referem a uma coisa ou outra. Nada de confusões ou ambiguidades.
Ontem almocei com colegas de trabalho. Um grupo de gente bem-disposta, com muito sentido de humor (coisa que acho sempre uma rara bênção) e, julgava eu, de mente aberta. Vinham de uma conversa com outro colega, sobre homossexualidade(s). Os comentários foram curtos e não me chegaram para formar uma opinião, mas diria assim de repente que grassa por ali muita ignorância e falta de experiência. Percebi que estive em silêncio durante esses minutos, e que parte da minha cabeça estava ocupada a pensar quais seriam os comentários, se soubessem de metade da minha história de vida.
Os últimos dias têm sido de stress constante. Não é que seja grande novidade na profissão que escolhi. Mas hoje senti-me mesmo a quebrar. O conflito é algo que me desgasta. E que evito muitas vezes a todo o custo, provavelmente mais do que deveria. Se tiver de escolher, prefiro o silêncio ao conflito. E houve bastante dos dois nos meus anos de crescimento.
Às vezes tenho uns ataques agudos de “que lindo que seria um mundo poliamoroso”. E esta semana deu-me isto duas vezes. Apanha-me aqui esta zona toda, desde a boca do estômago até ao coração. Socos num e apertos no outro.
Numa altura em que o casamento e o seu alargamento a casais do mesmo sexo está na ordem do dia, dou por mim a pensar porque é que as pessoas ainda se casam. Pessoalmente não tenho nenhuma vontade de promover uma cerimónia que oficialize qualquer uma das minhas relações. Não quero casar, creio que nunca quis, e agradeço que não me convidem para casamentos.
Ora cá está. A prova de que uma pessoa poly tem muito pouco tempo, é o podcast que ouvi hoje.
Escrevo este post com uma semana de atraso, e espero não voltar a repetir a gracinha. Têm acontecido muitas coisas, todas boas, mas realmente o tempo não dá para tudo, e ultimamente os dias têm passado com uma velocidade alucinante.
Sou fã desta senhora por várias razões. Cunning Minx tem um podcast semanal sobre poliamor, que mantém desde Abril de 2005, e só isso já é motivo de reverência. Como qualquer um dos colaboradores deste blog concordará, ter o que dizer sobre poliamor uma vez por semana nem sempre é fácil.


