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terça-feira, 11 de julho de 2017

O Poliamor no Tribunal em Portugal

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Quero contar-vos uma história. Quero contar-vos a minha história sobre como, no século XXI, o poliamor e a liberdade de expressão são pensadas pela justiça portuguesa. Quero contar-vos a minha história. Isso quer dizer duas coisas. Primeira, que tenho noção da quantidade imensa de vários tipos de privilégio que me permitiram usufruir de meios de acesso ao funcionamento da Justiça Portuguesa, ainda que o resultado não tenha sido o que me conviria. Segunda, que tenho perfeita noção de que existem pessoas que passam, diariamente, por situações indescritivelmente piores e estruturalmente muito mais problemáticas do que esta que estou aqui a enunciar. Porém, peço que não olhem para a minha história como estando a ocupar o lugar dessas histórias, e sim para uma que parcamente se lhes acrescenta, e que revela mais uma faceta do funcionamento das estruturas normativas em torno das sexualidades e dos afectos em Portugal, e internacionalmente.


Foi a 22 de Julho de 2014, há cerca de três anos, portanto, que foi lançada a público uma Carta Aberta com a denúncia de graves declarações de Manuel Damas, na altura presidente da Associação CASA, sobre poliamor e sobre pessoas poliamorosas.

Avancei, na altura, com vários meios, incluindo um que me pareceu ser de último recurso, mas que acabou por ser o último a sobreviver à enchente de desprezo – uma queixa-crime por difamação agravada.

A queixa seguiu através do Ministério Público, o que implicou uma investigação através da Polícia Judiciária, e portanto bastante tempo investido na recolha de testemunhos, na recolha de informação. Já aqui tenho de particularizar a minha experiência: entre outras coisas desagradáveis que estão ligadas a estar numa esquadra de polícia a responder a perguntas sobre a minha vida íntima, sobre o que sentia quando era insultado na televisão nacional, e afins, ainda tive de lidar com o chico-espertismo típico da masculinidade mais bacoca possível. Neste caso, o inspector achou por bem tentar fazer um pouco de “male bonding” comigo, querendo começar ele a partilhar histórias sobre as suas conquistas sexuais e os episódios de sexo em grupo em que tinha participado (que me interessa?) e como ele encarava a vida em família e os valores que lhe deviam presidir (que tenho eu que ver com isso), ou a sua forma de tentar dar-me um qualquer tipo de validação dizendo que eu, de facto, até era uma pessoa respeitável e que sabia o que fazia, e que ele, no fundo, achava que as pessoas até têm o direito a fazer o que quiserem com as suas vidas íntimas (que avançado este senhor, vejam bem!).

O episódio seguinte prenuncia já o que ia acontecer: o Ministério Público considera que não existe material suficiente para aduzir acusação de difamação agravada; segui portanto, por minha conta e risco, pelo Direito privado e pela busca de que fizesse justiça mesmo sem o uso dos recursos do Estado ou sem a sua protecção. Como devem imaginar pela linha temporal total, tudo isto é o resumo do que demorou, literalmente, anos a acontecer. Passaram-se meses sem eu nada saber, houve sessões de tribunal a serem convocadas e desconvocadas por ‘dá lá aquela palha’, e um constante arrastar de várias testemunhas, do meu lado, para trás e para diante, sem que depois houvesse tempo para que fossem ouvidas.

Durante todo este tempo, note-se, Manuel Damas não compareceu numa única sessão, não apresentou uma única justificação para a sua não comparência, e mantém-se (tanto quanto sei) no Reino Unido, completamente alheado e alienado das consequências das suas acções.

Assisti a todas as sessões de tribunal, claro. A última foi hoje, dia 11 de julho de 2017. Foi o dia em que perdi o caso, e que decidi não continuar o processo.

De acordo com a juíza, não se provou que o programa era sobre mim (o meu nome nunca foi dito explicitamente, mas a descrição e contexto era inconfundível, claro); só que afinal até se provou que algumas partes do programa até eram sobre mim.

Não se provou que as afirmações fossem de carácter difamatório, ou que eu tivesse sido insultado ou injuriado, ou afectado no meu bom-nome ou reputação, ou que tivesse sido alvo de algum tipo de tratamento negativo, que não estivesse salvaguardado ; só que afinal até se demonstrou que algumas das expressões não foram articuladas no melhor tom possível nem da melhor forma possível.
No meio de tudo isto, a juíza também destacou – em três ocasiões separadas – que o facto de eu ser activista, o facto de eu estar a falar publicamente sobre temas considerados pouco consensuais ou ainda “problemáticos”, faz com que seja expectável e normal que eu seja alvo de uma discussão da minha vida privada em termos mais acintosos, de formas menos correctas e agradáveis. Uma espécie de versão ‘soft’ do “Se fazes activismo, estás a pedi-las”. Deveríamos então, no entendimento desta juíza, esvaziar o Espaço Público de debate de temas diferentes? Ou talvez devêssemos validar e normalizar todas as formas de violência simbólica contra pessoas que fazem activismo na área dos Direitos Sexuais?

Qualquer uma das opções é inaceitável. E talvez um dia, talvez daqui a muito tempo, se perceba que liberdade de expressão não é liberdade de agressão.

Daniel Cardoso

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Cuidado com o engate disfarçado de "poliamor"

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Acredito que muita gente pense que sou uma espécie de "evangelista" do poliamor, e que passo o meu tempo a tentar converter gente a "transformar-se" em poly. Acho que mais depressa investia o meu tempo a tentar falar com pedras, tinha mais piada.

Algo que passo bastante mais tempo a fazer é a tentar afastar pessoas que conheço e que vêm ter comigo pedir-me conselho, do poliamor. Ou, vá lá, de pessoas que usam o poliamor como desculpa para fazer valer o seu privilégio e os seus interesses pessoais.

Aconteceu algo do estilo há alguns dias. Uma rapariga que conheço veio-me pedir ajuda porque um rapaz, interessado nela, queria estar numa relação "poliamorosa" com ela, sendo que ela se identifica como pessoa monogâmica.

Primeira coisa que eu lhe disse: não entres numa relação poly por ele, entra por ti, porque tu queres. Poliamor não é um sacrifício que se peça a alguém, tal como a monogamia não o deve ser. Mas foi na segunda coisa que eu lhe disse que acertei de facto na mouche. Disse-lhe que ela tinha que perceber muito bem, na prática, o que é que ele entendia como uma "relação poliamorosa".

Vou parafrasear algumas das coisas que - segundo ela - ele usou como argumentos para expor o seu ponto de vista:
Trata-se de perceber que nós, como seres sexuais mas também como parceirxs, queremos muitas coisas. A versão que eu gosto é aquela em que se tem um/a namorado/a com quem se está plenamente, e socialmente também. Mas se houver atracção por mais alguém, pode-se chamar essa pessoa para se 'divertir' com o casal... ou então haver um interesse que seja diferente do que é pelo parceiro primário, e aí fala-se sobre isso e está tudo bem, e acontece algo entre duas das pessoas, mas nunca há ciúmes porque sabe-se sempre que és tu que és amada... e depois pode-se partilhar os detalhes todos do que aconteceu, ou nenhuns se se preferir.
 Eu quando li isto tive quase um ataquezinho de coração. E disse-lhe qualquer coisa do género: "POR AMOR DA SANTINHA, CORRE NA DIRECÇÃO CONTRÁRIA MUITO BUÉ HIPER-MEGA DEPRESSA". Com caps lock e tudo. (Pronto, está bem, disse só "hmm...". Mas juro que pensei isto tudo.)

Isto é o que acontece quando malta hetero sem sensibilidade nenhuma para privilégio de género começa a usar o poliamor como desculpa para querer fazer das suas.

Ora senão vejamos:
  1. "Nós [...] queremos muitas coisas" - O rapaz abre logo a salva com uma generalização total para tentar justificar que, pronto, ele é simplesmente igual a toda a gente, e que portanto os seus desejos são naturais, e acabou a conversa;
  2. "A versão que eu gosto" - Há muitas versões, mas ao invés de falarmos sobre o que é que poderia ser o nosso ponto de encontro, entra-se logo com uma visão redutora com uma série de pacotes incorporados, nomeadamente...
    1. Parceirxs primárixs: mantém-se o "privilégio de casal" e abre-se uma avenida para o tratamento de outras pessoas, fora do casal, como dispensáveis, secundárias; nos casos em que surge algum problema, a opção por definição é proteger "o casal" e o resto das pessoas que se... lixem;
    2. Aproveitamento sexual: a primeira preocupação do rapaz foi poder usar qualquer interesse que exista para ter o seu fornecimento de ménàges a trois... esqueçam lá o quão estranho ou assustador é alguém começar a fazer planos sexuais com terceiras pessoas que nem sequer são tidas nem achadas para o caso, mas já têm o seu lugarzinho reservado... e nenhum voto sobre se aquilo que farão sexualmente vai ou não ser relatado a terceiras pessoas...
    3. Opções extra: a haver um encontro que não seja a três, supõe-se/define-se logo que vai ser à partida diferente do que se sente pelx "primárix"... porque obviamente toda a gente pode logo adivinhar o que vai sentir por pessoas hipotéticas que ainda nem sequer conheceu!
  3. "E está tudo bem e não há ciúmes" - Esta é parecida à anterior: "poliamor" é estar sempre tudo bem... claro... porque, mais uma vez, toda a gente sabe à partida o que vai sentir e como vai reagir e toda a gente sabe que basta carregar num botão e, puff!, lá se vai toda a programação mononormativa com que levámos a vida toda, e os ciúmes e as inseguranças...
Estão a ver o potencial épico para manipulação psicológica? "Ah, estás a aparecer em público muito ligada a esta pessoa, mas o teu primário sou eu, não pode ser!" "Ah, aquilo que estás a sentir está demasiado próximo daquilo que sentes por mim, não pode ser!" "Ah,estás a sentir ciúmes? Mas uma boa pessoa poliamorosa não sente ciúmes! Não pode ser!"

Dis-pa-ra-te.

Não. Com pessoas "poliamorosas" destas, venham as relações monogâmicas saudáveis, críticas e auto-reflexivas.

PS - Não sou das pessoas que defende que "todas as formas de não-monogamia são fixes". Tal como nem todas as formas de monogamia são fixes. Qualquer estrutura relacional que sirva para roubar autonomia e entrar em jogos de manipulação (geralmente através de linhas hierárquicas, de privilégio, de "casal") não é fixe.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Espaços públicos e normatividade afectiva

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Ainda no rescaldo (lento) da reportagem que saiu na SIC Notícias sobre poliamor, e no rescaldo das reacções tidas a essa mesma reportagem, sinto que devo assinalar uma crítica feita repetidamente - tanto por pessoas bem-intencionadas como por mal-intencionadas - à reportagem ou, mais precisamente, ao que foi feito na reportagem.

Ao que parece, uma das cenas mais absolutamente horríveis a passar na reportagem foi o facto de eu ter dado um beijo na boca (à "passarinho", como se costuma dizer, lábios nos lábios, curto e rápido) a uma das minhas companheiras e, no momento seguinte, ter feito o mesmo a outra das minhas companheiras.

Deixem isto assentar: numa reportagem sobre poliamor, foi perturbante para muita gente ver um gesto discreto e pacífico de amor.

Isto na mesma sociedade onde ver televisão - seja a que hora for - é quase certamente ver beijos de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade onde sair à rua é ver, quase certamente, expressões de afecto de casais hetero-mono. Isto na mesma sociedade que tem como líderes de audiência reality shows.

Mais, esta crítica vem não apenas da já gasta ala conservadora direitista, mas também (e mais preocupantemente) da ala progressista, de luta dos direitos humanos, de luta por igualdade.

Que igualdade é esta? Que igualdade é esta em que a ocupação do espaço público é particionada de acordo com a orientação sexual e com a orientação relacional? Que igualdade é esta em que um gesto considerado perfeitamente natural numa família monogâmica leva como epítetos "exibicionismo" e "taradice", numa família poliamorosa?

Exibicionismo - exibição - armário. A legitimidade das práticas existe, na cabeça de muita gente, desde que seja dentro do armário. Desde que não se façam cócegas à sensibilidade hetero-mono-normativa vigente. Quando isso sucede, torna-se então válido atacar as pessoas que pretendem mostrar práticas interpessoais diferentes. A moral vigente retorna, mais alargada (vai na volta até se tolera isto nas pessoas não-hetero, desde que com cuidado) mas não menos moralista, não menos policiadora.

Achar que uma demonstração de afecto tão simples quanto um beijo nos lábios entre três pessoas é ofensivo ou desrespeitador para quem está a ver é contribuir activamente para a discriminação contra sexualidades e afectos alternativos, dos vários tipos.

Não, não são as pessoas poliamorosas que são exibicionistas ou taradas. Não existe sexualidade mais exibicionista, sexualidade mais 'perversa', do que a sexualidade hetero-mono-normativa, que se infunde - ou procura infundir-se - em tudo.

[Um agradecimento ao Paulo Jorge Vieira por, há uns tempos, me ter ajudado a pensar estas questões.]

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Redefinir amizades, intimidades e sexo

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Esta madrugada pus-me a ler coisas um pouco ao calhas para ver se o sono vinha quando me deparei com um daqueles textos/conceitos que fazem instantaneamente click na cabeça: “relacionamentos queerplatónicos”.
O interessante desta ideia, e a razão pela qual tanto me cativou, é por finalmente conseguir ter um termo que aproxime ou resuma, de certa forma, algumas das ideias que já expus em posts anteriores, sobre o papel cruzado da sexualidade e da amizade.
Para mim, bem como para muitas outras pessoas, o poliamor não trata apenas de redefinir o número de pessoas com quem podemos ter relações românticas e/ou sexuais, mas também redefinir o que se entende por “amor”, abrindo as portas a vários tipos de amor, e à validação de relações de intimidade que possam contemplar variantes diferentes de amor – bem como à validação de intimidades que não passem necessariamente pelo amor (romântico ou de outros tipos) e se possam fundamentar em relações centralmente físicas e/ou centralmente emocionais mas com modulações que dão um passo ao lado do que geralmente entendemos por amor.

Por alguma razão, o pessoal em inglês chama a quem está neste tipo de relações, courgettes.
Como é costume em mim, acabo a ser atirado para algumas das coisas que Michel Foucault disse para melhor compreender os elementos envolvidos. Neste caso, fui repegar na entrevista “Amizade como Forma de Vida”, onde o autor comenta especificamente as relações entre homens em vários contextos institucionais e sociais e o quanto isso pode servir para um constante trabalho de reinvenção de uma ‘cultura gay’. Entrementes, ele oferece uma lindíssima definição de amizade nesse contexto: “A soma de todas as coisas através das quais podem dar prazer um ao outro”. Tal como é o caso das relações de camaradagem no exército, entre homens – tão espartilhadas, mas onde o amor também surge e sustenta os vínculos pessoais – também as construções contemporâneas de amizade parecem estranhamente espartilhadas, e os sentimentos amorosos (em sentido lato) tornados neutros, formulaicos, e fortemente a-corporais (não era também disso que a Adrienne Rich falava?). A resposta, para Foucault, seria então a existência de uma “inventividade especial para uma situação como a nossa e para esses sentimentos […]. Temos que escavar profundamente para mostrar como as coisas são historicamente contingentes, por razões tais e tais, inteligíveis mas não necessárias”.
As descrições de Foucault na entrevista são-me particularmente apelativas porque não precludem nem forçam a existência de práticas sexuais como parte dessa amizade, deixando antes um campo aberto onde, ainda assim, a criação de vínculos potencialmente disruptivos para o sistema afectivo vigente passa necessariamente por uma ligação psico-emocional entre pessoas dispostas a realizar trabalho relacional.
É por causa da centralidade do papel da disrupção que não me surpreende onde acabei a encontrar este termo, a relação queerplatónica – em recursos dedicados à assexualidade e ao arromantismo; grupos de pessoas praticamente invisíveis pelo simples facto de não se reverem na ideia de que toda a gente deve amar romanticamente e/ou sentir-se sexualmente atraída, e que a ausência destes elementos é, de alguma forma, patológica.

A Aromantics Wiki define esta relação como sendo “não-romântica mas ao mesmo tempo envolvendo uma ligação emocional intensa para além do que a maior parte das pessoas consideram actualmente como sendo normal numa amizade”, fazendo o cruzamento possível com todas as formas de orientação de género, sexual, de identidade sexual, relacional, etc.
No tumblr Aromantic Aardvark há uma explicação mais aprofundada que, para quem escreveu o post, implica “a quebra das narrativas. Implica não haver regras. Implica fazer, no fundo, o que quer que seja que a pessoa se sinta confortável a fazer. […] Queerplatónico quer dizer criar a própria definição, dizer ‘nem platónico nem romântico encaixam’ […] e fazer uma salada russa daquilo com que as pessoas envolvidas se sentem confortáveis”. Isto pode incluir ou não elementos mais sexuais, pode incluir ou não esta ou aquela forma de carinho e intimidade, consoante as pessoas em questão, consoante o momento em questão – mas tendo sempre como substrato uma noção de compromisso, de laço estreitamente firmado, intenso, que frequentemente corre o risco de ser confundido (especialmente por terceiras pessoas) com algo romântico ou criticável.
A mera existência deste tipo de relações perturba fundamentalmente o sistema relacional mononormativo (dados os ‘erros’ de leitura do que estas relações são, e a centralidade da ideia de compromisso, normalmente associada apenas às relações românticas sexuais), e encontra no poliamor e outras não-monogamias consensuais aliados naturais – mesmo nos casos em que o sexo esteja totalmente excluído da relação. Ao mesmo tempo, ao permitir o estabelecimento de formas relacionais a la carte, serve para quebrar os ditames normativos de disciplina corporal sobre quem podemos beijar ou não, tocar ou não, amar ou não, comprometermo-nos ou não (não sei se já notaram que basta alguém não estar num namoro para se dizer que a pessoa não está “comprometida”; como se os outros compromissos fossem secundários).


Reconheço que o termo talvez não seja o melhor: afinal, a ideia de uma relação platónica não é a ideia de uma relação não-romântica, mas a ideia de uma relação casta e não-sexual, e tenho dúvidas sobre se simplesmente adicionar a possibilidade de uma componente sexual ao mesmo tempo é suficiente para se considerar que se está a queerizar o termo “amor platónico”. (Vai daí que convido quem me lê a sugerir mais e melhores termos!!).

Para já, fico contente por ter uma expressão e uma série de links que posso mostrar, e que facilitarão a comunicação futura para explicar a outras pessoas o que sinto/quero/gosto. Algo que, nos últimos 9 anos de poly, não tem sido nada, nada fácil.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Hierarquias de compromisso

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Tenho um bocado a mania, sei-o bem, de escrever coisas sobre a reformulação das hierarquias de sentimentos, de crítica à importância que o romantismo tem como expressão máxima de amor, sobre o privilégio associado a 'estar em casal', blá blá blá.

E, para muita gente, tal coisa é densa, abstracta, pouco útil ou pouco prática. De modo que hoje quis mostrar que tudo isto é extremamente prático e, também, extremamente doloroso de se ver/viver.

Já me aconteceu, mais do que uma vez, envolver-me com alguém que não se identifica necessariamente como poliamorosx, ou sequer como não-monogâmicx. Fazê-lo tem sempre o seu quê de tensão, porque há um conjunto de experiências pelas quais eu passo que não encontram eco ou reflexo na experiência dessa pessoa - e isso pode, por vezes, tornar mais difícil a empatia de parte a parte, ou a gestão de situações com mais tensão.

Uma particularidade deste tipo de relação é a de que, caso essa pessoa se interesse por outro alguém, poderá haver a ruptura da relação existente. Noutros casos, uma pessoa que se identifique como não-monogâmica pode mesmo deixar de se identificar como tal, e querer uma relação monogâmica (eventualmente com um terceiro elemento).

Ora, é para mim mais do que óbvio que todas estas coisas são legítimas. Achar que quem entra numa relação enquanto poly, assim tem que ficar até ao fim dos tempos amén é irrealista. As pessoas, sentimentos, vontades e contextos mudam. Para mim, a questão não é, de todo, essa.

Trata-se, antes, da existência de hierarquias de compromisso. Permitam-me explicar: a situação em que uma pessoa mono (numa relação com uma pessoa poly) se vê na possibilidade de iniciar uma outra relação com uma outra pessoa mono (terminando assim a relação com a pessoa poly) não é igual a quando uma relação mono acaba e dá lugar a outra.
Isto porque terminar a relação com a pessoa poly para estar com a pessoa mono é visto, frequentemente (e socialmente), como um regresso ao normal, ao saudável, ao expectável.

Quando a isto se junta, por exemplo, a situação de o envolvimento entre a pessoa poly e mono não ser do tipo romântico (e o das duas pessoas mono potencialmente o ser), desce-se mais um degrau nesta hierarquia. Não só se está a regressar ao normal, como também se está a regressar a uma vivência que vale a pena, é respeitável e que é melhor porque faz mais sentido (afinal de contas, se alguém é monogâmicx, porque iria desperdiçar a sua única relação com algo não-romântico?! /fim de sarcasmo).

Desconfio que isto torna mais fácil 'saltar fora' de uma relação com alguém poly. Pela minha experiência pessoal, isto também torna mais fácil que surjam comportamentos de desrespeito pela pessoa poly, pela relação com essa pessoa, pelos compromissos assumidos - porque essa relação/pessoa está 'naturalmente' mais abaixo numa hierarquia de compromissos. Ao mesmo tempo, espera-se que essa mesma pessoa poly compreenda a naturalidade de ser colocada na prateleira de baixo dessa hierarquia de compromisso, e os comportamentos possivelmente abusivos ou desrespeitosos.

(Nota: embora eu considere que, por questões de discriminação e invisibilidade social, as configurações acima descritas têm dinâmicas e características próprias, no abstracto, que facilitam tais acontecimentos, existem imensas outras situações que não passam por haver um elemento poly. Um exemplo corriqueiro é o típico "Adorava ir sair contigo, mas x namoradx também quer e portanto tenho ir sair com elx". Todas estas situações têm que ver com os elementos 'teóricos' abordados acima: a suposta primazia naturalizada do casal e do amor romântico.)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

15 de Fevereiro

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Em 2010 a antidote deixou aqui umas dicas sobre como lidar com o chato do S. Valentim; em 2011 a sophia falou aqui da sua alegria de passar essa mesma data a 3 (repetidamente).

Este ano foi talvez a primeira vez nos últimos 4 ou 5 anos que passei o dia (ou parte dele, vá, sem ser a 3). Aliás, na verdade até o passei maioritariamente sozinho, e em alturas alternadas com uma ou outra pessoa. Nada combinado, simplesmente as limitações de horários laborais semi-incompatíveis.

Mas aproveitei bem o dia para ler e ver várias coisas interessantes, com as quais concordo na generalidade...
O The Guardian publicou uma peça de opinião sobre os problemas em torno da compulsão social para nos organizarmos em "casais", onde Priyamvada Gopal aponta ligações entre a forma como o amor e a lealdade são tratados em contexto político e em contexto relacional íntimo, terminando com um apelo a que deixemos de considerar a figura do casal romanticamente apaixonado, casado e com vista à reprodução como a forma mais fácil ou preferível de atingir a felicidade.

A universidade para a qual Meg Barker, investigadora de longa data sobre poliamor, trabalha organizou um pequeno filme sobre o dia de S. Valentim como estrutura de exclusão de várias alternativas de vida, e como isso se liga a muito do comercialismo associado a esta data. (Ah, e depois ainda promoveram um debate em tempo real no Facebook. Academia portuguesa que dormis...)

Uma outra investigadora, Lisa Downing, publicou no seu blog uma agressiva diatribe sobre "os horrores do dia de S. Valentim", apontando os 5 principais problemas da data, e que se prendem fundamentalmente com ser uma comemoração hetero-mono-normativa e que, de acordo com ela, é extremamente difícil de reapropriar de forma radical ou crítica (e, mais do que isso, inútil), tal como a figura do casamento em si.


Para mim, foi também um dia para reflectir sobre exclusão. Sobre as pessoas que conheço que se sentem mal nesta data por estarem sozinhas, quando o poderiam até celebrar; sobre as pessoas que gostaria de ter tido perto de mim (não neste dia, mas no geral), e de quem sinto saudades. É um excelente lembrete, no fim de contas, do quanto ainda está por fazer, no que toca a lutar por uma sociedade menos normativa, menos presa às suas próprias tradições e a leituras que consideram tudo inócuo e "só uma brincadeira" (estranha brincadeira essa, que traz a morte consigo).

PS - Resisti à tentação de chamar a este post "A pílula do dia seguinte".

sábado, 29 de setembro de 2012

Poliamor no Expresso

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O Jornal Expresso tem vindo a publicar, ao longo das últimas semanas, os resultados de uma investigação que encomendou, em torno de vários aspectos da sexualidade em Portugal.

Saiu hoje o número que fala sobre "(in)fidelidades", e que aborda, entre outras coisas, relações poliamorosas, ou o horizonte mais alargado da não-monogamia.

Entre os vários resultados, 6% dos inquiridos diz já ter estado em relações com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, com sentimentos de amor envolvidos e 8% diz que gostaria de estar numa relação estável com  mais de uma pessoa ao mesmo tempo.


Claro que existem sempre problemas e questões que se levantam com questionários deste género, desde o viés de desejabilidade social, até não sabermos se estas relações múltiplas passaram de facto por uma postura responsável e de consentimento informado. Um facto, porém, parece relativamente incontornável: pelo menos no nível das intenções e desejos, parece haver uma fatia relativamente grande de pessoas que vê o amor para além do par normativo.

Ao mesmo tempo, as diferenças de género nas respostas são gritantes, algo que terá de ser pensado separadamente.

Podem ler o artigo inteiro aqui, finalmente!


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Contar cabeças

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Como é que se contam pessoas? Como é que se contam relações? O que é uma relação?

Já estive em tertúlias, programas variados, entrevistas aqui e ali, e um dos pontos que tento fazer passar é o de que existem mil e uma diferentes maneiras como, todos os dias, inserimos pequenos pedaços subtis de discriminação mono-normativa. Quando falamos de "relações a sério", quando falamos de "relações duradouras", quando falamos de "estar numa relação" - tudo uma série de marcadores 'oficiais' que dão credibilidade a uns tipos de relação, e a tiram a outros.

Costumo dizer que um one-night stand de 5 minutos é uma relação. E que uma amizade de 15 anos é uma relação. Mas quando dizemos "estou numa relação com X", os nossos interlocutores ficam com duas palavras a retinir-lhes na cabeça: sexo e paixão.

Tudo isto para dizer que há uma pergunta que me fazem constantemente, especialmente em entrevistas: Quantas relações tens?

Francamente, cada vez me custa mais responder a essa pergunta. Porque a resposta que eu dou remete constantemente para as relações que ocupam um papel mais nuclear na minha vida: as duas pessoas com quem estou a viver, e com quem tenho de facto relações românticas. A realidade, porém, é que bastaria alargar um pouco que fosse a definição de "relação", ou mesmo de "relação poliamorosa", e teria que incluir mais do que essas duas pessoas. Muitas vezes, acabo a não o fazer. E, muitas vezes também, essas "outras" relações - essas outras pessoas - acabam a não ter, também, visibilidade social (dentro do meu círculo social, entenda-se), quase como se não existissem. Quase como se não fossem importantes para mim. E, no entanto, são-no, profundamente.

Incomoda-me - e é isso que quero partilhar aqui - a minha cumplicidade na criação e reprodução de um sistema de privilégios. Privilégio de quem é relação a sério sobre quem não é. Privilégio de quem é visível sobre quem não é. Para mim, isso está errado e é profundamente desrespeitoso para com pessoas que escolheram partilhar uma parte das suas vidas, do seu tempo, e da sua pachorra, comigo.

(Por outro lado, deixo aqui a ressalva de que também defendo a possibilidade de alguma dessas pessoas - ou outras que nada tenham que ver comigo, noutras relações com outras pessoas - quererem ou precisarem de ficar dentro dessa invisibilidade.)

A essas pessoas, que posso ter deixado à sombra e desconsiderado: desculpem. É algo em que estou activamente a trabalhar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

3ª Marcha contra a Bifobia, Intersexofobia, Homofobia, Lesbofobia, Polifobia e Transfobia

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Foi há uns poucos dias que vi anunciada a 3ª Marcha contra a Bifobia, Intersexofobia, Homofobia, Lesbofobia, Polifobia e Transfobia. Tanto quanto sei, é a primeira vez que uma manifestação pública se dirige, no nome, à questão específica do poliamor (e daí o “polifobia”, embora eu costume escrever polyfobia só mesmo para não criar confusões – coisa que nem sei muito bem se resulta ou não).


Esta atitude, por parte da PATH, é de louvar, não apenas pela inclusão do poliamor no nome, mas pelo desdobrar, explicitar e visibilizar também da intersexualidade (e, já agora, dos elementos mais comuns da sigla LGBT).

Por outro lado, convém lembrar e reflectir sobre o que é esta coisa da “polyfobia”, já que a palavra será certamente ainda desconhecida de muita gente (como “poliamor” o é). Claramente, todas estas fobias pretendem fazer um paralelismo e dar continuidade à ideia de homofobia, a primeira a aparecer historicamente enquanto palavra. O uso da palavra em contexto escrito surgiu em 1971, pela mão de George Weinberg, que pretendia assim significar o medo de estar perto de pessoas homossexuais mas também, e significativamente, o medo que essa proximidade pudesse funcionar como um vector de contágio e, assim, atacar a heterossexualidade das pessoas homofóbicas. Este medo iria portanto ter as características de outros tipos de fobias, gerando reacções irracionais, violentas, cujo objectivo seria a protecção de um risco inexistente de contágio – uma abordagem psicologizante do fenómeno.

O termo homofobia e seus derivados (presentes no nome da marcha) marcaram, na altura, um ponto de viragem importante: o recentrar da génese do problema; a deslocação retórica do “problema da homossexualidade” para o “problema da homofobia”, quase que diametralmente oposto. Porém, isto também implica um problema: esta viragem é feita mantendo os termos de base da situação. Troca-se uma psicologização por outra. Essa psicologização acaba a ocultar, até certo ponto, o nível supra-pessoal da “homofobia”, na medida em que a violência não é apenas pessoal e subjectiva, mas também estrutural e institucional. 

E, não obstante a importância de pensarmos nas palavras que usamos, e no peso que elas têm, não deixa de ser verdade que o próprio significado de “homofobia” e suas variantes se tem vindo a alterar. Quando falamos de homofobia institucional, quando falamos de homofobia estrutural – podemos estar a usar a mesma palavra, mas não porque acreditemos que uma instituição tem necessariamente uma psique. Antes, e não obstante o continuado uso da “fobia”, temos vindo a desenvolver um pensamento sobre como a hostilidade não é apenas pessoal, nem é apenas contextual. Podemos, por exemplo, relacionar este medo com outros elementos: nomeadamente, com o papel que o Outro é feito ocupar no questionar das certezas identitárias e das mundo-visões do “Eu”.

Mais uma coisa: no meio disto tudo, nunca é demais lembrar – a hostilidade contra as pessoas poliamorosas e contra a ideia abstracta de poliamor existe.
Existe quando alguém nos deseja uma “feliz vida com SIDA”. Ou quando alguém avisa uma pessoa com quem temos uma relação que ela vai apanhar SIDA. (Para quem estiver a pensar “Bem, se calhar ele é seropositivo”: não, não sou; e ainda que o fosse, este é um comentário que é hostil tanto para pessoas poly, como para pessoas seropositivas.)

Existe quando nos dizem que viver assim é “animalesco”.

Existe quando vamos na rua e temos que ouvir comentários machistas a serem-nos dirigidos, e não nos sentimos segurxs.

Existe quando beijar duas pessoas ao mesmo tempo deixa uma dezena a olhar para nós.

Existe quando apresentam queixa de nós no trabalho por nos afirmarmos publicamente como poly.






E existe em tantas, tantas outras situações…

Não quero fazer deste um texto triste. Quero fazer deste um texto feliz – porque estou feliz, porque me sinto feliz por haver quem avance, quem inove, quem alargue horizontes.

Obrigado, PATH. Obrigado pela tertúlia para a qual me convidaram. Obrigado por lutarem por mim também. De todo o meu coração (coração de poly!), obrigado.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Beijo

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Hoje, ao que parece, é o dia do beijo.

O beijo é uma das coisas que mais me fascina. Não só porque adoro a actividade em si, mas também porque o beijo é uma das actividades mais ciosamente vigiadas (pelo menos por entre as publicamente aceites) que existe.
De tal ordem que, por muito que gostemos de um/x amigx, não podemos beijá-lx na boca, sob risco de estarmos a "confundir as coisas". Ou por mais que essa pessoa seja das pessoas em que mais confiamos, e com quem mais temos intimidade, o beijo transporta consigo (a leitura de) uma necessária sexualização das relações que é, por sua vez, visto como uma ameaça à integridade e estrutura das mesmas. (Sim, porque toda a gente sabe que o sexo estraga tudo, não é?). Se for entre pessoas do mesmo sexo, então, a homofobia ataca automaticamente.

Ora, isto é algo que me ultrapassa. Felizmente conheço mais do que uma pessoa que se sente também ultrapassada por estas lógicas de vigilância corporal - pessoas que beijo na boca como forma de cumprimento, sem que com isso esteja a sinalizar qualquer intenção sexual. Noutros casos, a vontade que tenho ou tive de beijar, ao de leve (!), alguém na boca como demonstração de cumplicidade, carinho, amizade, intimidade, não é bem recebida, compreendida ou, (no melhor dos casos) não é igualmente reciprocada.

Penso que isto tem que ver com uma (con-)fusão entre sexualização e intimidade. Porque é que os actos íntimos têm que ser lidos sexualmente? E porque é que os actos sexuais têm que ser lidos enquanto actos de intimidade? Ao separar (e recombinar quando desejável) cada um destes elementos, talvez possamos partir para um menor policiamento dos corpos, para uma menor secagem dos afectos e dos sentimentos, e para um aumentar da paleta emocional disponível.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A (má) Hora do Sexo

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Já foi há uns dias valentes, mas reparei que o programa "A Hora do Sexo", da Antena 3, voltou a pegar no tema do poliamor (e digo "voltou", porque já lá tinham passado em 2009). E, como não há fome que não dê em fartura, foram logo duas vezes (a primeira aqui, e a segunda aqui). Se se sentirem tentadxs a ir ouvir os dois pequenos programas, de cinco minutos cada um, recomendo que tenham por perto uma bola anti-stress.

A versão resumida das divagações de Quintino Aires é a seguinte: o homo sapiens sapiens é por natureza genética não-monogâmico, mas o ser humano é, por desenvolvimento cerebral, acesso à linguagem e superior inteligência, monogâmico. O "poliamor", por conseguinte, é: a) impossível, porque não podemos amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, apenas desejar ou 'gostar'; b) uma desculpa para pessoas que desejam entrar em comportamentos promíscuos e usam os sentimentos para produzir um discurso politicamente correcto.

Quintino Aires comete tantos atropelos científicos em dez minutos que até faz doer.

Primeiro, ele pretende separar biologia de psicologia (mas é professor de neuropsicologia), de uma forma que faria o António Damásio ter um esgar de dor. Para Quintino, a psicologia de um indivíduo não é mais do que a acção do social sobre o dito indivíduo, uma espécie de transposição de um conteúdo para outro meio. Assim sendo, tecer considerações sobre a natureza genética ou biológica dos indivíduos é inútil, para ele. Ora, com algumas reticências, até aí eu concordo. Mas o passo seguinte é que me fascina. Porque se o nosso funcionamento psicológico é socialmente determinado, isso quer dizer que os nosso sentimentos, conceitos, etc (entre os quais Quintino acertadamente inclui o amor) são socialmente relativos. Ou seja, não têm mais existência objectiva do que aquela que um determinado contexto social cria.
Assim sendo, como é possível sustentar uma definição única, e objectiva, de amor? Se o amor é algo criado psicologicamente, então as diferentes psicologias humanas irão criar diferentes amores, e diferentes formas de amor, necessariamente!

Em segundo lugar, faz equacionar inteligência (neurológica) a uma suposta evolução cultural unívoca e teleológica. Será que desconhece a vasta quantidade de sociedades não-monogâmicas (patriarcais e matriarcais) existentes desde o surgimento do homo sapiens sapiens?

Por último: esta ideia de que não é possível amar mais do que uma pessoa (e que se prende com o primeiro ponto). Como dizem os ingleses... "says who?". Que provas apresenta Quintino Aires para esta afirmação totalmente anti-científica? Pois... nenhumas. É um problema deste tipo de afirmações, feitas com o peso institucional, mas com total irresponsabilidade científica.

No fim de contas, o mais triste é ver supostos especialistas a deixarem os seus conhecimentos de lado, para manipularem a informação que possuem de forma a fazer passar determinadas crenças e ideologias como sendo científicas, verdadeiras, factos terminados. E é contra esta má ciência, e contra esta má divulgação científica - que é uma falha do serviço público que os media Estatais deveriam prestar - que precisamos de protestar, de lutar, e de chamar a atenção.

PS - Não, Quintino, não... Uma sociedade "poliândrica" é aquela onde uma pessoa tem vários parceiros masculinos! E sim, um quadrado cabe dentro de um círculo - a quadratura do círculo é outra coisa completamente diferente...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Stand by

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Há uma sensação de estranheza quando uma relação acaba, muitas das vezes. Mas não há uma sensação menor de estranheza quando uma relação é posta no frigorífico ou, melhor dizendo, na prateleira.
Eu já aqui falei de poliamor e seus amor(es), diferentes visões da palavra e de como as amizades, ao implicarem intimidade, podem também circular à volta de práticas sexuais que alimentem essa mesma dinâmica de intimidade.

As minhas relações (poli-)amorosas não são todas românticas. Também não são relações de primeira e segunda categoria, são relações que passam por uma panóplia de experiências e tonalidades diferentes que podem misturar várias emoções, práticas eróticas, etc. Isto funciona precisamente porque, tendo cada uma das relações a sua especificidade, nenhuma está intrinsecamente valorizada face a outra (já cheguei, há anos atrás, quando estava ainda a descobrir esta coisa de como ser poliamoroso, a perigar uma relação de “namoro” por uma relação de amizade em que também existia sexo).

Só que, obviamente, nem toda a gente opera segundo os mesmos princípios, e o que acontece é uma descoincidência entre aquilo que se diz fazer, e aquilo que se faz na mesma. Porque, pela minha experiência, o que acaba a acontecer é que as relações de amizade (com sexo também) são vistas como não sendo “a sério”. Porque “a sério” é um namoro. A sério é alguém que se pode levar aos pais, apresentar e falar explicitamente sobre a existência de uma relação. E aí, a componente íntima sexual, ao invés de passar a ser uma parte integrante da relação de amizade, é um módulo externo a ela, sem a qual ela deverá passar tão bem como quando existe (dando provas da sua irrelevância, então?).

O resultado de uma visão hierarquizada das relações (ou do tipo de relações que se deve ter) é precisamente este: quando uma relação socialmente valorada como superior aparece no horizonte de possibilidades, então aquilo que existe perde importância relativa e torna-se passível de ser descartado.

Conheço várias pessoas que me dizem que isto tem que ver com “respeitar” a pessoa com quem iniciam essa nova relação. Tem que se respeitar os desejos monogâmicos dessa pessoa mesmo quando esses desejos são antitéticos aos de quem toma a decisão de secundarizar outras relações, já íntimas (supostamente) e duradouras (factualmente). Estranha coisa esta, que alguém entre num modelo de relação que não é aquele que mais deseja, por “respeito” a esse desejo de monogamia – porque é que tem que ser o desejo de monogamia a ser superiormente respeitado, face ao desejo de não-monogamia? Se fosse ao contrário, não se falaria de respeito: falar-se-ia de uma cedência ou sacrifício que a pessoa monogâmica faria em aceitar os comportamentos não-monogâmicos da pessoa por quem se apaixonou. E como este acto de respeito (acho que conseguem ouvir o sarcasmo através do computador!) é, apesar de tudo, muitas vezes feito um pouco a contra-gosto, então põe-se essa componente sexual / íntima na prateleira… até haver disponibilidade de lá ir buscar novamente (até já não ser preciso respeitar mais ninguém, parece). Porque a posição normativa é de respeito… as outras são uma violência, uma agressão a que algumas pessoas se sujeitam, então não se vê logo?!...

No meio disto tudo, onde fica o respeito pela relação pré-existente e pela sua especificidade? Onde fica o respeito que a pessoa tem por si mesma, pelas suas escolhas, e pelas suas preferências não-monogâmicas? E onde está o respeito vindo da tal nova pessoa, que vai ocupar o lugar “cimeiro”, e que se apaixona por alguém que é não-monogâmico, sem atenção ao ecossistema de relações que essa pessoa já tem, e apenas sob a condição de essa pessoa deixar de ser, em parte, quem era/é?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Psicologia e Poliamor - Palestra em Évora

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O Núcleo de Estudantes de Psicologia da Universidade de Évora vai organizar, dia 28 de Fevereiro, uma Palestra Poliamor e Psicologia, a começar às 18:30, na sala 131 do Auditório CES (VER MAPA), e que conta com 2 representantes do grupo PolyPortugal.


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Apesar de o evento ser principalmente vocacionado para (futuros) profissionais no campo da Psicologia, a sessão está aberta a todxs, mediante pré-inscrição. Para mais informações, consultar o evento do Facebook.

Solicita-se a divulgação pelas vossas redes!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Arte e Activismo

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Está aberto o concurso para o Cartaz da Marcha do Orgulho do Porto, cujo regulamento e informações estão disponíveis aqui!

Quem quer tentar a sua sorte?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

"Em Foco" no YouTube - Poliamor

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Como já sabem, no passado dia 27 de Janeiro estive no Porto com a Juliana Azevedo e o João Paulo, a falar sobre poliamor.

O programa já está no YouTube, e podem vê-lo em duas partes aqui:


Fizeram também uma pequena peça sobre o programa, que pode ser vista aqui:


Que vos pareceu o programa? Dúvidas? Sugestões? Comentários? Todo o feedback é bem vindo!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Em Foco: Poliamor

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Às 20h de hoje (Sexta-feira, dia 27), estarei com mais 2 pessoas do grupo PolyPortugal no programa "Em Foco", do canal Regiões TV.

Poderão assistir ao programa em directo no canal 193 da ZON ou no canal 19 da Cabovisão (e também através do site do canal).

O tema será "Novas Formas de Relações - Poliamor", e terá a apresentação de Fátima Torres.

Contamos com vocês! :)

domingo, 18 de dezembro de 2011

Tertúla Poliamor no Porto

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Acabei de vir da tertúlia sobre poliamor que teve lugar hoje, no Porto, organizada pelo Caleidoscópio LGBT. Foi, sem dúvida, das melhores onde já estive, com muita energia e muito diálogo extremamente interessante.

Para breve, mais actualizações, imagens e outras impressões sobre a tertúlia!

sábado, 17 de dezembro de 2011

Atenção ao Porto e arredores

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Este domingo, dia 18 de Dezembro, vai haver uma tertúlia sobre Poliamor no Porto!

Vai começar às 15h, no Clube Literário do Porto, e vai contar com a minha presença e com a da Inês.

Descubram mais pormenores aqui!

E, claro, disseminem e apareçam para saber mais sobre poliamor.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Geografias

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Estive ontem com o Paulo Jorge Vieira num congresso, em Lisboa, sobre Geografias - onde fomos ambos apresentar um trabalho sobre poliamor.

Amanhã (dia 29 de Outubro), estarei com a Inês Rôlo na já muito disseminada tertúlia sobre poliamor, promovida pelo Clube Safo, a que convido toda a gente para ir.

É destas coisas, aos poucos e poucos, que também se vai fazendo activismo. No caso do poliamor, esse activismo pode tão-só passar por espalhar a existência da palavra. E é interessante como quase sempre há alguém que acaba a sentir-se tocado pela experiência de ouvir falar de poliamor, e que começa a repensar as suas próprias experiências.

Seja em contexto académico, seja em contexto informal, a minha preocupação é com fazer passar a visão mais inclusiva possível, menos discriminatória possível, mais alargada possível daquilo que o poliamor é visto como sendo, daquilo que ele poderá vir a ser, e de como a mistura dessas várias coisas acaba, sempre, a tingir as experiências de quem vive poliamorosamente. (Só falta saber o que é isso de "viver poliamorosamente"!)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Diálogo sobre Poder e Ética

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Finalmente, depois de uns quantos atrasos, está cá fora, e disponível para leitura, uma conversa que teve lugar entre o Pepper Mint e eu, sobre poder, ética, poliamor e teoria queer.

O Pepper Mint é um autor e activista poly/BDSM famoso, de São Francisco (EUA), que teve, entre outras coisas, um artigo publicado no Understanding Non-Monogamies.

LINK (em inglês)